terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMPREENDER O RACISMO ESTRUTURAL


 

RACISMO BRASILEIRO: UMA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO PAÍS

YNAÊ LOPES DOS SANTOS

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

336 páginas

Racismo brasileiro: uma história da formação do país, de Ynaê Lopes dos Santos, conduz o leitor por um amplo e rigoroso percurso da história do racismo no Brasil, iniciando muito antes da invasão portuguesa e estendido até os dias atuais. A autora demonstra que o racismo não é um desvio pontual ou uma herança mal resolvida, mas um elemento estruturante da formação política, social e econômica do país.

O livro percorre o processo de escravização, a organização do sistema colonial, a chamada abolição e o destino das pessoas negras que, embora formalmente libertas, jamais foram incluídas na sociedade como cidadãs plenas. Ynaê evidencia como a ausência de políticas de integração após a abolição não foi um erro, mas um projeto, responsável por manter desigualdades profundas e persistentes. Nesse contexto, a autora analisa o ideal de embranquecimento e o papel do racismo científico, mostrando como essas teorias foram mobilizadas para justificar hierarquias raciais e orientar políticas de Estado.

Ao avançar no tempo, o livro revela as permanências dessas estruturas racistas no Brasil contemporâneo, conectando passado e presente de forma clara e contundente. A análise alcança acontecimentos recentes, como o assassinato de Marielle Franco, evidenciando como a violência racial segue operando no centro da vida política do país. Longe de oferecer uma narrativa linear ou conciliadora, Ynaê Lopes dos Santos constrói um texto que exige enfrentamento histórico e político.

Racismo brasileiro é uma leitura imprescindível para quem deseja compreender o país para além dos mitos da cordialidade e da democracia racial. Ao explicitar as raízes históricas do racismo estrutural, o livro fornece ferramentas fundamentais para entender o Brasil e suas desigualdades, tornando-se uma obra essencial para a reflexão crítica sobre nossa história e nosso presente.


Ynaê Lopes dos Santos nasceu em São Paulo em 1982. É historiadora e escritora. 


A BUSCA PELO ESSENCIAL NA RELIGIÃO

 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA

O Sistema totêmico na Austrália

ÉMILE DURKHEIM

MARTINS FONTES – 1ª ED. – 1996

609 páginas

As Formas Elementares da Vida Religiosa, de Émile Durkheim, é um estudo seminal que busca despir as religiões de seu aparato ritualístico e simbólico, indo ao encontro do que há de mais essencial. Durkheim investiga o Totemismo na Austrália, considerado uma forma inicial de organização social e religiosa, em que clãs e fraternidades se estruturam em torno de um animal totêmico. Esse animal, considerado sagrado, não apenas representa o clã, mas também orienta normas, regras e comportamentos internos, bem como regula a convivência com outros grupos.

O livro é particularmente esclarecedor ao mostrar como a religião, mesmo em sua forma mais elementar, contribui para a formação do psiquismo individual e para a estruturação das regras sociais. Durkheim revela que o Totemismo não é apenas uma questão de crença, mas um mecanismo social que organiza a vida coletiva, fornecendo padrões de identidade, disciplina e coesão para o grupo.

Por meio de sua análise, Durkheim oferece uma compreensão profunda da interdependência entre religião, sociedade e indivíduo, mostrando como elementos simbólicos aparentemente simples podem sustentar estruturas complexas de convivência e moralidade.


Émile Durkheim nasceu em Épinal, França, em 1858 e faleceu em Pari em 1917. Foi um sociólogo, antropólogo e filósofo. Considerado o pai da Sociologia. 


IFEMELU: IDENTIDADE E IMIGRAÇÃO

 


AMERICANAH

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2014

520 páginas~

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance poderoso que explora questões de identidade, raça, imigração e pertencimento, a partir da experiência de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos em busca de educação e novas oportunidades. A obra examina de maneira sensível e crítica os desafios enfrentados por imigrantes e as nuances do racismo estrutural, das diferenças culturais e da adaptação em um país estrangeiro.

O romance também aborda a vida na Nigéria, revelando as complexidades sociais, econômicas e políticas do país, bem como as relações humanas marcadas por classe, gênero e tradição. Ao acompanhar o percurso de Ifemelu, Adichie investiga a construção da identidade, a experiência do “não-lugar” do imigrante e a importância da memória cultural para manter o vínculo com suas origens.

