1947
Elisabeth Asbrink
Editora Âyiné, 2023
1947 é um livro que nos apresenta os
acontecimentos desse ano no mundo. Normalmente focamos em 1945, o imediato
pós-Segunda Guerra Mundial, e 1947 acaba ficando como um ano meio esquecido —
e, no entanto, de importância vital.
Mês a mês, Asbrink relata os principais
eventos que ocorreram ao longo de 1947, intercalando a questão da Palestina, a
situação dos judeus na Europa após o fim da guerra, a posição dos árabes
palestinos e as reuniões de um grupo de países neutros que avaliaram o conflito
para apresentar uma solução para a questão judaico-sionista. Ao mesmo tempo,
ela nos mostra o que aconteceu com os nazistas após o término do conflito.
É um erro de percepção pensar que, com a morte
de Hitler, houve o fim do nazismo. O suicídio do líder não encerrou as ideias
defendidas pelos nazistas, que se espalharam pelo mundo em fuga e que, até
hoje, continuam atuando. Muitos nazistas presos foram libertados devido à falta
de estrutura e às condições financeiras precárias da Europa para mantê-los
encarcerados. Logo após o fim da guerra, já se reuniam em grupos, mantinham um
jornal e se pronunciavam em vários lugares, principalmente na América Latina, para
onde muitos migraram.
No meio disso tudo, a autora insere Simone de
Beauvoir, que viaja para os Estados Unidos, onde conhece Nelson Algren, seu
grande amor. É também o momento em que ela começa a escrever O Segundo Sexo.
No entanto, o livro deixa explícita uma Beauvoir que vive em seu próprio
universo, sem uma visão mais ampla do mundo e de tudo o que estava acontecendo.
Ela reclama que os suecos são tediosos, mas que possuem um bom whisky e, portanto, está tudo bem. Beauvoir se dizia
engajada, mas esse engajamento parece ter se limitado à Argélia e a situações
que ocorriam na França.
Asbrink demonstra, ao longo do livro, que a
nossa época atual começa em 1947, quando os Estados Unidos passam a assumir uma
postura imperial e a se colocar como guardiões do mundo ocidental. A
extrema-direita, hoje novamente presente, começa a se reestruturar nesse
período. Também se delineiam a criação do Estado de Israel e a questão
palestina, que repercutem de forma dramática até os dias atuais, assim como o
surgimento de movimentos que mais tarde desembocariam na formação do Estado
Islâmico.
Ao mesmo tempo, temos Simone de Beauvoir
escrevendo seu livro mais famoso, que ainda hoje repercute entre feministas.
Christian Dior lança suas coleções, transformando a feminilidade, poder-se-ia
dizer, em uma forma de tortura com suas cinturas finíssimas, em contraposição a
Chanel, que buscava conforto e liberdade para o vestuário feminino. Giacometti,
por sua vez, deseja destruir todas as suas obras por sentir que ainda não havia
alcançado o que buscava artisticamente. Talvez não por acaso, George Orwell
está em uma ilha isolada escrevendo “1984”.
Entrelaçando essas histórias públicas, Asbrink
insere também a história pessoal de sua família, mostrando como as grandes
transformações históricas atravessam existências privadas e subjetividades
individuais.
Talvez a maior força de 1947 esteja
justamente em nos obrigar a abandonar a ilusão de que a história se organiza
por rupturas claras. O fim da guerra não significou o fim das ideologias que a
sustentaram, assim como o nascimento de novas ordens políticas não trouxe
estabilidade, mas sim novas tensões que ainda atravessam o presente. Ao
reconstruir esse período de reorganização global, Asbrink demonstra que a
história não é feita apenas por tratados, fronteiras e líderes políticos, mas
também por continuidades silenciosas, disputas simbólicas e escolhas que moldam
o mundo de forma profunda e duradoura.
Ler 1947 é compreender que o nosso
tempo não surgiu de forma repentina. Ele foi lentamente gestado e talvez ainda
estejamos vivendo as consequências de decisões tomadas naquele momento
histórico, sem que tenhamos, de fato, conseguido superá-las.
Elisabeth Asbrink nasceu Gotemburgo, Suécia, em 1965. É jornalista e escritora.

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