quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

NOVAS LEITURAS PARA UM PERÍODO MAL COMPREENDIDO

 

HISTÓRIA DA IDADE MÉDIA: Mil anos de esplendores e misérias.

GEORGES MINOIS

EDITORA UNESP – 1ª ED. - 2023


Depois do ensino médio e de algumas leituras marcantes — como o magistral O Nome da Rosa, de Umberto Eco — percebi que, para escrever a história das mulheres na Idade Média, seria necessário retomar o estudo desse período. Inclusive porque, a cada ano, novas descobertas são feitas: arquivos são abertos, documentos são finalmente liberados para consulta ou simplesmente encontrados. Paralelamente, a historiografia também se transforma. Hoje, ela já não é tão rígida e passa a considerar outras fontes, como biografias, memórias, cartas, diários, obras de arte e até mesmo a literatura da época.

Com isso, muitos historiadores passaram a incluir em seus estudos aqueles que antes eram tratados como “os outros”: mulheres, camponeses, pobres e também regiões fora do eixo estritamente europeu. Esse deslocamento do olhar altera profundamente a maneira como compreendemos a Idade Média.

O livro de Georges Minois tem o mérito de apresentar mil anos de história de forma sintetizada, sem perder a complexidade do período. Além disso, inclui o Oriente e sua influência sobre a Europa — e vice-versa — rompendo com a visão eurocêntrica que marcou por muito tempo o ensino da Idade Média. Não se trata mais da Idade Média exclusivamente europeia que aprendi na escola.

Outro ponto fundamental é que a narrativa histórica aqui não se limita a fatos, heróis ou vencedores. Minois se detém na mentalidade da época, explora a tensão entre fé e razão e examina as crises que atravessaram esse longo período. Epidemias, secas severas e fome aparecem como elementos estruturantes da vida medieval, e não como simples episódios marginais.

Essas informações foram particularmente importantes para complementar a leitura de Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici, sobretudo em aspectos que não são abordados por ela. O livro também inclui, ainda que de forma pontual, a presença de mulheres em seu relato — algo que até pouco tempo atrás era difícil de encontrar em obras de síntese sobre a Idade Média. Nesse sentido, a obra se mostra uma ferramenta valiosa tanto para estudos históricos quanto para reflexões críticas sobre gênero, poder e sociedade.


Georges Minois nasceu em Athis-Mons, França, em 1946. É um historiador francês. 


A HERANÇA DE BEAUVOIR REVISITADA POR JULIA KRISTEVA

 


BEAUVOIR PRESENTE

JULIA KRISTEVA

EDIÇÕES SESC – 1ª ED. 2019


Em Beauvoir Presente, Julia Kristeva nos oferece uma reflexão apaixonada sobre a obra, a vida e a presença intelectual de Simone de Beauvoir, atravessando literatura, filosofia e feminismo. O livro não é apenas uma homenagem, mas uma tentativa de pensar Beauvoir como força viva, cujo pensamento continua a interrogar nossa relação com o corpo, a linguagem e a política de gênero.

Kristeva destaca a singularidade de Beauvoir: sua capacidade de articular experiência pessoal e análise teórica, transformando vivências femininas em conceitos universais sobre liberdade, opressão e alteridade. Ao revisitar O Segundo Sexo e outros textos, Kristeva ressalta a atenção de Beauvoir às tensões entre biologia, cultura e existência, mostrando que a filosofia feminista não pode ser dissociada da vida concreta das mulheres.

O livro também dialoga com a própria trajetória de Kristeva, apontando como Beauvoir permanece um ponto de referência para pensar o sujeito feminino, a escrita e a criação. A autora propõe que a obra de Beauvoir continua presente não apenas em debates acadêmicos, mas na maneira como as mulheres contemporâneas se reconhecem e se afirmam, desafiando normas patriarcais e construindo identidades complexas.

