sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O AMOR AO MUNDO E O MAL


 

ARENDT: ENTRE O AMOR E O MAL: UMA BIOGRAFIA

ANN HEBERLEIN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021

Talvez por já ter lido a biografia de Hannah Arendt escrita por Laure Adler, este livro de Ann Heberlein soe, em muitos momentos, como uma rememoração mais condensada da vida e do pensamento dessa autora fundamental — que, vale lembrar, nunca se sentiu confortável com o título de filósofa, preferindo se definir como estudiosa das ciências políticas. Ainda assim, a biografia não se reduz a uma repetição: há deslocamentos significativos e escolhas interpretativas que merecem atenção.

O que surge como novidade mais contundente são os trechos dedicados à entrevista concedida por Arendt a Günter Gaus, especialmente quando ela é interrogada sobre Eichmann em Jerusalém — obra que provocou (e ainda provoca) enorme polêmica. Diante das críticas, Arendt sustenta uma posição que lhe foi característica ao longo de toda a vida: a verdade precisa ser dita, independentemente das reações que possa suscitar. Não se trata de provocação, mas de responsabilidade intelectual.

É justamente essa postura que faz de Arendt uma pensadora singular. Sua recusa em partir de posições ideológicas prévias, sua insistência em se ater aos fatos, ao que é visto, estudado e analisado, confere à sua obra uma força rara. Arendt consegue manter uma impressionante imparcialidade mesmo quando pensa acontecimentos que atravessaram diretamente sua própria vida — o exílio, o antissemitismo, o totalitarismo. Essa capacidade de pensar sem concessões, sem alinhamentos automáticos, é talvez uma de suas maiores marcas.

Heberlein apresenta com clareza essa perspicácia arendtiana: a atenção ao detalhe, a recusa da simplificação moral, a coragem de sustentar análises desconfortáveis. O livro percorre os principais eixos da vida da autora — suas relações intelectuais e afetivas com Karl Jaspers e Martin Heidegger, sua condição de judia durante a Segunda Guerra Mundial, o exílio e a reconstrução da vida intelectual nos Estados Unidos — compondo um retrato que articula pensamento, experiência e contexto histórico.

O posfácio de Heloísa Starling, dedicado às distopias e a As Origens do Totalitarismo, amplia ainda mais o alcance da obra, conectando Arendt ao presente e mostrando a atualidade inquietante de suas reflexões. Não se trata apenas de uma leitura retrospectiva, mas de um convite a pensar o nosso próprio tempo.

O grande mérito desta biografia está justamente em sua concisão. Em um número reduzido de páginas, o livro oferece o essencial de Hannah Arendt: sua trajetória, suas ideias centrais, suas relações intelectuais, sua vida pessoal e política. Não substitui leituras mais extensas, mas funciona como uma porta de entrada sólida — ou como um retorno bem articulado para quem já a conhece.

É uma leitura que vale a pena, sobretudo por recolocar em primeiro plano aquilo que talvez mais falte hoje: o compromisso radical com a verdade, mesmo quando ela nos desagrada.



Ann Heberlein nasceu em Malmö, Suécia, em 1970. É escritora e doutora em teologia e ética. 

ECOLOGIA, MULHERES E RESISTÊNCIA NO QUÊNIA

 


INABALÁVEL

WANGARI MAATHAI

NOVA FRONTEIRA – 1ª ED. 2007.

Inabalável é a autobiografia de Wangari Maathai e o relato de uma luta que articula ecologia, política e justiça social no Quênia. Ao narrar sua própria trajetória, Maathai expõe os efeitos profundos da imposição colonial: a substituição de culturas tradicionais por monoculturas lucrativas, o desmatamento em larga escala e suas consequências diretas sobre o solo, o meio ambiente, os animais e, sobretudo, sobre a vida humana, marcada pela fome e pelo desemprego.

O livro começa na infância, acompanhando o cotidiano familiar, as dificuldades econômicas e os deslocamentos impostos pela busca de trabalho. Wangari retorna com a mãe e a irmã à região de origem para poder estudar, já que onde o pai trabalhava não havia escolas. Sua formação tem início em um colégio católico, experiência que a colocará em contato direto com a educação colonial e suas contradições.

Seu percurso acadêmico é notável. Impedida de ingressar na Universidade da África Oriental, ela recebe uma bolsa da Fundação Kennedy e parte para os Estados Unidos, onde obtém o bacharelado em biologia. Em seguida, conclui o mestrado na mesma área, passa pela Alemanha, trabalhando com medicina veterinária, e retorna ao Quênia. Em 1971, torna-se a primeira mulher a obter um doutorado pela Universidade de Nairóbi, onde passa a lecionar anatomia veterinária.

A entrada na política marca uma ruptura decisiva em sua vida. Ao candidatar-se ao Parlamento, Wangari perde o cargo na universidade, enfrenta perseguições institucionais e vê seu casamento se desfazer. É um período de grande vulnerabilidade pessoal e material. Ainda assim, o livro deixa claro que a ideia de recuo nunca se impõe como opção real. A inabalabilidade do título não é retórica: é prática cotidiana de resistência.

