O PAÍS DAS MULHERES
VERUS – 1ª ED. – 2011
Tradução: Ana Resende
220 páginas
Título Original: El país de las mujeres
Gioconda Belli nos presenteia com uma
utopia feminista. Um país fictício – Fáguas, na América Latina -, onde a
incompetência masculina em governar leva ao poder um partido chamado PEE
(Partido da Esquerda Erótica).
O interessante é que um grupo chamado
PEE- Partido da Esquerda Erótica, realmente existiu nos anos 80, na Nicarágua,
durante a Revolução Sandinista, e discutia questões relacionadas aos direitos
das mulheres. O grupo se manteve ativo durante muitos anos.
A autora se utiliza de um humor fino e
satírico para demonstrar como seria um mundo governado por mulheres que não se
adequassem ao poder masculino, mas pelo contrário, criassem algo totalmente
novo.
“Qual é minha ideia? Vejamos. Já
existem algumas mulheres presidentas. Isso não é novidade. O que não existe é
um poder feminino.” (pag. 82)
A candidata à presidência também
propõe o que chama de Felicismo. “A felicidade per capita e não o
crescimento do produto interno bruto como eixo do desenvolvimento. Medir a
prosperidade não em dinheiro, mas em quanto mais tempo, mais tranquilas,
seguras e felizes vivem as pessoas.” (pág. 85)
Cinco mulheres se unem para criar o
Partido – Viviana, Martina, Eva, Rebeca e Ifigenia. Elas vencem as eleições
após uma campanha que se utiliza de humor e apresenta um projeto de governo
muito diferente daquele a que o povo estava habituado. Este resultado também
foi influenciado pela erupção do vulcão Mitre, que exala uma fumaça que baixou
o nível da testosterona masculina, deixando os homens mansos e calmos.
As mudanças introduzidas pela nova
presidenta e pelas quatros ministras são revolucionárias. Ao perceber que,
havendo homens no governo, as mulheres ainda se comportavam como submissas
diante deles, que sempre acabavam debochando e criticando as ideias que elas
apresentavam, Viviana Sansón, a presidenta, decide afastar todos os homens dos
cargos públicos, inclusive da polícia e do exército, e colocar somente mulheres
nesses postos.
Os homens afastados recebem um salário
por seis meses e devem assumir os trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos,
para que suas esposas possam trabalhar fora do lar. Além disso, foram criadas
creches comunitárias e escolas nos bairros, construídas pelos homens; concursos
para as regiões mais limpas da cidade, que eram premiadas com isenção do
pagamento de água e luz por um período; e também punições severas contra
abusadores e estupradores de mulheres.
No entanto, obviamente, nem todos
estavam gostando de tudo isso, principalmente quem perdeu a eleição, um juiz
que foi desmascarado por Viviana, quando ainda era jornalista e estava
envolvido em prostituição e tráfico de mulheres, além de outros homens. No
segundo ano do mandato, durante os festejos em uma praça pública, Viviana sofre
um atentado, sendo baleada em dois lugares – o baço e o cérebro.
Durante sua hospitalização, enquanto permanece
em coma induzido, ela entra em um mundo paralelo, em um galpão onde estão
objetos que se referem à sua vida. Cada vez que ela toca um deles, rememora um
momento vivido, sua trajetória e seu governo. Enquanto isso, as outras quatro
mulheres seguram o governo e buscam o pistoleiro e o responsável pelo atentado.
Não menciono o final em respeito aos que irão ler o livro.
Podemos fazer críticas ao livro também.
Por exemplo, por mais que a autora trabalhe a questão do cuidado como algo que
deva ser igualitário, há momentos em que aparece, ao fundo, um certo
essencialismo. Viviana considera o governo como ser uma mãe para o povo.
Se as mulheres governam porque são
socialmente construídas para cuidar, estamos realmente diante de uma nova
concepção de poder ou apenas transferindo para o Estado o papel tradicional de
mãe?
No entanto, a autora levanta uma
questão que me provoca há muito tempo: como nós nos pensamos como mulheres?
Afinal, o que é o feminino? E concordo com Viviana quando ela diz que deixamos
que nos convencessem de que nossas maiores qualidades são fraquezas. Muito se
discute sobre a questão natureza/cultura, e o que mais encontramos é uma
crítica a essa divisão, considerando que, na modernidade, colocou-se a mulher
na natureza e o homem na cultura. Porém, Vandana Shiva defende que estar na
natureza é ocupar o lugar de maior valor, uma vez que é a vida. Existiria
cultura sem vida?
Sim, foi necessário, primeiramente,
combater toda a visão masculina, misógina e machista sobre a mulher. Afirmar
que não somos apenas aptas a procriar, cuidar de casa e dar prazer aos homens,
como queria Rousseau em seu livro “Emílio ou da educação”. Mas penso que também
temos que definir, em algum momento, o que é ser mulher. E, ao invés de colocar
alguns valores, como cuidado, maternidade, afeto e intuição, como algo menor,
essencialista e pertencente ao lugar que a sociedade nos colocou, também
podemos, sim, defender esses valores como tão bons quanto a razão, a lógica, o
intelectual e o profissionalismo.
O livro é uma escrita que flui, fácil
de ler, mas que traz observações que podem nos levar a grandes reflexões.
Gioconda Belli nasceu em Manágua,
Nicarágua, em 1948. É uma poetisa e romancista nicaraguense.
