Um dos méritos de Beauvoir Presente é explorar a atualidade do pensamento de Beauvoir, mostrando que os dilemas da emancipação feminina — autonomia, sexualidade, ética e responsabilidade social — permanecem urgentes. Kristeva evidencia que a filosofia de Beauvoir não se limita ao contexto histórico do século XX, mas se estende ao nosso tempo, inspirando reflexão crítica sobre gênero, poder e criatividade.

A escrita é densa, mas poética, e reflete o diálogo entre duas grandes pensadoras: uma revisita a obra da outra, e ambas nos lembram que a filosofia se faz também na experiência vivida, na atenção às relações humanas e na coragem de enfrentar estruturas de opressão. Beauvoir Presente é, assim, leitura essencial para quem deseja compreender a continuidade do feminismo intelectual e a relevância da obra de Beauvoir no mundo contemporâneo.


Julia Kristeva nasceu em Sliven, Bulgária, em 1941 e possui cidadania francesa. É uma filósofa, linguista, crítica literária e psicanalista. 


O RETRATO DA ALMA: MORAL, DESEJO E CONSCIÊNCIA

 


O RETRATO DE DORIAN GRAY

OSCAR WILDE

PENGUIN-COMPANHIA – 1ª ED. - 2012

O Retrato de Dorian Gray é um mergulho fascinante na estética, na moralidade e na condição humana. Oscar Wilde constrói uma narrativa em que beleza, arte e ética se entrelaçam, desafiando o leitor a refletir sobre os limites entre aparência e essência, prazer e consciência.

A história gira em torno de Dorian Gray, jovem de beleza singular, cujo retrato passa a carregar os sinais do tempo e da corrupção de sua alma, enquanto ele permanece exteriormente inalterado. Wilde utiliza esse enredo para explorar questões filosóficas profundas: a sedução do hedonismo, o culto à beleza, a relação entre o indivíduo e a sociedade, e a tensão entre moralidade e desejo.

O livro é também um ensaio sobre artificialidade e natureza, sobre como as convenções sociais e os julgamentos estéticos moldam comportamentos, muitas vezes à custa da verdade interior. A escrita de Wilde é refinada, irônica e poética, repleta de aforismos que soam como sentenças universais, capazes de permanecer na mente do leitor muito depois da leitura.

Além disso, a obra problematiza a ideia de duplicidade: o que mostramos ao mundo e o que somos intimamente. Esse diálogo entre o visível e o invisível, o público e o privado, transforma o romance em um espelho literário da própria condição humana, com suas contradições e ambiguidades.

Mesmo sendo uma narrativa ambientada na sociedade vitoriana, os temas de Wilde permanecem surpreendentemente atuais: a obsessão com a aparência, o culto à juventude, a hipocrisia social e a constante tensão entre ética e prazer são questões que atravessam séculos.

O Retrato de Dorian Gray é, portanto, muito mais do que uma história sobre vaidade e decadência; é uma obra que desafia o leitor a encarar a profundidade da alma, a estética da vida e o preço das escolhas individuais.


Oscar Wilde nasceu em Westland Row, Dublin, Irlanda, em 1854 e faleceu em Paris, França, em 1900. Foi um escritor, poeta e dramaturgo irlandês. Foi preso acusado de homossexualismo em um dos primeiros julgamentos de celebridades da história moderna. 


MISTÉRIO, PODER E ERUDIÇÃO NA IDADE MÉDIA

 


O NOME DA ROSA

UMBERTO ECO

RECORD – 25ª ED. - 2019

O Nome da Rosa é muito mais do que um romance policial ambientado na Idade Média; é uma obra que atravessa literatura, filosofia, história e semiologia. Umberto Eco nos transporta a 1327, a um mosteiro beneditino remoto, onde o jovem noviço Adso de Melk acompanha o franciscano Guilherme de Baskerville em uma investigação que mistura assassinatos, intrigas religiosas e debates intelectuais.

