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sábado, 2 de janeiro de 2016

CINEASTAS: DENIS VILLENEUVE


Denis Villeneuve nasceu em 03 de outubro de 1967 em Gentilly, Quebec, Canadá. É diretor e escritor.

FILMOGRAFIA:

- Cosmos - 1996
- Un 32 août sur terre - 1998 - postado no blog
 - Redemoinho - 2000
- Polytechnique - 2009
- Incêndios - 2010 - postado no blog
- Os suspeitos - 2013
- O homem duplicado 2013 - postado no blog
- Sicario: Terra de ninguém - 2015
- Story of your life - 2016 - filmando


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

FILME: UN 32 AOÛT SUR TERRE - 1998


Direção: Denis Villeneuve - 1998 
Duração: 88 min 

Projeto um filme por país  País: Canadá 

Simone Prévost (Pascale Bussières) vive acelerada com seu trabalho e acelera tanto que indo para o aeroporto sofre um acidente, por adormecer no volante. Este acidente a fará repensar sua vida e a leva a pedir demissão de seu trabalho e pedir ao seu melhor amigo Philippe (Alex Martin) que faça um filho com ela que irá criar sozinha.

O problema é que Philippe é apaixonado por ela e não consegue simplesmente fazer um filho como lhe pede Simone, ele quer fazer amor. Faz 03 anos que está deprimido por causa deste amor não correspondido e não sabe o que fazer. Então sugere que o fará desde que seja num deserto. Ela aceita.

Ambos partem para Salt Lake City, mas as coisas não sairão como imaginam e Philippe escreverá uma carta para Simone dizendo sobre tudo que sente.

Simone após o acidente passa a questionar a sua mortalidade e por isto deseja um filho, que é a forma de dar continuidade a si mesmo, uma maneira que encontramos inconscientemente de alcançar a eternidade e se perpetuar. O título do filme é como uma metáfora disto, o dia 32 de agosto é o dia seguinte da sua sobrevivência ao acidente, como se tivesse tido direito a mais dias de vida. Depois o filme retorna à setembro, a realidade, onde é preciso de confrontar com a solidão, com a vida e os desejos do outro, como Philippe que a ama e não quer lhe fazer um filho para não ficar com esta lembrança que acabaria por destruí-lo, uma vez que se apegaria demais a isto para viver.

O filme é repleto do simbólico da morte. No deserto de sal, o nada, o vazio, a luz forte. Quando Simone se afasta para fazer xixi ela vê um corpo carbonizado e fica horrorizada. Quando retornam ao aeroporto o quarto que é como um túmulo, fechado, hermético, pequeno. Já para Philippe ele se transforma como numa nave espacial sem gravidade.

Um filme para refletir.

Denis Villeneuve 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

FILME: O HOMEM DUPLICADO - ENEMY - 2014


Direção: Denis Villeneuve - 2014 
Duração: 90 min 
Título original: Enemy 
Roteiro: Javier Gullón
País: Canadá - Espanha 

Baseado no livro O Homem duplicado de José Saramago 

Não li o livro e vou fazer uma interpretação deste filme que talvez não seja condizente com outras opiniões e visões, mas prefiro falar o que eu senti e percebi no filme.

O protagonista é interpretado por Jake Gyllenhall. Adam é um professor de história que passa por uma crise e está deprimido. Suas aulas falam de ditadura e da eterna repetição de tudo. Logo no início do filme temos uma visão da cidade onde ele mora, poucas cores, algo claustrofóbico. Seu celular toca e é sua mãe (Isabella Rossellini) que diz que está preocupada com ele por morar ali sozinho, que quer reatar com ele. Ele não atende.

Ao seguir uma dica de um colega ele acaba assistindo um filme para se distrair, e é ali que verá seu sósia. Ficará obcecado com isto e irá atrás deste outro. A primeira coisa que pensei foi: como é difícil enxergar a si mesmo no outro.

Ele tem uma namorada (Mélanie Laurent), mas que sempre vai embora, não fica ali com ele, mesmo ele morando sozinho. No início do filme vemos uma mulher grávida e depois vários homens voyeurs vendo uma encenação erótica. Adam encontra seu sócia Anthony. Um ator de pouca relevância que vive com sua esposa grávida. Os dois irão se encontrar, mas antes disto a mulher de Anthony, Helen (Sarah Gadon)  o vê na faculdade. Ela está enciumada, e quer que o marido se afaste de uma amante.



Aparece novamente a cidade e agora com uma imensa aranha sobre ela, uma referência à aranha Maman de Louise Bourgeois? nada é dito no filme, mas de imediato foi o que pensei, me remetendo também à Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.



Adam irá se encontrar com sua mãe e lhe fala disto, ela lhe responde que ele é seu único filho, ela é sua única mãe e acrescenta que é para ele deixar de querer ser um ator de terceira categoria.

Adam e Anthony trocarão de lugar por imposição deste último que então se veste com as roupas de Adam, pega seu carro e vai buscar sua namorada para um passeio romântico. Adam vai para o apartamento de Anthony. A namorada de Adam verá uma marca de aliança no dedo de Anthony que diz que sempre esteve ali e ela diz que não, eles saem, discutem, um acidente de carro e morrem os dois. Adam fica no apartamento com a mulher grávida que lhe pergunta como foi na faculdade. No dia seguinte ele abre a carta que era para Anthony, confidencial, e dentro tem a nova chave para o local onde se passam as encenações eróticas. Ele pergunta à esposa se quer fazer algo à noite, porque ele precisa sair, ela não responde e ele vai até o quarto, na cama uma imensa aranha.

Adam e Anthony são a mesma pessoa, um duplo, aquele que faz tudo que o outro deseja fazer mas não consegue por estar preso na teia de aranha de sua mãe, o retorno do desejo de Bourgeois, onde a mãe é a desejada mas proibida, a mulher grávida, mãe. Ele não consegue se relacionar com uma mulher, a namorada que parte, que descobre que ele é casado, mas não com outra mulher. A mãe protetora mas também a que sufoca o desejo, que não o liberta para viver sua vida e seu desejo. O duplo que temos em nós, aquilo que sonhamos e desejamos e não podemos fazer por estarmos presos de alguma forma dentro de um contexto social, mas também preso ao desejo do outro.



O duplo é um reflexo de si mesmo, mas nem sempre pelo lado que amamos, a questão é quando este duplo nos assusta, é nosso lado perverso, é o lado que queremos negar, que não suportamos, o inimigo, um estranho familiar que nos apavora.

A questão que fica é se aquela aranha na cama irá impedi-lo de sair ou não. Ele poderá finalmente viver sua sexualidade? assumir seu desejo? ou continuará sendo o pacato, metódico e deprimido professor?

Um filme que causa um mal estar que leva à reflexão sobre o que fazemos de nós mesmos, e onde estamos presos. Como a frase inicial do filme o caos está onde ainda não se colocou ordem.


Denis Villeneuve nasceu em 1967 em Québec, Canadá.

Trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans