Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Yasemin Samdereli - 2011 Duração: 101 min Título Original: Almanya Willkommen in Deutschland Roteiro: Yasemin Samdereli e Nesrin Sandereli País: Alemanha
Este filme é muito atual, e nos mostra o lado oposto, de como se sentem os imigrantes ao chegar a um país e do quanto também estranham a cultura local.
Logo após a Segunda Guerra devido a falta de mão de obra a Alemanha abriu suas fronteiras para receber imigrantes, principalmente turcos.
Hüseyin (Fahri Yardim) era um jovem turco que se apaixonou por Fatma (Demet Gül), como a família dela foi contra o casamento eles fugiram. Mas a vida de casados e a vinda dos filhos não foi fácil, e por mais que Hüseyin trabalhasse nunca era o suficiente, até o dia que ouviu sobre as propostas de trabalho na Alemanha. Ele foi o primeiro a partir deixando sua família na Turquia. Mais tarde a família toda se mudou para lá.
Vemos logo no início do filme um garoto, o neto de Hüseyin (Vedat Erincin) que se encontra num dilema de identidade. Na escola ele não pode fazer parte do time de futebol dos turcos porque não fala a língua deles, e não pode fazer parte do time alemão, porque não o consideram alemão. E eis aí resumido o conflito que sempre acompanha os imigrados, a falta de um lugar, de reconhecimento e a pergunta: quem sou eu?
Nesta mesma época seu avô e sua avó Fatma (Lilay Huser) recebem o passaporte alemão, após muitos anos vivendo ali o que deixa Fatma feliz, mas não Hüseyin. Diante da situação de seu neto que chega em casa com um olho roxo devido a briga por causa dos times de futebol ele começa a remorar sua história, que vai sendo relatada por sua outra neta, que se encontra grávida do namorado, um inglês. Finalmente o avô se decide que é hora de passar férias na Turquia e compra uma casa lá. A família toda embarca para lá.
Ao longo do filme nos divertimos com as situações hilárias da vinda da família para a Alemanha e as diferenças culturais, o aprendizado da língua, as primeiras compras, o convívio com os outros. Também vemos a cultura turca na rememoração da vida dos avós quando jovens.
Durante as férias o avô acaba falecendo e novamente surge a situação: tem que ser enterrado no cemitério dos estrangeiros porque o passaporte é alemão, mas ele nasceu ali e viveu ali muitos anos. O filme retrata bem todas estas questões de ser de um país e viver em outro, de adquirir uma cidadania, mas de se manter fiel ao país de nascença.
Um bom filme para as questões atuais, mas enfocando não pelo lado eurocêntrico, mas do outro, e recordando a todos que a Alemanha em um momento e não somente ela, abriu suas portas por precisar de mão de obra. Coincidiu justamente com Angela Merkel declarando que alguns refugiados na Alemanha terão que voltar, e no filme é também ela quem concede o prêmio ao avô por sua dedicação à Alemanha.
Yasemin Samdareli nasceu em 1973 em Dortmund, Alemanha
Direção: Pedro Almodóvar - 2011 Duração: 120 min Título original: La piel que habito Roteiro: Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar País: Espanha Baseado no romance Mygale, renomeado como Tarântula de Thierry Jonquet e uma homenagem à escultora Louise Bourgeois.
Ganhou o Bafta 2012 como melhor filme estrangeiro e o Prêmio da Juventude em Cannes 2011
O filme retrata a situação limite refletida em dois personagens - Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas) e Vicente (Jan Cornet)/ Vera (Elena Anaya).
Robert é um reconhecido cirurgião obcecado por encontrar a pele que resiste ao fogo, picadas de insetos, a tudo que possa vir do exterior. Apesar de alertado pelo diretor do Hospital sobre ser anti-ético o que estava fazendo ele persistirá. Esta busca se explica inicialmente por sua esposa haver sofrido um acidente de carro onde ficou com o corpo totalmente queimado, e mesmo com todas suas tentativas de salvá-la, ela acaba se suicidando. Ele dirá numa conferência que a pessoa precisa de um rosto.
Robert continuará com suas experiências, e em sua casa vive Vera que usa uma segunda pele e lhe serve de cobaia para suas experiências com peles que obtém através de métodos transgênicos e com sangue animal. Há também Marília, sua fiel empregada (Marisa Paredes) que cuida de Vera, mas percebe-se que esta está presa ali.
O filme inicia em 2012, mas retornará ao passado para que possamos compreender o que o levou a esta obsessão. Robert é filho de Matilde com um homem rico que o adotou pois sua esposa era estéril, mas ela também teve um outro filho com um empregado da casa que é chamado de Tigre. Uma mulher fria, distante, que cuida do bem estar do filho, mas não é amorosa. Tigre por sua vez cresceu nas ruas, como um animal abandonado, sem lar. Gal a esposa de Robert se apaixonará pelo meio-irmão de Robert e fugirão juntos, justamente quando ocorrerá o acidente com o carro se incendiando.
Robert e Gal tem uma filha, Norma (Blanca Suárez). Ao ouvir sua filha cantando Gal irá até a janela e então verá seu reflexo no vidro da janela e não suportando o que viu se suicida jogando-se pela janela e caindo em frente à sua filha que se traumatiza e passa a sofrer de fobia social.
Numa festa Norma começa a olhar um rapaz e acabam saindo para o jardim. Ela quebra o salto de seu sapato e o retira, também a blusa dizendo que não suporta roupas, ou talvez, a pele que habita, e isto instiga o rapaz a avançar. Fica uma incógnita se ele efetivamente a estuprou, pois ele para quando ela começa a gritar Não! dá-lhe um tapa para fazê-la parar e foge. Seu pai a encontra e ela está desmaiada, porém ao acordar ela vê no pai o agressor.
