AUTOR – OYA BAYDAR
ORIGEM – TURCA
EDITORA – SÁ EDITORA - 2011
464 páginas
Palavra Perdida, de Oya
Baydar, é menos um romance sobre um escritor em crise do que uma investigação
sobre as condições históricas, políticas e afetivas que tornam a palavra
impossível. A perda da palavra não aparece como um bloqueio individual ou
psicológico, mas como efeito de um mundo em que a linguagem foi capturada: pelo
mercado editorial, pelo nacionalismo, pela violência de Estado e pelas
expectativas normativas que atravessam a família.
O escritor protagonista perde sua palavra
quando passa a escrever aquilo que se espera dele. A literatura deixa de ser
espaço de escuta da própria voz e se transforma em produto. A pergunta que
atravessa o romance — se a palavra morre quando a voz interior se cala ou
quando o sentido desaparece — desloca a crise da escrita para uma dimensão
ética e política: escrever torna-se impossível quando já não se pode dizer a
verdade do mundo que se habita.
Essa crise atravessa também a família. A
esposa, cientista reconhecida, carrega o ressentimento de uma modernidade
sempre suspeita aos olhos do Ocidente: mesmo premiada, precisa reiteradamente
provar que a Turquia pode produzir ciência “avançada”. O filho, por sua vez, é
esmagado pelo imperativo do sucesso. Incapaz de corresponder às expectativas
parentais, ele se lança à guerra como fotógrafo, expondo o corpo e o olhar à
violência extrema. Aqui, o romance sugere que a falha na transmissão da palavra
entre gerações abre espaço para outras formas de inscrição no mundo —
frequentemente autodestrutivas.
Ao deslocar a narrativa para o leste da
Turquia, Baydar torna explícito aquilo que já estava latente: a palavra perdida
é inseparável da violência política. A questão curda não aparece como pano de
fundo, mas como núcleo ético do romance. Onde a palavra é proibida, silenciada
ou criminalizada, resta o grito — “Mataram a criança!” — que atravessa a
narrativa como um chamado irrecusável. A criança morta funciona como figura
limite: quando o futuro é destruído, a linguagem entra em colapso.
O exílio final, na Noruega, não oferece uma
solução redentora. A tentativa de escapar da violência revela seus limites: não
há refúgio absoluto enquanto o mundo continuar organizado pela guerra, pela
exclusão e pela negação da alteridade. O romance recusa tanto a reconciliação
fácil quanto a nostalgia. O que resta é uma pergunta insistente sobre a
possibilidade de recuperar a palavra sem negar o real que a destruiu.
Nesse sentido, Palavra Perdida é um
romance profundamente contemporâneo. Fala da Turquia, mas também do mundo
globalizado, onde modernidade e tradição coexistem em tensão permanente, e onde
a palavra — literária, política, afetiva — está sempre ameaçada de
esvaziamento. Baydar escreve contra o silêncio, não para oferecer respostas,
mas para expor o custo humano de um mundo que prefere calar a escutar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário