quinta-feira, 2 de abril de 2026

AMOR, ESCOLHA E QUEDA COMPARTILHADA

 


PARAÍSO PERDIDO

 JOHN MILTON

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2018

513 páginas

Paraíso Perdido é um poema épico do Século XVII, publicado originalmente em 1667, no qual John Milton reconta, a partir do Gênesis, a queda de Satã, a criação do mundo e a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A epopeia narra a luta entre Deus e Satã, que culmina com a expulsão deste e de suas hordas do Céu. Movido pela vingança, Satã decide destruir a obra recém-criada por Deus: a Terra e seus dois primeiros humanos.

Após perder o direito de permanecer no Céu, Satã e seus seguidores - todos anjos decaídos - encontram-se em um abismo profundo, árido e em chamas: o inferno, cercado por nove muralhas. O castigo não apazigua sua ira. Dominado pela cobiça, pela inveja e pelo ódio, Satã descobre que Deus criou um novo Paraíso, no qual uma nova humanidade poderia, caso permanecesse fiel, serem alçados ao céu e ocupar os lugares deixados vagos pelos anjos destituídos. É esse conhecimento que o impulsiona a agir.

Satã parte em busca do Paraíso e, para isso, alia-se à Culpa e à Morte, que lhe abrem as portas do inferno. Deus, que tudo vê e tudo sabe, acompanha seus movimentos e anuncia ao Filho que Satã alcançará seu objetivo: Adão e Eva cairão, e a culpa e a morte recairão sobre eles. O Filho, então, oferece a própria vida para redimir a humanidade, proposta aceita por Deus.  

Os anjos tentam proteger o Paraíso. O Arcanjo Rafael vai até Adão e lhe relata os acontecimentos do Céu, a guerra entre os anjos e a astúcia do inimigo que agora ronda o Éden. Adverte-o a obedecer ao único mandamento divino: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, do contrário estariam perdidos, assim como toda a sua descendência.

Adão demonstra fé absoluta e acredita que jamais desobedecerá, assim como Eva, sua amada esposa. Satã, porém, descobre a proibição e decide agir por meio da sedução. Sabendo que Adão seria mais difícil de convencer, escolhe Eva como alvo. Disfarça-se de serpente – o animal mais astuto – e se aproxima dela enquanto ela cuida do jardim sozinha. Eva havia sugerido a separação para que o trabalho fosse feito mais rapidamente. Adão, lembrando-se dos avisos de Rafael, tenta dissuadi-la, mas acaba cedendo diante da tristeza dela, que interpreta sua preocupação como desconfiança.

Sozinha, Eva encontra a serpente, que fala com eloquência e persuasão. Assustada, ela questiona como um animal pode falar, ao que a serpente responde que foi graças ao fruto de uma árvore que adquiriu tal capacidade. Afirma ainda que o fruto, além de delicioso, concederia a Eva maior inteligência e a tornaria semelhante a uma deusa. Eva pede então que lhe mostre a árvore e, ao reconhecê-la como a árvore proibida, hesita. A serpente a tranquiliza, dizendo estar viva, feliz e saudável. Diante disso, Eva começa a duvidar da gravidade da proibição e, por fim, come o fruto.

 

Encantada com o sabor e com a sensação que experimenta, Eva retorna até Adão e lhe oferece o fruto. Adão, horrorizado ao perceber o que ocorreu, decide comer também, movido pelo amor que sente por ela e pela recusa em ter um destino diferente do de sua companheira. Com esse gesto, consuma-se a queda.

Após o ato, tudo se transforma. Surge a animosidade entre eles, o amor deixa de ser puro e a harmonia do mundo natural se rompe. Animais antes pacíficos passam a se perseguir, alguns se tornam predadores, outros presas. Criaturas que antes lhes obedeciam tornam-se ferozes. O Paraíso chega ao fim.  

Adão e Eva percebem então sua nudez, e a vergonha – inexistente até então – surge. Cobrem-se com folhas de figueira, enquanto a culpa e a morte, conforme o pacto com Satã, entram no mundo. Embora não morram imediatamente, sentem o peso da transgressão. A esperança persiste, pois Deus, apiedado pelo arrependimento humano, poupa-lhes a morte imediata graças ao acordo feito previamente com o Filho.

