O PAÍS DAS MULHERES
VERUS – 1ª ED. – 2011
Tradução: Ana Resende
220 páginas
Título Original: El país de las mujeres
Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo. Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
VERUS – 1ª ED. – 2011
Tradução: Ana Resende
220 páginas
Título Original: El país de las mujeres
RECORD – 1ª ED. – 2013
Tradução: Pasi Loman e Lilia Loman
420 páginas
Sofi Oksanen nos apresenta três mulheres: Sofia, a mãe de Katariina e avó de Anna. Através delas, aborda questões sobre a Estônia durante o domínio soviético, a imagem que o Ocidente construiu sobre as mulheres do “Leste Europeu” e que acabou sendo introjetado na subjetividade das estonianas, e a ligação disso com os desarranjos alimentares de Anna.
A principal narradora é Anna, mas
confesso que as primeiras 170 páginas foram muito cansativas e só não abandonei
o livro porque queria ler uma mulher da Finlândia. A autora é premiada, mas
pelo que pude constatar, se deve mais ao outro livro “Expurgo”.
Esperava mais sobre a história da
Estônia, mas o livro tem por foco principal, de um lado, a bulimia e, de outro,
a prostituição das mulheres estonianas. Para a narradora, o que mais conta é a
questão de que as mulheres finlandesas se vestem com roupas práticas, como jeans
e tênis, enquanto as estonianas são femininas, usam vestidos, salto alto, batom
vermelho, e isso é muito reforçado por Katariina, sua mãe, que ganha a vida
levando produtos ocidentais para a Estônia.
No livro essa feminilidade é que
se compara ao ser prostituta, uma vez que as estonianas vivem interessadas em
homens finlandeses que trabalham no país. A própria Katariina casou-se com um finlandês
e conseguiu deixar o país, podendo retornar para visitar a mãe e a irmã.
Aos interessados em bulimia, o
livro é praticamente um manual de como agem as pessoas portadoras desse
problema. Anna descreve minuciosamente suas compras, as seguras e as da sessão,
ou seja, os alimentos que serão comidos e depois vomitados.
É perceptível a ligação entre a história
da família e a bulimia de Anna, mas principalmente o que ela não conseguia
admitir: a vergonha que sentia de sua mãe ser estoniana.
Sobre a avó, são poucas as informações
que aparecem ao longo do livro sobre o que lhe aconteceu durante o domínio
soviético mais intenso, o período dos expurgos. Lamentei isso, pois o que mais
me chamou a atenção para comprar o livro era justamente o aspecto histórico do
país.
O título também me chamou a
atenção, e há apenas uma menção ao significado no livro, o que me levou a
pesquisar. A explicação está ligada a uma piada que circulava entre os
estonianos deportados ou enviados para a Sibéria: eles diziam que tinham visto
por lá “as vacas de Stálin”. Quando perguntavam como eram, vinha o trocadilho: “A
vaca de Stálin é um bode”. É incompreensível para nós o que realmente
significa. No entanto, as vacas também podem ser um estereótipo associadas às
mulheres e toda a pressão para ter um corpo magro.
Sofi Oksanen nasceu em Jyvaskyla, Finlândia, em 1977. É uma escritora finlandesa.
A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA
FARO EDITORIAL – 1ª ED. – 2023
Tradução: Fabio Alberti
160 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – EGITO
Este livro é impactante,
principalmente por se tratar de uma ficção construída a partir de uma
história real. Nawal El Saadawi realmente entrevistou uma mulher na prisão,
condenada à morte, e escreveu “A mulher com olhos de Fogo”.
Vou iniciar com uma pequena
ressalva ao título em português, que traz “O despertar feminista” como
subtítulo. Muitos podem pensar que se trata de um livro que aborda uma mulher
que desperta diante de um mundo absolutamente patriarcal e, a partir disso,
muda sua vida. Eu diria que, na verdade, ela tem uma conscientização feminista.
No entanto, isso não irá mudar sua vida, mas a levará a enfrentar uma verdade
que acaba por condená-la à morte.
Logo no início, Firdaus diz: “não
tenho tempo para ouvir você”. Ela quer contar sua própria história, da qual finalmente
se apropriou; É através de sua história que acompanhamos a formação de uma
consciência feminista.
É notório o quanto os olhos dos
outros são vitais para Firdaus. Em vários momentos do livro, ela irá se referir
aos olhos do outro. Sim, é pelo olhar do outro que nos constituímos, a
psicanálise o explica. E, em uma sociedade patriarcal e machista, esse olhar
objetifica o corpo da mulher. É através dessa objetificação que a mulher se
constitui.
Nawal El Saadawi escreveu o livro
em 1975. É importante levar isso em consideração. Sabemos que foi exatamente
nos anos 70 que os estudos das mulheres ganharam força, o que não quer dizer
que antes não houvesse estudos sobre o tema. Mas o caminho percorrido de lá
para cá já trouxe muitas mudanças.
Outro ponto que é importante
levar em consideração é que, por mais que a sociedade egípcia de 1975 fosse
machista e patriarcal, e ainda o é, não se pode generalizar as condições
relatadas por Firdaus para todas as mulheres egípcias. Isso só reforçaria a
visão Ocidental de que as mulheres do chamado Oriente precisam ser salvas. A
própria autora é um exemplo de que essa não é uma situação que se aplica a
todas. No entanto, sim, muitas mulheres enfrentaram e ainda enfrentam situações
como as narradas por Firdaus.
Não tenho conhecimento suficiente
sobre a situação atual das mulheres no Egito para fazer uma comparação com o
que é relatado no livro. Minha leitura se limita à obra, ao seu contexto de
produção e à experiência de Firdaus, narrada por Nawal El Saadawi.