Além disso, o livro destaca a questão racial de forma direta, especialmente nos Estados Unidos, discutindo como a cor da pele influencia oportunidades, interações e percepção social. Americanah é, portanto, tanto uma história de amor e autodescoberta quanto uma análise crítica sobre raça, identidade e as tensões entre pertencimento e deslocamento.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É uma feminista e escritora nigeriana. 




MAQUIAVEL E A POLÍTICA FEMININA


 

PRINCESAS DE MAQUIAVEL – POR MAIS MULHERES NA POLÍTICA

JULIANA FRATINI (ORG.)

MATRIX EDITORA – 1ª ED. – 2021

208 páginas

Princesas de Maquiavel, organizado por Juliana Fratini, inicia-se com uma analogia ao clássico O Príncipe, de Maquiavel, escrito para um príncipe homem, transportando suas reflexões para o universo feminino e político, daí o título.

O livro reúne depoimentos de mulheres na política que relatam as dificuldades enfrentadas, incluindo o machismo e a violência política direcionada a elas. Também abordam iniciativas voltadas para aumentar a participação feminina, destacando a solidariedade e a sororidade entre mulheres na política. Além disso, a obra evidencia conquistas concretas dessas mulheres, como leis aprovadas, projetos implementados e outras realizações que transformam o cenário político.

Princesas de Maquiavel é uma leitura instigante que combina reflexão teórica, experiência prática e inspiração, mostrando a força, a determinação e a importância da presença feminina na política contemporânea.


Juliana Fratini é uma cientista política brasileira.


A ANTECIPAÇÃO DA INTERSECCIONALIDADE


 

MULHERES, RAÇA E CLASSE

ANGELA DAVIS

BOITEMPO – 1ª ED. - 2016

248 páginas


Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, traça um amplo e rigoroso percurso histórico da experiência das mulheres negras nos Estados Unidos, desde a escravização até períodos mais recentes. A autora articula história social, análise política e crítica feminista para demonstrar como raça, gênero e classe nunca atuaram de forma isolada, mas sempre de maneira entrelaçada, produzindo desigualdades específicas e persistentes.

Ao longo do livro, Davis examina criticamente o movimento abolicionista, o feminismo e a luta pelo sufrágio feminino, evidenciando as tensões internas que marcaram essas mobilizações. Um dos pontos centrais de sua análise é a recusa de mulheres brancas em reconhecer plenamente as mulheres negras como aliadas políticas, especialmente no contexto da luta pelo voto, quando muitas preferiram excluí-las para não criar conflitos com as mulheres do Sul escravista. Esse gesto revela como o feminismo hegemônico, desde suas origens, esteve atravessado por interesses raciais e de classe.

A autora também se debruça sobre a questão do trabalho, mostrando como as mulheres negras e as mulheres imigrantes sempre estiveram inseridas no mercado de trabalho, lutando por direitos básicos, enquanto grande parte das mulheres brancas, amparadas por uma ideologia de classe média, reivindicava direitos a partir do ideal do lar, como o divórcio ou a proteção da maternidade. Essa diferença estrutural expõe projetos políticos distintos, frequentemente incompatíveis, mas tratados como universais pelo feminismo branco.

O que Angela Davis antecipa, com impressionante clareza, é aquilo que hoje chamamos de interseccionalidade: a compreensão de que as opressões de gênero, raça e classe se constituem mutuamente e não podem ser analisadas separadamente. Mulheres, raça e classe permanece, assim, uma obra fundamental para desmontar narrativas feministas excludentes e para pensar lutas emancipatórias que não reproduzam as hierarquias que pretendem combater.


Angela Davis nasceu em Birmingham, Alabama,  EUA, em 1944. É uma filósofa e ativista socialista estadunidense. 


FEMINICÍDIO E CULPABILIZAÇÃO DA MULHER

 

MULHERES EMPILHADAS

PATRÍCIA MELO

LEYA - 2019

240 páginas

Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo, constrói pela ficção um retrato duro e necessário da vida de mulheres reais atravessadas pela violência doméstica, psicológica e, em muitos casos, pelo feminicídio. O romance expõe não apenas a violência em si, mas também os mecanismos de culpabilização da mulher, tanto no plano social quanto no jurídico, revelando como essas estruturas contribuem para a repetição e a naturalização da brutalidade.