Ainda assim, o castigo precisa ser cumprido. Deus anuncia que Eva dará à luz com dor, que a serpente será sua inimiga até ter a cabeça esmagada por uma mulher, e que Adão deverá trabalhar e suar para obter o sustento. A serpente passa a rastejar. O Arcanjo Miguel conduz o casal para fora do Paraíso, fecha suas portas e coloca anjos como guardiões. Antes, porém, mostra a Adão, do alto de um monte, o futuro da humanidade, desde a queda até o nascimento de Jesus, fruto de uma virgem – aquela que esmagará a cabeça da serpente.

Quanto a Satã e seus companheiros, ao retornarem ao Inferno esperando glória por sua façanha, são transformados em serpentes. Algum tempo depois, retomam suas antigas formas, perpetuando o ciclo de orgulho, punição e queda.  


John Milton nasceu em Londres em 1608 e faleceu na mesma localidade em 1674. Foi um poeta, polemista, intelectual e funcionário público inglês. 


O ASSASSINATO DE MARIELLE E ANDERSON


 

MATARAM MARIELLE: COMO O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON GOMES ESCANCAROU O SUBMUNDO DO CRIME CARIOCA

CHICO OTAVIO – VERA ARAÚJO

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2020

208 páginas

O livro relata a investigação sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nesse ponto, não acrescenta muito ao que já sabemos, pois a narrativa vai apenas até o estágio em que a investigação se encontrava no momento da publicação, ainda sem revelar quem mandou matar. No entanto, mostra as dificuldades enfrentadas e os erros cometidos ao longo do processo investigativo. Por outro lado, o livro traz um panorama importante do que é o Rio de Janeiro no contexto das milícias e do domínio que essas organizações exercem sobre determinadas áreas da cidade.  

Sobre a vida de Marielle, o livro apresenta poucas informações, mas o suficiente para revelar a mulher de coragem e determinação que ela foi.

Em 2026 o STF condenou os irmãos Domingos (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (Deputado Federal) a 76 anos de prisão por serem os mandantes e planejarem o crime.


Chico Otavio nasceu em 1962. É jornalista e professor.

Vera Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1965. É jornalista. 


 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

A TRAVESSIA: FUGA, RESISTÊNCIA E EXÍLIO

 


FUGA DA TERRAS DAS NEVES

A fuga do jovem Dalai Lama para a liberdade

STEPHAN TALTY

EDITORA GAIA – 1ª ED. – 2012

254 páginas

 

Em Fuga da Terra das Neves, Stephan Talty constrói um relato que vai muito além da travessia dramática do líder tibetano após a invasão chinesa. O livro articula história, espiritualidade e política ao apresentar não apenas os acontecimentos que levaram ao exílio, mas também o universo simbólico e religioso do Tibete, o processo de reconhecimento da reencarnação do Dalai Lama, sua infância e formação no Palácio de Potala, em Lhasa, com seus rituais, regras rigorosas e códigos milenares.

Ao contextualizar a vida tibetana e sua religiosidade, o autor mostra o lugar singular que o Dalai Lama ocupa na sociedade: não apenas como líder espiritual, mas como eixo simbólico de identidade, coesão e continuidade cultural. Essa centralidade ajuda a compreender por que, com a chegada das tropas chinesas, sua permanência em território tibetano se torna um ponto estratégico. Para a China, mantê-los sob controle significaria uma vitória política decisiva: dobrar o Dalai Lama seria, em grande medida, dobrar o próprio Tibete.

O cerco se intensifica quando o Dalai Lama se refugia no palácio de verão. Temendo por sua vida, os tibetanos organizam resistência e cercam o local como forma de proteção. É nesse momento de tensão extrema que se decide a fuga. Com apoio de rebeldes tibetanos e também da CIA, a saída é planejada de forma discreta, atravessando montanhas e territórios hostis em uma jornada de aproximadamente duas semanas até a Índia. O livro acompanha esse percurso passo a passo, revelando o risco constante, o medo, a exaustão e a dimensão humana de um jovem líder lançado precocemente à condição de exilado.

