NADA
CARMEN LAFORET
ALFAGUARA – 1ª ED. – 2008
Tradução: Rubia Prates Goldoni
264 páginas
Bastou começar a ler e fui
fisgada pela escrita de Carmen Laforet. Uma jovem chega a Barcelona, vinda do
interior da Espanha, para estudar. Vem com todos seus sonhos, imaginação,
esperanças de encontrar em uma cidade grande, liberdade e possibilidades novas
e se depara com um quadro que destrói, em segundos, muitas dessas imagens.
Laforet não precisa explicar
nada, basta a descrição da casa da família e a recepção dos parentes que a
acolhem. Um apartamento claustrofóbico, uma luz verde mortificante, que
transforma o ambiente em algo fúnebre, lustres com apenas uma lâmpada, teias de
aranha, e a sujeira no banheiro que não tem água quente.
A recepção dos parentes, as
expressões faciais, as posturas engolfam a jovem e lhe tiram toda a alegria e
as esperanças. Uma família de classe média baixa, que não dispõe dos confortos
de uma burguesia, mas também não chega a ser miserável e, no entanto, se acha
superior aos pobres e os desprezam.
É pós-guerra civil espanhola e Segunda
Guerra Mundial, há muitos traumas e consequências que vieram dos conflitos.
Ramón foi preso e torturado; Juan, o outro irmão, casou-se com uma jovem que
não condiz com o que a família chama de moça direita. Angustias, nome, aliás,
bem revelador, sofre de uma paixão reprimida e se transformou em uma pessoa
amarga, autoritária e controladora.
Há muita mesquinhez, uns cuidando
da vida dos outros, se intrometendo, provocando. Há um momento em que é Natal e
Andrea olha pela janela. Tudo iluminado, lojas decoradas, famílias passeando, a
sensação de uma época de felicidade e união familiar, festas, comidas,
presentes, mas dentro do apartamento tudo é lúgubre, frio, estranho.
Angustias finalmente decide
deixar a casa e ir para um convento. Para Andrea, é um alívio, uma vez que
acredita que terá mais liberdade.
Após a partida de Angustias, é a
segunda parte do livro. Andrea agora precisa ajudar financeiramente em casa,
mas opta por apenas pagar pelo pão do café da manhã. O quarto, a avó a dispensa
de pagar.
Andrea conhece Ena na
Universidade e se tornam boas amigas, porém Ena é uma jovem de uma família mais
próspera do que a de Andrea. Com o dinheiro que agora recebe em mãos, ao invés
de guardar para se alimentar, ela gasta quase tudo nos três primeiros dias,
comprando flores e presentes para a família de Ena. No fundo, sem ao menos
perceber, repete a própria família, que sempre quer parecer mais do que é. Com
isso ela começa a passar fome.
Um dia Ena vai atrás dela no
apartamento. Ela não está, e Ena conhece o Tio Ramón. Quando Andrea chega, fica
notório o desagrado que ela sente ao ver Ena ali e o ciúme perceptível que
sente dela com Ramón. Com isso, Ena decide se afastar e lhe pede para não ir
mais à casa dela nas tardes da semana e também acaba não emprestando mais
livros para que ela possa fazer suas traduções, o que obriga Andrea a
frequentar a biblioteca.
A partir desse momento, irão se
desenrolar situações que levarão Andrea a uma solidão e a um estado depressivo
diante de tudo que lhe acontece de real e de suas ilusões ao vir para
Barcelona. Segredos virão à tona e, com isso, quem é Ramón e toda sua crueldade
se mostrarão.
Há uma descrição de uma paixão
obsessiva de uma adolescente que é muito bem escrita, nos levando a sentir a
angústia e o desespero de uma mulher.
A vida medíocre e toda a
violência que está presente na família, a relação abusiva de Juan e Glória. Uma
avó que sempre defendeu seus filhos homens em detrimento das mulheres e que não
é capaz de enxergar o quanto eles são violentos e também covardes. A pobreza e
a fome, e a falta de uma união familiar, convivência e um mínimo de relação
familiar estão presentes no livro todo. Do outro lado, as famílias ricas de
Barcelona e toda sua hipocrisia e vida absolutamente distante do bairro onde
vive a família de Andrea.
Um livro que causa impacto, muito
bem escrito, que nos faz sentir na pele as situações e o desespero de uma
adolescente que tinha sonhos e se viu diante de uma realidade cruel e fria, e
que ao partir dali ela simplesmente percebe que não leva Nada dali.
Carmen Laforet nasceu em
Barcelona, Espanha, em 1921 e faleceu em Madrid, Espanha, em 2004. Foi uma
escritora espanhola.





