O livro fascina por sua densidade histórica e erudita. Eco recria minuciosamente a vida monástica, a política e os conflitos teológicos da época, mostrando o embate entre fé e razão, ortodoxia e heresia, autoridade e questionamento. Cada detalhe — desde a organização da biblioteca labiríntica até os rituais litúrgicos — serve não apenas para ambientar, mas para refletir sobre o poder do conhecimento e da interpretação.

A escrita de Eco exige atenção: sua prosa é rica, por vezes irônica, e repleta de referências filosóficas e literárias, das quais a obra se alimenta continuamente. O leitor é convidado a mergulhar em um labirinto de signos e significados, numa espécie de jogo intelectual que desafia tanto a curiosidade quanto a paciência.

Um dos aspectos mais marcantes é a reflexão sobre o conhecimento e a censura, sobre como a história, os livros e as ideias podem ser controlados, ocultados ou reinterpretados. O romance nos leva a pensar na relação entre linguagem, poder e verdade, questões ainda profundamente atuais.

Apesar de ser uma narrativa de mistério, O Nome da Rosa não se limita à trama investigativa. Ele se abre como ensaio histórico, tratado de filosofia e estudo literário, oferecendo ao leitor múltiplas camadas de interpretação. Ler Eco é, acima de tudo, um convite ao pensamento crítico, à reflexão sobre a construção da história e o valor do conhecimento.

Um clássico que transcende gêneros e tempos, exigente e generoso, capaz de fascinar leitores interessados tanto na história medieval quanto na natureza da própria leitura.


Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932 e faleceu em Milão em 2016. Foi um escritor, filósofo, semiólogo, linguista e escritor italiano. 




NEUROSSEXISMO, CIÊNCIA E PODER

 


HOMENS NÃO SÃO DE MARTE MULHERES NÃO SÃO DE VÊNUS

Como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos

CORDELIA FINE

CULTRIX – 1ª ED. 2015

Você provavelmente já viu o livro — ou o filme — Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, que supostamente “provaria” a existência de diferenças sexuais no cérebro humano. A partir dessa ideia, constrói-se a narrativa de que os homens seriam mais racionais e lógicos, saberiam ler gráficos e dirigiriam melhor, enquanto as mulheres seriam mais emocionais, teriam maior empatia e facilidade para os relacionamentos, mas seriam péssimas motoristas, incapazes de interpretar dados ou lidar com números — e assim por diante.

Pois bem: a neurocientista e psicóloga Cordelia Fine, apoiada em inúmeras pesquisas científicas, desmonta esse mito pseudocientífico das diferenças cerebrais entre homens e mulheres.

É verdade que podem ser encontradas algumas diferenças, mas nenhuma que justifique desigualdades na capacidade intelectual entre os sexos. Matemática, física e ciência são igualmente possíveis para homens e mulheres; assim como empatia, cuidado com a casa, com os filhos e com os outros também o são. Não há predisposição biológica que determine essas divisões.

Mais uma vez, nos deparamos com uma pseudociência que tenta justificar a superioridade masculina a partir da biologia e da “natureza”. O mais preocupante é que muitas mulheres acabam acreditando nesses discursos e, por efeito social, passam a apresentar desempenho inferior em áreas consideradas masculinas. Ao mesmo tempo, muitos homens sequer se aventuram em campos vistos como femininos — e, quando o fazem, correm o risco de serem estigmatizados e feminizados pela sociedade.

Apesar de trazer uma grande quantidade de pesquisas e relatos — e embora a tradução por vezes me pareça um pouco truncada —, a leitura vale muito a pena.


Cordélia Fine nasceu em Toronto, Ontario, Canadá, em 1975. É uma psicóloga e Filósofa.


