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terça-feira, 24 de novembro de 2015

FILME: PHOENIX - 2014


Direção: Christian Petzold - 2014
Duração: 98 min
País de Origem: Alemanha

Nelly Lenz (Nina Hoss) é uma sobrevivente de um campo de concentração nazista. Ajudada por sua única parente viva, Lene (Nina Kunzendorf) ela passa por uma cirurgia, pois seu rosto está desfigurado. Após retirar as bandagens ela não se reconhece no espelho o que a angustia. 

Com a morte de seus parentes Nelly é herdeira de uma grande quantia de dinheiro, e foi isto que possibilitou a cirurgia de reconstrução de seu rosto. Lene quer ir embora, ir para Israel e tenta convencer Nelly a ir também, porém esta deseja reencontrar seu marido Johnny (Ronald Zehrfeld) ao que Lene se opõe alegando que ele esteve envolvido em sua captura pelos nazistas. 

Porém Nelly não se convence e parte em busca do marido, encontrando-o trabalhando na boate Phoenix. Ele não a reconhece, mas percebe uma semelhança com sua esposa e faz um proposta de transformá-la em Nelly para poder ter acesso a herança que ela tem direito, mas para isto tem que estar viva o que Johnny pensa não ser possível. 

Nelly era uma cantora, e agora em meio aos escombros e diante de um marido que não a reconhece e do qual se suspeita a tenha entregue aos nazistas para se safar quando foi preso, ela tem que reconstruir sua identidade. É o se recriar, e se recuperar diante do trauma. 

O que ela tenta é voltar ao passado, é recuperar sua vida, ao contrário do que Lene lhe fala, em criar uma nova vida, em outro lugar, ela quer de volta o que era. O filme trata de traumas, de não se saber mais quem se é, de perceber de que se está morta para aqueles que se ama, que não tem mais identidade, de que não é mais quem era. 

Sobreviver a um campo de concentração, ter vivido o horror, e se encontrar com a desolação, com um não-lugar, com a destruição, e ainda ter que construir algo novo para si mesmo, ao invés de ser acolhido após tantos traumas. Aos poucos vamos assistindo ao mergulho de Nelly em seus medos enquanto tenta mentir para si mesma. É difícil enfrentar o real que se impõe, estar ao lado do homem que foi seu marido, e que agora é um estranho que não a reconhece, até chegarmos ao momento final do filme, de sua libertação, a partir do momento em que ela desce do trem, de uma beleza sensível e indescritível. 


Christian Petzold nasceu em 1960 em Hilden, Alemanha

terça-feira, 1 de setembro de 2015

FILME: OS REFORMADOS - 2013


Direção: Bogdan Dreyer Dumitresco - 2013
Duração: 90 min
Título Original: A Farewell to fools
Roteiro: Anusavan Salamanian 
País: Romênia - Estados Unidos

Em uma aldeia da Romênia vive Ipu (Gérard Depardieu), considerado como louco, ele vive imaginando cenas heroicas de guerra e junto de Alex (Bogdan Iancu)  eles brincam de guerra. Alex é conhecido de um soldado alemão que gosta dele, e o deixa andar em sua motocicleta, mas desta vez quando o menino retorna o que ele encontra é o alemão morto, assassinado. 

Os alemães querem o culpado, como o delegado não consegue desvendar o que ocorreu, são colocados na praça da aldeia dez cadeiras, onde serão fuzilados as 10 principais autoridades da vila com seus familiares, caso não apresentem o culpado até as 5 horas da manhã do dia seguinte. 

As autoridades se reúnem para pensar, estão desesperados e com muito medo. É então que surge a ideia de convencer Ipu a se entregar como culpado. Liderados pelo pastor da aldeia Pai Johanis (Harvey Keitel) e sua esposa Margherita (Laura Morante) eles armam uma farsa para convencer Ipu. 

O filme é a farsa vista pelos olhos de Alex, onde se testemunha toda a comédia e o horror da condição humana, a manipulação, a encenação, as rixas entre eles mesmos e a presença de espírito do que é considerado louco, o único ali fora o garoto que é digno e ético. 


Bogdan Dreyer Dumitresco nasceu em Bucareste, Romênia

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: TESTAMENT OF YOUTH - 2015


Direção: James Kent - 2015
Duração: 128 min
Título Original:
País: Reino Unido

Baseado no livro autobiográfico homônimo de Vera Brittain 

Não conhecia nada sobre ela e ao procurar pelo livro também não encontrei nada traduzido no Brasil escrito por ela. Infelizmente ainda carecemos de muitas traduções. 

