segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

SEXO COMO SAGRADO OU COMO PECADO


 

SEXO E RELIGIÃO: Do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual

DAG OISTEIN ENDSJO

GERAÇÃO EDITORIAL - 2014


Este livro trata de como as diversas religiões do mundo compreendem o sexo. Para algumas, ele é sagrado; para outras, o pior dos pecados. A leitura é instigante justamente por revelar essas diferenças, que nos levam a refletir sobre múltiplos aspectos das religiões e também sobre o mundo contemporâneo.

O autor não se limita ao passado: traz muitos exemplos atuais, principalmente da Noruega, país de onde é originário. A pergunta central que ele procura responder é por que o sexo é tão importante para as religiões — ao menos para a maioria delas.


Dag Oistein Endsjo é um cientista da religião norueguês. 


O LADO HUMANO DO CONFLITO ALÉM DOS DISCURSOS


 

UCRÂNIA:  DIÁRIO DE UMA GUERRA

ANDREI KURKOV

CARAMBAIA – 1ª ED. 2025


Este livro é o diário de guerra da Ucrânia escrito pelo autor ucraniano Andrei Kurkov.

O diário inicia-se pouco antes do começo da guerra e vai até o início de 2024. Muitas coisas aconteceram depois, mas trata-se de um livro que traz ricas informações sobre o povo ucraniano, sua história e, obviamente, sobre a guerra e tudo o que ela provoca na população civil. Há aquilo que, se é possível dizer assim, surge como “bom” em meio ao horror — a solidariedade, a generosidade, a determinação e a persistência — mas também a destruição, o medo, a fuga deixando para trás tudo o que se tem, as mortes e o luto.

Li recentemente o diário de um palestino em Gaza. São contextos distintos, mas em ambos se mantém o horror da guerra: a destruição, as mortes, o luto, e também a generosidade e a solidariedade. Em Gaza, não há para onde escapar, não existe sequer uma zona um pouco mais segura, como no caso da Ucrânia, onde o oeste do país ainda oferece algum refúgio. Em Gaza, trata-se de uma limpeza étnica. Ainda assim, há muitos pontos em comum no plano humano: as reações, os sentimentos, as perdas.

O autor é russo de nascimento, mas posiciona-se a favor do Ocidente. Entre seus amigos e conhecidos, há também muitos pró-Rússia. É notório que a Ucrânia é um país multiétnico: russos e ucranianos conviviam muito bem, casavam-se entre si, a grande maioria das famílias é mista e praticamente todos falam as duas línguas. Aqui temos o ponto de vista de quem está vivendo a guerra, independentemente das disputas geopolíticas ou dos posicionamentos ocidentais ou russos. Apesar de todos terem suas opiniões, o que se revela é o cotidiano da guerra, as lembranças de um tempo de democracia e também do período soviético, e um desejo profundo de liberdade, autonomia e democracia.

Infelizmente, a guerra trouxe consigo o ódio aos russos, motivado por experiências reais: casas destruídas, familiares mortos, aldeias e cidades bombardeadas, plantações perdidas, territórios invadidos. E isso é um fato, seja sob uma perspectiva pró-Ocidente ou pró-Rússia: trata-se de uma invasão. Antes havia respeito e liberdade para seguir tradições russas ou ucranianas, algo que aos poucos vem sendo proibido, como o ensino da língua russa nas escolas, o que, no entanto, não impede que o povo continue falando-a no cotidiano.


Andrei Kurkov nasceu em Budogoshch, Rússia, em 1961. É um romancista ucraniano. 


• O ACORDO NÃO DITO QUE SUSTENTA A EXCLUSÃO


 

O PACTO DA BRANQUITUDE

CIDA BENTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2022


Cida Bento apresenta um estudo fundamental sobre a discriminação racial no mundo do trabalho, evidenciando os mecanismos sutis, e profundamente eficazes, que impedem a contratação de pessoas negras, sobretudo para cargos de maior prestígio e melhor remuneração. Trata-se de um sistema que perpetua desigualdades sociais, mantendo a população negra com menores possibilidades de ascensão social e econômica.

A autora explica como esse funcionamento se sustenta por meio do que denomina um pacto narcísico entre brancos: um acordo silencioso de autoproteção, no qual privilégios são preservados e reproduzidos. Esse pacto se revela, por exemplo, quando pessoas brancas se sentem “excluídas” ao perceberem a presença de três pessoas negras em um grupo de dez — uma reação que beira o absurdo, mas que escancara a lógica da desigualdade racial no Brasil.