O IMPÉRIO AFRICANO QUE A HISTÓRIA TENTOU APAGAR

 


GRANDIOSOS ETÍOPES DO ANTIGO IMPÉRIO CUXITA

DRUSILLA DUNJEE HOUSTON

EDITORA ANANSE – 1ª - 2022

Foi por este livro que iniciei meus estudos sobre o Império Cuxita. A partir dele, aprofundei-me em pesquisas mais extensas, recorrendo a teses e outras obras, o que se revelou extremamente instigante — sobretudo no que diz respeito à matrilinearidade, ao matrifocal e ao matriarcado, bem como às rainhas Candaces, um título que significava “rainha-mãe” e que não exigia, necessariamente, a maternidade biológica.

Drusilla Dunjee Houston foi autodidata e dedicou cerca de 25 anos de sua vida ao estudo dos etíopes antigos. Reuniu referências dispersas em inúmeros livros que mencionavam esse povo, ainda que apenas em uma frase, com o objetivo de demonstrar a existência de um vasto império que precedeu os gregos, persas, romanos e sumérios, integrou-se ao mundo egípcio e chegou até a Índia. Um império formado por povos africanos e negros.

Houston demonstra que muitas realizações tradicionalmente atribuídas às civilizações posteriores tiveram, na verdade, origem cuxita. Importante ressaltar que não se trata da Etiópia atual, mas de um reino cuja localização principal era a Núbia, território que hoje corresponde a partes do Egito e do Sudão.

Drusilla Dunjee Houston nasceu em Harpers Ferry, Virgínia Ocidental, EUA e faleceu em Phoenix, Arizona, EUA. Foi escritora, historiadora, jornalista, educadora estadunidense. 




O REINADO APAGADO DA MAIOR FARAÓ DO EGITO

 

FARAONA DE TEBAS: Hatchepsut, filha do sol.

FRANCIS FEVRE

MERCURYO – 1ª ED. - 1991


Hatshepsut finalmente começa a ser colocada em seu devido lugar, após todas as tentativas sistemáticas de apagar seu nome e seu reinado da história do Egito. Considerada a maior faraó que o país teve, governou por cerca de 22 anos em um período marcado pela prosperidade, pela paz e pelo desenvolvimento. Durante muito tempo, esquecida, apagada e silenciada, conhecíamos sobretudo outras duas grandes figuras femininas do Egito: Nefertiti e Cleópatra.

Neste livro, o historiador Francis Fèvre reconstrói a vida de Hatshepsut desde o nascimento até sua morte. Embora se trate de um romance histórico, o autor evita colocar palavras diretamente em sua boca por meio de diálogos inventados. Em vez disso, constrói hipóteses baseadas em documentos, pesquisas, relatos históricos e, sobretudo, nos painéis esculpidos em Deir el-Bahari, o monumental templo funerário que a própria Hatshepsut mandou erguer.

O relato da expedição ao Punt é um dos pontos altos da obra. Nesse momento, o autor parece literalmente ler a história inscrita nas paredes de Deir el-Bahari e traduzi-la para o leitor — e é, de fato, desse registro que sua narrativa emerge.

Apesar de algumas observações do autor soarem hoje excessivamente patriarcais — o que pode ser compreendido se considerarmos o contexto em que o livro foi escrito, anterior ao movimento mais amplo de recuperação da história das mulheres —, a obra mantém seu mérito. Ainda assim, e talvez justamente por isso, a leitura valeu a pena.


Francis Fevre nasceu em Guenviller, França, em 1951. É um historiador especialista em sociedade antigas, especialmente o Egito. 


MATRIARCADO, MATRILINEARIDADE E A CRÍTICA AO EVOLUCIONISMO OCIDENTAL


 

A UNIDADE CULTURAL DA ÁFRICA NEGRA

Esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica

CHEIKH ANTA DIOP

EDITORA ANANSE – 2023.


Cheikh Anta Diop foi um antropólogo e historiador senegalês. Cheguei a este livro a partir de meus estudos sobre as mulheres do Império Cuxe, buscando compreender as noções de matriarcado, matrilinearidade e matrifocalidade no continente africano.