Ela será internada, não suporta mais ver o pai, e acabará se matando, repetindo a mãe. Seu pai que viu o agressor fugindo irá atrás dele e o capturará, e como vingança o transformará na cobaia para seus experimentos, inicialmente com uma vaginoplastia, e o transformará em Vera, a mulher ideal, aquela que não o abandonará, que terá uma pele resistente à tudo.
Até aqui o que vemos é o lado limite de Robert. Um filho que não teve o amor, o contato da pele de sua mãe, e que perdeu suas mulheres. Primeiro a esposa para seu meio-irmão e depois ela e a filha pelo suicídio. Ele busca esta mãe que lhe falta, ele deseja uma mulher idealizada que não o abandonará, que resistirá a tudo. Por outro lado, ele não soube reagir as supostas ofensas, não se libertou da mãe e do desejo de ser amado por ela, não se vingou do meio-irmão e da esposa, não necessariamente em ato, mas no simbólico, mas ao contrário, ele tenta salvá-la e ficar com ela que novamente o abandona. E sua filha é a repetição de tudo isto, ela também o deixa.
Quando Tigre retorna ele estuprará Vera, mas desta vez quando Robert chega, ele o matará, vingando-se deste primeiro que lhe tomou a mulher e que ele não aceitou perder. Por outro lado Tigre tenta se apoderar do que supõe ser seu direito, do que poderia ser seu, se não tivesse sido abandonado pela mãe, e se vinga do meio-irmão conquistando sua mulher.
De outro lado temos Vicente, que tem uma mãe amorosa, que está apaixonado por Cristina que é homossexual e o rejeita como homem. Ele é sequestrado por Robert e se vê transformado num objeto, no objeto de gozo e desejo do cirurgião. Aqui temos o outro estado limite, como lidar com esta pele que habito mas que não é a minha, que não tem referências, que não tem marcas, ou seja, transformado num organismo, e não mais em um corpo. Uma pele fina totalmente resistente, um corpo de mulher. A primeira coisa que ele faz é tentar passar ao ato, fugir, se matar. Não consegue. Então ele começa através da Yoga a buscar dentro de si o que é, e usando restos de tecidos dos vestidos de Gal, com linha e costura ela vai esculpindo algo, através da escrita na parede ele tenta se reconstituir. Aqui a referência à Bourgeois, com seus morcelés, o corpo fragmentado.
Resta-lhe o agressor, a única coisa que lhe resta e ele se entrega ao gozo deste outro. Nas cenas finais, quando ele vê no jornal sua foto e a informação que sua mãe nunca desistiu de encontrá-lo, algo se reconstitui deste antigo Outro, e é o momento que ele para se livrar do carrasco e de ser objeto, ele mata.
Retorna para sua casa, Cristina é a primeira a saber o que lhe ocorreu. Ele usa o vestido que desejou ver Cristina usando e que ela por ser homossexual lhe disse para que vestisse, agora ele o veste, ela veste. Fica a pergunta, será que agora ele/ela poderá estar no lugar do desejo de Cristina?. E sua mãe, o aceitará como mulher? Fica a incógnita que Almodóvar nos deixa.
A presença da referência à Louise Bourgeois é belíssima e muito bem elaborada no filme, uma vez que a artista sempre trabalhou seu inconsciente e tudo que lhe era de dentro em suas obras, a dor, a frustração, o amor, o ódio, seus agressores internos, sua identificação, através do corpo que se expressa na arte. Bourgeois sentia o cruel e o trágico da existência humana.
Pedro Almodóvar
Música de Alberto Iglesias
Alberto Iglesias nasceu em 1955 em San Sebastián, Espanha.
Direção: Woody Allen, 1983 Duração: 79 min Roteiro: Woody Allen País: Estados Unidos
Woody Allen nos apresenta um pseudo-documentário, onde aparecem inclusive personagens conhecidos como Susan Sontag, Saul Bellow entre outros para falar sobre a vida de Leonard Zelig, um homem-camaleão. É uma ficção, drama, sátira.
Um homem, Leonard Zelig, que com medo de não agradar aos outros transforma-se no outro feito um camaleão, acho até que é mais que isto, pois um camaleão se iguala ao meio ambiente para não ser encontrado, enquanto que Zelig quer ser amado pelo outro.
Perde sua identidade, não sabe quem é, não tem opinião. Exatamente como a maioria das pessoas, que para pertencer, não ser excluído entra na roda e dança como todos.
Depois, é o outro extremo, ele quer se afirmar e então só a opinião dele é que vale, é a verdade. Como a outra maioria das pessoas, para se auto-afirmar, se sentir forte e poderoso.
Num momento o povo o ama, no outro o odeia, conforme atenda ao que todos desejam, acham correto, é moral. Por ir contra a moral com o adultério, fraudes, passa a ser odiado. Com um feito que dá glória ao povo, atravessar o Atlântico em tempo recorde, volta a ser amado.
Enquanto isto a mídia manipula, dando ênfase a coisas absurdas ou minímas. Como sempre faz.
E o futuro é este, doutores, psiquiatras e pacientes. E ele se sente salvo pelo amor de uma mulher. É amado.
Um retrato tragicômico do que somos! Todos nós queremos ser amados, mas também queremos ser autônomos, então viramos pequenos camaleões.
Assista ao trailer
Woody Allen nasceu em 1935 em Nova Iorque. É cineasta, roteirista, escritor, ator e músico. Foi indicado 23 vezes ao Oscar e ganhou três vezes o de melhor roteiro original e uma de melhor diretor.