O MUNDO SE DESPEDAÇA
CHINUA ACHEBE
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2009
O Mundo se Despedaça
é, antes de tudo, um romance sobre a violência
das rupturas. Achebe nos apresenta o povo ibo, na região que
hoje corresponde à Nigéria, antes da colonização,
permitindo que conheçamos seus rituais, sua organização social, suas crenças,
sua justiça e suas formas próprias de pertencimento. Trata-se de um gesto
político e literário fundamental: mostrar que havia mundo, sentido e
complexidade antes da chegada europeia.
No centro da narrativa está
Okonkwo, um grande guerreiro de Umuófia, cuja vida é marcada por um medo
profundo: o de se tornar semelhante ao pai, considerado fraco e indigno pela
comunidade. Esse pavor molda sua personalidade e o conduz a uma adesão quase
violenta à tradição, à honra e à virilidade. Okonkwo não se permite falhar, não
se permite sentir, não se permite vacilar. Sua rigidez é tanto sua força quanto
sua ruína.
Achebe constrói Okonkwo como uma
figura trágica. Seu apego intransigente à tradição não nasce de uma reflexão
serena, mas de uma ferida íntima. O que está em jogo não é apenas a preservação
cultural, mas uma identidade masculina construída sobre o medo da fragilidade.
Quando o destino o atinge — obrigando-o ao exílio por sete anos —, não é apenas
um indivíduo que se afasta da aldeia, mas uma forma inteira de estar no mundo
que começa a se desfazer.
Durante sua ausência, chegam os
missionários e os homens brancos. A colonização não aparece como um evento
súbito, mas como um processo lento de
infiltração, que atua sobre as fissuras internas da sociedade
ibo: a conversão de alguns membros, a introdução de novas leis, a
deslegitimação das autoridades tradicionais, a substituição gradual dos
sentidos do sagrado e da justiça. O mundo não explode — ele se despedaça.
Quando Okonkwo retorna, encontra
uma aldeia transformada. Aquilo que antes era consenso agora é dúvida; o que
era tradição torna-se objeto de negociação. Incapaz de se adaptar, Okonkwo
percebe que já não há lugar para ele naquele novo arranjo colonial. Sua
tragédia pessoal espelha a tragédia coletiva de um povo cuja cosmologia,
linguagem e organização social são violentamente reordenadas a partir de
parâmetros externos.
Achebe escreve contra a
narrativa colonial que retratou as sociedades africanas como primitivas ou sem
história. O Mundo se Despedaça devolve
densidade, humanidade e contradição a esses mundos, ao mesmo tempo em que
revela que a colonização não destrói apenas culturas, mas produz sujeitos deslocados, presos entre um
passado que não pode retornar e um presente que não lhes pertence.
É um romance profundamente
antropológico, político e ético. Um livro que mostra que a perda mais radical
não é apenas territorial ou econômica, mas simbólica: perder o sentido do que
se é.



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