Ao perceber a relação direta entre desmatamento, empobrecimento do solo, fome e exclusão social — especialmente das mulheres — Wangari funda, em 1977, o Movimento Cinturão Verde, voltado ao plantio de árvores nativas. A iniciativa, simples em aparência, confronta diretamente os interesses do Estado e das elites econômicas. Por isso, ela enfrenta perseguição política, violência e prisão. Ainda assim, persiste.

Inabalável é também um livro sobre mulheres: sobre como são elas as primeiras a sentir os efeitos da degradação ambiental e as últimas a serem ouvidas nas decisões políticas. A luta ecológica, aqui, não é separável da luta feminista, nem da crítica ao colonialismo e às suas permanências.

Em 2004, Wangari Maathai recebe o Prêmio Nobel da Paz. Mais do que um reconhecimento individual, o prêmio simboliza a legitimidade de uma luta que fez diferença concreta na vida de milhares de pessoas no Quênia. Wangari faleceu em 2011, em Nairóbi, vítima de câncer, deixando como legado a prova de que ecologia, política e cuidado com a vida não podem ser pensados separadamente.



Wangari Maathai nasceu em lite, Nieri, Nairóbi,  em 1940 e faleceu em Nairóbi em 2011. Foi uma ativista política do meio ambiente do Quênia. Foi a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004. 

A CORAGEM DE FALAR, A FORÇA DE TRANSFORMAR


 

IRMÃ OUTSIDER: ENSAIOS E CONFERÊNCIAS

AUDRE LORDE

AUTÊNTICA – 1ª – 2019.

Em Irmã Outsider, Audre Lorde nos apresenta uma obra que é ensaio, manifesto e testemunho, reunindo textos e discursos que atravessam décadas de luta contra o racismo, o sexismo, a homofobia e todas as formas de opressão interligadas. Lorde, poeta, feminista e militante negra, constrói neste livro um corpo teórico e político que se sustenta na experiência pessoal e na ação coletiva, provando que a subjetividade é sempre também território de resistência.

A força do livro está na interseccionalidade antes mesmo do termo se popularizar: Lorde não separa raça, gênero, sexualidade ou classe. Pelo contrário, mostra como a opressão é múltipla e como a luta também deve ser integrada. Ser mulher negra lésbica nos Estados Unidos, nos anos 70 e 80, significava enfrentar barreiras que se reforçavam mutuamente — e Lorde analisa cada uma delas com rigor, sensibilidade e coragem.

Um dos textos centrais, “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, revela sua filosofia política: o silêncio diante da injustiça é cúmplice da opressão. Lorde afirma que falar é um ato de coragem, mas também de necessidade, pois a invisibilidade de certos corpos e vozes perpetua o sistema de desigualdade. Seus ensaios combinam crítica social e poética, demonstrando que a palavra, quando usada para nomear o real, é arma de transformação.

Lorde também problematiza a ideia de unidade entre mulheres. Para ela, a solidariedade feminista não é automática: ela precisa ser construída a partir do reconhecimento das diferenças, da escuta ativa e da justiça interna aos movimentos. Ignorar as desigualdades dentro do próprio movimento é reproduzir, em pequena escala, a opressão que se combate fora dele.

Além disso, Irmã Outsider é uma obra de memória: ao narrar sua trajetória, Lorde nos lembra que a luta política é inseparável da experiência vivida. Ela denuncia o racismo estrutural e o sexismo da sociedade branca dominante, mas também critica as estruturas internas de exclusão nos próprios espaços de resistência. Essa honestidade crítica torna o livro atemporal e universal.

Ler Audre Lorde é entender que a emancipação não se dá apenas em grandes gestos ou políticas públicas: ela começa no reconhecimento da própria força, na afirmação da identidade e no compromisso com a justiça para todas. Irmã Outsider é, assim, leitura obrigatória para quem busca compreender feminismo negro, interseccionalidade e o poder transformador da palavra.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista. 

MULHERES, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA EM ZAMI


 

ZAMI. UMA NOVA GRAFIA MEU NOME, UMA BIOMITOGRAFIA

AUDRE LORDE

ELEFANTE EDITORA – 2021.


Em Zami: Uma Nova Grafia do Meu Nome, Audre Lorde constrói uma narrativa que é simultaneamente autobiográfica, poética e política. Diferente de uma autobiografia convencional, o livro se aproxima de uma “biomítica”, termo que Lorde usa para articular memórias pessoais, histórias coletivas de mulheres negras e elementos de ficção poética. O resultado é um retrato profundo da formação de uma identidade atravessada pelo racismo, pelo sexismo, pela homofobia e pelo desejo.

O livro acompanha Lorde desde a infância em Nova York até sua juventude e vida adulta, explorando relações familiares, amizades, amores e descobertas de gênero e sexualidade. O título, que propõe uma “nova grafia” do nome, simboliza a tentativa de reconstruir-se e dar visibilidade à própria existência — algo que a sociedade branca, patriarcal e heteronormativa frequentemente invisibiliza ou desvaloriza.

Um dos aspectos mais poderosos da narrativa é a experiência de ser mulher negra e lésbica. Lorde mostra como o racismo e o sexismo não se manifestam apenas fora de casa, mas também nos círculos íntimos e nas próprias relações afetivas. Ao mesmo tempo, a autora revela como a construção de laços afetivos entre mulheres negras e marginalizadas é uma forma de resistência e de afirmação identitária. A memória e a narrativa tornam-se armas para a preservação da subjetividade e para a criação de comunidades de cuidado.

O livro também é um mergulho na sexualidade e no desejo, não como escândalo, mas como campo de autoconhecimento e liberdade. Ao narrar seus primeiros amores, encontros e descobertas, Lorde subverte a lógica de um mundo que reprime corpos e desejos fora da norma. A sexualidade, nesse sentido, é política: afirmar o próprio prazer é desafiar a opressão, resistir à invisibilidade e reivindicar existência.

Além disso, Zami é uma obra sobre ancestralidade e memória coletiva. Ao descrever a vida de sua mãe, tias, amigas e mulheres da comunidade negra, Lorde cria um mosaico de experiências que ultrapassa o individual e conecta passado, presente e futuro. É a memória das mulheres negras que sustenta a narrativa, conferindo densidade histórica e política à experiência pessoal.

Lorde escreve com poesia e precisão, transformando memórias em reflexão crítica. Zami não é apenas um relato de vida, mas um manifesto sobre identidade, resistência e autoafirmação. Ler Lorde é perceber que narrar a própria história é, sempre, um ato político: uma forma de existir, resistir e criar espaços de liberdade.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista. 

MEMÓRIA E MILITÂNCIA: A LUTA DE ANGELA DAVIS

 

UMA AUTOBIOGRAFIA

ANGELA DAVIS

BOITEMPO – 1ª ED. 2019

Em Uma Autobiografia, Angela Davis não se limita a narrar sua vida pessoal; ela constrói um mapa das lutas que atravessaram o século XX e continuam reverberando no presente. Militante política, acadêmica e feminista, Davis transforma suas memórias em ferramenta de análise, mostrando como racismo, sexismo e violência institucionalizada se entrelaçam para moldar a vida de pessoas negras, mulheres e marginalizadas nos Estados Unidos.

O livro acompanha desde a infância de Davis em Birmingham, Alabama, em meio à segregação racial, até seu envolvimento com o Partido Comunista e o movimento pelos direitos civis. Sua narrativa evidencia como o ambiente familiar, as experiências escolares e o contexto social foram formativos: a consciência política nasce da vivência concreta da opressão, do medo cotidiano e da injustiça estrutural.

Davis também compartilha episódios de perseguição, prisão e julgamento, momentos em que a violência do Estado se torna tangível e direta. Sua detenção e o julgamento público em 1970, que mobilizou solidariedade internacional, ilustram o quanto o racismo institucional e a criminalização da militância negra são instrumentos de controle social. É nesse ponto que a autobiografia se torna ensaio político: cada detalhe pessoal se conecta a estruturas de poder mais amplas.

Outro eixo central do livro é a luta feminista interseccional. Davis não separa gênero de raça ou classe: ao narrar sua trajetória, mostra que ser mulher negra implica enfrentar múltiplas camadas de opressão simultaneamente. A autobiografia é, portanto, também um testemunho sobre a força, resiliência e solidariedade feminina — seja nas redes de apoio entre mulheres negras, seja nas estratégias coletivas de resistência dentro de movimentos políticos amplos.

A escrita é direta, mas ao mesmo tempo reflexiva. Davis consegue equilibrar a dimensão pessoal com a análise crítica do contexto histórico e político. Cada experiência narrada é uma lente para compreender a violência sistêmica, a resistência organizada e a necessidade da memória ativa. Ao contar sua própria história, ela devolve voz a milhares de vidas apagadas pela história oficial, transformando sua trajetória em símbolo de luta coletiva.

Uma Autobiografia é mais do que um relato de vida; é um chamado à ação, uma reflexão sobre solidariedade, justiça social e emancipação. Ler Davis é perceber que experiências individuais e estruturas sociais estão inextricavelmente ligadas, e que a memória pessoal pode ser um ato de resistência tão poderoso quanto a militância política.



Angela Davis nasceu em Birmingham, Alabama, EUA, em 1944. É uma filósofa, ativista socialista. 

PAIXÃO, VIOLÊNCIA E RECUSA DA ORDEM SOCIAL

 


O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

EMILY BRONTË

PRINCIPIS – 2020

O morro dos ventos uivantes costuma ser apresentado como uma história de amor. Mas essa definição é insuficiente — e, de certo modo, enganosa. O romance de Emily Brontë não narra um amor conciliador ou redentor, e sim uma paixão absoluta, violenta, destrutiva, que se coloca frontalmente contra as normas sociais, morais e afetivas da Inglaterra vitoriana.

Catherine Earnshaw e Heathcliff crescem juntos após o pai de Catherine acolher o menino de rua em sua casa. Na infância, formam um vínculo profundo, quase indissociável, marcado pela liberdade, pela cumplicidade e pela identificação com a paisagem selvagem dos páramos. Com a morte do pai, porém, a ordem social se impõe: o irmão de Catherine rebaixa Heathcliff à condição de servo, lembrando-o constantemente de seu lugar subalterno.