Antes de tudo, é fundamental esclarecer que o conceito de matriarcado, tal como trabalhado por Diop, não corresponde à ideia ocidental de um sistema simplesmente inverso ao patriarcado, no qual haveria o domínio feminino e a subjugação do masculino. Diop demonstra a existência de dois polos culturais — dois reinos, um setentrional e outro meridional, norte e sul — sendo um de estrutura patriarcal e o outro de estrutura matriarcal. Nesse esquema, a África se insere majoritariamente no polo matriarcal.

O autor realiza uma análise crítica dos conceitos de matriarcado em Bachofen, Lewis Morgan e Engels. Os dois primeiros, segundo Diop, tratam o matriarcado como uma fase primitiva da humanidade, destinada a ser superada pelo patriarcado, visto como estágio civilizatório superior. Trata-se de uma visão claramente evolucionista. Engels, por sua vez, apropria-se dessas ideias para sustentar a possibilidade de que a família burguesa também possa evoluir para uma forma diferente e mais justa.

Diop rompe com essa leitura ao defender o matriarcado africano não como um estágio arcaico, mas como uma forma de organização social superior ao patriarcado, este último associado historicamente à guerra, à violência e às conquistas territoriais.

Com esse estudo, Diop se contrapõe frontalmente às concepções ocidentais que se pretendem universais e civilizatórias, mas que historicamente classificaram a África como inferior e selvagem. Ao contrário, ele demonstra o alto grau de civilização das sociedades africanas e aponta para um modelo social mais humano, relacional e sustentável. O autor apresenta ainda sua hipótese para explicar por que o norte se organizou de forma patriarcal e o sul de forma matriarcal, aprofundando uma leitura estrutural e histórica dessas diferenças.


Cheikh Anta Diop nasceu em Tiahitou, Senegal, em 1923 e faleceu em Dacar, Senegal, em 1986. Foi um historiador, antropólogo, físico e político senegalês. 


DIREITOS, PODER E PRESENÇA FEMININA NO EGITO DOS FARAÓS


 

A MULHER NO TEMPO DOS FARAÓS

CHRISTIANE DESROCHES NOBLECOURT

PAPIRUS - 2007


Li outros livros sobre as mulheres egípcias e também sobre a história do Egito depois deste, mas sempre retorno a A Mulher no Tempo dos Faraós por considerá-lo o mais completo que encontrei sobre o tema.

Para quem se interessa pela história das mulheres no Antigo Egito, este é um livro fundamental. A arqueóloga Christiane Desroches Noblecourt foi especialista em Egito, dirigiu durante anos o setor egípcio do Museu do Louvre e participou de diversas escavações no país, o que confere ao livro um rigor e uma riqueza de detalhes notáveis.

A obra reúne informações sobre a mitologia egípcia com foco nas figuras femininas, aborda as esposas reais e as rainhas, as concubinas, as mulheres faraós e a complexa relação entre o faraó e a esposa real. Mas vai além: apresenta também dados preciosos sobre a vida cotidiana das mulheres, as leis e os direitos, o casamento, a educação, além de temas como a condição das viúvas e das prostitutas.


Christiane Desroches Noblecourt nasceu em Paris em 1913 e faleceu na mesma cidade em 2011. Foi uma egiptóloga. 


A MATERNIDADE NEGRA SOB O RACISMO ESTRUTURAL

 

MATERNIDADE TEM COR?

Narrativas de mulheres negras sobre maternidade

LUARA PAULA VIEIRA BAIA

APPRIS – 1ª ED. - 2021

Maternidade tem cor? apresenta a pesquisa de Luara Paula Vieira Baia sobre a experiência da maternidade vivida por mulheres negras. É um livro necessário e cuja leitura recomendo fortemente.

Em uma sociedade que ainda sacraliza a maternidade, como se ela fosse a realização máxima de toda mulher, pouco se fala sobre os percalços, ambivalências e sofrimentos que ela pode trazer. Questionar essa idealização já é, muitas vezes, visto como heresia. No entanto, quando o foco recai sobre a maternidade das mulheres negras, a questão se torna ainda mais profunda, séria e dolorosa.

