quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

QUANDO ATÉ O AFETO É ATRAVESSADO PELA FOME

 

VIDAS SECAS

GRACILIANO RAMOS

RECORD - 1984

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE

Vidas Secas é um daqueles livros lidos na juventude que permanecem como imagem, quase como cicatriz. No meu caso, o que ficou de forma mais nítida foi a morte de Baleia. Não apenas por ser uma cadela, mas porque Graciliano Ramos consegue concentrar nela uma humanidade que, ao longo do livro, vai sendo arrancada dos próprios personagens humanos. Baleia sonha, sente, imagina um mundo melhor, algo que a seca, a fome e a miséria já haviam tornado quase impossível para Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos.

A seca não é apenas um fenômeno natural no romance; ela é estrutura de vida, destino imposto, força que empurra à migração, ao deslocamento contínuo, à perda de qualquer possibilidade de enraizamento. A família caminha, trabalha, foge, retorna, sempre sem escolha. A migração não é aventura, é expulsão. O sertão não aparece como espaço mítico, mas como lugar de sobrevivência mínima, onde o tempo se repete sem promessa.

O que impressiona em Vidas Secas é a linguagem seca, contida, quase árida, que acompanha a experiência dos personagens. Há pouco espaço para elaboração emocional, porque a própria vida não oferece esse espaço. A violência é cotidiana, a humilhação é naturalizada, o silêncio é uma forma de existência. Graciliano escreve como quem retira tudo o que é excesso, deixando apenas o essencial — e o essencial é duro.

Mesmo lido muito jovem, o livro já se impõe como denúncia. Não há heroísmo, não há redenção. Há apenas a exposição de um Brasil que empurra seus habitantes para fora de si mesmos. A morte de Baleia, tão lembrada, talvez seja o momento mais doloroso justamente porque revela o quanto a sensibilidade ainda resiste ali, mesmo em condições extremas.

Voltar a Vidas Secas hoje é perceber que ele continua atual. A seca, a migração forçada, a pobreza estrutural, o deslocamento de populações inteiras seguem presentes. O romance permanece como um espelho incômodo, que nos obriga a perguntar até que ponto essa história realmente ficou no passado — ou se seguimos, de outras formas, caminhando sob o mesmo sol.


Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 


A VIOLÊNCIA FRIA DO PODER E O SILENCIAMENTO FEMININO

 

SÃO BERNARDO

GRACILIANO RAMOS

RECORD – 109ª ED. – 2019

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


São Bernardo é um romance que permanece na memória não pelos acontecimentos espetaculares, mas pela atmosfera de secura que atravessa tudo: a linguagem, as relações, os afetos. Lido ainda na juventude, o que mais me marcou foi a situação da mulher de Paulo Honório: a maneira como ela é tratada com frieza, desconfiança e progressivo apagamento, num ambiente onde o poder masculino se exerce como posse.

Paulo Honório é um personagem árido, endurecido pela ambição e pela lógica da propriedade. Tudo para ele é cálculo, domínio, resultado. Essa forma de estar no mundo se estende à relação conjugal: a mulher não é parceira, mas parte do patrimônio, algo que deve obedecer, se ajustar, permanecer silencioso. O amor, se existe, aparece deformado pela incapacidade de lidar com o outro como alteridade.

A violência em São Bernardo não é estridente. Ela se manifesta no controle, na vigilância, no ciúme paranoico, na redução da mulher a um objeto suspeito. A aridez do personagem masculino é também emocional: Paulo Honório não sabe escutar, não sabe compartilhar, não sabe amar sem dominar. E é justamente essa incapacidade que conduz à destruição do vínculo e à tragédia.

A figura da esposa — intelectual, sensível, deslocada naquele universo — funciona como contraste absoluto. Ela representa tudo o que Paulo Honório não compreende e não tolera: pensamento, dúvida, palavra, autonomia. Seu sofrimento não é apenas individual, mas estrutural: é o sofrimento de uma mulher inserida em um mundo moldado por homens para homens, onde não há espaço para fragilidade, reflexão ou dissenso.