O simples fato de nascer menina,
o que não é uma escolha, já define o destino de Firdaus naquela sociedade. A
menina não é valorizada como um menino, e ela percebe isso. Todas as violências
sofridas, na família, a mutilação genital, o abuso pelo tio, o casamento
forçado, até chegar à prostituição. Ter cursado a escola e obter um diploma de
nada lhe serviu.
Não existe apenas um vilão. Praticamente
todos os homens que cruzaram o caminho de Firdaus foram violentos ou, então,
pagavam para usufruir de seu corpo. Em um único momento, em que ela parece ter
encontrado um homem bom, se apaixonado e encontrado uma luz para si, sofrerá a
desilusão ao descobrir que ele se casará com outra. Sabemos o porquê: ela
dormia com ele sem ser casada, lhe contou sua vida e, portanto, não era uma
mulher considerada adequada para ser esposa de alguém.
Nem mesmo as mulheres são
generosas com ela. Seguem as normas sociais, e a esposa do tio é quem a casa
com um velho que irá espancá-la e controlar o que ela come. Uma prostituta a
ampara, dá-lhe um lugar para morar e boa comida, mas se aproveita do corpo dela,
vendendo-o. Isso demonstra como as mulheres internalizam normas patriarcais e também
as reproduzem.
Quando ela consegue um emprego, o
salário é muito baixo, e isso também é um reflexo da sociedade e do sistema
econômico. Portanto, não vale dizer que ela poderia ter seguido por outro
caminho e alcançado uma autonomia financeira pelo trabalho.
Quando ela retorna à prostituição
que, segundo sua experiência, é a única forma de ter uma certa autonomia e
independência financeira, surge o cafetão.
Para ela, ser prostituta é o
destino de todas as mulheres, inclusive das esposas. Eu não concordo com essa
visão, apesar de ser um dos pontos que as feministas apontam. Naqueles anos 70,
eu até compreendo, pois conheci muitas mulheres que consideravam o sexo uma
obrigação do casamento. Mas muita coisa mudou depois, e a mulher pode ter
desejo sexual e sentir prazer em suas relações sem, com isso, ser uma
prostituta.
Firdaus vê o véu cair de seus
olhos e enxerga uma realidade que a leva a odiar todos os homens. Ela enxerga a
insegurança deles, o desejo do poder, do status e do dinheiro que lhes dá
segurança. E tem consciência de que isso apavora os homens, eles têm medo dela.
E é isso que a condena.
Ela não escapa do sistema. Ela
prefere morrer a se submeter ao sistema.
“Eu me dei conta de que todos
esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade
gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem
limites.” (pág. 52)
“Em certa ocasião ele me deu uma
grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de
contusões. Então eu fui embora de casa e procurei o meu tio. Mas o meu tio me
disse que todos os maridos batiam nas suas mulheres, e a esposa do meu tio
ainda comentou que ela mesma apanhava do marido com frequência.” (pág. 75)
“Eu tomei consciência do fato de
que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente
escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar
conselhos, ou diziam que queriam me resgatar da vida que eu levava. Eu
costumava odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram
melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam
como algum tipo de heróis magnânimos – um papel que não fizeram nenhuma questão
de desempenhar em outras circunstâncias. Queriam se sentir nobres e superiores
lembrando-me do fato de que eu estava em situação de inferioridade. Eles diziam
a si mesmos: ‘Vejam só que pessoa maravilhosa eu sou. Estou tentando tirar essa
puta da lama antes que seja tarde demais’. (pág. 135)
Nawal El Saadawi nasceu em Kafr
Tahlah, Egito, em 1931 e faleceu no Cairo, Egito, em 2021. Foi uma escritora,
médica, psiquiatra e feminista egípcia.
A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS
INSTANTE – 1ª ED. – 2025
Tradução: Jemima Alves
224 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – KUWAIT
Este é um livro que trata da
censura de livros. O ponto que mais chama a atenção é que censurar livros não
significa apenas uma censura política ou ideológica, como ocorreu com livros
marxistas ou considerados comunistas no Ocidente, nem somente por uma questão
moralista ou sexual.
Bothayana El-Essa nos mostra uma
censura que inclui esses aspectos, mas vai além, inclui livros que possam levar
pessoas a imaginar ou interpretar. A linguagem tem que ser superficial. E aí
entramos em outro campo que vem me preocupando atualmente: uma certa “censura”
que opera de uma forma totalmente imperceptível para a grande maioria das
pessoas: o mercado.
É interessante ver que a autora
lista uma série de livros que são os autorizados: autoajuda, religiosos
aprovados pelo conselho religioso, romances simples, os de pensamento positivo,
os que promovem a meritocracia, os que focam em uma literatura do eu, incluindo
aí o individualismo e a vitimização, e os de superação individual. Então é só
pensar nas vitrines ou sites de livrarias atuais.
O mercado controla o que vai ser
traduzido e divulgado. O algoritmo controla o que aparece nas pesquisas do Google
ou da IA, e então temos os youtubers e influencers divulgadores de livros, que
se atém justamente a esses livros. Isso reduz enormemente o leque de livros ou
autores aos quais chegamos para ler.
Sim, há muitas editoras menores
fazendo um trabalho sensacional e trazendo outros autores de lugares diferentes,
fora do eixo eurocêntrico ou estadunidense, mas que não possuem a mesma
abrangência de divulgação e, o pior, não despertam o interesse da grande
maioria.
