VIDAS SECAS
GRACILIANO RAMOS
RECORD - 1984
LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE
Vidas Secas é um daqueles livros lidos
na juventude que permanecem como imagem, quase como cicatriz. No meu caso, o
que ficou de forma mais nítida foi a morte de Baleia. Não apenas por ser uma
cadela, mas porque Graciliano Ramos consegue concentrar nela uma humanidade
que, ao longo do livro, vai sendo arrancada dos próprios personagens humanos.
Baleia sonha, sente, imagina um mundo melhor, algo que a seca, a fome e a
miséria já haviam tornado quase impossível para Fabiano, Sinhá Vitória e os
filhos.
A seca não é apenas um fenômeno natural no
romance; ela é estrutura de vida, destino imposto, força que empurra à
migração, ao deslocamento contínuo, à perda de qualquer possibilidade de
enraizamento. A família caminha, trabalha, foge, retorna, sempre sem escolha. A
migração não é aventura, é expulsão. O sertão não aparece como espaço mítico,
mas como lugar de sobrevivência mínima, onde o tempo se repete sem promessa.
O que impressiona em Vidas Secas é a
linguagem seca, contida, quase árida, que acompanha a experiência dos
personagens. Há pouco espaço para elaboração emocional, porque a própria vida
não oferece esse espaço. A violência é cotidiana, a humilhação é naturalizada,
o silêncio é uma forma de existência. Graciliano escreve como quem retira tudo
o que é excesso, deixando apenas o essencial — e o essencial é duro.
Mesmo lido muito jovem, o livro já se impõe
como denúncia. Não há heroísmo, não há redenção. Há apenas a exposição de um
Brasil que empurra seus habitantes para fora de si mesmos. A morte de Baleia,
tão lembrada, talvez seja o momento mais doloroso justamente porque revela o
quanto a sensibilidade ainda resiste ali, mesmo em condições extremas.
Voltar a Vidas Secas hoje é perceber
que ele continua atual. A seca, a migração forçada, a pobreza estrutural, o
deslocamento de populações inteiras seguem presentes. O romance permanece como
um espelho incômodo, que nos obriga a perguntar até que ponto essa história
realmente ficou no passado — ou se seguimos, de outras formas, caminhando sob o
mesmo sol.
Graciliano Ramos nasceu em
Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um
escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro.





















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