Reler São Bernardo hoje é perceber o quanto Graciliano Ramos constrói uma crítica profunda às formas masculinas de poder. O romance não absolve seu narrador. Ao contrário, deixa exposta a pobreza afetiva de um homem que conquistou tudo, menos a capacidade de se relacionar sem destruir.

Talvez seja isso que torna o livro tão incômodo e tão atual: ele mostra que a violência não está apenas nos gestos brutais, mas também, e sobretudo, na frieza cotidiana, na lógica da posse e no silenciamento sistemático das mulheres.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 




DESEJO, INCONFORMISMO E O CASTIGO DA TRANSGRESSÃO

 


MADAME BOVARY

GUSTAVE FLAUBERT

NOVA ALEXANDRIA – 3ª ED. - 2007

Madame Bovary é um romance que provoca leituras contraditórias — e talvez por isso continue tão atual. O que mais me chamou a atenção foi a figura de uma mulher que não se conforma com a vida que lhe foi destinada. Emma Bovary recusa a mediocridade do casamento, a monotonia do cotidiano, o horizonte estreito da pequena cidade. Ela quer mais — e quer intensamente.

Emma não é uma mulher acomodada. Ao contrário: ela age, deseja, se arrisca. Busca no amor, no consumo, na fantasia romântica e nas relações extraconjugais uma saída para uma existência que lhe parece sufocante. Sua insatisfação não é passiva; ela tenta, erra, insiste. Nesse sentido, Emma é profundamente moderna: uma mulher que se recusa a aceitar o destino como algo natural.

Mas Flaubert não permite que essa recusa permaneça sem punição. O romance inteiro parece caminhar para o castigo da personagem — um castigo moral, social e físico. Emma paga caro por desejar demais, por sair do lugar, por não aceitar o papel que lhe foi reservado. A narrativa, fria e precisa, observa sua queda quase como um experimento: o que acontece quando uma mulher quer mais do que lhe é permitido?

Essa ambiguidade é central. Emma é ao mesmo tempo vítima e agente. Ela sofre sob as restrições impostas às mulheres de seu tempo, mas também se ilude, se engana, consome sem medida, projeta na fantasia literária uma saída que a realidade não oferece. Flaubert parece oscilar entre a crítica à sociedade provinciana e a necessidade de punir sua personagem por transgredir suas normas.

Talvez seja justamente aí que Madame Bovary se torne tão potente. O romance não oferece conforto. Ele expõe o impasse feminino do século XIX: entre a submissão silenciosa e a transgressão castigada. Emma escolhe transgredir, e por isso paga com a própria vida.

Reler Madame Bovary hoje é perceber que a pergunta que o livro deixa em aberto permanece atual: Até que ponto o desejo feminino pode existir sem ser patologizado, ridicularizado ou punido? Emma incomoda porque ela não se arrepende de desejar. E talvez esse seja seu maior crime.

Gustave Flaubert nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu na mesma cidade em 1880. Foi um escritor francês. 




O CIÚME COMO NARRATIVA E A CONDENAÇÃO SEM PROVA


 

DOM CASMURRO

MACHADO DE ASSIS

PRINCIPIS – 2019

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


Dom Casmurro é um romance sobre o ciúme, mas, sobretudo, sobre o poder de quem narra. Lido há muito tempo, o que permanece é menos a dúvida sobre Capitu e mais a certeza da insegurança de Bentinho. Para mim, Capitu não traiu. O que existe ali é a imaginação de um homem incapaz de lidar com o amor sem posse.

Bentinho narra a própria história tentando convencer o leitor, e talvez a si mesmo, de que foi traído. Mas o romance inteiro se constrói sobre indícios frágeis, suposições, interpretações enviesadas, leituras paranoicas de gestos e olhares. Capitu é condenada sem prova, julgada sem defesa, silenciada sem possibilidade de resposta. Tudo passa pelo filtro de uma subjetividade ressentida.