Atualmente, os leitores são
conduzidos por rankings - os mais vendidos, a lista dos melhores, os que você
tem que ler antes de morrer etc.-, algoritmos e influenciadores. Não é uma
censura explicita, mas não deixa de ser um cerceamento. Também estamos vendo
algo que não é novo em absoluto, mas muito pelo contrário, que é a retirada e
censura de livros em escolas e bibliotecas públicas. E a questão atual não é
mais apenas o que um governo determina, mas algo aleatório: um prefeito de uma
cidade decide censurar, um vereador ou um deputado, e em função de sua própria
ideologia religião. Ou seja, em cidades vizinhas há livros que foram proibidos
em uma delas e, na outra, não.
“A biblioteca do censor de Livros” traz
tabelas das normas de censura e o manual da leitura correta para o censor de
livros, que são extremamente interessantes, além dos motivos da censura e
várias ilustrações no decorrer do livro.
Há um momento em que o Novo
Censor vai ao escritório do chefe do departamento e se depara com uma
biblioteca imensa, repleta dos livros proibidos. Isso não é nada que impacte, em
todos os governos que censuravam livros, os que estavam no alto escalão
possuíam os livros e os liam. Mas aqui o que chama a atenção é que o chefe
chama esta biblioteca de cemitério de livros. E o que isso significa? Que são
livros mortos, não é uma biblioteca viva que circula, de livros que são lidos.
O primeiro livro que o Novo
Censor lê e que mexe com ele é “Zorba, o Grego”. A partir da leitura desse
livro, tudo muda para o censor, que começa a interpretar e imaginar, o que é
totalmente proibido na Nova República que se instaurou com a vitória do
Movimento Popular do Realismo Positivista e a queda da democracia.
O sistema se preocupava
principalmente com a imaginação das crianças. Havia cartazes espalhados por
todos os locais e uma campanha para conscientizar: “Seu filho sofre de
imaginação? Não hesite em pedir ajuda. Não permita que sofra. Você não está
sozinho. Conte Conosco.” O Censor tinha uma filha com os sintomas da
imaginação, e seu maior medo era que ela fosse enviada para um centro de
reabilitação, de onde raramente uma criança retornava para sua família.
Havia um núcleo de resistência
que tentava salvar os livros da fogueira, que ocorria uma vez por ano, no dia do
Eid da Purificação, uma data em que se permitia lembrar o Velho Mundo com
festas, danças, fantasias, o que nos lembra muito nosso Carnaval, mas em que também
se queimavam os livros que foram proibidos. Os membros da resistência eram
chamados de “câncer” porque corroíam o sistema por dentro.
E havia milhares de coelhos em
todos os lugares. É interessante pensar nos coelhos. O primeiro pensamento nos
leva para o coelho de “Alice no país das maravilhas”, mas aqui são milhares.
Coelhos se reproduzem sem parar, e isso revela que aquilo que o sistema tenta
eliminar volta incessantemente.
O final do livro surpreende: “a
imaginação é real, a realidade é imaginária” é a conclusão do Censor. E é então
que ele percebe algo, e que não vou revelar aqui, para deixar o prazer da
descoberta a quem ler o livro.
Bothayna El-Essa nasceu no Kuwait em 1982. É uma romancista.
EVA DOS SEUS ESCOMBROS
EDITORA MEIA AZUL – 1ª ED. – 2025
Tradução: Daniel Augusto
138 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ILHAS MAURÍCIO
Ananda Devi apresenta uma Ilhas
Maurício muito distante dos cartões-postais da ilha para os turistas que a
visitam e de seus luxuosos resorts. São quatro personagens: Eva, Sad, Clélio e Savita,
que vivem na periferia, em um lugar chamado Troumaron.
A autora utiliza uma linguagem
poética e lírica para dar voz a esses quatros personagens, que vivem uma
realidade muito diferente daquela experimentada pelos turistas que visitam a
ilha e não tem a percepção desse lado do país.
Eva é a personagem principal e
ela faz uso de seu corpo como forma de resistência. Já Savita deseja ir embora
dali, mas quer que Eva vá com ela.
Saadiq, ou Sad, é um jovem
apaixonado por Eva que é sensível e gostaria de ser poeta e se inspira em
Rimbaud. Clélio, por sua vez, revolta-se com as condições de sua vida e de sua família
e espera que seu irmão, que se mudou para a França, retorne para buscá-lo, conforme
lhe prometeu. Sad e Clélio pertencem a uma gangue que domina o bairro.
Já li muitos livros que retratam
a vida nas periferias e nas favelas. Não é o cenário, porém, que se torna o
ponto alto deste livro, mas a linguagem utilizada pela autora. Mesmo sendo um
livro curto, li-o devagar. Cada capítulo que traz o relato de um dos
personagens e, com grande sensibilidade e poesia, não deixa de revelar toda a
tristeza e a miséria que permeiam essas vidas.
Troumaron é um trocadilho e pode
ser lido como “buraco marrom”. Na colonização francesa do Caribe marrons
eram os africanos escravizados que fugiam e criavam comunidades – as
marronages – equivalentes aos nossos quilombos. Porto Luís, a cidade onde
fica Troumaron, parece não incorporar o local, lhe dá as costas como diz um dos
personagens. É no meio desses escombros que a autora dá voz aos quatro
personagens.
O contraste entre Porto Luís, voltada
para o turismo internacional, e esse mundo à parte, que enclausura sem muros,
que retém ali uma parte da população menos favorecida, que destrói sonhos e compromete
o futuro dos jovens que ficam sem perspectivas, nos é mostrado através desses
quatro personagens. As correntes da escravidão permanecem, ainda que agora se
manifestem nas inúmeras impossibilidades que aprisionam esses jovens. Eles
vivem entre os escombros e, apesar das tentativas de Sad de tirar Eva desse
mesmo lugar, essa se mostra uma tarefa árdua demais.