A chegada à Índia tampouco é simples. Inicialmente relutante em conceder asilo, o governo indiano acaba cedendo diante da pressão e do pedido dos Estados Unidos, acolhendo o Dalai Lama em um gesto que teria consequências geopolíticas duradouras. A partir daí, o Tibete passa por uma transformação radical: de um território historicamente fechado a estrangeiros, converte-se em uma região controlada pela China, que reivindica seu direito histórico sobre a área. O processo de modernização imposto vem acompanhado de vigilância, medo e repressão, ainda que muitos tibetanos sigam preservando sua religiosidade e o vínculo simbólico com o Dalai Lama.  

A leitura suscita uma reflexão inevitável. Se não fosse o exílio forçado, talvez o mundo não tivesse tido acesso à voz do Dalai Lama, às suas reflexões sobre compaixão, ética, política e espiritualidade. É possível imagina que, permanecendo no Tibete, ele estivesse ainda preso a protocolos rígidos e a uma estrutura que limitava sua atuação pública. O exílio, embora profundamente doloroso e injusto, também parece ter sido um processo de amadurecimento e libertação pessoal. Ainda assim, permanece o lamento: nenhuma abertura ao mundo compensa a perda de uma terra, de um povo e de uma história interrompida pela ocupação.

 

A china invadiu o Tibete em 1950, logo após a Revolução Chinesa, com o Exército de Libertação Popular entrando em Chamdo. A alegação de que o território do Tibete pertencia à China historicamente gera controvérsias, portanto não vou abordar a questão aqui.

 


Stephan Talty nasceu em Buffalo, Nova Iorque, EUA, em 1964. É um escritor estadunidense. 


O DIA EM QUE TUDO FOI ARRASTADO

 

ARRASTADOS: OS BASTIDORES DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO

O maior desastre humanitário do Brasil

DANIELA ARBEX

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2022

328 páginas

“QUANDO A VIDA HUMANA ENTRA NO CÁLCULO DO LUCRO.”

O livro de Daniela Arbex traz depoimentos e detalhes da investigação efetuada após a tragédia. Os sobreviventes são conhecidos, assim como seu salvamento para quem acompanhou os acontecimentos pela televisão na época, mas no livro ouvimos deles próprios o que sentiram e pensaram no exato momento. Também acompanhamos o drama das famílias e parentes em busca de informações e, finalmente, o enfrentamento da realidade da morte de seus entes queridos.

O novo neste livro é acompanhar também os bombeiros: o que sentiram, como agiram, e conhecer toda a estratégia montada para o resgate, inclusive o trabalho do IML (Instituto Médico Legal) e as ações da própria população.  Seguimos, assim, o pós-tragédia, que além de toda a dor do luto revelou outras fraturas.

 As ações indenizatórias da Vale provocaram situações conflituosas entre os moradores. Surgiram abusos de pessoas que nada tinham a ver com a tragédia, ao mesmo tempo em que apareceram movimentos de resistência e reivindicação. Os laços sociais foram rompidos. Houve a perda do lugar, do pertencimento, de ser parte de algo ou de algum lugar. Permanece a pergunta daqueles que perderam tudo - casa, familiares, história – como seguir vivendo?

O livro também expõe as depressões, a angústia, mas igualmente a força de enfrentar tudo isso.

A narrativa termina com o resultado da investigação:  o levantamento de provas de que a Vale sabia que a barragem poderia romper a qualquer momento. A empresa chegou inclusive a calcular quanto teria de gastar em indenizações. Ainda assim, seu lucro continuaria maior – eis o ponto.

E, de fato, se no primeiro momento houve uma queda nas ações na bolsa de valores, ao final do ano a empresa fechou em alta e com lucro.

Duas tragédias - as duas maiores do Brasil: esta, humanitária; a outra, ecológica. em Mariana. E o que foi feito?

Mariana Nunca Mais.... Brumadinho Nunca mais....????


