NOITE É O DIA TODO
ROCCO – 1ª ED. – 2010
400 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA
Malásia, década de 1970. Uma
poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que
Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se
de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda
questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa,
os malaios desejam seu país para eles.
A autora retorna ao período
colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos
quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe
social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família,
principalmente com a sogra Paati.
Ao abordar a revolta malaia de
1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma
metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e
Fato.
Gostei muito do uso dessas
figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que
atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e
mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva,
desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam
os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.
Ao contrário do anunciado na
sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance
permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim,
esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na
sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato
do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa,
que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao
trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung
Cheroh, ocorrida em 1973.
A família é composta pelo casal e
seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”,
irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se
desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de
cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que
levou cada um deles a agir da maneira como age.
Já Vasanthi, me deixou com a
sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se
encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria
e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa
que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada
pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi
exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.
A história dessa família é
construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo.
Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que
geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado,
tudo é omitido.
A filha caçula, Aasha, uma
criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem
atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela
irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um
acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina. Esse abandono leva Aascha a cometer algumas
crueldades com outros, mentindo descaradamente.
Um segredo que Balu carrega desde
a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura.
Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu
pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.
Temos também Chellam, a empregada
contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia,
passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe
reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro
capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.
Chellan é quem nos traz o
universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o
imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais
temidos pelos malaios.
Ao final da narrativa vemos Appa
relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma
ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele
acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para
sempre”.
Quando alcançamos a metade do
livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos
o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se
aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias
pessoas.
No entanto, ao chegar ao final, essa
impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em
consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras
e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma
particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.
Preeta Samarasan nasceu em Batu Gajah, Malásia. É uma autora
malaia.



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