Trata-se da história da vida de Vera Brittain (Alicia Vikander) quando jovem até logo depois da Primeira Guerra. Seu maior desejo era entrar em Oxford, porém naquela época isto não era exatamente o que os pais sonhavam para suas filhas, queriam que elas se casassem, mas Vera dizia que não iria se casar. Precisou contar com a ajuda de seu irmão Edward (Taron Egerton)  para conseguir convencer seu pai a deixá-la tentar.

O filme inicia-se em sua juventude onde costumava nadar num lago com seu irmão e o amigo deste Victor (Colin Morgan) que se apaixonou por Vera. Roland (Kit Harington) também chega e justo num momento em que ela está enfrentando seu pai devido os estudos, pois ele havia comprado um piano, o que ela não desejava. Vera e Roland se apaixonarão. Ela é admitida em Oxford contras as expectativas, mas seu sonho de ir para lá com os rapazes é desfeito pela guerra. Ela irá sozinha.

É triste ver o entusiasmo que se apodera dos jovens diante de uma guerra, e se não for assim é devido uma questão do social, o que dizer aos amigos se você também não for, os três rapazes acabam indo para a guerra e Vera pelo desejo de também ser útil se torna enfermeira. Roland é o primeiro a morrer, seguido de Victor. Então Vera pede para ir para o front na França onde ela consegue salvar seu irmão já considerado morto, mas a guerra irá pegá-lo novamente. Os três morreram. Vera retoma seus estudos e inicia sua vida de pacifista, vindo a se tornar uma escritora mais tarde.

A guerra é algo que modifica totalmente a vida das pessoas, a juventude que se perde, a alegria de viver, é preciso se recuperar depois quando é possível. Algumas pessoas não conseguem aceitar, como a mãe de Vera (Emily Watson) que entra em crise porque a cozinheira foi embora, pela falta de alimentos para comprar, o que diante do horror do front não é nada.

O interessante é a vida desta mulher, que soube fazer da guerra uma causa, o pacifismo, e também de seu feminismo, a busca da liberdade da mulher, que naquela época era destinada ao casamento. Quando prestou os exames em Oxford para os quais estudou sozinha foi surpreendida por uma prova de latim, não sabia nada, mas não desistiu e acabou escrevendo em alemão. A coordenadora (Miranda Richardson) inicialmente a desprezou como uma filha mimada, mas acabou aprovando-a por verificar sua capacidade e originalidade. Vera novamente enfrentará esta questão com a chefe das enfermeiras que a julgava intelectual demais para isto, e conseguirá mostrar de que era capaz.

Vera Brittain 

Edward , Roland e Victor 

Vera Brittain 

Vera Brittain e Alicia Vikander 


James Kent 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

FILME: A DAMA DOURADA - 2015



Direção: Simon Curtis - 2015
Duração: 109 min
Título Original: Woman in Gold
País: Reino Unido e Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Anne-Marie O'Connor 

Li o livro há um tempo e está postado aqui no Blog. Trata-se da história da obra-prima de Gustav Klimt, o retrato de Adele Bloch-Bauer, da história de sua família na Segunda Guerra quando os nazistas entraram na Áustria, e do roubo de obras de arte. 


O filme foca mais na história do quadro, trazendo apenas através das lembranças de Maria Altmann (Helen Mirren), sobrinha de Adéle e legítima herdeira do quadro, algumas passagens do que ocorreu na Áustria, o suficiente para a compreensão do roubo e de como sua família foi atingida, para que possamos acompanhar a luta pela recuperação do quadro. Para uma história mais completa recomendo a leitura do livro. 



O filme inicia nos Estados Unidos quando Maria decide tentar recuperar o quadro, após encontrar uma foto dele nas coisas de sua falecida irmã. Para isto ela pede ajuda ao filho de uma amiga, um jovem advogado , Randol (Ryan Reynolds), inexperiente ainda mas que após ir à Áustria será tocado pela história de sua família que também eram judeus e viviam lá, e com isto ele abraçará a causa de outra forma do que apenas por dinheiro. 



Será uma luta árdua nos tribunais, uma vez que a Áustria não está disposta a abrir mão do que considera sua "Monalisa" e menos ainda de ter que admitir o que realmente fizeram e de como receberam os nazistas de braços abertos. Mas atualmente há pessoas no país que já não aceitam isto e se envergonham, e para tanto desejam se redimir e limpar a memória de seus antepassados. Maria e Randol terão a ajuda de Hubertus (Daniel Brühl). 