O ciúme em Dom Casmurro não nasce de fatos, mas da insegurança. Bentinho projeta em Capitu seus medos, suas dúvidas, sua fragilidade emocional. Ele não confia nela porque não confia em si. O olhar de Capitu — famoso, enigmático, “de ressaca” — torna-se ameaça justamente porque ele não suporta a autonomia do outro.

Machado de Assis constrói uma obra-prima ao transformar o narrador em personagem pouco confiável. O leitor atento percebe as fissuras do discurso, as contradições, o esforço excessivo de convencer. A narrativa não busca a verdade objetiva dos acontecimentos, mas revela o funcionamento do ciúme: como ele reorganiza a memória, distorce o passado e cria uma lógica própria.

Capitu, por sua vez, é uma personagem de força silenciosa. Inteligente, observadora, estrategista em um mundo que não lhe oferece espaço de fala, ela incomoda exatamente por não ser transparente. E talvez seja isso que Bentinho não perdoe: Capitu pensa, decide, age, e ele não a controla.

Dom Casmurro não é um romance sobre adultério. É um romance sobre a construção da culpa. A tragédia não está na traição, que jamais se comprova, mas na incapacidade de Bentinho de amar sem vigiar, sem suspeitar, sem reduzir o outro a uma extensão de si.

Reler Machado hoje é perceber o quanto ele antecipa discussões profundamente contemporâneas: gaslighting, narrativas de poder, silenciamento feminino. Capitu não precisa ser inocentada — porque talvez nunca tenha sido culpada. O verdadeiro réu sempre foi Bentinho, e o tribunal é a própria linguagem.


Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu na mesma cidade em 1908. Foi um escritor brasileiro. 


INFÂNCIA, POBREZA E ESCÂNDALO MORAL


 

CAPITÃES DA AREIA

JORGE AMADO

COMPANHIA DE BOLSO – 2009

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Ler Capitães da Areia muito jovem é uma experiência que não se esquece. Talvez porque Jorge Amado não escreva sobre a infância a partir da nostalgia, mas a partir da rua, da fome, da violência e da liberdade brutal que marca a vida dos meninos e meninas abandonados de Salvador. O livro revela um Brasil que prefere não ver: crianças vivendo à margem, organizadas em bandos, sobrevivendo entre pequenos furtos, afetos precários e uma relação dura com a cidade.

O que mais me marcou à época foi justamente essa revelação da pobreza infantil não como exceção, mas como estrutura. Jorge Amado não romantiza completamente esses meninos, embora haja ternura, ele os insere em um sistema social que os produz e depois os condena. A violência não surge do nada, ela é resposta, defesa, aprendizado precoce.

Há também um segundo impacto, inseparável da idade em que li o livro: a presença de uma cena de sexo envolvendo personagens muito jovens. Algo que causa polêmica até hoje e talvez por isso mesmo continue sendo um ponto sensível da obra. Na época, o choque não vinha apenas do conteúdo, mas do fato de que o livro desmontava a imagem idealizada da infância como espaço de pureza e proteção. Em Capitães da Areia, a infância é atravessada pelo desejo, pela exploração, pela falta de escolha.

Essa cena, tantas vezes isolada em debates morais, só faz sentido dentro do universo que o livro constrói: um mundo onde não há mediação adulta cuidadora, onde o corpo também é um território exposto. A polêmica persiste porque o livro obriga o leitor a encarar uma pergunta incômoda: o que a sociedade faz com suas crianças antes de julgá-las?

Reler Capitães da Areia hoje, mesmo à distância da leitura original, é perceber que o romance não envelheceu. A pobreza infantil, a criminalização da juventude pobre, o desconforto diante de corpos jovens fora do controle moral continua presente. O escândalo, talvez, nunca tenha sido o livro — mas a realidade que ele insiste em mostrar.


Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 1912 e faleceu em Salvador em 2001.Foi um escritor brasileiro. 


O CIÚME COMO INCÊNDIO LENTO E A DÚVIDA QUE NUNCA SE APAGA


 

AS BRASAS

SÁNDOR MÁRAI

COMPANHIA DAS LETRAS – 2ª ED. – 2021

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


As Brasas é um romance que não se organiza pela ação, mas pela espera. Lido há muito tempo, o que permanece não são os acontecimentos em si, mas a atmosfera: o ciúme que se instala silenciosamente, a suspeita que nunca se resolve, a dúvida que atravessa uma vida inteira. É um livro sobre aquilo que não se diz — e sobre o que nunca deixa de arder.

Dois homens, ligados por uma amizade antiga, se reencontram após décadas. Entre eles, uma mulher, um amor, uma traição possível — mas nunca plenamente esclarecida. O romance inteiro se constrói em torno dessa incerteza. Não há prova definitiva, não há confissão que encerre o conflito. O que existe é a memória revisitada, o ressentimento cultivado, a necessidade quase obsessiva de entender o passado.

O ciúme, em As Brasas, não é explosivo. Ele é lento, contido, aristocrático até. Um sentimento que não se manifesta em gestos violentos imediatos, mas em silêncio, distância, afastamento. O personagem masculino que narra ou conduz o confronto carrega esse ciúme como quem carrega uma ferida nunca cicatrizada. A dúvida se torna mais importante do que a verdade.

Márai escreve sobre o tempo — o tempo que não cura tudo, como se costuma dizer, mas que às vezes apenas aprofunda a obsessão. O reencontro não é reconciliação; é tentativa tardia de dar forma a algo que nunca foi elaborado. O passado não passa. Ele se acumula.

Há também uma crítica sutil a um mundo aristocrático em decadência, onde honra, amizade e lealdade são valores proclamados, mas atravessados por silêncios estratégicos e emoções reprimidas. A contenção emocional, longe de evitar a tragédia, a prolonga. O que não é dito não desaparece — fermenta.

As Brasas é um romance sobre a impossibilidade de encerramento. Mesmo quando tudo é dito, algo permanece em suspenso. Talvez porque certas perguntas não tenham resposta. Talvez porque o ciúme, uma vez instalado, nunca se apague completamente — ele apenas se transforma em brasa, escondida sob a cinza, pronta para reacender.

Reler As Brasas hoje é perceber que o livro não fala apenas de traição ou amizade, mas da fragilidade das relações humanas quando se baseiam mais na posse e no orgulho do que na escuta. É um romance que não grita, não acusa — mas que queima lentamente.


Sándor Márai nasceu em Kosice, Eslováquia em 1900, e faleceu em San Diego, Califórnia, EUA, em 1989. Foi um escritor e jornalista de etnia húngara, nascido na Eslováquia. 



Um Certo Capitão Rodrigo — sedução, liberdade e a força de Bibiana


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.



Ana Terra — fundação violenta, amor interditado e a força que permanece


ANA TERRA

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2025

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE 

Ana Terra é uma dessas personagens que ficam. Mesmo quando os detalhes da trama se embaralham com o tempo, o que permanece é a imagem de uma mulher forte, atravessada pela violência da fundação do Brasil, sobrevivendo onde tudo parece conspirar contra ela. O que me marcou na leitura foi justamente isso: a força de Ana, o amor vivido com o indígena e a brutalidade com que esse amor é interrompido.

Ana vive em um território de fronteira — geográfica e simbólica. A terra ainda não é “Brasil” no sentido pleno, é espaço de disputa, de violência, de apagamento. Seu amor com o indígena (Pedro Missioneiro) carrega essa tensão desde o início: não é apenas um amor proibido no plano familiar, mas um amor impossível dentro da lógica colonial. Ele representa o outro que deve ser eliminado, não apenas rejeitado.