Quero acrescentar uma análise a
mais sobre o livro. A referência a Arthur Rimbaud não parece gratuita. Se em Uma
temporada no Inferno a escrita acompanha uma travessia pelo sofrimento e
pela desilusão, em Troumaron a poesia de Sad nasce em meio aos escombros, como
uma tentativa de resistir a uma realidade que insiste em sufoca-lo.
A linguagem poética empregada por
Ananda Devi não suaviza a violência nem a miséria. Ao contrário, demonstra que
a poesia também é capaz de dar formas ao horror, assim como Paul Celan mostrou
que, mesmo após Auschwitz, ela continuava sendo uma linguagem possível para
dizer o indizível.
Eva chama muito a atenção. Já
pelo nome que corresponde a Eva bíblica que vivia em um paraíso, e as Ilhas
Maurício são consideradas um paraíso turístico. Mas também pelo fato de fazer
uso de seu corpo para conseguir o que deseja. Um corpo que serve de
resistência, mas antes disso ele foi transformado, pelas circunstâncias, em
capital, em mercadoria, em único recurso disponível.
Em um dos episódios, um delegado
lhe entrega uma arma, e Eva não consegue interpretar aquele gesto dentro de uma
lógica de confiança, solidariedade ou simples decisão pessoal. Ela procura
imediatamente a contrapartida, porque foi assim que aprendeu a sobreviver. Isso
é mais profundo do que denunciar a exploração sexual. A autora mostra como um
sistema de violência consegue moldar a subjetividade. Para Eva é impossível
conseguir qualquer coisa sem oferecer seu corpo. Essa é uma forma de
colonização da consciência.
Ananda Devi não está apenas
denunciando a pobreza. Ela mostra como a pobreza, o patriarcado, a violência e
a exclusão produzem subjetividades. Cada personagem passa a enxergar o mundo
através da estrutura que o oprime.
Ananda Devi nasceu em Trois Boutiques, Ilhas Maurício, em
1957. É uma escritora.
FÉ DISFARÇADA
PALLAS – 1ª ED. – 2026
Tradução: Josane Silva Souza
152 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PORTO RICO – Território
não incorporado dos Estados Unidos
“Fé disfarçada” é um livro curto,
no entanto, denso e que pode, em um primeiro momento, parecer extremamente
sexual, afinal, o narrador, Martín Tirado, está sempre ocupado com o que chama
de obelisco, ou seja, seu órgão sexual. Mas essa seria uma leitura muito
simplista do que a autora nos apresenta.
Outro ponto que pode nos enganar
é o título do livro, pois não se trata de nada ligado à religião, mas Fé é o
nome da protagonista. E, já me adiantando, preciso fazer uma distinção
importante para a compreensão do enredo – disfarce é diferente de fantasia.
O livro, como já adiantei, é
narrado por Martín, um jovem que trabalha em um Centro de Pesquisas Históricas
em Chicago, nos Estados Unidos, e tem Fé como sua chefe. Entrelaçando os
relatos de Martin, temos documentos históricos sobre casos de violências
extremas contra mulheres negras no Brasil, na Venezuela e no Caribe. Esses
documentos são fictícios, inclusive ao abordar uma personagem histórica
brasileira – Chica da Silva.
A autora trabalha com o passado
da escravização de mulheres negras e ao que elas foram submetidas, e com o
tempo atual, mostrando as reminiscências dessa escravização que ainda permanecem
na vida das mulheres negras. Para isso, ela utiliza a carne, o corpo, tão
ferido, machucado, abusado e estuprado durante a escravização. Aqui começamos a
compreender o uso do sexo na narrativa.
Durante suas pesquisas, Fé
recebeu de uma freira um vestido belíssimo que foi usado por uma mulher negra
para se apresentar à sociedade. No entanto, o vestido não disfarça a negritude
nem apaga o que aquele corpo sofreu. Dentro dele há uma armação de ferro, já
está enferrujado pelo tempo, e, ao vesti-lo, Fé machuca a própria carne, que
sangra.
Mas a pergunta que não quer
calar: por que a autora escolheu um homem para relatar a história? Eu penso que
ela faz essa escolha porque quer mostrar a volúpia masculina, o desejo do homem
como algo incontrolável e insaciável, em contraste com o estereótipo
historicamente atribuído às mulheres negras, como se fossem elas as
naturalmente lascivas. Essas mulheres foram estupradas e obrigadas ao sexo por
homens brancos movidos por esse desejo.
Fé instaura um ritual. Todos os Dias
dos Mortos, ela convida Martín para seu apartamento, onde há um quarto vazio,
todo branco, tendo apenas um sofá de madeira. Ela veste o vestido com a armação
de ferro que machuca sua carne e transa com Martín, e faz um pedido – “me tire
daqui”.
Em uma viagem à Espanha, Fé
presenteou Martín com uma navalha de Toledo, e ao final da narrativa, é com
essa navalha que ele pretende libertá-la, cortando o vestido. No entanto, a
autora deixa em suspenso o que acontecerá, o livro termina nesse ponto.
Esse final levanta outra questão:
mais uma vez será um homem para salvar uma mulher? não sabemos o que vai
acontecer, nem a reação de Fé ao que ele pretende fazer.