Basta observarmos espaços como empresas, universidades, clubes e instituições de poder para constatar que, apesar de a maioria da população brasileira ser negra, os lugares de destaque continuam majoritariamente ocupados por pessoas brancas. O que se apresenta como neutralidade ou mérito é, na verdade, a reprodução histórica de privilégios.

Ao nomear os “brancos” como grupo racial, Cida Bento rompe com a falsa ideia de universalidade. Dar nome à branquitude é também revelar que aqueles que se pensam neutros e superiores têm cor, história e interesses — e que a desigualdade racial não é um desvio do sistema, mas parte estruturante dele.


Maria Aparecida da Silva Bento, conhecida como Cida Bento, nasceu em São Paulo, em 1952. É psicóloga. 


A PRÉ-HISTÓRIA CONTADA A PARTIR DAS MULHERES


 

O HOMEM PRÉ-HISTÓRICO TAMBÉM É MULHER

MARYLÈNE PATOU-MATHIS

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. - 2022


Neste livro, encontramos a história da invisibilidade das mulheres, com ênfase na Pré-História. A autora desmonta muitos dos conceitos cristalizados sobre esse período — concepções profundamente masculinas, eurocêntricas e, em grande parte, não sustentadas por evidências científicas.

Patou-Mathis argumenta que essas interpretações derivam do olhar de quem produziu o conhecimento no século XIX: majoritariamente homens, arqueólogos e antropólogos incapazes de conceber outras formas de organização social que não aquelas que conheciam. Assim, qualquer esqueleto encontrado com armas era automaticamente classificado como masculino, ignorando que a maioria dessas armas não tinha finalidade bélica, mas estava ligada à caça e à subsistência.

Da mesma forma, consolidou-se a ideia de uma família pré-histórica nuclear e patriarcal, projetando sobre o passado modelos sociais muito posteriores. Pesquisas recentes, novas escavações em sítios arqueológicos e, sobretudo, os estudos conduzidos por mulheres arqueólogas e antropólogas vêm transformando radicalmente esse cenário, reescrevendo a história da humanidade a partir de evidências mais amplas e menos enviesadas.

 

 

Marylène Patou-Mathis nasceu em Paris, França, em 1955. É uma acadêmica francesa especializada em pré-história. 


VIVER SOB BOMBAS SEM ENTENDER A GUERRA

 

O DIÁRIO DE ZLATA: A VIDA DE UMA MENINA NA GUERRA

ZLATA FILIPOVIC

SEGUINTE – 1ª ED. 1994

Abril de 1992 marca uma ruptura definitiva na vida de Zlata Filipovic. No início de seu diário, ela nos apresenta uma infância comum: escola, amigas, viagens, família, programas de televisão, filmes. Uma vida cotidiana de uma menina de onze anos em Sarajevo. Pouco a pouco, tudo isso se desfaz. Zlata é obrigada a abrir mão da infância e dos sonhos diante da eclosão da guerra.

Com o acirramento das divisões nacionalistas, inicia-se a guerra civil na Bósnia, que duraria até 1995 e deixaria o país devastado. A minoria sérvia não aceita a independência da Bósnia-Herzegovina; quando ela se concretiza, começam os bombardeios a Sarajevo e a outras cidades. A guerra passa a fazer parte do dia a dia, transformando radicalmente a experiência de viver.

Zlata chama os políticos de “moleques” e escreve sobre “eles” — figuras distantes, que ela sequer sabe quem são, mas que decidem tudo. Para ela, esses “eles” não pensam em ninguém: apenas destroem e matam. Matam idosos, crianças e adultos; destroem prédios, casas e patrimônios históricos. Ao longo do diário, Zlata se pergunta repetidamente por quê. Por que a guerra? Por que essas decisões recaem sobre pessoas que nada têm a ver com disputas políticas ou nacionalistas?

E é justamente aí que o diário revela sua força. A guerra, vista do ponto de vista de quem vive nela, é dor, morte, destruição e fome. No caso de Zlata, é também a perda da infância. Ela não compreende política, estratégias militares ou disputas territoriais, mas sente no corpo e na vida as consequências dessas decisões.

O livro é curto e escrito por uma criança, mas isso não o torna menos poderoso. Pelo contrário: é um retrato direto, honesto e profundamente humano da guerra. Um testemunho das perdas, do medo e da sobrevivência cotidiana. A voz de uma menina que não fala de ideologias, mas revela, com clareza devastadora, o que a política faz quando se transforma em violência.