A primeira tentativa na Áustria não surtirá efeitos. Eles iniciaram um processe de restituição de obras de arte roubadas, mas não destas grandes, isto eles não querem fazer. Alegam que Adéle doou em testamento o quadro ao museu, o que porém não é verdade, uma vez que o proprietário do quadro era seu marido que fugiu durante o nazismo e deixou seus bens para suas sobrinhas. E Adéle jamais teria expressado este desejo, porque era isto que era o suposto testamento, se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceria em seu país. 

Será preciso que surja a brecha para poder entrar com o processo nos Estados Unidos, uma vez que levar aos tribunais na Áustria é impossível pelo valor do custo. É a partir deste momento que as coisas começam a mudar. 

Há filmes e livros sobre o roubo das obras de arte pelos nazistas, mas este livro e filme se diferenciam porque contam a história do quadro e da família. 


Simon Curtis nasceu em 1960 em Londres, Reino Unido

quarta-feira, 1 de julho de 2015

FILME: SUITE FRANCESA - 2014


Direção: Saul Dibb - 2014
Duração: 102 min
Título Original: Suite Française
País: França - Bélgica e Reino Unido


Adaptação do livro homônimo de Irène Némirovsky.

Tenho o livro, mas ainda não o li. Irène Némirovsky começou a escrever Suite Francesa em 1941 enquanto estava refugiada num povoado francês. O que ela se propõe é levar para a ficção o que vivenciou na França durante a ocupação alemã. É um retrato impiedoso e voltado muito mais para alma humana e de como age o ser humano diante da guerra. O filme inicia com a fuga dos parisienses para o interior da França e a chegada dos alemães nestas regiões. Irène não chegou a terminar o livro, ela foi presa e levada para Auschwitz e morreu no campo de concentração. O manuscrito foi salvo, mas ficou desconhecido durante mais de 60 anos, sendo entregue para ser editado pela sua filha. 






Lucille (Michelle Williams) mora num povoado do interior com sua sogra Madame Angellier (Kristin Scott Thomas), uma mulher soberba e autoritária, que parece ignorar os fatos até que os alemães chegam ali e um deles vai se hospedar em sua casa. Aos poucos vamos vendo que se por um lado ela se interessava pelos lucros, por outro ela se mantém francesa e decidida a ajudar seu país, mas principalmente as pessoas perseguidas pelos nazistas, como Benoit (Sam Riley). Lucille, sua nora, cujo marido está na guerra, acaba se apaixonando pelo alemão que está na casa, Tenente Bruno von Falk ( Matthias Schoenaerts) e ele por ela. Mas este é um amor impossível neste contexto o que Lucille logo descobrirá. 





O que Irène descreve muito bem é como as pessoas agem. Vemos alemães ruins e cruéis, mas também vemos alemães como o Tenente Bruno que sofre com tudo aquilo, mas tem que se manter em seu lugar e agir de acordo. Já por outro lado muitas pessoas se aproveitam da situação para pequenas vinganças, e isto acaba criando situações tristes e doloridas para todos. Já aqueles que antes eram tidos como ruins, são capazes de gestos nobres e belos. A guerra retira as máscaras. 



Um belo filme. 

Saul Dibb nasceu em 1968 em Londres Reino Unido 

Irène Némirovsky nasceu em 1903 em Kiev, Ucrânia e faleceu em 1942 em Auschwitz, Polônia. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FILME: INVENCÍVEL - 2014




Direção: Angelina Jolie - 2014
Duração: 137 min
Título original: Unbroken

Cinebiografia de Louis Zamperini - herói de guerra

Baseado no livro de Laura Hillenbrand - Invencível - Uma história de coragem.


O filme é sobre a história de Louis Zamperini que sobreviveu a Segunda Guerra Mundial após passar por provações extremamente difíceis. 

Zamperini (Jack O'Connell) quando jovem tendia a uma delinquência por ser excluído pelos outros meninos provavelmente pelo preconceito, ele vivia nos Estados Unidos, mas era filho de italianos. Como sempre o diferente assusta. Foi graças a seu irmão mais velho que ao notar que ele era muito bom em correr dos outros que ele se tornou um atleta olímpico em corridas. Isto lhe deu um lugar e um sentido em sua vida. Ele devia correr em Tóquio nas Olimpíadas mas a Segunda Guerra se iniciou. 