A narrativa acompanha uma jovem advogada que deixa São Paulo e segue para o Acre para assistir a julgamentos de feminicídio. O estado aparece como um território marcado por índices alarmantes de mortes de mulheres cometidas por companheiros, ex-companheiros ou homens movidos por misoginia explícita. O deslocamento geográfico é também um deslocamento de consciência: ao se aproximar dessas histórias, a protagonista se confronta com a extensão da violência e com a fragilidade das respostas institucionais.

Paralelamente, o livro incorpora um mito indígena e seus rituais ligados às mulheres, criando uma camada simbólica que dialoga com a narrativa principal. Essa dimensão mítica não suaviza a violência, mas a aprofunda, estabelecendo conexões entre passado, ancestralidade e o presente brutal. Aos poucos, a protagonista reconhece que ela própria vive uma relação marcada pela violência, compreendendo que um tapa não tem justificativa, não é exceção, nem acidente, mas sinal claro de um ciclo que tende a se agravar.

O romance intercala a ficção com notícias reais de mulheres assassinadas por seus companheiros, rompendo qualquer possibilidade de distanciamento confortável por parte do leitor. Essa estratégia reforça o caráter político do livro, que se recusa a tratar o feminicídio como estatística ou exceção. Mulheres empilhadas é uma leitura incômoda, urgente e necessária. Um livro que toda mulher deveria ler, não como alerta abstrato, mas como reconhecimento de uma realidade que insiste em se repetir.


Patrícia Melo nasceu em Assis em 1962. É uma escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira. 


ENTRE A ARQUEOLOGIA E O MITO: QUEM FORAM, DE FATO, OS CELTAS


 

OS CELTAS: DA IDADE DO BRONZE AOS NOSSOS DIAS

JOHN HAYWOOD

EDIÇÕES 70 – 2ª ED. - 2018

316 páginas

Fiquei muito satisfeita ao encontrar este livro, justamente por ele oferecer aquilo que eu buscava: uma contextualização histórica sólida sobre os povos celtas. Há hoje uma profusão de mitos, lendas e leituras contemporâneas que revestem os celtas de um misticismo difuso, muitas vezes associado a discursos new age. Meu interesse, no entanto, era a história e nesse ponto o livro de John Haywood atende plenamente às expectativas.

A obra percorre a trajetória dos celtas desde a Idade do Bronze, acompanhando sua expansão pela Europa muito antes, e também durante, o contato com o mundo romano. Um dos méritos centrais do livro é desfazer a ideia, ainda muito difundida, de que os celtas se restringiam à Irlanda ou à costa francesa. Haywood mostra que esses povos têm origem na região dos Alpes e se espalharam por vastas áreas do continente europeu, alcançando inclusive os territórios ibéricos.

Baseado em pesquisas arqueológicas, fontes históricas e estudos comparativos, o autor constrói um panorama amplo das diversas sociedades celtas. O livro aborda suas crenças, suas formas de organização social, suas guerras, sua visão de mundo e seus modos de vida, sem recorrer a idealizações românticas ou projeções contemporâneas.

Ao longo da leitura, torna-se claro que não existia “um” povo celta homogêneo, mas uma pluralidade de culturas relacionadas por línguas, práticas e estruturas simbólicas, que variavam conforme o tempo e o território. Essa abordagem contribui para desmontar imagens cristalizadas e essencialistas que ainda circulam com força no imaginário popular.

Os Celtas é, portanto, uma leitura fundamental para quem deseja compreender esses povos para além da fantasia e do exotismo. Ao desmistificar grande parte do discurso espiritualizado que o new age construiu sobre eles, o livro restitui aos celtas sua complexidade histórica e, com isso, nos lembra que conhecer o passado exige, antes de tudo, rigor e disposição para abandonar confortos narrativos.


John Haywood nasceu em 1956. É um historiador britânico.


MIGRAÇÃO E TRABALHO DOMÉSTICO

 


MULHER NORDESTINA EM SÃO PAULO

Identidade – Metamorfose – Emancipação

PAULA COATTI FERREIRA

APPRIS – 1ª ED. – 2022

160 páginas

Mulher nordestina em São Paulo, de Paula Coatti Ferreira, constrói um retrato sensível e ao mesmo tempo rigoroso da trajetória de uma mulher nordestina desde a infância e o início da vida adulta no Nordeste até sua migração para o Sudeste, onde trabalhará como empregada doméstica durante toda a vida, vindo a se aposentar no Guarujá, em São Paulo. A narrativa acompanha não apenas o deslocamento geográfico, mas sobretudo o processo subjetivo e social dessa mulher, marcado por rupturas, adaptações e resistências cotidianas.

