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segunda-feira, 17 de março de 2014

LIVRO: A INTERPRETAÇÃO DO ASSASSINATO - JED RUBENFELD



Rubenfeld, Jed. Companhia das Letras, 2007
Tradução: Paulo Schiller
481 páginas
Título original: The interpretation of murder

Este livro se baseia em vários fatos verídicos e outros são fictícios, apesar de alguns serem inspirados em fatos reais.

Em 1909 Freud visitou a América à convite de uma Universidade para fazer conferências e desta forma divulgar a psicanálise. Neste momento ocorre um assassinato de uma jovem que não deixa rastros, mas em seguida uma outra jovem também sofre o mesmo atentado, porém ela sobrevive, mas está sem voz e memória. É quando entra em cena um jovem psicanalista Stratham Younger que está encarregado de recepcionar Freud e seus acompanhantes Ferenczi e Jung, que é indicado por Freud para ajudar Nora, a segunda vítima, com a psicanálise para que ela recupere a memória.

É um romance policial repleto de mistérios, muita ação, incógnitas que aos poucos vai se desvendando. Nora é imediatamente reconhecida pelos que conhecem a psicanálise como o caso Dora, que é real, apesar de algumas diferenças no enredo do romance, e que foi tratada por Freud em Viena. A psicanálise ajuda a desvendar o crime conjuntamente com a ação do detetive Jimmy Litlemore, personagem fictício também.

Ao mesmo tempo há um relato ficcional sobre a passagem de Freud pela América baseado em fatos reais, suas desavenças com Jung, suas impressões sobre a América, e a supervisão de Freud na análise que Younger faz de Nora. Outro ponto interessante é a análise de Hamlet e do Édipo.

Instigante, não se consegue largar o livro até saber o que houve, quem são os culpados e ao mesmo tempo uma pequena introdução à psicanálise atuando no campo da criminalística. Se por um lado o detetive desvenda o crime, a psicanálise o interpreta, e isto faz com que a leitura deste livro seja muito interessante devido a uma percepção maior dos porquês de um crime.

O autor desenvolveu extensa pesquisa para escrever o romance.

Jed Rubenfeld nasceu em 1959 em Washington. Graduou-se na Universidade de Princeton onde escreveu uma tese sofre Freud. Vive em New Haven e é um dos maiores especialistas em direito Constitucional dos Estados Unidos e professor na Universidade de Yale. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LIVRO: LIQUIDAÇÃO - IMRE KERTÉSZ


Kertész, Imre. Companhia das Letras, 2005
Tradução: Paulo Schiller
106 páginas

Um livro pequeno mas que é grande, Liquidação - seria possível mesmo liquidar algo como o holocausto? e tudo que ele deixa de marcas, traços e herança? Existe a superação? ou somente é possível a transformação?

O ponto central do livro é que o homem tem o mal em si e que sem a civilização e a cultura ele mostra do que é capaz. " O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. (...) Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro mal. "

B. nasceu em Auschwitz e sobreviveu, o que já é algo quase impossível. Judit não conheceu o campo de concentração, nasceu depois, mas traz em si a herança psíquica da família que passou por lá, seu pai, calado, distante. O livro fala do pós-guerra, de quem sobreviveu e de quem nasceu depois e das possibilidades de viver com esta herança. A questão é que vivem numa outra ditadura neste momento, em Budapeste, e em uma entrevista à Folha de São Paulo Kertész dirá que "numa ditadura totalitária só se sobrevive quando se segue a lógica do absurdo." Após a Segunda Guerra muitos países ficaram atrás da Cortina de Ferro em regimes ditatoriais dando continuidade ao caos e violência.


B. que traz em sua coxa a marca do campo uma vez que bebês eram tatuados na coxa porque o ante-braço era curto demais para o número opõe resistência a se livrar disto tudo, é como um gozar na dor, que lhe dá uma certa satisfação.  Judit tenta ultrapassar esta resistência e transformar sua vida.

O livro é sobre uma peça que B. deixa após seus suicídio que é lido pelo editor Amargo que também é o protagonista da peça,  buscando compreender porque ele teria se suicidado. Quais seriam as razões morais e filosóficas deste ato? Seria o momento em que B. se cansa de buscar outras prisões quando acaba a resistência e se abrem outros mundos diante dele. Ele não pode, precisa viver dentro de Auschwitz que está entranhado nele, como quando os médicos provam os venenos para conhecerem seus efeitos. Somente se vencesse isto, se desvendasse o enigma Auschwitz ele poderia se libertar.

Judit por outro lado perceberá que nada foi por acaso, que se casou com B. para viver Auschwitz e tentar compreender. Um dia ela se dá conta que desistiu de resistir, ou seja, que se deu por satisfeita. Ela abre mão do gozo na dor. E o instinto de viver desperta novamente nela.