Em uma missão de busca de companheiros desaparecidos no Havaí, o avião onde ele estava cai no mar, e é o início de sua odisséia. Foram 47 dias no mar, dos três que se salvaram no acidente, sobreviveram dois. Mas as suas dificuldades estavam apenas começando, eles foram resgatados pela marinha japonesa e eram inimigos.

Zamperini ficou nas mãos dos japoneses durante dois anos e teve um carrasco em especial, Mutsuhiro Watanabe (Miyavi), que fez de tudo para derrotá-lo ao perceber seu grau de determinação. 

Todos os prisioneiros passaram por momentos difíceis e de extrema provação. Alguns não resistiram, outros desistiram e acabaram colaborando para ter uma situação melhor e outros conseguiram. Zamperini é um deles, com uma coragem imensa, um desejo de viver fortíssimo, e muita determinação ele supera todas as provas e situações inimagináveis para nós que não passamos por uma guerra.

A guerra é algo difícil de emitir qualquer julgamento. Os americanos sofreram muito nas mãos dos japoneses, por outro lado também se conscientizaram da destruição que seu país provocou entre os civis no Japão, e isto antes das bombas atômicas serem lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki. Há um outro filme que fala do mesmo assunto que já postei aqui no Blog - Uma longa viagem.

Após a guerra Zamperini sofreu de stress pós-traumático, mas se recuperou. Ele morreu aos 97 anos. Watanabe foi julgado e condenado como criminoso de guerra pelos maus tratos que infligiu aos prisioneiros, porém ele fugiu. Ele era de uma família rica proprietária de hotéis e minas, estudou literatura francesa. Depois ele retornou a uma vida normal e quando Zamperini foi a Tóquio em 1998 ele declarou em uma entrevista que nunca se arrependeu e que tratou os americanos estritamente como inimigos do Japão e se recusou a receber Zamperini.

Esta é a grande diferença do que ocorreu com Lomax do filme Uma longa viagem que reencontrou seu torturador - Nagase Takashi e que após os dois falarem tudo que sentiam acabaram se tornando grandes amigos.

Louis Zamperini

Louis Zamperini

Mutsuhiro Watanabe

Mutsuhiro Watanabe

Angelina Jolie nasceu em 1975 em Los Angeles, Califórnia, EUA

sábado, 3 de janeiro de 2015

FILME: IDA - 2013


Direção: Pawel Pawlikowski - 2013
Duração: 82 min

Polônia - 1962. Anna (Agata Trzebuchowska) é uma jovem noviça que em breve vai fazer os votos para se tornar freira no convento onde vive desde pequena, porém a Madre obriga-a a conhecer seu único parente vivo antes disto, sua tia Wanda (Agata Kulesza). Anna não sabe nada de sua história e origem e sua primeira descoberta é que se chama Ida e é judia.



Wanda é uma mulher amargurada, uma promotora e membro do partido comunista. Ambas partem então em busca do passado e terão que enfrentar seus fantasmas e suas origens. 

A católica Anna terá que aceitar a Ida que ela conscientemente desconhecia, e para fazer isto ela irá se identificar com a tia imitando-a em determinado momento do filme, a identificação com sua família, sua história, ao lado da que construiu no convento que fez dela a Anna, ela terá que fazer uma escolha, mas somente após experienciar seu outro lado, como um ser dividido que é.




O filme recupera um momento triste da história da Polônia e da Segunda Guerra, especialmente na Polônia onde houve um antissemitismo forte por parte dos poloneses aos judeus, o que vemos retratado no filme na história dos pais de Anna e da posse da casa deles por um casal polonês que agora teme que as duas Tia e sobrinha queiram tomar posse novamente do que é delas. Isto ocorreu muito quando judeus sobreviventes retornaram e encontraram suas casas com novos moradores que nem os recebiam, ou fechavam a porta em suas caras. 

Tanto Anna quanto Wanda terão que se ver com o passado que até o momento estava oculto e arcar com isto. Tudo que fica reprimido acaba voltando e com mais força. E o filme talvez traga esta mensagem, que é necessário trazer a tona e colocar em palavras aquilo que muitos tentam esquecer. 


Pawel Pawlikowski nasceu em 1957 em Varsóvia, Polônia

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

FILME: UMA LONGA VIAGEM - 2013


Direção: Jonathan Teplitzky - 2013
Duração: 116 min
Tíítulo Original: The Railway Man

Adaptação da autobiografia de mesmo nome de Eric Lomax.