                                      Zlata Filipovic nasceu em Sarajevo, Bósnia, em 1980.


AUTISMO, CLIMA E A RECUSA DO SILÊNCIO

 

NOSSA CASA ESTÁ EM CHAMAS: Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença

MALENA ERNMAN – SVANTE THUNBERG – GRETA THUNBERG – BEATA ERNMAN

BESTSELLER – 1ª ED. - 2019

O livro é escrito por Malena Ernman, mãe de Greta Thunberg, com a colaboração de toda a família. Nele, acompanhamos não apenas o surgimento de Greta como ativista climática, mas também aspectos íntimos de sua vida: as dificuldades na escola, o sofrimento silencioso e o processo até o diagnóstico de “síndrome de Asperger”.

A narrativa se amplia quando descobrimos que a irmã de Greta também enfrenta desafios semelhantes. E aqui surge um ponto fundamental do livro: embora eu mesma utilize o termo “problemas”, Malena questiona frontalmente essa noção ao afirmar que “isso não exclui a possibilidade de ela estar certa, e todos nós, os outros, estarmos simplesmente errados”. Para ela, o autismo não é uma deficiência, mas uma forma de existir que não corresponde ao comportamento considerado “normal” pela sociedade.

Um aspecto extremamente relevante levantado por Malena é o fato de que, durante décadas, os estudos sobre o autismo foram realizados quase exclusivamente com meninos. Ela se pergunta como suas filhas poderiam se encaixar em diagnósticos construídos a partir de parâmetros masculinos. Segundo relata, quando meninas passaram a ser diagnosticadas com mais frequência, a reação social foi afirmar que havia um “excesso” de diagnósticos — revelando, mais uma vez, como a norma masculina estrutura até mesmo o campo médico.

O livro não suaviza as dificuldades vividas pela família. Greta deixou de se alimentar, e foi uma luta diária para que ela conseguisse comer. Sua irmã, por sua vez, não suportava diversos tipos de sons. Quando Greta começou a se interessar pela crise climática, seus pais viram nisso não apenas uma preocupação legítima, mas também uma possibilidade de ela encontrar sentido, foco e força.

A partir daí, inicia-se um percurso que hoje é amplamente conhecido: a greve escolar às sextas-feiras em defesa do meio ambiente e contra tudo aquilo que alimenta a crise climática. No entanto, Nossa casa está em chamas vai muito além do relato desse ativismo. O livro é também uma crítica contundente ao sistema econômico em que vivemos e ao sistema patriarcal que sustenta tanto a exploração da natureza quanto a negação da diferença.

Trata-se de um livro que articula cuidado, política, crítica social e urgência — e que nos obriga a escutar vozes que o mundo insiste em silenciar.


Greta Thunberg nasceu em Estocolmo, Suécia, em 2003. É uma ativista ambiental. 


O QUE AS MULHERES QUILOMBOLAS ENSINAM AO MUNDO DITO CIVILIZADO


 

MULHERES QUILOMBOLAS: Territórios de existências negras femininas

SELMA DOS SANTOS DEALDINA

JADAÍRA – 1ª ED. – 2020


Que livro belo e necessário. Mulheres quilombolas reúne os relatos de diversas mulheres que narram suas vidas, suas histórias e as de suas comunidades. O que mais me chamou a atenção foi a diferença marcante entre o que significa ser uma mulher negra urbana e ser uma mulher negra quilombola, sobretudo no que diz respeito à centralidade do coletivo.

Em um dos relatos, ao tratar da violência doméstica, uma das mulheres se recusa a recorrer ao sistema de justiça formal. Para ela, o encarceramento ou o afastamento do homem rompe o tecido comunitário, já que ele também faz parte do coletivo. Em vez disso, as mulheres se reúnem, conversam sobre o problema e, posteriormente, convocam a comunidade para pensar conjuntamente formas de transformar esse comportamento. Trata-se de uma prática potente, que aposta na responsabilidade coletiva e na possibilidade real de mudança, sem reproduzir automaticamente a lógica punitiva do Estado.

Ao longo do livro, elas relatam suas dificuldades e lutas pelo direito ao território, pela preservação de suas tradições e pelo reconhecimento de seus modos de vida. A ancestralidade, os rituais e, sobretudo, a agricultura ecológica aparecem como eixos fundamentais, com destaque para a preservação das sementes crioulas, guardiãs de saberes e de futuro.