Catherine, por sua vez, é uma personagem que escapa a qualquer ideal feminino dócil. Seu temperamento é explosivo, indomável, tão áspero quanto o vento que varre o morro onde vive. Ainda assim, pressionada pelas convenções sociais e pela promessa de segurança, ela se casa com Edgar Linton, um homem respeitável, civilizado e socialmente adequado — exatamente o oposto de Heathcliff. A escolha não é fruto de amor, mas de adequação. E é essa cisão que torna a tragédia inevitável.

Heathcliff parte, mas retorna anos depois transformado, enriquecido e tomado por um ressentimento absoluto. Compra a casa onde cresceu e passa a habitar o lugar como uma presença quase espectral, movido por um desejo de vingança que não distingue culpados de inocentes. A morte de Catherine, após o parto, não encerra a história: ao contrário, radicaliza o ódio, a obsessão e a recusa de aceitar a perda.

A narrativa é mediada pela governanta Nelly Dean, que conta essa história a um forasteiro recém-chegado à região, curioso sobre o comportamento estranho de seu locatário. Essa estrutura de relato indireto cria distância e, ao mesmo tempo, reforça o caráter perturbador dos acontecimentos — como se aquilo que é narrado fosse grande demais para ser dito de forma direta.

Emily Brontë escreve um romance que desafia frontalmente a moral vitoriana. Catherine e Heathcliff não são exemplos, não são modelos, não são personagens edificantes. São figuras que vivem os sentimentos até o limite — o amor, o ódio, o desejo de posse, a crueldade. Catherine, sobretudo, encarna uma feminilidade impossível de domesticar: ela ama para além das regras, pensa para além do permitido, e paga por isso um preço altíssimo.

O morro dos ventos uivantes é um livro sobre paixões que não se ajustam à sociedade. Um romance selvagem, ermo, violento, onde a paisagem não é cenário, mas extensão dos personagens. Ali, onde os ventos uivam, não há conciliação possível — apenas a insistência brutal de sentimentos que recusam ser civilizados.



Emily Brontë nasceu em Thornton, Condado de York, em 1848 e faleceu em Haworth, Reino Unido, em 1848. Escritora e poetisa britânica. Este é o único retrato da autora que foi pintado por seu irmão. 

A LEITURA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL : VISÃO MASCULINA E FEMININA

Durante muito tempo, a crítica literária consolidou a leitura da Revolução Industrial inglesa quase exclusivamente pela voz masculina. Charles Dickens tornou-se o nome de referência quando se fala em miséria urbana, exploração do trabalho, infância abandonada e brutalidade social. No entanto, Norte e Sul mostra que essa narrativa nunca foi monopólio dos homens. Elizabeth Gaskell também escreveu sobre a fome, o adoecimento dos corpos, as greves e o conflito entre capital e trabalho — e o fez a partir de um lugar distinto, mas não menos político.

Se Dickens frequentemente constrói seus romances a partir da denúncia direta e da exposição contundente da injustiça social, Gaskell opera por meio do deslocamento e da mediação. O olhar de Margaret Hale atravessa mundos opostos — o campo e a cidade industrial, os trabalhadores e os proprietários — revelando que a miséria não é apenas um dado econômico, mas uma experiência vivida nos corpos, nos afetos e nas relações cotidianas. Onde Dickens grita, Gaskell insiste. Onde ele expõe, ela observa. Ambos denunciam; os caminhos são outros.

Há ainda uma diferença fundamental: em Gaskell, o feminino não aparece apenas como tema, mas como forma. A escuta, a atenção ao detalhe, a recusa de soluções fáceis e a consciência das ambiguidades morais fazem de Norte e Sul um romance social que não sacrifica a complexidade humana em nome da tese. Isso não suaviza a crítica — ao contrário, a torna mais incômoda, porque não permite a distância confortável entre o leitor e a miséria narrada.

Reconhecer Elizabeth Gaskell ao lado de Dickens não é um gesto de comparação hierárquica, mas de reposicionamento histórico. As mulheres também escreveram sobre a Revolução Industrial, sobre a exploração e sobre a pobreza. O que faltou, durante muito tempo, não foi produção literária, mas leitura crítica disposta a enxergá-las como parte central desse debate. Norte e Sul reafirma que a literatura social do século XIX foi plural — e que o silêncio imposto às autoras faz parte da própria história da desigualdade que esses romances denunciaram.

            Christiane Depooter 

            Fevereiro, 2025. 

O OLHAR DE UMA MULHER SOBRE A INGLATERRA INDUSTRIAL


 

NORTE E SUL

ELIZABETH GASKELL

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2016

Em Norte e Sul, Elizabeth Gaskell constrói um romance profundamente atento às transformações sociais provocadas pela Revolução Industrial na Inglaterra. A narrativa se organiza a partir do deslocamento de Margaret Hale, filha de um pastor, criada no interior, em contato com a natureza e com uma vida que parecia harmoniosa. A mudança para Milton, cidade industrial do Norte, impõe um choque radical entre dois mundos.