Um excelente filme. Conta a história real de Eric Lomax (Jeremy Irvine/Colin Firth) que durante a Segunda Guerra Mundial foi capturado pelos japoneses em Cingapura e obrigado a fazer trabalhos forçados na construção da ferrovia da Birmânia. 

Eric sobrevive e volta para a Inglaterra, porém o que se enfoca aqui é como ele está e seus amigos anos depois do fim da guerra, onde os traumas ainda atuam e o silêncio os perpetua. 

O grupo de soldados ao qual Eric pertencia eram engenheiros e por isto foram escolhidos para a construção da Ferrovia, mas foram poupados dos piores trabalhos, porque eles eram necessários devido seu conhecimento. Só que eles desejam fugir, e também constroem um rádio receptor para ouvir as notícias. Quando os japoneses apreendem o rádio começa o inferno deles. Eric se entregará como o responsável e será o que mais sofrerá nas mãos dos japoneses sendo torturado pelo Kempeitai - a polícia militar do Exército Imperial Japonês.


Anos depois Eric conhece Patti (Nicole Kidman) e se apaixona, eles se casam, porém ela logo descobrirá que há algo terrível com ele, que sofre de pesadelos, se ausenta, se torna agressivo. Patti procura Finlay ( Stellan Skarsgard) conhecido como tio, do grupo dos ex-combatentes que se reúne todas as semanas. Ele lhe conta sobre a história de Eric, porém ninguém sabe o que aconteceu quando ele foi levado por Nagase (Tanroh Ishida/Hiroyuki Sanada) para um quarto e também lhe fala que o torturador de Eric está vivo e lhe mostra um jornal. 

A história de Eric é importante no sentido de mostrar e falar dos traumas pós-guerra, onde não há heróis, não há triunfo, mas marcas que não se apagam e destroem vidas. Como diz Finlay - Não podemos amar, Não podemos dormir. Quando Patti lhe fala que Eric precisa falar sobre o que ocorreu no quarto ele responde: há coisas que são tão vergonhosas, humilhantes que não tenho certeza se alguma vez poderemos falar sobre elas, especialmente para que alguém que se ama. 

Ao saber que seu torturador está vivo Eric diz que não irá atrás, agora é um homem casado, mas Finlay lhe mostra que ele está punindo sua esposa com a maneira de tratá-la. Eric diz que durante anos ficou imaginando que tinha encontrado ele, fazendo ele implorar, gritar, me alimentei adormecendo sob esses sons. Após o suicídio de Finlay ele se decide a ir atrás de Nagase que agora trabalha como guia de turismo no museu sobre a estrada de ferro e a guerra. 

O encontro dos dois a sós coloca em palavras o que ambos sentiram e passaram. Eric entrará no quarto onde foi torturado e se recordará de tudo, irá interrogar seu agressor da mesma forma como foi feito com ele. Mas a questão aqui é que a guerra é algo que desvia as pessoas de sua conduta normal, é algo fora do contexto e que leva cada um a acreditar em algo, em seu país, e a ver o outro como um inimigo. Nagase também poderá falar para Eric tudo que sentiu e porque está ali trabalhando no museu, ele se culpa, sente remorsos e tenta com isto uma reconciliação.



É interessante pensar que as guerras acabam, e os países se reconciliam, mas são os que estiveram na guerra, os que sofreram suas consequências, os que acreditaram num causa que carregam os traumas psíquicos disto e irão transmiti-los aos seus descendentes. Geralmente há uma negação no pós-guerra, ninguém quer falar dela, querem esquecer, e isto produz um recalcamento que irá explodir a frente com o retorno de tudo, transformando isto num círculo sem fim. O que aconteceu com Eric e Nagase é um exemplo de força e coragem, onde dois homens enfrentam suas culpas e seus traumas, sua dor, sua vergonha e humilhação, e se redimem um diante do outro, justamente a vítima e o agressor, ali se transformam em homens, em seres humanos dignos. 