Daniela Arbex nasceu em Juiz de Fora – MG, em 1973. É uma jornalista e documentarista brasileira, dedica-se à defesa dos direitos humanos


MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão. 


domingo, 29 de março de 2026

ESCREVER COMO RESISTÊNCIA

 

DIÁRIOS DE RAQQA

A história real do estudante que desafiou o Estado Islâmico, foi jurado de morte e conseguiu fugir de uma cidade sitiada

SAMER

GLOBO CLUBE - 1ª ED. – 2017

112 páginas

É um livro bem curto, mas de uma densidade imensa. Comecei a ler e não larguei até terminar.

 Um jovem de 24 anos que vive em Raqqa, na Síria, de repente vê o Daesh - mais conhecido por Estado Islâmico - invadir sua cidade. A partir desse momento, o que já não estava bom, em função da guerra civil síria contra o ditador Assad, torna-se mil vezes pior. o Daesh impõe a sharia - ou aquilo que eles consideram ser a sharia - e executam todos os que não lhes obedecem.

Além disso, exploram um povo já empobrecido ao extremo, literalmente roubando o pouco que lhes restava por meio de taxas e multas que eles próprios inventam.

Samer, pseudônimo do autor, relata o dia a dia dessa vida sob terror. Recorda também os bons momentos de antes, enquanto vive permanentemente no medo e na insegurança.

Como se não bastasse, os russos bombardeiam a cidade. É em um desses ataques que ele perde o pai, quando sua casa é atingida. A mãe passa a viver desesperada com o que possa acontecer ao filho, sobretudo porque ele, quando estudante na universidade, participou dos movimentos rebeldes.

Quando Samer descobre que foi jurado de morte pelo Estado Islâmico, finalmente reúne coragem para deixar tudo e todos para trás e consegue fugir.

Mas enquanto esteve lá, arriscou-se ao máximo. Queria que o Ocidente e outros países soubessem o que estava acontecendo em Raqqa, na esperança de uma ajuda que nunca veio. Ele conseguiu transmitir seu diário para fora do país, e o material chegou à BBC. Se fosse descoberto, teria sido imediatamente morto.

São esses relatos que compõem este livro.


Samer é um pseudônimo de um jovem que conseguiu escapar de Raqqa. Atualmente ele vive em um campo de refugiados.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UMA HISTÓRIA PLURAL DO FEMINISMO


 

FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL

LUCY DELAP

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022

336 páginas

Em Feminismos: uma história global, Lucy Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.

A obra percorre um amplo arco temporal, do século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas — direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe, colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem, reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser compreendido como uma constelação de lutas.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia, revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a práticas feministas enraizadas em realidades locais.

O livro também não silencia os conflitos internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros, entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.

Outro aspecto relevante é a articulação entre feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas também vulnerável às dinâmicas do poder.

Sem idealizações, Delap reconhece os limites e contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo, conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.

Feminismos: uma história global é um livro fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa, mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre inacabada.


Lucy Delap é uma historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de gênero e feminismo. 


A VOZ COMO TERRITÓRIO POLÍTICO

 


ERGUER A VOZ: PENSAR COMO FEMINISTA, PENSAR COMO NEGRA

BELL HOOKS

EDITORA ELEFANTE – 1ª ED. – 2019

380 páginas

Em Erguer a Voz, bell hooks parte da própria experiência para mostrar que falar e, sobretudo, ser ouvida, nunca foi um gesto neutro. A voz, para mulheres negras, é um território de disputa política, atravessado pelo racismo institucional, pelo sexismo e pela lógica da supremacia branca que estrutura a sociedade e, de modo particular, os espaços de produção do saber.

A leitura do livro é transformadora porque desloca o olhar: não se trata apenas de identificar opressões externas, mas de reconhecer como elas se reproduzem cotidianamente, inclusive entre nós. hooks nos convida a um exercício radical de autorreflexão, revelando o quanto mulheres, mesmo aquelas comprometidas com projetos emancipatórios, podem estar implicadas na manutenção do patriarcado e do machismo, seja pelo silêncio, pela adaptação ou pela reprodução de hierarquias aprendidas.