Milton é descrita como um espaço sufocante: o ar poluído pelo carvão, a fuligem que se deposita sobre tudo, o barulho constante das fábricas. A cidade não adoece apenas o ambiente, mas também os corpos. A mãe de Margaret, já fragilizada, sente de forma intensa os efeitos dessa atmosfera hostil. Ao redor, a miséria, a fome e as greves revelam o custo humano do progresso industrial.

Ao se aproximar de uma família de operários, Margaret passa a enxergar de perto as condições de vida da classe trabalhadora. A exploração, a instabilidade e o medo do desemprego se impõem como realidade cotidiana. O romance expõe, assim, as tensões entre patrões e trabalhadores, especialmente durante a greve geral que atravessa a narrativa.

É nesse cenário que surge John Thornton, proprietário da indústria, representante do capital e do poder econômico, mas também figura complexa, distante da caricatura do vilão. O envolvimento afetivo entre Margaret e Thornton não apaga o conflito de classes; ao contrário, torna-o ainda mais evidente. O amor não funciona como conciliação fácil, mas como campo de tensão ética e política.

Outros deslocamentos reforçam essa instabilidade. Frederick, o irmão de Margaret, vive no exílio após se envolver em um motim a bordo de um navio da Marinha, trazendo à tona o autoritarismo do Estado e o custo da dissidência. Quando Margaret retorna ao interior, percebe que a vida dos camponeses tampouco corresponde à idealização inicial: ali também há precariedade, dependência e silenciamento.

A herança que mais tarde recebe introduz uma reviravolta na trama, mas não dissolve as questões centrais do romance. O dinheiro não resolve magicamente os conflitos sociais; ele apenas desloca as posições de poder e evidencia suas contradições.

Em um contexto histórico em que as mulheres tinham pouquíssimo espaço para se expressar publicamente — quanto mais para denunciar injustiças — Elizabeth Gaskell faz da literatura um instrumento crítico. Seu romance dialoga com a tradição de Dickens na Inglaterra e de Zola na França, mas preserva uma singularidade: a atenção à mediação feminina, à escuta, ao cotidiano e às ambiguidades morais que atravessam tanto o Norte industrial quanto o Sul rural.

Norte e Sul é, assim, um romance que recusa simplificações. Não há mundo puro nem progresso sem custo. O que Gaskell oferece é uma leitura sensível e política de uma sociedade em transformação — e das vidas que são esmagadas ou rearranjadas por ela.



Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres em 1910 e faleceu em Holybourne, Reino Unido em 1865. Romancista e Contista britânica durante a era vitoriana. 

SOLIDÃO, DINHEIRO E FÉ: UM RETRATO MORAL DA SOCIEDADE QUE AINDA NOS ATRAVESSA

 


SILAS MARNER: O TECELÃO DE RAVELOE

GEORGE ELIOT

JOSÉ OLYMPIO – 1ª ED. 2017

Há livros que encontram o leitor no momento certo. Silas Marner é um desses. Em tempos difíceis, George Eliot oferece um romance que, sem ingenuidade, insiste em pensar a possibilidade da mudança individual, da reparação e da bondade — mesmo em um mundo atravessado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela mentira e pela culpa.

A narrativa acompanha a vida do tecelão Silas Marner, um homem marcado por sucessivas perdas, injustiças e exclusões. Vítima de uma acusação falsa e de uma comunidade religiosa rígida e hipócrita, Silas se afasta do convívio social e passa a viver de forma isolada, quase automática, concentrando sua existência na repetição do trabalho e na acumulação de dinheiro. Não por ambição, mas por medo: o ouro torna-se seu único vínculo com o mundo, uma falsa promessa de segurança.

George Eliot constrói, ao longo do romance, uma crítica severa aos valores sociais e morais de sua época, crítica que permanece atual. A religião aparece como espaço de controle e exclusão; a vida comunitária, como lugar de julgamentos precipitados; o dinheiro, como substituto empobrecido dos vínculos humanos. Ainda assim, Eliot não cai no cinismo. Há, em Silas Marner, uma aposta deliberada na possibilidade de transformação.

Uma frase do livro sintetiza esse movimento: “Quando um homem fecha a porta para uma bênção, ela pertence a quem a acolhe.” A ideia de bênção, aqui, não é religiosa, mas ética. O que se perde pela recusa, pelo endurecimento ou pelo apego excessivo pode se deslocar, encontrar outro corpo, outra forma de vida. Nada está definitivamente perdido.

Embora não esteja entre os romances mais famosos de George Eliot, Silas Marner concentra muitos de seus temas centrais: a amargura produzida pela exclusão social, a crítica às instituições morais, a desconfiança em relação a soluções coletivas abstratas e a ênfase na transformação ética individual. Eliot nunca foi uma autora interessada em movimentos sociais ou revoluções externas; sua aposta estava na mudança lenta, silenciosa, íntima.

Há também algo de autobiográfico nesse romance. A marginalidade de Silas, sua obsessão pelo trabalho, seu afastamento da vida social e sua relação ambivalente com o dinheiro ecoam aspectos da própria experiência de Eliot — uma mulher intelectual que viveu à margem das convenções e desconfiava profundamente dos julgamentos morais da sociedade.