Eric diz que nunca falou sobre o que aconteceu, porque ninguém acreditaria. Nagase responde que eles também não. Mas ali, os dois podiam falar e ambos conheciam a verdade. Eric perdoou seu torturador, Nagase se redimiu, e ambos se tornaram amigos até a morte. Isto foi possível porque o que muitos não conseguem ver é que o agressor em determinadas circunstâncias é um ser humano que em outra situação jamais faria o que fez. Esta é a tragédia da guerra. Obviamente há os criminosos de guerra, os que tomaram as decisões, e há aqueles como os nazistas que acreditavam que fizeram o certo e em momento algum se arrependeram ou tinham remorsos. Mas quando há a possibilidade do confronto entre o agressor e a vítima  e o primeiro sabe que errou, carrega uma culpa, um remorso, reconhece o que fez, e se arrepende, aqui temos uma oportunidade de colocar em palavras todo o ódio, a dor, a vingança e a culpa, e isto muda tudo. 

Eric carregou as palavras dos japoneses que lhes disseram que não eram homens, eram covardes, pois eles teriam se matado para preservar sua honra ao invés de se entregarem. Aqui há uma questão cultural também, mas claro que estes soldados britânicos foram marcados por estas palavras, porém, Nagase também não se matou quando os americanos os capturaram, e reconhece que Eric suportou o que ele nunca suportaria, que ele jamais se rendeu. 

Jonathan Teplitzky nasceu em Sidney, Austrália. 

Eric Lomax e Nagase

Eric Lomax
Nagase
Patti Lomax 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

FILME: UMA VIDA ILUMINADA - 2005


Direção: Liev Schreiber - 2005 
Duração: 100 min 
Título Original: Everything is illuminated 

Baseado no livro de Jonathan Safran Foer. 

Jonathan (Elijah Wood) é um jovem americano que  após receber uma foto com uma corrente com a estrela de Davi decide ir até a Ucrânia atrás da mulher que salvou a vida de seu avô na Segunda Guerra Mundial. Como não fala uma palavra de ucraniano contrata um tradutor e guia, Alex (Eugene Hutz) que o acompanha junto com seu avô Alex ( Boris Leskin ) e sua cadela Sammy Davis Jr.Jr., seu cão guia, uma vez que se faz de cego.

O filme no início é leve e engraçado até, mas aos poucos, a medida que eles vão avançando pelo território da Ucrânia muitas lembranças da Segunda Guerra irão aflorar, principalmente para o avô de Alex que preferia ter esquecido tudo isto.

Jonathan tem uma estranha mania, colecionar coisas, mas sem nenhum sentido exceto as datas de quando ele coletou e que se relacionam as pessoas de sua família. Uma das peças desta coleção é um pingente que ele pegou no criado mudo de seu avô quando este faleceu. Ao olhar a foto ele reconhece o pingente no pescoço de Augustine, que seria a mulher que salvou seu avô. E também fica sabendo pela família que deveria procurar por um lugar chamado Trachembrod.

Ninguém conhece este local, mas finalmente o avô para em frente a uma plantação de girassóis e aponta uma casa e diz ao neto para ir perguntar lá. Uma senhora idosa atende Alex e após algumas tentativas ela diz para ele que ele encontrou Trachembord.



Ao entrarem na casa se deparam com muitas caixas, coleções de objetos, com datas e nomes. Como faz Jonathan. E ao lhe perguntarem se vive sozinha, diz que não e aponta para a coleção e a chama de Trachembord. Finalmente ela levara os três e o cachorro até o local onde ficava Trachembord e atualmente é sinalizada apenas por uma placa memorial com os dizeres: homenagem aos 1024 cidadãos mortos pelos nazistas em 18 de março de 1942. Então ela conta a história e o que aconteceu.



O filme é uma interação entre o passado e o presente, mas também entre alteridades, pois o avô de Alex não parece gostar muito dos judeus, e também irá surgindo no relato da história da guerra o quanto houve ucranianos anti-semitas. A cadela  que no início é violenta e parece meio insana acaba se afeiçoando a Jonathan que tem pavor de cachorros. Aos poucos o avô rabugento vai mudando, ao se confrontar com seu passado ele começa a ficar calado e taciturno, ou como diz seu neto, ele parece cada vez mais aflito.

Mas será através dos objetos que este passado irá se reconstruir, e se repetir também no presente, em ambas as coleções, aquela dos que morreram e a de Jonathan no presente. Ele tenta recuperar algo que poderia ter sido sua vida se não houvesse tido a guerra, e a senhora mantém vivo o passado através dos objetos e com isto acaba não se situando no presente, pois irá perguntar se a guerra acabou ao avô de Alex. Este por sua vez terá que finalmente se confrontar com seu passado.