O caminho de sua emancipação e de conquista de autonomia é longo e não se dá por grandes viradas, mas por pequenas etapas acumuladas ao longo do tempo. O estudo aparece como elemento central desse processo, funcionando como instrumento de ampliação de horizontes, fortalecimento da autoestima e possibilidade concreta de transformação. No entanto, o livro não romantiza esse percurso: a emancipação é apresentada como algo lento, frágil e constantemente tensionado pelas condições materiais da vida.

Ao mesmo tempo, a obra é um retrato contundente da experiência de mulheres nordestinas que migram para o Sudeste em busca de trabalho. Preconceito, racismo, pobreza e desigualdades estruturais atravessam essa trajetória, revelando como gênero, classe e origem regional se entrelaçam para produzir formas específicas de exclusão. Mulher nordestina em São Paulo dá visibilidade a vidas frequentemente invisibilizadas, convidando o leitor a reconhecer a complexidade dessas histórias e a força silenciosa que sustenta sua sobrevivência e transformação.


Paula Coatti Ferreira é doutora em psicologia e mestre em Teologia. 


FÉ, DÚVIDA E ÉTICA HUMANA

 


OS IRMÃOS KARAMAZOV

FIODOR DOSTOIÉVSKI

MARTIN CLARET – 2003

760 páginas

Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, é uma obra-prima da literatura russa que explora de forma profunda a complexidade da condição humana, envolvendo questões de moral, fé, dúvida, amor, ódio e responsabilidade. A história gira em torno da família Karamazov, especialmente dos três irmãos – Dmitri, Ivan e Aliócha – e seu pai, Fiódor Pávlovitch, cuja personalidade e ações desencadeiam conflitos éticos, emocionais e existenciais de grandes proporções.

O romance aborda temas centrais como a liberdade individual versus a responsabilidade moral, o problema do sofrimento humano e a busca por sentido em um mundo marcado pelo caos e pela injustiça. Dostoiévski utiliza a família Karamazov como microcosmo da sociedade, mostrando como paixões, fraquezas e virtudes se entrelaçam, conduzindo a dilemas universais. A obra também investiga a relação entre religião e moralidade, questionando se a fé é necessária para sustentar a ética ou se a razão e a consciência humana são suficientes.

Além de seu valor filosófico e teológico, Os Irmãos Karamazov é uma narrativa rica em psicologia, oferecendo personagens complexos cujas motivações e conflitos internos refletem dilemas humanos atemporais. O romance nos convida a uma reflexão profunda sobre amor, perdão, justiça e a luta entre o bem e o mal dentro e fora de cada indivíduo.


Fiodor Dostoiévski nasceu em Moscou, Rússia, em 1821 e faleceu em São Petersburgo, Rússia, em 1881. Foi um escritor, filósofo e um dos maiores romancistas e pensadores da História. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A GUERRA VISTA A PARTIR DAS MULHERES


 

GRITOS DA GUERRA: O CONFLITO RÚSSIA – UCRÂNIA NA VOZ DAS MULHERES QUE SOFREM

GUSTAVO GUMIERO

REFERÊNCIA – 1ª ED. – 2023

176 págs.

AUDIOBOOK

Ouvi este audiobook sobre a guerra na Ucrânia a partir da experiência das mulheres. São três depoimentos de mulheres cujas vidas foram profundamente alteradas pelo conflito: algumas tiveram de deixar o país, outras não conseguem retornar, e há aquelas que permanecem enfrentando diretamente a guerra. Como em todos os conflitos armados, mulheres, crianças e idosos aparecem como os grupos mais afetados.

Além dos relatos, o autor apresenta um panorama histórico da Ucrânia, oferecendo elementos para compreender a complexidade do conflito. E essa complexidade é central. Se nos guiarmos exclusivamente pelas informações da mídia ocidental, teremos uma compreensão parcial e limitada da guerra.

O conflito é frequentemente descrito como uma guerra por procuração, isto é, um embate indireto entre grandes potências, sobretudo Estados Unidos e Rússia, travado em território ucraniano. A partir dessa leitura, o autor interpreta as recentes tentativas de negociação, como os diálogos entre Donald Trump e Vladimir Putin, como um reconhecimento tardio de que o conflito poderia ter sido tratado diplomaticamente antes de sua escalada.