Mesmo diante do amor intenso por seus filhos e filhas, essas mulheres vivem a maternidade sob a constante tensão de criar crianças negras em uma sociedade estruturalmente racista. Há muito pouco escrito sobre a maternidade das mulheres negras; o que prevalece é a ideia de uma maternidade universal, como se todas as mulheres maternas vivessem a mesma experiência.

Mas o que significa ser mãe quando se é uma mulher negra? Durante o período da escravização, essas mulheres pariram filhos que eram tratados como propriedade, destinados a ampliar a mão de obra escravizada. Seus filhos eram frequentemente arrancados de seus braços. Elas não eram reconhecidas como mães, mas reduzidas a corpos reprodutores, a “fêmeas” que produziam trabalhadores.

E hoje? O que significa ser mãe quando se sabe que seu filho é um alvo vivo da violência policial? As estatísticas sobre a morte de jovens negros confirmam esse medo cotidiano. Ou quando uma filha precisa ser constantemente fortalecida em sua autoestima para sobreviver ao racismo e à discriminação? Essas mães desenvolvem estratégias de proteção, são pragmáticas na defesa de seus filhos e no ensino de como sobreviver em uma sociedade hostil. São preocupações que mães brancas, em geral, não enfrentam, somadas, ainda, às angústias comuns a toda maternidade.

O livro mostra que essa realidade não se restringe às periferias, favelas ou comunidades, onde a violência é ainda mais explícita. Trata-se também de mulheres negras de classe média, com nível superior e relativa estabilidade financeira. Como mulher branca e mãe, não posso imaginar plenamente o que significa ser uma mãe negra. Mas posso, sim, escutar, sentir e reconhecer a dor, o medo e a permanência de uma condição social que insiste em negar a essas mulheres o direito pleno de serem mães.

Nas narrativas que a autora reúne, emerge a percepção de uma maternidade constantemente ameaçada, vigiada e interrompida. Ainda que haja alegrias, vínculos profundos de amor e a maternidade se constitua como um ato de resistência, o livro não romantiza essa experiência. Algumas mães, inclusive, negam a existência do racismo — talvez como estratégia de sobrevivência.

Trata-se de uma obra impactante, que desestabiliza certezas, rompe com a noção de maternidade universal e nos obriga a pensar sobre raça, gênero, cuidado e violência estrutural no Brasil.


Luara Paula Vieira Baia possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais. 


A HISTÓRIA PERSA CONTADA PARA ALÉM DO OLHAR GREGO

 

OS PERSAS: A ERA DOS GRANDES REIS

LLOYD LLEWELLYN-JONES

CRÍTICA – 1ª ED. - 2023

Todos nós aprendemos algo sobre os persas na escola. No entanto, até pouco tempo atrás, o que se tinha como referência eram, quase exclusivamente, as narrativas deixadas pelos gregos, justamente seus inimigos. Essa perspectiva unilateral moldou por séculos a imagem dos persas como bárbaros, despóticos e inferiores à civilização grega.

Lloyd Llewellyn-Jones, professor de história antiga e estudioso do Irã Antigo, propõe um deslocamento fundamental. Nesta obra, ele apresenta o Império Persa a partir das fontes originais persas, oferecendo uma história contada, finalmente, “do outro lado”. O resultado é um livro envolvente, acessível e extremamente informativo.

O autor concentra-se na dinastia aquemênida — Ciro, o Grande, Dario, Xerxes e seus sucessores — e encerra o volume com um capítulo dedicado ao Irã contemporâneo, estabelecendo pontes entre passado e presente. Para mim, um dos aspectos mais valiosos do livro é a atenção dada às mulheres, tema sobre o qual há uma carência notável de informações quando se trata da história persa.