No início do filme se faz uma referência ao passado como algo que deve ser enterrado e fazer parte apenas de lembranças, como memória, mas o que eles aprendem é justamente que é o passado que ilumina o presente, que tudo é iluminado pelo passado vindo de dentro para fora.

As paisagens do filme são belas, os campos, as cores, há referências ao tempo da União Soviética e a curiosidade de Alex sobre como é a América.

Liev Schreiber nasceu em 1967 em São Francisco, Califórnia, EUA

sábado, 19 de julho de 2014

FILME: DUAS VIDAS - 2013


Direção: Georg Maas - 2013
Duração: 97 min

Título original: Zwein Leben 

1990 - o murro de Berlin acabou de cair. Katrine (Juliane köhler) vive na Noruega há mais de 20 anos, casada com Bjarte (Sven Nordin),  tem uma filha e uma neta. Ela é uma das "filhas da guerra" que foram as crianças que nasceram de relações entre alemães e norueguesas durante a ocupação da Noruega na Segunda Guerra Mundial. Estas crianças foram retiradas de suas mães pelos nazistas e enviadas para serem arianos, acabaram em orfanatos.

Tudo ia muito bem até que um advogado lhe pede para testemunhar e a sua mãe Ase Evensen (Liv Ullmann)  num julgamento contra o Estado Norueguês a favor das crianças da guerra. A partir deste momento muitos segredos virão à tona.

Katrine teria fugido da Alemanha Oriental para encontrar sua mãe, Ase Evensen, mas ela carrega um segredo imenso. Num papel tanto de vítima como de culpada, não há como julgar Katrine.

O filme fala destas crianças que foram tiradas de suas mães e depois que a Alemanha perdeu a guerra foram discriminadas, pois também não eram bem vistas pela Noruega. Além disto trata da guerra fria e da espionagem, a Stasi - Serviço secreto da Alemanha Ocidental,  e agentes infiltrados em famílias norueguesas que até hoje não foram todos descobertos.

Um filme denso, que trata de vários temas em volta da Segunda Guerra e suas consequências seguida pela Guerra Fria. As escolhas, decisões tomadas durante uma guerra podem ser julgadas como os atos fora deste contexto? há realmente escolha em alguns momentos? e é triste ver que o que aconteceria à Katrine se sua escolha tivesse sido outra no começo de tudo o seu fim seria o mesmo que anos depois.


Georg Maas nasceu em 1960 em Aachen, Alemanha

terça-feira, 8 de julho de 2014

FILME: A VIDA É BELA - 1997


Direção: Roberto Benigni - 1997
Duração: 116 min
Título original: La vita è bella 

Ganhou três Oscar de melhor ator, melhor filme estrangeiro e melhor trilha sonora

O Filme é dedicado à memória do pai de Roberto Benigni que foi para um campo de concentração e ao relatar sua experiência procurava amenizar as coisas para que os filhos não sentissem o que ele passou.

Anos 30/40, Guido (Roberto Benigni) é um judeu que se muda do campo para a cidade. Apaixona-se por Dora (Nicoletta Braschi)  e se casam tendo um filho chamado Josué Guido. Esta primeira parte do filme é leve, gostosa, cômica. Guido é alegre e brincalhão e diverte a todos. Porém a segunda guerra começa.

Guido e seu filho são capturados e levados para um campo de concentração, a mãe decide ir junto, mas será separada deles. Guido então decide amenizar esta dura realidade para seu filho e lhe diz que é tudo um jogo e que quem fizer 1000 pontos levará para casa um tanque de guerra.

Com isto ele muda a realidade vivenciada para seu filho do horror para a fantasia, da realidade para um jogo. Mas para Guido é o confronto com o Real indizível e que ele leva para a fantasia dentro de um quadro de horror e total desamparo, para que tanto ele quanto seu filho possam ainda de alguma maneira viver, o que ele conseguirá para seu filho.

Fico pensando no que ocorre a um sujeito em uma situação extrema como um campo de concentração, onde tudo que ele tinha antes, onde se sentia seguro, onde havia o familiar, desaparece. Ele não tem mais nenhum poder sobre si mesmo, está totalmente à merce do outro e de sua vontade. A realidade que se transforma num real terrível. Ele perde toda a ilusão que possuía e que dá colorido à vida e se vê diante do total desamparo. Como proteger seu psiquismo disto? a si mesmo e aos que ama?