A morte do indígena — assassinato cometido pelos homens da família — é um dos momentos mais duros da narrativa. Não se trata apenas de um crime passional ou moral, mas de um gesto fundador: o patriarcado e o colonialismo se afirmam juntos, eliminando o corpo indígena e silenciando o desejo feminino. Ana não é consultada, não é escutada, não é considerada. Seu amor é tratado como desvio, vergonha, ameaça.

E, ainda assim, ela permanece. Violentada pela história, pela família, pelas condições materiais, Ana Terra não desaparece. Ela cria o filho, sustenta a vida, atravessa o tempo. Sua força não é heroica no sentido épico, mas resistente, silenciosa, cotidiana. É a força das mulheres que ficam quando os homens matam, partem ou morrem.

É impossível não ler Ana Terra como uma metáfora da própria formação do sul do Brasil, uma formação marcada pela expulsão dos indígenas, pela dominação masculina e pela naturalização da violência como método de organização social. Ana carrega no corpo e na memória essa história, tornando-se uma espécie de testemunha involuntária da fundação do mundo que virá depois.

Reler Ana Terra pela lembrança é perceber que Érico Veríssimo construiu ali uma personagem que escapa do tempo. Ana não é apenas uma mulher forte; ela é o ponto de tensão entre amor e violência, entre vida e morte, entre o que poderia ter sido e o que foi imposto. E talvez seja por isso que ela continue sendo lembrada — não como figura dócil, mas como presença que resiste à tentativa de apagamento.



Anna Kariênina — desejo feminino e a crítica silenciosa da aristocracia

 

ANNA KARIÊNINA

LEV TOLSTOI

EDITORA 34 – 1ª ED. 2021

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

Anna Kariênina é um romance que permanece mesmo quando a memória falha. O que fica, quase como imagem inaugural, é o suicídio na linha do trem — um gesto extremo, atravessado pelo desespero, que encerra uma trajetória marcada pelo desejo e pela exclusão. Também permanece a lembrança de uma mulher que ama outro homem, fora do casamento, e que por isso é progressivamente empurrada para fora do mundo social.

Lido há muito tempo, Anna Kariênina se fixa inicialmente nessa dimensão trágica: o amor proibido, a paixão avassaladora, a punição final. Anna aparece como mais uma mulher que ousa desejar e que paga caro por isso. Mas Tolstói é um escritor excessivamente rico para se esgotar nessa leitura e talvez seja apenas na maturidade que suas minúcias ganhem pleno sentido.

Por trás da história de Anna, há um retrato minucioso e implacável da aristocracia russa do século XIX. Tolstói observa com precisão quase clínica os rituais sociais, os códigos morais, as hipocrisias e os privilégios de uma classe que se sustenta na aparência de ordem enquanto vive de convenções vazias. O adultério masculino é tolerado; o feminino, condenado. A moral não é ética, é social.

Anna não é punida apenas por amar outro homem, mas por tornar visível aquilo que deveria permanecer oculto. Ela rompe o pacto do silêncio. Ao insistir no amor e na legitimidade de seu desejo, ela expõe a fragilidade das normas que organizam aquele mundo aristocrático. Sua queda é menos moral do que política: ela não cabe mais no jogo social.

A releitura de Anna Kariênina promete justamente isso: revelar as engrenagens que antes passavam despercebidas. Os detalhes, os diálogos aparentemente banais, os gestos repetidos, as descrições longas deixam de ser ornamento e passam a funcionar como crítica. Tolstói desmonta sua classe por dentro, mostrando o vazio que sustenta seus valores.

Reler Anna Kariênina hoje é reencontrar uma personagem trágica, mas também perceber que sua história está entrelaçada a uma crítica profunda à sociedade que a condena. Anna morre nos trilhos, mas o romance deixa claro que o trem já vinha em movimento muito antes — conduzido por uma ordem social que não admite fissuras.


