JOÃO GUIMARÃES ROSA, BIOGRAFIA
LEONENCIO NOSSA
NOVA FRONTEIRA – 1ª ED. – 2026
736 páginas
SENSACIONAL!!!!!
Leonencio Nossa nos oferece uma
biografia corajosa sobre um escrito cultuado no Brasil, não se furtando a dizer
quem era realmente o homem Guimarães Rosa, o que em momento algum desmerece a
grande literatura de Rosa e suas obras, mas que nos traz um perfil muito diferente
daquele que podemos imaginar de um grande escritor. Nada que realmente
surpreenda nesse sentido, uma vez que temos outros grandes escritores que, na
vida pessoal, não foram exatamente o exemplo de um ser perfeito e maravilhoso,
aliás, coisa que nem existe.
Mas, mesmo assim, o autor da
biografia é corajoso ao falar de Guimarães Rosa longe do que normalmente
sabemos de sua vida através de estudos acadêmicos, por exemplo. Eu já havia
lido “Justa” a biografia de Aracy Guimarães escrita por Mônica Schpun, então
não me surpreendi muito com as desmistificações que Nossa faz sobre Rosa
durante o nazismo em Hamburgo.
É um livro impossível de
resenhar, é preciso acompanhar, ler, e por isso vou trazer os trechos que me
espantaram, impactaram ou me trouxeram informações desconhecidas.
O livro inicia, como toda
biografia, com a infância de GR, mas vai além, porque traz também a história de
Minas Gerais, os políticos, o coronelismo, as grandes famílias e o poder que
exerciam. Por outro lado, o provinciano, o cotidiano e a vida mais simples.
Logo no início temos uma árvore
genealógica, que infelizmente foi mal desenhada, dificultando um pouco a
compreensão. Mas, lendo, vamos compreendendo a família e também o quanto cada
familiar foi representado depois em algum momento na literatura rosiana. Também
é interessante o lado da família negra de Guimarães, o que eu desconhecia,
sendo seu avô, Luis Guimarães, um filho bastardo de Nhô Chico com uma mulher
negra, onde encontramos os ecos de Riobaldo e de Selorico Mendes em Grande
Sertão: Veredas.
São muitas páginas, mas que
fluem, é uma leitura saborosa, fácil de ser feita. Então não se assustem com o
tamanho da obra. Há belas fotos que nos ajudam a “ver” melhor o que o livro
retrata.
O livro traz inúmeros trechos de
cartas escritas pelo próprio Guimarães, e algumas de fato, me deixaram pasma.
Há uma certa mediocridade no pensamento dele, mesmo que eu considere que é um
homem tradicional, conservador, machista e patriarcal. Um exemplo é uma carta
de um grande amigo pedindo ajuda para conseguir vistos para duas moças judias com
família no Brasil, para que escapassem dos nazistas. GR não atende ao pedido,
alegando que o endereço de moradia não correspondia ao consulado de Hamburgo,
mas ao de Berlim, que, no momento, não fornecia vistos seguindo as normas
diplomáticas brasileiras. Ao final da carta, vem algo que foi repugnante para
mim, quando GR diz, em tom de brincadeira, que o amigo bem sabe que, se
dependesse dele, já teria enviado uma para certo conhecido e outra para ele
mesmo, e em seguida diz: “ops, me esqueci que você é casado e pai.”
Outro ponto que me chamou muito a
atenção são as críticas que GR faz aos outros escritores. Ele simplesmente
destrói Machado de Assis, mas também critica muito Jorge Amado e Érico
Veríssimo, alegando que este último seria uma literatura popular. Nos anos em que
GR viveu, o eurocentrismo era muito forte, e, para ele, as grandes obras são de
autores europeus. Tem preferências que eu mesma já li, mas reconheço
preconceitos, orientalismos e eurocentrismo. Por outro lado, admira
Dostoievski, Thomas Mann e alguns outros grandes da literatura.
O interessante é o processo, ou
melhor, a técnica que ele utiliza para depois escrever suas obras. Está sempre
com uma caderneta de anotações, viaja muito, faz perguntas, observa tudo,
principalmente os animais, as plantas, as aves. Faz uma descrição belíssima no
Grande Sertão: Veredas do sertão, não como algo geográfico, mas o incorpora à
vida sertaneja. Também gosta de conversar, faz muitas perguntas, ouve os causos
e casos, e pede ajuda ao pai para que lhe relate histórias que ele esqueceu e
que eram contados na mercearia de Florduardo, e o menino ficava ouvindo
encantado.