Silas Marner é, assim, um livro discreto e profundo. Um romance que não promete salvação fácil, mas que insiste em algo cada vez mais raro: a possibilidade de redenção sem espetáculo, de bondade sem heroísmo, de mudança sem ilusões.



George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

EDUCAÇÃO, FRUSTRAÇÃO E DESTINO FEMININO NA INGLATERRA VITORIANA

 


O MOINHO À BEIRA DO RIO FLOSS

GEORGE ELIOT

PEDRAZUL – 2019

O moinho à beira do rio Floss narra a história de dois irmãos, Tom e Maggie Tulliver, e de sua família, proprietária de um moinho situado às margens do rio Floss, na Inglaterra vitoriana. O moinho não é apenas o sustento material da família, mas também um símbolo da ordem social, das expectativas herdadas e da dificuldade de ruptura.

Desde cedo, o pai decide que Tom deve estudar. A educação do filho é vista como investimento: ele precisa adquirir conhecimento para enfrentar o advogado da cidade, figura recorrente nos conflitos do Sr. Tulliver. Maggie, por outro lado, não entra nesse cálculo. Por ser mulher, seu destino parece já traçado: não precisa estudar, precisa casar.

É nesse ponto que o romance revela sua força. Maggie é profundamente distinta das mulheres que a cercam. Ama os livros, a natureza, o pensamento. É inquieta, intensa, rebelde. Sofre com a impossibilidade de estudar formalmente e, ainda assim, demonstra uma inteligência mais viva do que a do irmão, a quem ama profundamente. Tom, pragmático e limitado pelo horizonte que lhe foi imposto, deseja apenas assumir o moinho e trabalhar. Não vê valor no saber mediado pelo clérigo, nem naquilo que não se converte imediatamente em utilidade prática.

George Eliot constrói, nesse romance, um retrato preciso da vida vitoriana nas pequenas cidades, com suas hierarquias rígidas, vigilâncias morais e expectativas sufocantes. Mas O moinho à beira do rio Floss é também um livro profundamente autobiográfico. Maggie carrega as marcas das próprias frustrações de Mary Ann Evans: a dificuldade de conciliar desejo de conhecimento, liberdade intelectual e as normas impostas às mulheres de seu tempo.

A crítica à sociedade vitoriana aparece de forma particularmente mordaz nas figuras femininas adultas: as tias, a mãe, as vozes do senso comum que insistem em moldar Maggie segundo padrões de docilidade, aparência e casamento. Em contraste, Lucy, a prima, encarna o ideal feminino aceito: graciosa, coquete, perfeitamente adaptada ao papel social esperado das mulheres.

Maggie, ao contrário, não se ajusta. Sua insatisfação não é capricho, mas consciência. Ela percebe, ainda jovem, o quanto as expectativas alheias aprisionam as mulheres, limitando seus desejos e possibilidades. Não é por acaso que Maggie se tornou uma das personagens que mais marcaram Simone de Beauvoir. Nela, Beauvoir reconhece a experiência feminina da frustração diante de um destino imposto — a recusa silenciosa de aceitar como natural aquilo que é construção social.

O moinho à beira do rio Floss é, assim, um romance sobre formação, perda e conflito, mas também um texto fundamental para pensar o lugar das mulheres no século XIX. Ao escrever Maggie, George Eliot não apenas narra uma história pessoal: ela expõe uma estrutura de desigualdade que atravessa gerações, e que, sob outras formas, ainda insiste em permanecer.


George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

UMA MULHER INTELECTUAL NA INGLATERRA VITORIANA

 


GEORGE ELIOT: A VOZ DE UM SÉCULO

FREDERICK R. KARL

RECORD – 1998

Como parte da pesquisa sobre o feminino no século XIX, a leitura da biografia de George Eliot se impõe quase como um gesto preliminar. Antes dos romances, antes da obra literária, há uma vida marcada por escolhas intelectuais, afetivas e políticas que ajudam a compreender a singularidade de seu pensamento.

Frederick R. Karl constrói uma biografia extensa, que acompanha Mary Ann Evans da infância à morte, passando por toda a sua produção literária, bem como pelos comentários críticos que seus livros suscitaram ao longo do tempo. Trata-se de um trabalho minucioso, por vezes exaustivo — especialmente quando se detém longamente nas negociações com editoras, contratos e rendimentos financeiros, trechos que tendem a quebrar o ritmo da leitura. Ainda assim, o livro se sustenta como uma fonte importante para entender o percurso intelectual de Eliot.

Um de seus méritos está em situar a autora no interior da Inglaterra vitoriana, fazendo do contexto histórico e cultural um pano de fundo constante. Karl insere George Eliot em diálogo com figuras centrais da época, como Dickens, Charlotte Brontë e John Stuart Mill, revelando um ambiente intelectual vibrante, atravessado por debates morais, religiosos e políticos que ecoam diretamente em sua obra.

Mary Ann Evans era uma mulher profundamente intelectualizada, pertencente a uma elite cultural e integrada ao meio literário de seu tempo. Ainda assim, enfrentou forte preconceito, sobretudo quando decide viver com George Henry Lewes, um homem casado. Essa escolha, escandalosa para os padrões morais da época, contribui decisivamente para a adoção de um nom de plume masculino, estratégia que lhe permitiu circular com maior liberdade no campo literário.