“(...) Eu queria ser como aquelas
freiras, brancas, puras, como aquelas princesas; vestir trajes que vão até o
chão, feitos de veludo bordado com fios de ouro e pedrarias. Mas no fundo,
sabia que aquilo não era para mim. Era lembrada disso pelas outras alunas e
pela cor de minha pele. Minha pele era o mapa dos meus ancestrais. Todos nus,
sem brasões ou bandeiras que os identificassem; marcados pelo esquecimento ou
apenas, pro cicatrizes tribais, correntes e marcas de chancela no lombo. Nenhum
tecido que me cobrisse, sagrado ou profano, poderia ocultar minha verdadeira
natureza.” (pág. 112)
Não há disfarce para isso!!!
Mayra Santos-Febres nasceu em
Carolina, Porto Rico, em 1966. É uma autora, poeta, romancista, professora de
literatura, ensaísta e crítica literária porto-riquenha.
CORREIO NOTURNO
EDITORA TABLA – 1ª ED. – 2020
Tradução: Safa Jubran
160 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LÍBANO
A primeira carta é de um homem
que escreve para a mulher que ama. Inicialmente pensamos tratar-se de uma
declaração de amor, mas, aos poucos, a carta se transforma em um relato de sua
mágoa em relação a ela, de tudo o que ele considerava não corresponder ao que sentia
e fazia. A carta termina bruscamente, quando ele decide ir ao encontro de um
homem que o observava da janela de um apartamento em frente.
A segunda carta é escrita por uma
mulher hospedada em um hotel, que encontra essa primeira carta no meio de uma
bíblia e a começa a lê-la. Ela relata isso ao homem que aguarda no hotel, que,
no entanto, não vem e não envia nenhuma mensagem. Há recordações do tempo em
que eram felizes, uma primavera que passaram juntos. Ele é casado, mora no
Canadá e foi quem pediu esse encontro, porém não comparece. A carta contém tudo
o que ela gostaria de lhe dizer e tudo o que esperava dele caso viesse.
A terceira carta é a mais
impactante. Um homem escreve para sua mãe enquanto está em um aeroporto. Ele
não a vê há anos e decide lhe contar o que lhe aconteceu. Aqui temos um jovem
que foi preso sem saber o motivo. Algo meio Kafkaniano, mas de uma crueldade
muito maior. Ele foi torturado ao extremo até confessar o que nem sabe, e depois
disso, é incorporado ao grupo e passa a ser ele o torturador de outros. Ele
explica que precisou fazer isso para sobreviver, mas admite que, em determinado
momento, também começou a sentir prazer em torturar. Quando o Estado se impõe e
acaba com o grupo, ele foge e passa a viver uma vida miserável em outro lugar,
até o momento em que uma mulher o acolhe em seu apartamento onde encontra algum
conforto. Mas o medo nunca o abandona, ele tem medo que ela o expulse e decide
fazer com que ela se apaixone por ele. O desfecho é trágico.
A quarta carta é de uma mulher cuja
sua mãe a obrigou a casar-se com um homem desprezível, com quem teve uma filha.
Agora ela escreve ao irmão para relatar tudo que aconteceu e explicar por que
tomou certas decisões.
A quinta carta é de um homem
homossexual que escreve ao pai, dizendo o quanto sua vida foi despedaçada após
ser expulso de casa por ele, incapaz de aceitar um filho gay.
Barakat une essas cartas, que
nunca chegaram aos seus destinatários, fazendo com que cada um encontre a carta
do outro e a comente, exceto o homem homossexual que não encontra nenhuma.
Em uma segunda parte, intitulada
Aeroporto, temos a versão dos destinatários das cartas: a mulher a quem o
primeiro homem declara seu amor misturado ao rancor, o homem que deveria encontrar
a mulher no hotel, a prisão do torturador e o irmão que responde à irmã. Essa
parte me recordou “Risíveis Amores”, de Milan Kundera. Não pelo tema, mas
porque, nos dois livros, primeiro vemos um personagem pensando e falando do
outro. Naturalmente construímos uma imagem desse destinatário. Quando esse
outro finalmente fala, descobrimos alguém completamente diferente daquele que
imaginávamos. Barakat faz isso de forma surpreendente.
O livro termina com a carta de um
carteiro, que relembra os bons tempos em sua região quando entregava as cartas
de bicicleta. Então, vieram a guerra e, principalmente, o Estado Islâmico. Já
não existiam endereços para onde enviar cartas, nem pessoas aguardando
ansiosamente por elas. Nos correios restam
pilhas de cartas que não chegaram aos seus destinatários e ele decide catalogá-las
e deixar sua própria explicando como classificou as mesmas.
Bakarat oferece uma visão da guerra sem descrever combates ou ataques. Seu foco está nos efeitos psíquicos, as separações, os destinos que se alteram completamente, o exílio. A autora não trata apenas da guerra, aborda costumes da região, como o casamento forçado, a desonra de se divorciar, de se prostituir ou de ser homossexual. São histórias marcadas pela violência, pela intolerância e pelo desenraizamento, cujas vidas permanecem suspensas como as cartas que nunca encontraram seus destinatários.
Hoda Barakat nasceu em Beirute, Líbano, em 1952. É uma
romancista libanesa.
AS LEIS
EDITORA 34 – 1ª ED. – 1997
Tradução: Paula M. Bennink
192 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PAÍSES BAIXOS (HOLANDA)
Marie Deniet é uma estudante de
filosofia que tem encontros com sete homens diferentes: um astrólogo, um
epiléptico, um padre, um filósofo, um psicólogo, um físico e um artista.