A própria Ucrânia é apresentada como um país internamente diverso e marcado por tensões identitárias. Há ucranianos fortemente ocidentalizados, que se veem como europeus, embora nem sempre sejam plenamente reconhecidos como tal pela Europa Ocidental, onde persistem hierarquias implícitas entre povos. Essa ambiguidade se reflete, por exemplo, nas políticas de acolhimento: enquanto mulheres ucranianas brancas encontraram maior abertura, pessoas negras foram barradas, revelando o racismo estrutural também presente nas crises humanitárias.

O livro lembra ainda que a Ucrânia abriga múltiplas identidades: ucranianos russófonos, comunidades gregas e populações judaicas, o que desmonta qualquer leitura simplista do país como um bloco homogêneo.

Gritos da guerra não pretende encerrar o debate, mas abrir escutas. Ao colocar as mulheres no centro da narrativa, o audiobook desloca o foco da geopolítica abstrata para a experiência concreta da perda, do deslocamento e da sobrevivência, lembrando que, por trás de qualquer guerra, há vidas cotidianas profundamente afetadas.

Gustavo Gumiero é um sociólogo brasileiro. 




CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


REESCREVER HOMERO A PARTIR DO SILÊNCIO


 

MULHERES DE TROIA

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

267 páginas

Mulheres de Troia, de Pat Barker, é a continuação de O silêncio das mulheres. Embora possa ser lido de forma independente, a leitura em sequência aprofunda significativamente a compreensão das personagens e dos acontecimentos, ainda que a autora retome, em alguns momentos, fatos centrais do livro anterior para situar o leitor. Aqui, a guerra já terminou: os gregos venceram, Troia caiu, todos os homens e meninos estão mortos, e as mulheres sobreviventes foram transformadas em escravas.

Briseida, agora casada com Álcimo conforme determinação de Aquiles, está grávida do herói morto. O filho de Aquiles assume a liderança dos guerreiros do pai, mas, apesar de seus esforços para se igualar a ele, revela-se uma figura marcada pela insuficiência e pela insegurança. A narrativa se expande e passa a dar voz não apenas a Briseida e às personagens femininas já conhecidas, mas também a Hécuba, rainha de Troia e viúva de Príamo, a Andrômaca, viúva de Heitor, a Cassandra, filha de Príamo, além de outras mulheres troianas agora submetidas à escravidão sob o domínio dos reis gregos.

Com o fim da guerra, todos desejam retornar para casa, mas os deuses não permitem. Um vento persistente impede que os navios sejam lançados ao mar, obrigando os gregos a permanecerem nos acampamentos. O tempo se arrasta, a irritação cresce, e a tensão se acumula, tornando evidente que algo terá de ser sacrificado para apaziguar os deuses e permitir o retorno. Nesse cenário suspenso entre a vitória e a punição, Pat Barker aprofunda as consequências morais, psicológicas e simbólicas da guerra, especialmente para aqueles que não empunharam armas, mas pagaram o preço mais alto.

A releitura do clássico homérico, agora a partir das mulheres silenciadas pela tradição épica, é especialmente potente. Barker não projeta uma voz contemporânea sobre o passado; ao contrário, constrói essas narrativas dentro do contexto histórico e simbólico da época, o que torna ainda mais perturbador o contraste entre heroísmo masculino e sofrimento feminino. Mulheres de Troia não apenas revisita Homero, mas interroga o próprio modo como a história da guerra foi contada, lembrando que toda vitória carrega, em sua base, uma multidão de vozes caladas.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


FICÇÃO COMO GESTO CRÍTICO


 

O SILÊNCIO DAS MULHERES

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

304 páginas

O silêncio das mulheres, de Pat Barker, é uma releitura potente da Ilíada, de Homero, que respeita os principais eixos do relato épico, mas rompe com o silêncio imposto às mulheres na tradição clássica. Na obra original, elas aparecem de forma marginal, muitas vezes apenas mencionadas, quando não responsabilizadas pelos conflitos masculinos. Barker desloca esse olhar e traz para o centro aquelas que sempre estiveram à margem da narrativa heroica.

O livro é particularmente instigante porque enfrenta um desafio delicado: como dar voz a mulheres de um tempo que não é o nosso, sem projetar sobre elas uma consciência contemporânea? A autora resolve essa tensão com grande precisão. Em nenhum momento a leitura soa anacrônica. As mulheres não são retiradas de seu contexto histórico, nem há uma denúncia explícita ou didática das violências naturalizadas pela guerra. O fato de que, após a vitória de um lado, as mulheres do outro sejam escravizadas e usadas como objetos sexuais é apresentado como parte da ordem do mundo narrado, sem suavizações, mas também sem julgamentos externos.