Um termo que há muito não via ser mobilizado com tanta força é o da dádiva: a troca, o cuidado, o respeito mútuo como princípios organizadores da vida. Muitas vezes, essas comunidades são vistas de forma distorcida, acusadas de serem “acomodadas” ou de ocuparem terras que poderiam ser exploradas pelo agronegócio — visão incentivada, inclusive, por políticas governamentais. O que se ignora é que justamente nesses territórios e nesses saberes reside uma das respostas mais concretas àquilo que hoje chamamos de crise climática.

Os conhecimentos ancestrais sobre a relação com a terra e a natureza são absolutamente centrais no presente e precisam ser preservados. As mulheres quilombolas lutam por isso, assim como mulheres indígenas e outras comunidades tradicionais. Trata-se de um saber que foi, em grande parte, perdido pelo mundo dito civilizado, mas que talvez seja o mais importante para nossa sobrevivência hoje.

Em tempos de individualismo extremo, a centralidade do coletivo que atravessa esses relatos é uma lição urgente. Vale muito a leitura: para conhecer as mulheres quilombolas e, sobretudo, para aprender a olhar para elas com profundo respeito.


Selma dos Santos Dealdina nasceu em São Mateus, Espírito Santo, em 1982. Produtora cultural, militante e ativista do movimento social negro e quilombola. 


QUANDO O RIO INVENTAVA A MODERNIDADE BRASILEIRA

 


METRÓPOLE À BEIRA-MAR: O RIO MODERNO DOS ANOS 20

RUY CASTRO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019 

Imagine encontrar um amigo, sentar-se em algum lugar e ouvi-lo começar a contar uma boa história. É exatamente assim que se lê este livro. A escrita de Ruy Castro flui com leveza, marcada por humor e sarcasmo na medida certa, sem jamais perder a seriedade e a profundidade da análise.

O autor nos apresenta a história cultural do Brasil da modernidade — e é possível dizer Brasil, porque nos anos 1920 o Rio de Janeiro concentrava a vida intelectual e artística do país. Era para lá que convergiam escritores, artistas, compositores e jornalistas, afinal, tratava-se então da capital federal e do grande centro de circulação de ideias, estilos de vida e projetos de país.

Ruy Castro reconstrói esse Rio moderno com precisão e vivacidade, mostrando como a cidade pulsava cultura, invenção e contradições. O resultado é um retrato envolvente de uma época que ajudou a moldar a imaginação cultural brasileira e cujos ecos ainda reverberam no presente.

Foi um dos melhores livros que li em 2020. Recomendo.


                  Ruy Castro nasceu em Caratinga. É um jornalista, escritor e biógrafo brasileiro.


APÁTRIDAS, FRONTEIRAS E A VIOLÊNCIA DA INVISIBILIDADE

 

MAHA MAMO: A luta de uma apátrida pelo direito de existir

MAHA MAMO E DARCIO OLIVEIRA

GLOBO LIVROS – 1ª – 2020


Esta biografia retrata a vida de Maha Mamo, uma mulher apátrida que, ao conseguir vir para o Brasil como refugiada, alcançou finalmente o direito à cidadania brasileira, assim como sua irmã. Trata-se de um livro que nos obriga a encarar uma condição muitas vezes invisibilizada: a de existir sem pertencer oficialmente a lugar algum.

Hoje, Maha Mamo é ativista na luta pelos direitos das pessoas apátridas, e elas são muitas no mundo. Mas o que significa, concretamente, não ter cidadania? No livro, Mamo narra como essa condição atravessou sua vida, a de sua irmã e a de seu irmão — este, infelizmente, vítima da violência no Brasil, assassinado em um assalto em Belo Horizonte. Ainda assim, mesmo diante dessa dor imensa, Maha e sua irmã não deixam de expressar profunda gratidão ao Brasil e às pessoas que as acolheram e ajudaram.

Seus pais eram sírios, mas o pai era cristão e a mãe muçulmana, uma união proibida na Síria. Para poderem se casar, fugiram para o Líbano, onde tiveram três filhos. O problema é que o Líbano reconhece a nacionalidade apenas pelo sangue paterno; como o pai era sírio, os filhos não obtiveram a cidadania libanesa. Diferentemente do Brasil, onde vigora o princípio do jus soli — o direito à cidadania para quem nasce em território nacional —, Maha e seus irmãos cresceram sem qualquer nacionalidade reconhecida.