O astrólogo, o primeiro que ela
encontra, traça seu mapa astral. Deniet estava acostumada a ouvir os outros
falando de si mesmos, mas aqui ocorre o contrário, ela ouve alguém falar dela,
e com uma certa precisão em suas observações que precisa reconhecer. Para quem
não compreende astrologia, como é meu caso, é um capítulo um pouco entediante e
confuso.
O epiléptico é seu segundo
encontro. Daniel expõe toda uma filosofia da dor e da questão do corpo, que ou
esconde uma doença ou dor ou a expõe. A epilepsia está no segundo caso, a
pessoa sofre uma crise em plena rua, baba, contorce-se. Não há como esconder. Ele
faz uma crítica a Susan Sontag sobre a metáfora da doença.
Ela terá então o terceiro
encontro, com o filósofo que será o orientador de seu mestrado. Em seguida,
encontrará um padre, um artista e o último será um psiquiatra.
Mas o que Marie busca nesses
homens? Aos poucos vamos compreendendo. Ela vem de um pequeno vilarejo católico
e teve uma infância e adolescência em que a religião oferecia um sentido para a
vida. Quando um jovem lhe empresta um livro de Sartre, ela rompe com Deus e
acaba se vendo diante de um vazio de sentido. Muda-se para Amsterdã e começa
sua busca.
Aqui é preciso, antes de tudo,
fazer uma ressalva. O livro é de 1991 e, para leitoras mais jovens, talvez soe um
tanto machista e patriarcal, mas quem é mais velha percebe um percurso que foi
muito comum para as mulheres. A pergunta que pode surgir é: porque ela busca
nos homens um sentido para sua vida. Primeiro, porque estuda filosofia, e
sabemos bem como essa disciplina ainda mantém um cânone predominantemente
masculino, mesmo diante de tantas mulheres filósofas. Segundo, porque durante
muito tempo os homens foram considerados os detentores da verdade e das leis.
Mas isso não diminui o livro; pelo contrário, trata-se de um romance de
formação.
Confesso que me incomodou o
capítulo com o filósofo, em que vemos uma Marie usando a sedução para atrair o
olhar do mestre. Ela, que há muito tempo não usava mais vestidos nem saias,
passa a vestir ambos, além de meias de náilon e salto alto. Tenta capturar o
olhar dele, e consegue. No entanto, ele não se aproxima como ela esperava. Será
por meio dos idosos que frequentam suas aulas e a apresentam a ele que esse
contato finalmente acontecerá. Quando ela conclui sua dissertação, o filósofo a
encaminha a um padre para orientar seu doutorado.
Aqui temos um capítulo que beira
o intragável. O encontro em si é interessante, porém a questão é que ela o considera
o homem mais feio que já viu. Ele é corcunda, mas ela acredita que pode lhe dar
a felicidade de ser desejado ao lhe oferecer sexo desde que ele não a toque.
Em seguida vem o artista, sua
grande paixão. Surgem então questões que a colocam em dúvida sobre ser mulher e
ser intelectual. Para ter o amor dele, teria que estar sempre a disposição
dele? Justamente ela, que sempre manteve distância dos homens com quem se
relacionava. E acredita que pode salvá-lo, dar-lhe amor e fazê-lo feliz. Uma
cena muito comum, ainda hoje, quando mulheres se apaixonam. Ele a abandona.
E, finalmente, o psiquiatra, que
está mais para um psicanalista. Aqui não temos mais a voz masculina; somente
ela fala. É quando ela consegue perceber sua busca infrutífera por leis que
pudessem ditar seu destino ou dar um sentido para a vida. Também percebe o
quanto confundiu o desejado com o desejante, ou seja, o que ela de fato deseja?
Há análises interessantes e um
crescimento que acontece aos poucos. Percebemos certa prepotência típica da
juventude, mas ao mesmo tempo uma busca por sentido, um desejo por algo cujo
objeto ela não consegue identificar. Ela ama desejar. É somente quando ela se
perde que poderá encontrar o que chama de sentido da vida. Eu diria, porém, que
o sentido é algo que apenas cada um de nós pode construir, porque ele não
existe em si mesmo, nem se apresenta como uma lei.
Connie Palmen nasceu em Sint
Odiliënberg, Países Baixos, em 1955. É uma escritora holandesa.
ALMA DOS LIVROS – 2024
360 páginas
A narrativa inicia-se em Hanoi, em
1972, durante a Guerra do Vietnã. Huong é uma menina que vive com sua avó, pois
sua mãe e seu pai estão lutando. As ofensivas estadunidenses aumentam e elas
fogem para as montanhas, de onde assistem Hanoi arder em chamas.
Quando finalmente podem retornar
à cidade, encontram sua casa totalmente destruída e decidem reerguê-la. É
durante essa reconstrução que a avó, Diju Lan, começa a lhe contar sua vida.
Voltamos ao período pós-Primeira
Guerra Mundial, quando o Vietnã estava sob domínio francês, em uma área
colonizada denominada Indochina. Os bisavós de Huong vivem em uma aldeia e são
prósperos e respeitados. Diju Lan é uma criança feliz ao lado de seu irmão. Com
a Segunda Guerra Mundial, surgem os japoneses, que invadem o Vietnã, trazendo o
horror e a Grande Fome. A avó assiste os pais serem assassinados: o pai, pelos
japoneses, e a mãe, por um homem cruel da aldeia durante a grande fome.
Diju Lan decide mudar de trabalho
para conseguir reerguer a casa e ter melhores condições de vida. Elas vivem no
norte do Vietnã e, portanto, sob um governo comunista. Quando deixa seu emprego
de professora, muito mal remunerado, e passa a viver do mercado negro, comercializando
produtos, é excluída da comunidade por seus vizinhos que não lhe dirigem mais a
palavra e proíbem os filhos de brincar com Huong. Para os comunistas, os
comerciantes faziam parte da pequena burguesia e eram indignos.