A história se concentra em Briseida, tomada como prêmio de guerra por Aquiles e posteriormente arrancada dele por Agamenon, quando este é obrigado a devolver Criseida ao pai. Esse gesto desencadeia a ira de Aquiles e sua recusa em continuar lutando. A partir desse ponto conhecido da tradição homérica, Barker constrói uma narrativa que se detém no cotidiano das mulheres escravizadas pela guerra: algumas antigas rainhas, como a própria Briseida, outras mulheres comuns. O livro acompanha o que fazem, como ocupam o tempo, o que dizem entre si, como sobrevivem física e emocionalmente à derrota e à perda de tudo o que as definia.

Trata-se de uma obra de ficção, de literatura, e é justamente aí que reside sua força. Ao reler um mito fundador do Ocidente a partir das vozes silenciadas, Pat Barker realiza um gesto semelhante ao de Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano, ao retornar a um tempo distante sem violentá-lo com categorias do presente. O silêncio das mulheres não corrige Homero, mas revela aquilo que sua narrativa deixou à sombra  e, ao fazê-lo, amplia de maneira decisiva nossa forma de ler a guerra, o heroísmo e a história.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


UMA DEUSA À MARGEM DO OLIMPO


 

CIRCE

Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens

MADELINE MILLER

PLANETA MINOTAURO – 2ª ED. - 2020

368 páginas

Em Circe, Madeline Miller reconta a mitologia grega a partir de uma perspectiva radicalmente deslocada: a da mulher que, na tradição clássica, foi reduzida a feiticeira perigosa, obstáculo moral ou punição divina. Aqui, Circe ganha voz, tempo e densidade — do nascimento à maturidade, antes, durante e depois dos acontecimentos narrados na Odisseia.

Filha do deus Hélio, Circe cresce marcada pela rejeição. Não é bela como as deusas, nem poderosa como os deuses. Sua diferença, no entanto, será justamente o que a salvará  e a condenará. Ao descobrir a feitiçaria, ela cruza um limite perigoso: preocupa Zeus e é punida com o exílio em uma ilha isolada do mundo. Ali, quase esquecida, recebe apenas visitas ocasionais de Hermes, que lhe traz notícias do que acontece entre deuses e mortais.

O isolamento não a enfraquece, mas a forma. Na solidão, Circe desenvolve suas magias, aprende a lidar com plantas, venenos e encantamentos, e constrói uma autonomia que não lhe foi permitida no Olimpo. Quando marinheiros chegam à ilha e, após comerem e beberem, a violentam, ocorre uma virada decisiva: Circe passa a transformá-los em porcos. O gesto, frequentemente lido como crueldade na tradição masculina, aqui aparece como resposta à violência, não como perversidade gratuita.

O mesmo acontece quando a tripulação de Odisseu chega à ilha. Advertido por Hermes, Odisseu consegue escapar do feitiço, e o encontro entre os dois foge ao roteiro habitual. Eles se tornam amantes, mas também algo mais raro: interlocutores. Circe devolve aos homens sua forma humana e Odisseu segue viagem. No entanto, a narrativa não termina com a partida do herói.

Circe fica grávida e dá à luz Telégono, a quem cria sozinha na ilha. A maternidade aqui não é idealizada: o filho é difícil, violento, marcado por uma força que o excede. Atena deseja matá-lo, e Circe, pela primeira vez, enfrenta diretamente uma deusa olímpica, protegendo o filho com um encantamento que nem Atena consegue atravessar. A ilha torna-se não apenas refúgio, mas território soberano.

Quando Telégono cresce, decide buscar o pai. Parte e retorna acompanhado de Penélope e Telêmaco. A partir daí, a narrativa se desloca novamente, abrindo espaço para novas alianças, afetos inesperados e escolhas que escapam tanto ao destino trágico quanto à submissão.

Não é possível falar do final sem revelar demais. Basta dizer que Circe não é uma história sobre punição, mas sobre transformação. Madeline Miller retira a feiticeira do lugar de monstro e a reinscreve como mulher que aprende, erra, ama, protege, escolhe. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens, Circe constrói algo mais raro: uma vida própria.


Madeline Miller nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1978. É uma escritora estadunidense.