Lev Tolstói nasceu em Iasnaia, Poliana em 1828 e faleceu em Astapovo, Ryazan, Rússia. Foi um escritor russo. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA, GÊNERO E DESIGUALDADE EM TEMPOS DE EPIDEMIA

 


ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global

DEBORA DINIZ

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016

Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.

O livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles, uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória institucional.

Outro ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas. O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas, evidenciando o atraso e a negligência da política pública.

Diniz também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia. Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas, enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e controle epidemiológico insuficiente.

Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade, gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e salvaram vidas.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora e documentarista. 


ENTRE O “ELA” E O “NÓS”: A VIDA EM TEMPOS COMPARTILHADOS

 


OS ANOS

ANNIE ERNAUX

FÓSFORO – 1ª ED. – 2021

Confesso que nas primeiras páginas a leitura se arrastou um pouco — mas isso é breve, e logo o livro nos prende. Annie Ernaux apresenta um relato autobiográfico singular: sem recorrer ao “eu”, ela narra sua vida através do “ela” e do “nós”. Como ela mesma explica, “não se trata de um trabalho de rememoração (...). Ela só vai olhar para si própria buscando encontrar o mundo, a memória e o imaginário dos dias passados”.

O relato se inicia nos anos 1940 e avança até os anos 2000, acompanhando acontecimentos marcantes do mundo e, ao mesmo tempo, a vida cotidiana da autora enquanto mulher inserida nesse contexto. É um retrato profundo da sociedade francesa, de suas atitudes, pensamentos e transformações, apresentado com uma franqueza rara.

Mas Os Anos é também a história de uma mulher comum, cuja vida se entrelaça com a grande História. Ernaux constrói uma ponte entre o pessoal e o coletivo, mostrando como a experiência individual reflete, espelha e é moldada pelo tempo e pelas transformações sociais. A autora consegue assim revelar a memória de uma época sem se colocar como protagonista isolada, tornando seu relato ao mesmo tempo íntimo e universal.

O livro é, portanto, mais do que uma autobiografia: é uma crônica da memória coletiva, um olhar atento sobre os gestos, hábitos, medos e esperanças de gerações inteiras.


Annie Ernaux nasceu em Lillebonne, França, em 1940. É uma escritora. 


DA LUTA SOCIAL À FRAGMENTAÇÃO IDENTITÁRIA

 


O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES

As desigualdades agora se diversificam e se individualizam, e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.

FRANÇOIS DUBET

VESTÍGIO – 1ª ED. – 2020

Tenho estudado a questão das políticas identitárias e das transformações nos modos de organização social, sobretudo quando comparadas às formas clássicas de luta baseadas nas classes sociais. Durante muito tempo, os movimentos sociais se estruturaram como coletivos amplos e múltiplos, movidos por um senso comum de luta e pela busca de melhorias que, ao menos em princípio, visavam o conjunto da sociedade, como nas disputas entre trabalhadores, patrões e capital.

Hoje, assistimos a um processo distinto. Grandes grupos se fragmentam em múltiplas identidades, muitas vezes organizadas em torno do ressentimento, da cólera e da indignação. Não raramente, esses grupos acabam reproduzindo as mesmas formas de violência simbólica — ou mesmo concreta — daqueles que dizem combater: atacam, agridem, ameaçam e inviabilizam o diálogo. Evidentemente, continuam existindo lutas estruturais fundamentais, como o movimento negro, mas, ao lado delas, proliferam inúmeros grupos identitários cuja dinâmica nem sempre favorece o debate público ou a construção do comum.

É nesse contexto que O tempo das paixões tristes se mostra um livro fundamental. Embora o estudo esteja centrado na realidade francesa, onde vive o autor, Dubet oferece ferramentas analíticas que podem ser plenamente mobilizadas no Brasil. Seu foco não é apenas institucional, mas profundamente humano: ele analisa jovens, escolas, trabalhadores, imigrantes, trajetórias individuais e experiências concretas de desigualdade.