George Eliot raramente se pronunciava publicamente. É nos romances que seu pensamento se revela com maior clareza: suas reflexões éticas, suas críticas sociais, suas posições sobre religião, moralidade e vida privada. A ficção torna-se, assim, o espaço onde ela elabora não apenas ideias abstratas, mas também justificativas implícitas para suas próprias escolhas.

Nesse sentido, a biografia de Karl cumpre um papel fundamental: mostrar que conhecer a vida de George Eliot não significa reduzir sua obra a dados biográficos, mas compreender melhor as tensões que atravessam seus romances. Antes da leitura da ficção, há uma mulher que pensa, escolhe, transgride, e é dessa fricção entre vida e escrita que emerge a força duradoura de sua obra.



Frederick R. Karl nasceu em Nova Iorque em 1927 e faleceu na mesma cidade em 2004. Foi um biógrafo literário. 

A LUCIDEZ FEMININA EM UM MUNDO CEGO


 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DAS LETRAS – 2020

Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago constrói uma alegoria radical sobre a incapacidade humana de ver. A cegueira que se espalha no romance não é apenas física: ela revela um colapso ético, social e político. O que se perde não é a visão dos olhos, mas a capacidade de perceber o outro, o mundo e a si mesmo para além do automatismo, da ideologia e das certezas confortáveis.

Saramago parece insistir numa ideia desconfortável: não são os olhos que enxergam, mas algo interior que se comunica com o exterior. Ver implica responsabilidade, atenção, abertura. Quando essa dimensão se rompe, instala-se a barbárie — e ela não precisa de muito tempo para se organizar. O romance mostra como, diante do medo e da escassez, as convenções morais se dissolvem rapidamente.

Todos ficam cegos, exceto uma única pessoa: uma mulher. Essa escolha não é casual. A mulher que vê carrega o peso de testemunhar a degradação humana sem poder intervir plenamente nela. Ver, aqui, não é privilégio; é condenação. A lucidez isola, expõe e fere. Ao mesmo tempo, Saramago não idealiza o feminino: o fato de ser mulher não a torna moralmente superior, nem implica que as mulheres, enquanto grupo, estejam imunes à cegueira. Muitas também não veem — ou escolhem não ver.

A presença dessa mulher funciona como espelho incômodo para o leitor. Se alguém vê, por que os outros não veem? O romance sugere que a cegueira não é falta de capacidade, mas uma recusa — uma acomodação coletiva diante da violência, da desigualdade e da desumanização cotidiana.

Ensaio sobre a cegueira permanece atual justamente porque não oferece redenção fácil. É uma metáfora dura, que nos obriga a deslocar o olhar: não para enxergar melhor, mas para perceber o quanto já aceitamos viver na escuridão. Ler Saramago é, nesse sentido, um exercício desconfortável de lucidez.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias, Espanha em 2010. Foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998.


ENTRE O MITO E A EXPLORAÇÃO: A VIDA NAS FAZENDAS DO VALE

 


ÁGUA FUNDA

RUTH GUIMARÃES

EDITORA 34 – 1ª – 2018

A leitura de Água Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que sempre lhes deu centralidade.

Ruth Guimarães nos conduz ao Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias rígidas e permanências coloniais.

Há, nesse romance, uma dimensão de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade. Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada, mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.

Muitas leituras classificam Água Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto, empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças, aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição, encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma como o mundo é interpretado.

O romance se organiza em torno de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.

Ruth Guimarães não romantiza a pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos, pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior, que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados. Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.

Água Funda é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de nome.

Ruth Guimarães nos entrega, assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.



Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em 1920 e faleceu na mesma localidade em 2014. Foi poetisa, contista, cronista, tradutora e romancista.

QUANDO A MEMÓRIA DAS MULHERES NEGRAS REVELA A HISTÓRIA QUE O BRASIL INSISTE EM ESQUECER

 


ÁGUA DE BARRELA

ELIANA ALVEZ CRUZ

MALÊ – 5ª ED. – 2018.

Água de Barrela é um livro de fôlego e de memória. A partir da história das mulheres de sua própria família, Eliana Alves Cruz constrói um relato poderoso da experiência negra no Brasil, atravessando cerca de 150 anos de história — do tráfico negreiro ilegal, já proibido por lei, passando pela Lei do Ventre Livre, pela abolição formal com a Lei Áurea, até alcançar o presente.

O que se revela nesse percurso é menos uma narrativa de superação e mais uma exposição crua daquilo que nunca foi realmente interrompido: a violência estrutural, o abandono do Estado, a negação sistemática da cidadania plena à população negra. Trazidos à força, explorados até o limite, libertos apenas no papel, os corpos negros seguem sendo empurrados para as margens, sem que lhes seja garantido um lugar de igualdade na sociedade brasileira.

Mas Água de Barrela é, sobretudo, um livro sobre mulheres. Mulheres negras que sustentaram famílias, memórias e afetos em meio à precariedade extrema. Há aqui dignidade, força e determinação, não como virtudes romantizadas, mas como estratégias de sobrevivência. As dores, as perdas e as humilhações encontram respiro nas rodas de samba, no candomblé, na palavra compartilhada, nos rituais que mantêm viva a possibilidade de sentido e esperança.

