O LEITE DA MÃE
EDITORA RUA DO SABÃO – 2026
164 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LETÔNIA
O livro inicia com o nascimento
de duas meninas: a mais nova nasceu em 1969, enquanto sua mãe nasceu em 1944,
ambas na Letônia. O que as diferencia é o contexto histórico. Em 1944, a Letônia
vivia o período da Segunda Guerra Mundial, tendo sido invadira pelos nazistas
após um breve período de independência do Império Russo. Já em 1969, o país estava
integrado à União Soviética.
A autora intercala as vozes de
mãe e filha relatando suas vidas e, ao mesmo tempo, apresenta a avó da jovem. São,
portanto, três mulheres interligadas pelo sangue e pela maternidade. O ponto
central é o leite materno que a mãe recusou à filha, por acreditar que, através
dele, transmitiria a amargura e o veneno que carregava em si.
Isso me lembrou o filme “A Teta
Assustada”, da cineasta peruana Claudia Llosa, no qual uma filha luta contra o
medo herdado por meio do leite de sua mãe, violentada durante um período de
extrema violência no Peru.
Por meio dessas três mulheres,
Isktena constrói um romance em que se tornam perceptíveis os efeitos do
autoritarismo e do controle estatal impostos pelo stalinismo aos povos sob ocupação
soviética. A mãe sofre com a exigência da submissão ao comunismo, às suas ideologias
e regras. Mulher brilhante, cientista e médica ginecologista, é tolhida e
inclusive punida pelo regime.
A filha, nascida já sob a
vigência desse sistema, não percebe a diferença entre liberdade e opressão.
Vive sua vida tendo de cuidar da mãe, que considera mentalmente doente.
“A escravidão é liberdade” e “A
liberdade é escravidão”, repete a mãe. O que isso significa?
Essa formulação me remeteu ao
livro “Livre”, de Lea Ypi, que já postei aqui no blog. Nele, a autora albanesa,
questiona o que de fato significa liberdade e se ela realmente existe. Ikstena
também mobiliza referências a “1984”, de George Orwell, e a trechos de “Assim
falava Zaratustra” de Friedrich Nietzsche, obras que circulavam
clandestinamente no país por serem proibidas.
A mãe não consegue viver duas
vidas, e expressa seu esgotamento diante dessa duplicidade:
“o ódio por aquela existência dupla e hipócrita
na qual as pessoas eram forçadas a interpretar dois papéis. Portar bandeiras
nas paradas de maio e outubro, aclamando o Exército Vermelho, o exército mais
poderoso do mundo, a revolução e o comunismo e, na cozinha de casa, enxaguar
tudo com um bom trago, fazer o sinal da cruz e ficar esperando que os
britânicos chegassem através do rio Daugava para libertar a Letônia das botas
russas.”
Nascer em determinado tempo e
lugar molda profundamente nossas vidas. A avó, de coragem extrema ao salvar a
filha, acabou se acomodando; a mãe jamais aceitou não poder ser livre e viver sob
censura soviética; e a filha, nascida já dentro do regime, sequer percebia plenamente
a realidade ao seu redor, até conhecer, na adolescência, um professor diferente,
mas que será obrigada a delatar.
A grande metáfora do livro é Bambi,
um hamster que a avó comprou para a neta. Inicialmente, ela o soltava para
correr livremente pela casa. Porém, quando a avó compra uma fêmea para lhe
fazer companhia, ela tem filhotes, o macho perde toda a vitalidade e acaba
devorando-os.
A filha o castiga. Depois disso, sempre ela se
aproxima, ele agitado, como se ainda esperasse poder sair da gaiola novamente.
Mas ela nunca mais o liberta, e ele vai murchando até morrer.
Sem compreender por que ele comeu
os filhotes, a menina ouve da mãe uma explicação devastadora: talvez ele apenas
quisesse impedir que eles também acabassem vivendo em uma gaiola.
Nora Isktena nasceu em Riga,
Letônia, em 1969 e faleceu na mesma localidade em 2026. Foi uma escritora e
gestora cultural letã.




