Entre todos os livros que li até agora sobre o tema, este foi o que mais contribuiu para minha compreensão do problema. Dubet se pergunta, e nos ajuda a pensar, o que fragmentou as classes sociais, por que as identificações identitárias se intensificaram, de onde surge tanto ressentimento e, em muitos casos, tanto ódio. Em que momento a indignação, que historicamente impulsionou movimentos coletivos voltados à transformação social, se converte em uma multiplicidade de identidades fechadas em si mesmas, tornando o debate público quase impossível?

O autor aponta para um deslocamento decisivo: da identidade múltipla para a identidade fixa. Não sou apenas isto e sou atravessado por muitas dimensões, dá lugar a uma definição rígida do eu, incapaz de se constituir na relação com o outro. O reconhecimento deixa de ser relacional e passa a ser vivido como disputa permanente. A política se empobrece quando o sujeito se fecha exclusivamente em si mesmo.

Como chegamos a esse ponto? Por que esse modelo de identificação se tornou tão potente? São essas as perguntas que Dubet enfrenta — e são também as questões que sigo tentando compreender.


François Dubet nasceu em Périgueux, França, em 1946. É sociólogo e filósofo. 


FASCISMO, GUERRA E CAMPONESES

 


O REFÚGIO

VALERIO MASSIMO MANFREDI

ROCCO – 1ª ED. 2012

O Refúgio narra a saga da família Bruni — Callisto, Clerice e seus nove filhos, sete homens e duas mulheres. Camponeses simples e trabalhadores, vivem como meeiros em uma propriedade rural, explorados pelos donos da terra, como tantos outros na Itália do início do século XX. Ainda assim, levam uma vida marcada pela solidariedade, pela hospitalidade e por uma certa alegria possível: recebem quem os procura, especialmente no inverno, oferecendo um prato de sopa quente e um lugar para dormir.

Após um dia exaustivo de trabalho no campo, a família se reúne no estábulo para contar histórias. Esses momentos de partilha e oralidade funcionam como um refúgio simbólico: um espaço de memória, afeto e pertencimento que sustenta a família diante das adversidades.

A vida segue seu curso até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando os filhos homens são enviados ao front. A guerra irrompe na rotina, altera destinos e impõe ausências definitivas. Após seu término, é preciso recomeçar, mas a paz é frágil. Surgem movimentos que questionam a exploração dos camponeses, e aqueles que ousam sonhar com mudança passam a ser perseguidos pelos camisas pretas, apoiadores do fascismo de Mussolini.

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a história se repete sob novas formas. A Itália, inicialmente aliada ao Eixo, muda de posição após a rendição e passa a ser atacada pelos alemães — os mesmos inimigos contra os quais seus soldados haviam lutado na Primeira Guerra. O território se transforma em campo de batalha, e a população civil, mais uma vez, paga o preço das decisões políticas.

Ao acompanhar a trajetória da família Bruni, Manfredi reconstrói a história da Itália a partir de baixo: pela vida dos camponeses, seus costumes, rituais, formas de resistência e sobrevivência. O Refúgio é um romance sensível e potente, que mostra como a grande História atravessa vidas comuns — e como, apesar de tudo, elas seguem buscando abrigo, sentido e continuidade.


Valerio Massimo Manfredi nasceu em Castelfranco Emilia, Itália, em 1943. É historiador, antropólogo, ensaísta, escritor e jornalista italiano. 


A FILOSOFIA COMO RESPOSTA AO MUNDO


 

NO CAFÉ EXISTENCIALISTA

SARAH BAKEWELL

OBJETIVA – 1ª ED. 2017


Em No Café Existencialista, Sarah Bakewell apresenta a história do existencialismo a partir das vidas de alguns de seus principais pensadores, como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Martin Heidegger, entre outros. O livro se constrói no cruzamento entre biografia e pensamento, mostrando como as ideias existencialistas não surgem no abstrato, mas se formam no contato direto com a experiência, as escolhas e os impasses de uma época.

