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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS - NOEMI JAFFE



Jaffe, Noemi. 1ª ed. Companhia das Letras, 2015
222 páginas

Um belíssimo livro sobre traumas, sobre falta, sobre como construir uma história para dar conta de uma incompreensão sobre sua origem. 

Írisz foge da Hungria após o fracasso do levante contra a União Soviética, ela vem para trabalhar no Jardim Botânico em São Paulo onde conhece Martin. Através de seus relatórios para ele aos poucos ela nos conta sua história. O desconhecimento do paradeiro de seu pai que sua mãe queria acima de tudo esquecer, sua desilusão com o levante em seu país, sobre Imre, o homem que ela ama e que não quis deixar o país em função de um ideal e um sonho. Aos poucos ela vai questionando tudo, lidando com sua culpa por ter deixado a mãe doente e Imre e vindo para o Brasil, culpa esta que ela sustenta, sem se deixar abater por ela. 

Írisz constrói uma história, uma ficção para compreender seu pai, e também sua mãe. Ela aprende a ler nos silêncios, nos olhares, nos gestos, o que sua mãe obstinadamente esconde dela sobre seu pai. É a busca de sua origem, de sua filiação, que ela elabora, onde podemos ver acontecendo numa vida o que a psicanálise tenta construir numa análise. 

Por outro lado temos Martin, que abriu mão de tudo em prol do comunismo. Nunca se casou, não teve filhos, viveu em função deste ideal e que agora também desmorona, principalmente com as notícias que chegam do massacre em Budapeste. A idealização que se desmonta, a desidentificação a algo, tudo aparece nos escritos de Martin, cartas que ele escreve para Írisz. 

Há uma terceira voz, que seria como o coro grego, que surge no meio da leitura nos dando outras informações. E é belo de acompanhar as metáforas de que Írisz se utiliza com as orquídeas para se explicar, se compreender. 

Um livro profundo, bonito, muito bem escrito. Recomendo!!

Noemi Jaffe nasceu em 1962 em São Paulo. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

LIVRO: TENHO ALGO A TE DIZER - HANIF KUREISHI



Kureishi, Hanif. Companhia das Letras, 2009
501 páginas
Tradução: Celso Nogueira
Título Original: Something to tell you

Jamal Khan é quem narra a história. Ele é um psicanalista londrino, filho de um paquistanês e de uma inglesa e tem uma irmã Mirian. Está divorciado e tem um filho. 

O livro aborda o mundo atual, a mistura cultural, a depressão, o desejo, o medo de terroristas, um filho na adolescência, a separação, a solidão, os desajustes. Transita em todos os níveis sociais e percebemos que em todos eles a situação humana se repete, mesmo que o cenário seja outro. 

Lembrou-me um pouco o relato de Theodore Dalrymple sobre a periferia de Londres, mas vai além. Jamal carrega uma imensa culpa e um amor frustrado na adolescência. Precisou fazer análise e depois ele mesmo vira um psicanalista. Mas o livro não foca apenas a psicanálise, vai muito além narrando a família atual e a vida de Jamal longe de seus pacientes, de seu amigo Henry, um artista frustrado que se apaixona pela irmã de Jamal, que é depressiva, faz uso de drogas, e abusa do sexo. 

Uma visão cinza do mundo ocidental e todo seu vazio existencial e das consequências disto. A tentativa de preencher este vazio e driblar suas dores através de drogas ou sexo. O submundo aparece, mas não apenas na periferia, também nas mansões luxuosas. 

O livro preferido de Jamal é o Mal Estar da Civilização de Freud, não à toa, pois o livro todo é como revisitar este texto escrito há tantos anos, mas totalmente atual. 

Hanif Kureishi nasceu em 1954 em Bromley, Reino Unido

terça-feira, 4 de novembro de 2014

LIVRO: GRANDE IRMÃO - LIONEL SHRIVER


Shriver, Lionel. 1ª ed. Intrínseca, 2013
336 páginas
Tradução: Vera Ribeiro
Título Original: Big Brother

Iniciei a leitura deste livro pensando em como age o psiquismo de alguém que começa a comer sem parar e engorda muito, o que o levaria à isto, mas acabei não atingindo esta expectativa o que não tira o mérito do livro que é brilhante, mas no sentido de nos mostrar como se sentem as pessoas que convivem com pessoas obesas e o que isto reflete nelas.

Pandora é a filha do meio, mas se considera a caçula em relação ao irmão, uma vez que sua irmã nasceu em um época diferente onde não compartilhou junto aos dois mais velhos de várias coisas da família. Então Edison e Pandora eram muito unidos.

Cada um seguiu seu rumo, Edison partiu cedo, aos 17 anos para tentar uma carreira de músico. Pandora foi para a faculdade e depois mais tarde conheceu seu marido com quem casou e recebendo junto os dois filhos do primeiro casamento dele que ela passa a considerar como seus. Fletcher o marido de Pandora em determinado momento vira um adepto de uma vida natureba, passando a proibir em sua casa comidas que ele considera maléficas, como por exemplo, pizza ou tortas com creme, mas adora dar uma garfada escondida nos quitutes que Pandora deixa propositalmente na bancada da cozinha quando ela faz algo assim. Ele também é obcecado por andar de bicicleta.

Pandora diante disto um dia faz um boneco que ao puxar o cordão recita tudo do jeito que seu marido fala, o que inicialmente o zanga, mas com as gargalhadas de todos ele acaba aceitando. E sem querer ela acaba descobrindo uma forma de ganhar muito dinheiro, pois aos poucos começam a chegar pedidos. Seu marido por sua vez é um marceneiro, mas faz móveis que acabam ficando muito caros e não tem mercado, então ele trabalha no porão da casa deles, mas não é o provedor do lar.