O romance expõe, com clareza incômoda, o funcionamento do racismo cotidiano e estrutural, revelando também o comportamento da elite branca frente à população negra: a naturalização da desigualdade, o distanciamento moral, a herança não elaborada da escravidão. Esse contraste aparece de forma contundente na oposição entre a família Tosta — ligada historicamente à posse de pessoas escravizadas — e a família de Damiana, cuja trajetória é narrada a partir de seu centenário, contado pela bisneta, a própria autora.

Ao entrelaçar essas histórias, Eliana Alves Cruz não apenas recupera memórias silenciadas, mas desmonta a ideia de que o passado escravista é algo distante. Água de Barrela mostra que a história das mulheres negras é também a história do Brasil — uma história ainda em disputa, ainda ferida, ainda exigindo escuta e responsabilidade.



Eliana Alvez Cruz nasceu no Rio de Janeiro em 1966. É uma escritora e jornalista brasileira. 

ENTRE A FACA, A TERRA E OS ENCANTADOS: NARRAR A HISTÓRIA PELO OLHAR DAS MULHERES

 


TORTO ARADO

ITAMAR VIEIRA JUNIOR

TODAVIA – 1ª ED. – 2019

Torto Arado é talvez o livro mais comentado dos últimos tempos e, de fato, é um livro surpreendente.

O relato trata da vida dos pós-escravizados que, apesar da Lei Áurea, em 1888, que os libertou formalmente da escravidão, não tiveram garantido nenhum cuidado com seu destino, suas possibilidades de sobrevivência e, menos ainda, com sua inclusão na sociedade como pessoas livres. Isso repercute até os dias atuais, produzindo preconceitos, racismo e indiferença à situação de muitos negros e negras.

Analfabetos, não encontravam emprego, não tinham onde morar. Muitos permaneceram nas fazendas onde já viviam e continuaram a trabalhar no mesmo sistema, ou seja, sem receber nada. Outros partiram e acabaram pedindo morada em fazendas: solicitavam um lugar para ter teto e comida e, em troca disso — que deveria ser um direito básico — trabalhavam de sol a sol, seis dias por semana. Apenas no domingo podiam cuidar de sua própria horta. Durante a semana, eram as mulheres que realizavam esse trabalho.

As casas só eram permitidas se fossem de barro, pois se desmancham com o tempo; as de alvenaria poderiam ser questionadas como propriedade. Os armazéns das fazendas, com preços abusivos, obrigavam a maioria a comprar ali mesmo, perpetuando a dependência.

Muitos romances já retrataram a miséria, as tristezas e as dificuldades do sertão, dos pobres, dos negros e das negras. No entanto, Itamar Vieira Junior traz um diferencial fundamental: quem fala são as mulheres. E ele, sendo homem, consegue falar pela voz feminina, consegue escrever pelo feminino.

Há ainda outro ponto importante: não há ideologia explícita, não é militância, e eu nem chamaria de literatura engajada, apesar da denúncia implícita. Trata-se do dia a dia dessas pessoas, narrado pelo viés feminino.

O livro é dividido em três partes: na primeira, quem fala é Bibiana; na segunda, Belonísia; e, na terceira, Santa Rita Pescadeira. Mas temos também Salu, Miúda, Donana e várias outras personagens. Um objeto atravessa toda a narrativa e traça a linha do romance: uma faca de prata com cabo de marfim, pertencente a Donana, a avó, que logo no início é o centro de um acidente que marcará para sempre a vida de Bibiana e Belonísia, duas irmãs.

Além desses personagens, há os encantados, entidades do jarê, religião encontrada na Chapada Diamantina, que muito se assemelha à Umbanda. O pai das meninas é curador, e a avó e a mãe são parteiras.

A ligação com a terra é profunda, seja no campo do alimento, das curas e dos remédios, seja, mais tarde, na luta pelo direito à terra. O livro é muito mais ecológico do que muita “ecologia” que vemos por aí — inclusive quando retrata a chegada de um novo dono da fazenda que se diz ecológico.

Forma-se um amplo painel da vida nas fazendas deste Brasil que ainda persiste e que permanece desconhecido do olhar urbano: seus rituais, crenças, comidas, dificuldades, miséria, mas também as alegrias, as festas, os laços de parentesco não sanguíneos que se criam, o compadrio. É a vida das mulheres nessas fazendas.

Gosto especialmente do fato de que o foco não está apenas na miséria e na violência, embora elas estejam presentes, mas na vida como ela é.

E o que mais apreciei: é o oprimido que fala. Poucas vezes se dá voz aos donos da fazenda; eles surgem apenas para recolher aquilo que pensam ser deles, inclusive parte da produção da roça, o que gera profunda revolta. Em geral, vemos romances desse tipo escritos pelo olhar do opressor — mesmo quando ele não se reconhece como tal. Aqui, são os trabalhadores, os ex-escravizados que falam, e, sobretudo, as mulheres.



Itamar Vieira Júnior nasceu em Salvador em 1979. É um escritor brasileiro.