Ao longo da leitura, torna-se evidente o quanto a história desse povo foi distorcida e o quanto suas contribuições foram fundamentais, inclusive para a formação do Ocidente. Um dos episódios mais impressionantes é o relato de mulheres que, diante da iminente derrota de Ciro em uma guerra, o confrontam e o acusam de covardia. Provocado por essas mulheres, Ciro retorna ao combate, vence a batalha e, segundo a tradição, jamais deixou de reconhecê-las por esse gesto.

Os persas: a era dos grandes reis não apenas corrige equívocos históricos, como também restitui complexidade a uma civilização que foi sistematicamente narrada pelos olhos de seus adversários. É uma leitura fundamental para quem deseja compreender o mundo antigo para além das versões consagradas e ouvir, finalmente, as vozes silenciadas da história.


Lloyd Llewellyn-Jones nasceu em Cefn Cribwr, País de Gales. É um professor de História Antiga. 


COMO A HISTÓRIA TRANSFORMOU UMA GOVERNANTE EM MITO ERÓTICO

 

CLEÓPATRA:  SEU MITO, SUA HISTÓRIA

FRANCINE PROSE

PLANETA – 1ª ED. – 2024.

 

Cleópatra é um mito, quase uma lenda, embora tenha existido historicamente. Sua história, no entanto, foi majoritariamente contada por homens, que preferiram enfatizar seus amantes, Júlio César e Marco Antônio, em vez de seu papel político. Assim, Cleópatra foi frequentemente retratada como interesseira, prostituta, sedutora e exótica, capaz de desvirtuar os “bons” romanos.

Plutarco, Shakespeare, George Bernard Shaw e, mais tarde, Hollywood contribuíram para cristalizar essa imagem, sobretudo com o rosto de Elizabeth Taylor — representação que está longe da realidade histórica. Em 2023, a Netflix lançou uma nova versão em formato de documentário, com cenas dramatizadas, na qual Cleópatra é interpretada por uma mulher negra, o que gerou intensas polêmicas. Muitos insistem em preservar a Cleópatra de olhos claros. Não saberia afirmar se ela era negra ou branca, mas certamente não era Elizabeth Taylor.

Francine Prose mergulha na história, na literatura e na arte para reconstruir outra narrativa: a de uma mulher que governou o Egito por mais de vinte anos, com habilidade política, domínio de línguas e profundo conhecimento das tradições egípcias. O livro propõe uma visão distinta daquela consagrada pela tradição masculina, deslocando o foco do erotismo para o poder, da sedução para o governo.

Cleópatra, afinal, não foi um caso isolado. O Egito teve pelo menos três grandes rainhas que se destacaram: Hatshepsut, que governou como faraó; Nefertiti; e Cleópatra. A obra de Prose convida o leitor a reconsiderar não apenas a figura de Cleópatra, mas também o modo como a história das mulheres no poder foi sistematicamente distorcida, simplificada ou reduzida a estereótipos.

Francine Prose nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, EUA, em 1947. É uma escritora estadunidense..




UTOPIA, DECEPÇÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

 


O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

LEONARDO PADURA

BOITEMPO – 2ª ED. 2015

É um livro impressionante. O homem que amava os cachorros narra a história de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky no México, e, em paralelo, a trajetória da própria vítima. Mas o romance é muito mais do que a reconstituição de um crime histórico. Ele é, sobretudo, uma reflexão profunda sobre o stalinismo e sobre a destruição de uma utopia.

Padura mostra como, naqueles anos, se instaurou uma fé cega em Stálin e no comunismo stalinista — algo muito distante do projeto comunista original. Essa fé foi construída por meio de mentiras sistemáticas, propaganda e manipulação, num mecanismo que guarda semelhanças inquietantes com o que ocorreu no nazismo de Hitler, especialmente na fabricação do antissemitismo. É impossível não traçar paralelos com o presente, quando a desinformação e as fake news continuam sendo instrumentos eficazes de controle.

Outro elemento central é o medo. Um medo profundo e paralisante. Posicionar-se contra Stálin significava, muitas vezes, a morte — não apenas para opositores declarados, mas também para qualquer um que ameaçasse, ainda que minimamente, o ego inflado do líder. O terror era parte estruturante do sistema.