Diju Lan ignora os vizinhos, reconstrói
sua casa e passa a ter uma vida melhor. Uma noite, durante um temporal, alguém
bate à porta da casa. É a mãe de Huong que retorna da guerra, que já está em
seus momentos finais. Ela está destroçada por tudo o que viu e precisou fazer
para sobreviver.
Chamou-me a atenção um antigo
costume das mulheres de tingirem os dentes de preto, considerado um símbolo de
beleza, elegância e status social. Normalmente, o processo era realizado na
puberdade e, segundo Huong, era doloroso devido à mistura utilizada. Ela não
passou por isso.
A autora alterna o tempo presente
- o fim da guerra com os EUA e a reunificação do Vietnã sob um governo
comunista com todas as consequências que isso acarretou - e a história da
família contada pela avó, ambientada no período após a invasão japonesa e da Grande
Fome, quando os Viet Minh conseguiram libertar as aldeias dos japoneses. Os
Viet Minh eram um grupo guerrilheiro comunista e nacionalista que lutou contra
os japoneses e franceses que ocupavam seu território.
Vamos, aos poucos, conhecendo a
história do Vietnã, marcada por lutas, guerras, sofrimento e fome, mas também
somos apresentados à sua cultura, culinária, tradições e religiosidade,
especialmente ao culto aos ancestrais. O romance aborda ainda as dissidências
internas entre aqueles que defendiam uma democracia e os comunistas, bem como
as imposições dos comunistas e a vigilância exercida sobre a população, que
impunha um pensamento de inspiração stalinista. Era preciso eliminar a
burguesia e tudo que remetesse ao seu modo de vida, inclusive o comércio era
condenado, todos deveriam comprar apenas nos armazéns do governo.
Diju Lan conta para sua neta o
episódio da Reforma Agrária imposta pelos comunistas e o que sua família sofreu
com isso. Sempre foram generosos com todos na aldeia em que viviam, trabalharam
muito junto aos empregados e socorreram vários deles durante a Grande Fome. No
entanto, instigados pelos Viet Minh, aqueles que não possuíam terras ou
trabalho revoltaram-se contra os proprietários, inclusive muitos que haviam
sido ajudados pela família. Novamente, Diju Lan perde tudo e precisa fugir com
seus filhos, abandonando sua casa e sua história.
O relato sobre a guerra contra os
americanos, feito pelo tio de Huong, é dilacerante. O exército do Norte, para
chegar ao Sul, caminhou milhares de quilômetros em meio à selva vietnamita,
sofrendo bombardeios e perdendo inúmeras vidas. Ao mesmo tempo, temos a
revelação da extraordinária beleza do interior do país, como o complexo de
cavernas de Phong Nha-Ke Bang, atualmente um Parque Nacional e sítio de
Patrimônio Mundial Natural da Unesco.
Outro tio de Huong que fugiu para
não ser morto e se separou da família durante a Reforma Agrária, ao ser
finalmente encontrado relata um outro lado da história do Vietnã: o daqueles
que que fugiram para o Sul e tiveram que lutar contra seus próprios irmãos do Norte
durante a guerra com os EUA.
O livro traz uma história do Vietnã que raramente é contada e pouco documentada, narrada a partir de dentro do país e relatada pelos que viviam no Norte. Dispomos de inúmeros relatos sobre a Guerra do Vietnã sob o ponto de vista estadunidense, mas ler este livro é conhecer o outro lado da história e ouvir a voz daqueles que habitavam o Vietnã e sofreram desde a colonização francesa, passando pela invasão japonesa, até a guerra e a reunificação do país, com todas as consequências que isto acarretou para o povo vietnamita.
Algumas observações:
Um aspecto que também me chamou a
atenção foi a descrição da Reforma Agrária. No romance, não são apenas os grandes
proprietários que se tornam alvo da violência, mas também aqueles que possuíam
pequenas propriedades ou haviam conseguido alguma estabilidade econômica. Os
primeiros a aderirem ao processo de perseguição são justamente muitos dos que
não possuíam terras ou estavam desempregados, inclusive várias pessoas que sido
ajudadas pela família de Diju Lan, e ainda assim, participam ativamente das
humilhações, da violência e das execuções públicas.
Essa passagem remete a um
fenômeno recorrente da história. Como observou Gustave Le Bon ao analisar o
comportamento das multidões, o indivíduo, quando inserido em uma turba, pode
agir de forma muito diferente daquela que teria isoladamente. Ao mesmo tempo, o
romance sugere algo igualmente humano e infelizmente recorrente: momentos de
ruptura política e social frequentemente liberam ressentimentos antigos,
invejas, rivalidades e desejos de vingança pessoal que encontram justificativa
em uma causa coletiva. Situações semelhantes aparecem em diversos contextos
históricos, como nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial, quando antigos
vizinhos denunciavam judeus à Gestapo não apenas por convicção ideológica, mas
também movidos por interesses pessoais, inveja ou acertos de contas. O romance
mostra com sensibilidade como as grandes transformações históricas também
revelam as zonas mais sombrias das relações humanas.
O livro aborda diferentes
períodos históricos do Vietnã:
- A colonização francesa
- A ocupação japonesa durante a
Segunda Guerra Mundial
- A Grande Fome de 1944 a 1945
- A guerra contra a França
- A Reforma Agrária no Norte, com
julgamentos públicos, execuções, confiscos de terras e campanhas de denúncias
- A divisão do país
- A Guerra do Vietnã
- A reunificação em 1975
- Os campos de reeducação, a coletivização da economia, o controle ideológico e a vigilância sobre a população.