Ao longo da narrativa, Bakewell explora temas centrais do existencialismo — liberdade, responsabilidade individual, engajamento, angústia e a busca por sentido — sempre ancorando esses conceitos em situações concretas. O existencialismo aparece menos como um sistema fechado e mais como uma resposta viva às circunstâncias históricas e pessoais enfrentadas por seus autores.

Uma das abordagens mais interessantes do livro é a forma como a autora entrelaça o desenvolvimento do existencialismo com a cultura e o clima intelectual do século XX. O movimento é contextualizado na Europa do pós-guerra, marcada pela experiência da guerra total, pelo genocídio e por uma profunda crise de valores e identidade. Nesse cenário, pensar torna-se uma urgência ética, e não apenas um exercício teórico.

Bakewell mostra ainda como o existencialismo ultrapassou os limites da filosofia acadêmica e influenciou a literatura, as artes e a cultura em geral. O movimento tornou-se um fenômeno cultural, presente em romances, peças de teatro, filmes e debates públicos, moldando uma sensibilidade que ainda hoje nos interpela.

No Café Existencialista é uma leitura envolvente e esclarecedora, ideal tanto para quem deseja uma introdução ao existencialismo quanto para quem busca compreender como filosofia, vida e história se entrelaçam de forma indissociável.


Sarah Bakewell nasceu em Bournemouth, Inglaterra, em 1963. É uma autora e professora britânica. 


PARA ALÉM DOS HERÓIS: AS MULHERES NOS MITOS GREGOS

 


MITOS GREGOS: Nas tramas das deusas

CHARLOTTE HIGGINS

ZAHAR – 1ª ED. – 2022

Já há uma vasta bibliografia sobre mitologia grega, mas Nas tramas das deusas se destaca por um deslocamento fundamental: aqui, são as mulheres que contam — ou, mais precisamente, tecem — os mitos. Charlotte Higgins se apropria do tear, uma das principais atribuições femininas na Grécia antiga, para estruturar a narrativa e conduzir o leitor por mitos amplamente conhecidos e também por outros menos recorrentes.

Em cada etapa, em cada capítulo, há uma mulher tecendo. E, com ela, emerge uma perspectiva distinta, uma nova inflexão interpretativa que se afasta da versão heroica tradicional. Não se trata de negar os mitos, mas de mudar o ponto de vista: ao invés dos grandes heróis masculinos, o foco recai sobre as experiências femininas, marcadas por violência, engano, silenciamento  e, em alguns casos, por reação e resistência.

Essa mudança de olhar revela o quanto as mulheres sofrem nos mitos: são frequentemente estupradas, traídas, instrumentalizadas pelos deuses e pelos homens. Ao trazer essas experiências para o centro da narrativa, Higgins nos permite perceber dimensões que costumam ser naturalizadas ou apagadas nas leituras clássicas.

O mérito do livro está justamente em oferecer interpretações que soam diferentes sem trair o material mitológico. Quando os mitos parecem não corresponder à versão mais conhecida, isso se deve ao uso de fontes distintas da tradição grega, todas cuidadosamente indicadas ao final do livro, para quem deseja aprofundar a pesquisa. Nos poucos momentos em que a autora se permite maior liberdade interpretativa, isso também é explicitado com transparência.

Nas tramas das deusas é uma leitura instigante, que não reescreve os mitos, mas os reinscreve a partir de um outro lugar: o das mulheres que, mesmo confinadas ao tear, sempre estiveram produzindo sentido, memória e narrativa.


Charlotte Higgins nasceu em Stoke-on-Trent, Reino Unido, em 1972. É uma escritora e jornalista britânica.