Ao discutir o ambiente universitário, a autora expõe como a academia, longe de ser um espaço neutro, frequentemente reforça relações de dominação. O conhecimento legitimado, os corpos autorizados a falar e os modos “aceitáveis” de expressão obedecem a uma lógica excludente que marginaliza vozes dissidentes. Erguer a voz, nesse contexto, não é apenas falar mais alto, mas desafiar as estruturas que determinam quem pode falar e quem deve permanecer em silêncio.

O livro ensina que a educação pode ser um espaço de libertação, desde que atravesse o desconforto, a escuta crítica e a disposição para rever privilégios. hooks insiste que transformar a universidade, e a sociedade, passa necessariamente pela disposição de confrontar o racismo estrutural, a supremacia branca e o patriarcado, não como abstrações, mas como práticas cotidianas que atravessam nossas relações, afetos e modos de pensar.

Erguer a Voz é, assim, um chamado ético e político. Um convite para falar, mas também para escutar. Para ensinar, mas sobretudo para aprender. E, talvez o mais difícil, para reconhecer que a transformação coletiva começa por um trabalho profundo e contínuo sobre nós mesmas.


bell hooks nasceu em Hopkinsville, Kentucky, EUA, em 1952 e faleceu em Berea, Kentucky, EUA, em 2021. Foi uma teórica feminista, professora, artista e ativista antirracista


O SAGRADO COMO ESPELHO DO BRASIL


 

APARECIDA

A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil

RODRIGO ALVAREZ

RECORD – 1ª ED. – 2023

256 páginas


Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de nação.

O ponto de partida do livro é conhecido, mas ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que a cercam.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta, escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada disso é neutro.

Alvarez articula a devoção popular com o contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.

O livro também evidencia a tensão constante entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto. Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.

Outro mérito do livro está em tratar o roubo da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se deseja preservar.

Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por desigualdades profundas e exclusões históricas.

Aparecida é, assim, menos uma biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro


O ARQUÉTIPO DA MULHER SELVAGEM

 

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.

CLARISSA PINKOLA ESTÉS

ROCCO – 1ª ED. – 1994

628 páginas

Em Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Clarissa Pinkola Estés, constrói uma obra que atravessa psicologia, mitologia, folclore e espiritualidade para pensar o feminino a partir de uma dimensão arcaica, instintiva e simbólica. O livro propõe a recuperação daquilo que a autora chama de “mulher selvagem”, entendida não como figura primitiva ou desordenada, mas como fonte profunda de saber, intuição, criatividade e força vital.

A partir de mitos e contos tradicionais de diferentes culturas, Estés interpreta narrativas ancestrais como mapas psíquicos. Cada história funciona como um espelho simbólico das experiências femininas: perda, iniciação, ferida, silêncio, retorno e transformação. O lobo surge como metáfora central desse feminino instintivo: um ser que conhece os ciclos da vida, que vive em relação com o território, que sabe quando avançar e quando recolher-se. Correr com os lobos, nesse sentido, não é romper com a cultura, mas reconectar-se a um saber soterrado por séculos de repressão, moralização e domesticação do corpo e do desejo femininos.

O livro dialoga fortemente com a psicanálise junguiana, sobretudo com a noção de arquétipo, e propõe uma escuta atenta dos símbolos como linguagem da alma. No entanto, sua força não está apenas na teoria, mas na maneira como convoca a leitora a um processo de reconhecimento de si. Ao nomear feridas coletivas — como o silenciamento, a culpa, a perda da autonomia e o medo da própria potência —, Estés oferece imagens que auxiliam na reconstrução subjetiva e no resgate da integridade psíquica.

Ao mesmo tempo, Mulheres que correm com os lobos pode ser lido criticamente. Seu universalismo simbólico, ao falar de um arquétipo feminino comum, corre o risco de apagar diferenças históricas, culturais e materiais que atravessam as experiências das mulheres. Ainda assim, o livro permanece relevante como uma obra de escuta e cuidado, sobretudo em um mundo que continua exigindo das mulheres adaptação, docilidade e produtividade em detrimento da vitalidade e do desejo.