A diferença é que B. passou pelo campo de concentração e ela não. Ela não tem imagens e seu corpo não registrou isto, como a marca em B. em sua coxa. Visita o local e não consegue compreender, nestas alturas o campo já foi transformado num local "turístico" de visitações onde os batedores de carteira se aproveitam da emoção das pessoas para roubar-lhes a carteira. Onde é impossível fazer uma visita em silêncio e se está ao lado de pessoas que vieram de outros locais e não tem ideia do que se passou ali. Ela não consegue registrar Auschwitz e não compreende mais B.

Para os que viveram isto, como o autor do livro, não é possível deixar de resistir e esquecer o que se passou. Tenta-se viver , é um sobrevivente.

A leitura é difícil, não se sabe quando é a peça, quando é Amargo o protagonista do livro, são pedaços, cacos, e aos poucos me senti sendo sufocada pela leitura, mas é justamente isto o que é brilhante na escrita de Kertész, ele nos prende com arrame farpado.













Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste - Hungria.
Foi deportado em 1944 para Auschwitz e Buchenwald sendo libertado
em 1945 pelas tropas norte-americanas. Foi o único sobrevivente de
sua família.

sábado, 11 de janeiro de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DO AMOR - NICOLE KRAUSS



Krauss, Nicole. Companhia das Letras, 2006
Tradução: Paulo Schiller
315 páginas

Este livro é narrado por diversas vozes em sua alteridade e em dois tempos diferentes, um na Polônia há sessenta anos atrás, e outro no mundo contemporâneo.
Um jovem judeu e polonês apaixonou-se por Alma na Polônia, aproxima-se a Segunda Guerra,  e Alma parte para os Estados Unidos. Ele fica,  prometendo ir encontrá-la assim que tivesse dinheiro suficiente, o que não irá acontecer pois ele terá que fugir dos nazistas, escondendo-se em florestas, passando por privações, medo, fome. Mas antes disto ele escreveu um livro, A História do Amor, que fala do seu amor por Alma, mas também da vida, e o entregará a um amigo que também partiu,  para que o guarde até se reencontrarem.
Sessenta anos depois Leo Gursky é quem inicia o livro. Ele vive nos Estados Unidos, tem um amigo que se chama Bruno. Vive pensando em sua morte próxima.
Alma Singer é uma adolescente que perdeu seu pai. Ela vive com o irmão Bird e sua mãe, uma tradutora. Descobre que seu nome é uma homenagem a uma personagem de um livro que seu pai comprou e deu para sua mãe: A História do amor, escrito por Litvinoff, que morava no Chile. Um homem solicita a sua mãe que traduza este livro para ele, e Alma na tentativa de fazer sua mãe feliz quer aproximá-lo dela, e para descobri-lo começa uma investigação detetivesca, que se reverte na busca de quem era a Alma do livro de quem ela tem o nome.

Gursky traz em si as marcas da Guerra, das perdas, da dor, ele é um solitário que sempre tenta ser visto, ou seja, ao ser notado ele sente que existe.  Litvinoff também sofreu com a guerra, mas encontra Rosa que lhe trará a alegria de viver. Charlote, a mãe de Alma tenta enfrentar o luto pelo seu marido de um jeito que ela consiga sobreviver.

No fundo o livro traz a tona a tragédia de uma guerra e no que ela pode provocar no destino de cada um, alterando tudo, separando, afastando, mudanças que não erram esperadas, e que não teriam ocorrido se não houvesse ocorrido a guerra. Mas será? O Tio Julian, irmão da mãe de Alma Singer, decidiu que estava diante de sua futura esposa quando a viu de leggins no zoológico, e se não fosse por estar vestida assim ele tem certeza de que não a teria notado.

A vida surpreende sempre devido as mudanças que são capazes de ocorrer na vida de todos, hoje é assim, amanhã não é mais, e não só pela morte de alguém como foi para Charlote, ou a guerra como foi para Leo e Alma, ou para Litvinoff, mas uma peça de vestuário pode definir um destino, ou um soldado da SS que procura judeus escondidos, mas que está desconfiando de sua mulher, e ao invés de revistar o local prefere desabafar com o colega, e com isto uma vida se salva, graças a uma mulher que nunca saberá disto.

O que pode manter uma certa memória nisto tudo? uma certa ligação, um elo, associações? Somente a palavra, mas não há palavras para tudo. Mas ainda assim, um livro, A história do amor, teve este papel entre os personagens deste livro, de servir de corda, que de uma forma ou outra manteve um certo elo, mas também criou outros novos, por que a vida se renova sempre. E um livro é sempre uma obra de criação, e os que sobreviveram à guerra, os que perdem seus entes queridos, os que estão começando sua vida, precisam ou recriar ou inventar sua vida, mesmo que seja apenas através do imaginário para que possa suportar a dor.

" Cem coisas podem mudar sua vida. E por alguns dias, entre a hora que recebi a carta e a hora em que fui encontrar quem a enviara, tudo foi possível."

Viver é perigoso! mas é também a melhor coisa que pode nos acontecer.


Nicole Krauss nasceu em 1974, em Nova Youk.