Nguyen
Phan Qué Mai nasceu no Vietname do Norte em 1973. É uma poetisa e
romancista vietnamita.
SEJA HOMEM: A MASCULINIDADE DESMASCARADA
DUBLINENSE – 2ª ED. – 2020
Tradução: Rafael Spuldar
176 páginas
O livro inicia com um relato do
autor caminhando pelas ruas de Londres e o costume dos homens congoleses de se
darem as mãos ao andarem juntos, comportamento que constrange em uma cidade
como Londres onde isso é visto como algo feminizado. A partir dessa experiência,
J.J. Bola inicia uma reflexão sobre como as normas culturais moldam a percepção
da masculinidade.
Com uma linguagem simples, entrelaçando
memórias, costumes culturais, exemplos e estatísticas, o autor analisa o
universo masculino construído pelo patriarcado e machismo e o quanto isso produz
sofrimento para os próprios homens.
A urgência em redefinir o que
seja a masculinidade está presente no livro, assim como o desmascaramento de
diversos mitos que atingem os homens. Expressões como: “homens não choram, não
mostram vulnerabilidade, não demonstram fraquezas” são apresentadas como normas
culturais que limitam a experiência masculina e reforçam estruturas
patriarcais.
O autor evidencia como esses
padrões não afetam apenas as relações entre homens e mulheres, mas também as
relações entre os próprios homens, influenciando comportamentos e socialização.
Um livro extremamente importante
que deve ser lido principalmente pelos homens, mas também pelas mulheres, uma
vez que são elas quem educam os filhos ainda dentro das regras patriarcais.
J J Bola nasceu em Kinshasa,
República Democrática do Congo, em 1986. É um escritor e educador congolês
radicado em Londres, Reino Unido.
TOMARA QUE VOCÊ SEJA DEPORTADO: UMA VIAGEM PELA DISTOPIA
AMERICANA
EDITORA NÓS – 1ª ED. – 2025
256 páginas
Jamil Chade escreveu o livro após
acompanhar a campanha da eleição de Donald Trump e o início de seu governo. O
autor se mudou para o país com sua família para acompanhar de perto esse
processo político.
Mesmo já tendo passado algum tempo o livro
ainda é muito atual e precisa ser lido, pois serve de alerta para outras
eleições.
O título do livro se deve ao que
disse uma criança a um dos seus filhos – “tomara que você seja deportado!”, por
não ser estadunidense. Uma criança não tem esse tipo de pensamento, ela ouve em
casa ou na rua, e o repete, mas é muito triste quando vemos crianças que sempre
se entenderam e brincavam se posicionarem dessa forma.
O livro traz um retrato dos
Estados Unidos que é deprimente e constrói um retrato crítico do cenário
político estadunidense durante esse período, abordando a campanha e as
primeiras medidas do governo Trump, especialmente no que diz respeito a
imigração, políticas de deportação, relação com universidades, imprensa, artes
e direitos de minorias.
Mas Chade não se limita aos
principais centros, ele percorre periferias, mostra a pobreza e a miséria que
também existe nos EUA e percebe a desilusão do estadunidense, seu ódio e rancor
que o levaram a votar em Trump.
O que vemos é um esfacelamento
simbólico do que consagrou a “América” no mundo, que está se auto demolindo e
perdendo o respeito que tinha da maioria dos países.
Jamil Chade nasceu em São Paulo em 1975. É um jornalista
brasileiro.
O EU SOBERANO: ENSAIO SOBRE AS DERIVAS IDENTITÁRIAS
ZAHAR – 1ª ED. – 2022
Tradução: Eliana Aguiar
304 páginas
Confesso que estou tendo
dificuldades em fazer uma resenha para este livro. Sempre fui fã de Roudinesco,
mas este livro me desagradou. Não sei se sou eu, ou é isto mesmo, mas o fato é
que senti um eurocentrismo muito forte nela, uma defesa constante de
intelectuais franceses e desprezo por intelectuais de outros lugares como
Índia, África. Ela comete erros, como quando se refere a miscigenação no Brasil
baseada em Gilberto Freyre e parece acreditar na democracia racial brasileira,
o que é uma falácia. Critica Gayatri Spivak e o livro Pode o subalterno
falar? o que discordo, mesmo com algumas críticas que também faço ao livro.
Mas há pontos com os quais
concordo, uma vez que há diferenças entre movimentos sociais e política
identitária, que leva a uma defesa de uma identidade única e a ataques aos
outros ou a qualquer crítica que se faça. Estas políticas identitárias
funcionam da mesma forma do que eles combatem e a intenção é calar o outro.
Mas penso que a defesa de
Roudinesco é em função da psicanálise, onde o Eu se constitui pelo
outro, e a política identitária se fecha a isto, porém a pergunta que me fica é
quem é o outro para Roudinesco?
Mas como disse, não sei dizer se
estou certa em minhas percepções, mas senti isto ao ler o livro, principalmente
quando ela se refere a "generosidade" da França em relação a Frantz Fanon,
Aimé Césaire e outros negros intelectuais, e quando defende que a França teve anticolonialistas
como Sartre e Derrida, porém se eles foram anticoloniais isto não exime a
França do colonialismo que perpetrou e ainda o faz.
Após a leitura encontrei uma
crítica feita por Vladimir Safatle que venho de encontro com minhas impressões
e foi publicado no jornal Valor Econômico.
Elisabeth Roudinesco nasceu em Paris, em 1944. É historiadora e psicanalista francesa.