Tudo caminha desta forma até o dia que um amigo de Edison liga para Pandora pedindo ajuda em relação a ele, e esta imediatamente se propõe a recebe-lo em sua casa o que não irá agradar ao seu marido. No dia da chegada ela vai ao aeroporto buscá-lo e se surpreende diante de algo que jamais poderia imaginar, o gordo dos quais alguns passageiros falavam coisas horríveis é seu irmão.

A convivência com seu marido não será fácil o que levará Pandora a ter que tomar uma decisão.

Não posso falar mais sobre o livro pois isto tiraria o prazer de quem quiser lê-lo.

Pandora parece oscilar entre o desejo de cuidar de sua vida e deixar ao irmão a questão sobre sua obesidade e saúde, ou assumir esta responsabilidade e assim evitar a culpa que ela sente se lhe voltar as costas. Ela parece não saber encontrar uma alternativa entre estas duas situações. Ao mesmo tempo percebemos que ela tem dificuldades em aceitar seu sucesso com a empresa dizendo sempre que isto vai acabar, mas talvez no fundo o que sinta é um incomodo por ser a provedora da família enquanto seu marido faz seus móveis artesanais, mas não ganha dinheiro com isto. Ela então para amenizar isto age sem ocupar o lugar que é dela, e evita qualquer posicionamento onde ela teria que conduzir as coisas como deseja.

Ao mesmo tempo vemos no relato da história que seu irmão acabou engordando por ter perdido seu lugar no mundo do jazz e  ter se confrontado com o sucesso da irmã, que saiu até na capa de um importante revista. Pandora por outro lado não consegue sustentar isto, ela vive dizendo que não aguenta OUTRA sessão de fotos, só que ao dizer isto ela já revela seu sucesso que não consegue suportar.

A questão é:  Pandora é responsável pela obesidade de seu irmão? A meu ver não, por mais que ele tenha compensando suas frustrações que em parte ocorreram por ter perdido seu lugar no mundo musical e em parte ter perdido seu lugar como irmão mais velho o que indiretamente envolve Pandora, ela não é a responsável por isto. Mas ela não consegue lidar com a culpa que sente e isto faz o livro ser brilhante, pois ao criar uma ficção ela se expressa, expressa seus desejos, medos e culpas. Também faz uma revisão de toda sua história familiar, infância e a questão do pai que era um famoso astro da TV.

O final surpreende quando nos damos conta de como Pandora vai encontrar uma saída para seu dilema.

Lionel Shriver nasceu em 1957 em Gastonia, Carolina do Norte, EUA. É autora de Precisamos falar sobre o  Kevin que virou filme.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

LIVRO: A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA - MILAN KUNDERA



Kundera, Milan. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014
134 páginas
Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
Título Original: La Fête de l'insignifiance

Projeto um livro por país.
País: República Tcheca


Cinco amigos que vivem em Paris em seu cotidiano nos mostram o quanto a vida é insignificante, onde tudo se repete e não há mais individualidade. Alain chega a esta conclusão ao se dar conta que o erotismo se transferiu das coxas, bundas e seios para o umbigo que agora todas mostram, mas o que há de erótico em um umbigo? É possível distinguir uma mulher amada ou desejada pelas suas pernas, bunda ou seios, mas pelo umbigo? são todos iguais.

Charles e Calibã se divertem no trabalho organizando coquetéis onde Calibã finge ser um paquistanês. Para isto inventam uma língua, só que ninguém repara, ninguém se interessa, é um ator sem público. Ramon está interessado em uma mulher nesta festa, mas ela vai embora, e justo com quem? com o mais silencioso e apagado da festa, que parece que com seu silêncio chamou mais a atenção. Além disto ele deseja ver a exposição de Chagall, mas desiste toda vez por causa da fila. Fica irritado com isto e comenta com Alain que desde quando todos eles se interessam por Chagall? ou estariam simplesmente matando tempo devido ao tédio?

D'Ardelo acaba de receber a maravilhosa notícia de que não está com câncer, mas ao encontrar Ramon sem saber porque mente e diz que está doente. Talvez uma forma de dar alguma sentido à sua existência? Como Alain que sempre imagina como seria seus diálogos com sua mãe que o abandonou na infância e na única vez que se encontraram fixou seu olhar em seu umbigo. Um umbigo sem mãe, sem ter a quem se atar, mas que mesmo assim vai permanecer sem o corte.

Paralelamente vemos um teatro, onde Stálin se diverte apavorando seus companheiros. Ele sabe que os domina e que jamais emitiram sua própria opinião, exceto o mais tolo de todos, Kalinin que sofre de problemas de contenção de urina e precisa ir ao banheiro a todo instante,o que acaba gerando ternura em Stálin que o homenageia mudando no nome da cidade de Kant para Kaliningrado. Stálin debocha do medo  de todos que os leva a serem submissos à ele e talvez por isto goste de Kalinin que suporta até onde pode sua vontade de urinar até que molha as calças ali mesmo atendendo á sua necessidade.

Há um pequeno capítulo sobre a culpa e o eterno pedido de desculpas que vale a pena ser lido.

Um livro curto mas que diz muito. O desencanto da vida, a futilidade que reina, a insignificância de cada um de nós. O livro é um alerta. Realmente vivemos num mundo onde a futilidade, o consumismo, a mesmice é visível, porém acredito na capacidade de cada um de construir um sentido para sua vida, mesmo que seja através de um teatro, porque no fundo, a vida é um teatro, um romance de ficção que nós mesmos escrevemos.

Milan Kundera nasceu em 1929 em Brno, República Tcheca. Vive atualmente em Paris e se naturalizou francês.