Mais do que um manual de autoajuda, o livro se apresenta como um percurso iniciático. Ele não promete respostas rápidas nem soluções fáceis, mas oferece narrativas que acompanham processos longos, dolorosos e, muitas vezes, solitários. Ler Clarissa Pinkola Estés é aceitar o convite para descer às camadas profundas da psique, reconhecer perdas e resgatar forças esquecidas. É um livro que fala de cura, mas não de uma cura pacificada: trata-se de uma cura que passa pelo enfrentamento, pela memória e pela reconciliação com aquilo que foi expulso da cultura dominante.


Clarissa Pinkola Estés nasceu em Gary, Indiana, EUA, em 1945. É uma psicóloga Junguiana


DO SUJEITO DISCIPLINAR AO SUJEITO DO DESEMPENHO

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO

BYUNG-CHUL HAN

VOZES NOBILIS – 1ª ED. – 2024

128 páginas

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han propõe uma leitura contundente das formas contemporâneas de dominação, deslocando o foco da repressão externa para a exploração internalizada. Já não vivemos, segundo o autor, sob o paradigma da disciplina, da proibição ou da negatividade, mas sob um regime de excesso: excesso de estímulos, de desempenho, de positividade e de exigência de produtividade.

Han descreve uma sociedade que não precisa mais impor limites pela força, porque os sujeitos passaram a se autoexplorar. O imperativo do “poder tudo” substitui o “não pode”, transformando a liberdade em um dispositivo de controle. O sujeito do desempenho acredita agir por vontade própria, quando na verdade está inteiramente capturado por uma lógica que exige eficiência permanente, flexibilidade absoluta e disponibilidade contínua. O resultado não é a emancipação, mas o esgotamento.

A partir desse diagnóstico, o autor relaciona o aumento de patologias psíquicas — como depressão, burnout e transtornos de ansiedade — a esse modelo social. O cansaço que marca nossa época não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de um cansaço que corrói o desejo, empobrece a experiência e elimina o espaço da contemplação, do ócio e da negatividade, elementos fundamentais para qualquer forma de pensamento crítico.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica à positividade compulsória. Ao eliminar o conflito, a alteridade e o limite, a sociedade do desempenho produz sujeitos isolados, incapazes de estabelecer relações verdadeiramente políticas. Tudo se torna projeto individual, inclusive o fracasso. A responsabilidade pelo esgotamento é deslocada do sistema para o indivíduo, que passa a se perceber como insuficiente, nunca produtivo o bastante.

Embora o livro seja breve, sua força está na capacidade de nomear sensações difusas do presente. O cansaço generalizado, a sensação de inadequação permanente e a dificuldade de sustentar a atenção encontram aqui uma interpretação filosófica que revela suas raízes estruturais. Ao mesmo tempo, a leitura suscita questões importantes: até que ponto esse diagnóstico não corre o risco de universalizar uma experiência que é atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça? Quem pode, de fato, adoecer de cansaço em uma sociedade marcada por precariedade extrema?

Sociedade do Cansaço não oferece soluções fáceis. Sua contribuição está menos em indicar saídas e mais em interromper a naturalização do esgotamento como destino individual. Ao revelar a violência silenciosa da positividade e da autoexploração, Han nos convida a repensar o valor do limite, da pausa e da recusa, gestos cada vez mais raros, mas talvez indispensáveis, em um mundo que não sabe mais descansar.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959. É um filósofo e ensaista sul-coreano. 


A MORTE COMO POLÍTICA

 


NECROPOLÍTICA

ACHILLE MBEMBE

N-1 EDIÇÕES – 1ª ED. – 2018

80 páginas

Em Necropolítica, Achille Mbembe, propõe um deslocamento radical da reflexão política contemporânea ao perguntar não apenas quem governa, mas quem tem o poder de decidir sobre a vida e, sobretudo, sobre a morte. Partindo e tensionando o conceito de biopolítica, Mbembe mostra que, em muitos contextos, o exercício do poder se manifesta principalmente como a capacidade de expor populações inteiras à morte, ao abandono e à violência contínua.

O autor localiza as origens da necropolítica na experiência colonial e escravista, entendendo o colonialismo como um laboratório de técnicas de dominação extrema. Nas colônias, o direito não protegia a vida, mas organizava a morte; certos corpos eram desde sempre matáveis, descartáveis, reduzidos a uma existência precária. A modernidade política, frequentemente celebrada como espaço de direitos e cidadania, revela assim seu lado mais sombrio, sustentado por regimes de exceção permanentes aplicados a populações racializadas.