E Josué? que viveu uma fantasia, onde ao final do filme ele se ilude achando que o tanque dos aliados que libertam o campo é seu prêmio? Mas por outro lado, qual seria o efeito devastador da crueza e o real do campo para uma criança? e quantas passaram por isto.

A questão é que Josué ao crescer irá se defrontar com a história e os relatos dos campos e irá perceber que viveu uma fantasia e pensará em seu pai. Há como escapar apesar de tudo a esta herança psíquica? principalmente quando se viveu ali? Mas ele poderá transformar esta fantasia em uma maneira de dar sentido ao que não tem sentido, ou seja, a vida. Quando se escolhe viver é preciso construir esta vida, é o desejo, e não o por que?.

Podemos tirar uma lição importante do filme, de como tentar sempre construir algo simbólico em torno do real, por pior que seja.

A atriz Marisa Paredes faz o papel de mãe da Dora.

Roberto Benigni nasceu em 1952 em Castiglion, Fiorentino, Itália. 


Trilha sonora de Nicola Piovani 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

FILME: O PORTEIRO DA NOITE - 1974


Direção: Liliana Cavani - 1974
Duração: 117 min
Título original: Il portieri di notte 

Um filme que pode ser polêmico uma vez que trata de um oficial nazista que se esconde em Viena trabalhando como porteiro de um hotel e uma judia que foi presa no campo de concentração e torturada por ele. Não se trata aqui do bem e do mal, em colocar o nazista como um mostro e que deve pagar pelo o que fez e a judia vítima, mas sim, justamente quando a vítima se identifica ao agressor e o introjeta mantendo com ele uma relação de gozo, mesmo que na dor, e o agressor também participa deste gozo.

Lucia Atherton (Charllote Rampling) é uma sobrevivente de um campo de concentração, casada com um maestro que vai se apresentar em Viena. É o ano de 1957, portanto doze anos após o fim da guerra, e ela o acompanha. Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde)  é o oficial nazista que foi seu torturador e se esconde como porteiro de hotel. Os olhares se cruzam no instante em que ela o vê. Um olhar que diz muito, que marca, que revive, um traço. Aquele olhar que a viu, bem mais jovem, uma garota, nua.

Ela vai se recordando de cenas do que ocorreu no campo. Como ela poderia se negar a fazer o que ele queria? para sobreviver ela tinha que lhe obedecer, mas se a um tempo ele a torturava, a outro ele era gentil, gerando uma relação de amor-ódio. Ele um oficial, mais velho do que ela, com poder de vida e morte sobre ela.

Max também se envolveu nesta relação, ela a chama de "minha garotinha", e saiu de seu lugar de SS onde deveria torturar e matar para gozar esta relação sadomasoquista e "proteger" esta garotinha.

Além do olhar de Max ,ela está nua no campo, seu olhar a desvela, mas ele também a veste, como a uma criança, há os toques, o beijo em seu ferimento, o ato de lhe dar de comer na boca como se fosse uma criança. A vítima do abuso, do agressor sente o prazer que lhe vem dos toques originários, do olhar da mãe, e os confunde com o prazer que poderia ter numa relação normal com outro homem. Ela passa a precisar deste prazer, não de uma forma saudável, não é o desejo, é o gozo. Não se trata aqui de um prazer consentido, é algo que se rememora no corpo.

Ao se reencontrarem passam a reviver tudo isto de uma forma doentia e Lucia deixa o marido para gozar nesta dor que lhe dá prazer. Não poderia terminar bem isto. Na relação atual chega-se ao ponto de ambos serem vítimas, eles se trancam no apartamento de Max para se protegerem do grupo de nazistas que os persegue, acabam como no campo, com fome e sede. Só que bastaria ligar para a polícia, mas ninguém faz isto. Nem ele para salvá-la, nem ela para se salvar. Acabam não aguentando mais, se vestem como antes, ele com seu uniforme da SS e ela com um vestido de garota, como o que ele usou para cobri-la no campo e saem, são seguidos e mortos.

Ao olharmos o filme nos inquietamos, nos questionamos o que leva à isto? por que ela não o entrega? não o acusa? de onde esta impossibilidade? E ele? por que não faz o que o grupo ao qual pertence que elimina as testemunhas vivas costuma fazer: arquivar as testemunhas? ou seja, matá-las?

Liliana Cavani nasceu em 1993 em Carpi, Itália. Cavani realizou este filme para tentar compreender, reprojetar a relação de seus pais, sendo que o pai era facista e a mãe judia.