Talvez o ponto mais forte do livro seja a descrição do fim de uma utopia compartilhada por toda uma geração. O sonho de uma sociedade mais justa, em oposição ao capitalismo predatório, foi sendo corrompido nas mãos de líderes que se revelaram ditadores: Stálin, Mao e, em certa medida, Fidel Castro, quando observamos a miséria, o controle e o medo que também marcaram Cuba.

Muitos se perguntam hoje como tantos intelectuais, escritores e artistas aderiram ao comunismo stalinista. Padura ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar que pouco se sabia, de fato, sobre o que ocorria dentro dos países comunistas. Para muitos, tratava-se da única alternativa possível contra a pobreza, a exploração e a miséria do trabalhador. As denúncias eram facilmente descartadas como invenções capitalistas ou fascistas.

Ao final da leitura, permanece uma sensação profunda de decepção, frustração e, em alguns casos, culpa. A figura do assassino de Trotsky encarna isso de forma trágica: um homem cuja vida foi conduzida por outros, transformado em instrumento de um ódio que não era verdadeiramente seu. Um ódio que, no fundo, era o ódio de Stálin por alguém que estivera na vanguarda da Revolução Russa, mas que, no momento de sua morte, já era um velho isolado e desacreditado — alvo de mentiras, como a falsa acusação de aliança com os nazistas, que nunca existiu.

É uma leitura fundamental tanto para compreender o stalinismo e esse período histórico quanto como alerta para o presente. Um livro que nos ensina a desconfiar de verdades absolutas, de líderes carismáticos e de tudo aquilo que se espalha sem mediação crítica, especialmente nas redes sociais.

Leonardo Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, em 1955. É um escritor e jornalista cubano.




SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020


Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira. 



QUANDO O SAGRADO TINHA ROSTO DE MULHER


 

QUANDO DEUS ERA MULHER

MERLIN STONE

GOYA – 1ª ED. – 2022.

Li este livro inicialmente em francês e, quando saiu a edição em português, fiz a releitura. Merlin Stone dedicou-se ao estudo da história da Deusa, realizando uma pesquisa extensa e cuidadosa, que resulta nesta obra fundamental sobre a religião da Deusa e sobre os processos históricos de seu apagamento e supressão.

A Deusa aparece sob múltiplos nomes, mas está presente de forma recorrente nas sociedades da Antiguidade, assim como as sacerdotisas responsáveis por seu culto. O livro demonstra que houve um longo período em que a organização política, social, econômica e cultural girava em torno da mulher. Com o tempo, deidades masculinas passaram a ser introduzidas, inicialmente como consortes, amantes ou filhos da Deusa, até que, gradualmente, ocorre seu apagamento quase total — processo que se intensifica com a imposição das religiões monoteístas.

Stone evidencia como a construção e a escrita da Bíblia estiveram profundamente comprometidas com a eliminação da Deusa do imaginário religioso e simbólico, mostrando que esse apagamento não se deu de forma simples ou imediata, mas exigiu um esforço sistemático e prolongado.

Atualmente, muitos tratam essa religião como lenda ou mito. As sacerdotisas e curandeiras passaram a ser vistas como bruxas, e o sexo sagrado foi rebatizado como “prostituição sagrada”, termo com o qual não concordo. Não se tratava de prostituição; essa é uma leitura masculina e patriarcal que distorce práticas rituais profundamente ligadas à sacralidade, à fertilidade e à vida.

O livro é considerado um dos principais textos teológicos dedicados a esse período da história e permanece uma leitura fundamental para compreender a relação entre religião, poder e o apagamento do feminino ao longo do tempo.


Merlin Stone nasceu em Flatbush, Nova Iorque, EUA, em 1931 e faleceu em Daytona Beach, Flórida, EUA, em 2011. Foi uma escritora e acadêmica estadunidense.