Mbembe amplia essa análise ao observar como essas lógicas se atualizam no presente. Estados, milícias, forças paramilitares e até estruturas econômicas exercem poder necropolítico ao controlar territórios, corpos e mobilidades, criando zonas onde a vida é suspensa. Campos de refugiados, favelas, prisões, fronteiras militarizadas e territórios ocupados tornam-se espaços onde a morte não é um acidente, mas uma possibilidade sempre iminente, administrada politicamente.

Um dos aspectos mais perturbadores do livro é a articulação entre soberania, violência e racismo. A raça aparece como um operador central da necropolítica, definindo quais vidas merecem luto e proteção e quais podem ser eliminadas sem escândalo. Nesse sentido, Mbembe mostra que o racismo não é um desvio do sistema democrático, mas um de seus mecanismos constitutivos, sobretudo quando articulado à lógica colonial e capitalista.

Necropolítica exige uma leitura atenta e desconfortável. Não se trata de um texto introdutório ou conciliador, mas de uma intervenção teórica que obriga o leitor a confrontar a violência estrutural que sustenta o mundo contemporâneo. Em contextos como o brasileiro, marcados por genocídio da população negra, encarceramento em massa e militarização dos territórios pobres, o conceito de necropolítica revela sua potência explicativa e sua urgência ética.

O livro não oferece respostas fáceis nem caminhos de redenção. Sua força está em nomear o indizível, em tornar visível aquilo que o discurso político dominante tenta naturalizar ou ocultar. Ler Mbembe é reconhecer que, para muitos, a morte não é exceção, mas condição permanente, e que qualquer projeto político verdadeiramente emancipatório precisa começar por esse reconhecimento.


Achille Mbembe nasceu em Centro, Camarões, em 1957. É um filósofo, cientista político, historiador e professor camaronês. 


BOAS BRUXAS E SABERES FEMININOS

 

MULHERES DE MINHA ALMA

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL – 1ª ED. - 2020

238 páginas

Em Mulheres de Minha Alma, Isabel Allende fala de sua própria vida a partir de um viés assumidamente feminista, mas também profundamente feminino. O livro não se organiza como um manifesto teórico, e sim como um relato atravessado por memória, afeto e experiência, no qual o feminismo surge como prática cotidiana antes mesmo de ganhar nome. Allende relata como, desde muito jovem, recusou a submissão das mulheres ao seu redor, especialmente a vivida por sua mãe, que, após a anulação do casamento, em um período em que o divórcio ainda não era permitido, permaneceu dependente do pai e dos irmãos, e posteriormente de um segundo marido.

A autora constrói uma crítica direta ao patriarcado, ao catolicismo conservador e ao machismo estrutural, refletindo sobre como essas forças moldaram não apenas sua trajetória pessoal, mas a vida de gerações de mulheres. Ao mesmo tempo, Allende insiste na ideia de transformação gradual: mudanças são possíveis, desde que não se abandone a luta. Há aqui uma clara aproximação com as gerações mais jovens, convocadas a dar continuidade a esse processo, especialmente diante do risco constante de perda de direitos já conquistados.

O livro também é atravessado pelas mulheres que marcaram sua vida — amigas, ancestrais, companheiras de caminhada — e pela presença simbólica das chamadas “boas bruxas”, figuras femininas associadas ao cuidado, à intuição, à liberdade e à transmissão de saberes. O amor, em suas múltiplas formas, aparece como força vital, não romântica no sentido ingênuo, mas como energia de vínculo, resistência e criação.

Mulheres de Minha Alma é, assim, um livro de afirmação e de alerta. Afirma a potência das mulheres e de suas histórias, e alerta para a fragilidade das conquistas quando a vigilância cede lugar ao conformismo. Um texto íntimo e político, no qual Isabel Allende transforma sua experiência pessoal em convite à escuta, à continuidade e à ação.


Isabel Allende nasceu em Lima, Peru, em 1942. É uma escritora chilena.