Também chama muito a atenção os
estudos de línguas como a latina e grega, além da utilização das línguas
indígenas e regionais. Aprendeu francês com um padre e depois outra línguas,
como alemão, inglês, italiano e até mesmo o russo. Isso lhe deu a formação para
trabalhar com os neologismos, o oral na escrita e toda sua criação literária
posterior.
Leonencio Nossa faz uma pesquisa
extremamente profunda sobre Guimarães Rosa, tanto de sua vida como da
utilização das pessoas que conheceu e dos elementos naturais e geográficos que
se transformam em personagens e cenários em suas obras. Sua capacidade
imaginária de criança que lhe dará a facilidade para depois criar suas obras.
Finalmente, GR publica “Corpo de
Baile” e, em seguida, “Grande Sertão: Veredas”, sua obra-prima. Nesse momento é
interessante que ele passa então a não mais criticar autores brasileiros e faz
amizade, inclusive, com Jorge Amado. Deixa-me a impressão que, no começo, havia
uma imensa insegurança de GR diante desses autores, buscando diminuí-los para
assim obter um lugar possível para sua própria obra, diferenciando-a ao mesmo
tempo, ou seja, afastando-se do regionalismo, principalmente o nordestino.
Rosa se candidata pela primeira
vez à Academia Brasileira de Letras – ABL, e acredita que possa ganhar. No
entanto, Afonso Arinos entra na disputa e acaba ficando com a cadeira que foi
de José Lins do Rego. Rosa novamente fica em segundo lugar, o que não o agrada
nem um pouco.
É o momento da construção de
Brasília, e Rosa vai várias vezes até lá, mas fica claro, apesar de ele não
dizer isso publicamente, que a cidade moderna o desagrada. Ele é um homem que,
por mais cosmopolita que seja, sempre, no fundo de si mesmo, é um sertanejo e
que ama o meio ambiente, as plantas, as árvores e os bichos, o que não entra no
plano de uma cidade moderna.
Guimarães Rosa é um homem
conservador e, apesar de não se pronunciar publicamente sobre questões
políticas, vemos em suas cartas e também em alguns relatos que foi um apoiador
dos militares, o que inclui o golpe de 64, que segundo ele, teria salvado o
Brasil. Ele, inclusive, em encontros com outros escritores, procurava nunca
falar de política e chegava ao ponto de ir embora quando o assunto era esse.
Como diplomata, tinha uma posição delicada, mas, mesmo assim, ele parece alheio
ao que se passava no país, apesar de que não deveria estar, com certeza.
Se posicionou contra o comunismo;
no entanto, ajudou seu amigo Franklin Oliveira quando foi perseguido pelos
militares, oferecendo inclusive seu apartamento para que se escondesse.
Uma observação no livro que não
compreendi foi por que, foi quando lhe foi ofertado o livro ‘Paradiso”, de José
Lezama Lima, ele recusou, dizendo para dar a outra pessoa e demonstrando
claramente ojeriza pelo livro.
Nossa também trata do lado
supersticioso de Guimarães, de seus temores, principalmente após uma cigana ler
sua mão e dizer que ele morreria após uma festa. Isso o atormentou muito e foi
o que o impediu de tomar posse na ABL de imediato. E, de fato, ele morreu três
dias após tomar posse.
Também se interessou muito por
misticismo e espiritismo, tinha os livros de Chico Xavier em sua biblioteca
particular. Era religioso no temor, mas não frequentava igrejas e missas.
Leonencio Nossa fez uma pesquisa
muito minuciosa sobre a vida de Guimarães Rosa e, sem afetar a obra deste, que
continua grande na literatura, nos mostra o homem, o ser humano com suas
qualidades e defeitos, um homem gentil, educado, mas também com muitos problemas,
o que pode não agradar a alguns que costumam cultuar o homem e o escritor.
A genealogia que está no início do livro não está muito compreensível, tem problemas, inclusive datas que não conferem com o que está depois no livro. Há alguns erros de revisão, e senti também que, chegando ao final, há várias repetições de assunto. Mas nem por isso a obra deixa de ser sensacional.
Leonencio Nossa nasceu em
Vitória, ES, em 1974. É jornalista, biógrafo, escritor e historiador
brasileiro.





