As consequências dessa condição são devastadoras: pessoas apátridas não conseguem estudar, não têm acesso pleno à saúde, não podem tirar carteira de habilitação, não podem sair do país por falta de documentos e, quando conseguem trabalhar, ficam restritas a empregos precários. São pessoas vivas, que existem, mas que não existem oficialmente.

O livro também nos faz refletir sobre uma realidade brasileira pouco discutida: a de pessoas que nasceram no país, têm direito à cidadania, mas não possuem certidão de nascimento — seja por negligência, pobreza, isolamento geográfico ou outras razões. Sem esse documento básico, a exclusão se instala desde o início da vida.

Maha Mamo segue sua luta junto ao ACNUR, órgão da ONU responsável por refugiados, realizando palestras em órgãos governamentais e empresas, dando visibilidade a uma causa urgente. Conhecer a situação das pessoas apátridas é fundamental — especialmente em um mundo marcado pelo aumento dos deslocamentos forçados e das crises humanitárias.

Um livro necessário, que nos lembra que o direito de existir não deveria depender de fronteiras, religiões ou burocracias.


              Maha Mamo nasceu em Beirute, Líbano, em 1988. É um ativista de direitos humanos.


                                                   Darcio Oliveira é um jornalista brasileiro.


BIZÂNCIO COMO PONTE ENTRE MUNDOS, TEMPOS E CULTURAS


 

DE BIZÂNCIO PARA O MUNDO: A saga de um império milenar

COLLINS WELLS

DIFEL – 11ª - 2011


Para quem deseja conhecer melhor a fascinante história de Bizâncio, este livro é uma excelente porta de entrada. Colin Wells constrói aquilo que define como “a narrativa de uma aventura intelectual que conduz o leitor pelos desertos da Arábia até as florestas sombrias da Rússia setentrional, pelas pitorescas cidades da Itália renascentista até os momentos finais de uma cidade milenar”.

A partir desse percurso, o autor mostra como Bizâncio não foi um império isolado ou meramente decadente, mas um centro irradiador de ideias, formas políticas, artísticas e religiosas que moldaram profundamente o mundo europeu e oriental. Para começar a compreender a formação da Rússia — e inclusive as questões históricas que envolvem a Ucrânia e Kiev —, este livro é imprescindível.

Wells aborda também o Monte Athos, na Grécia, com seus mosteiros e a longa tradição da iconografia cristã. Um espaço marcado por forte espiritualidade, mas também por exclusões: até hoje, trata-se de um território onde a entrada de mulheres é proibida, o que revela tensões persistentes entre religião, poder e gênero.

Ao longo do livro, o autor acompanha missionários, filósofos e artistas que, contra todas as probabilidades, propagaram os ideais gregos nas sociedades italiana, islâmica e eslava. Assim, Bizâncio surge não apenas como herdeiro da Antiguidade, mas como mediador fundamental entre mundos, tempos e culturas.

Um livro que amplia o olhar sobre a história europeia e desmonta leituras simplificadas sobre o passado — mostrando como muitos dos conflitos e heranças do presente passam, inevitavelmente, por Bizâncio.


Collins Wells nasceu em West Bridgford, Reino Unido, em 1933 e faleceu em North Wales, País de Gales. Foi um historiador britânico especializado em Roma Antiga, arqueólogo e acadêmico.


COMO A HISTÓRIA MOLDOU O PENSAMENTO DE ZYGMUNT BAUMAN


 

BAUMAN: UMA BIOGRAFIA

IZABELA WAGNER

ZAHAR – 1ª ED. 2020


Ler a biografia de Zygmunt Bauman representou um duplo percurso: por um lado, o conhecimento da vida desse eminente sociólogo; por outro, um mergulho na história do Leste Europeu, especialmente da Polônia, do período da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Ao longo do livro, é possível acompanhar tanto o desenvolvimento intelectual de Bauman quanto a formação de sua visão de mundo, profundamente marcada pelos acontecimentos históricos que atravessaram sua vida.

Um dos aspectos que mais me interessou foi conhecer melhor Janina Bauman. Mais do que companheira, ela foi a principal interlocutora do sociólogo e também uma escritora relevante. Um de seus livros, Inverno da manhã, está traduzido no Brasil e relata sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura desse livro por Bauman foi decisiva para a escrita de Modernidade e Holocausto, considerada uma de suas obras-primas.

Bauman nasceu na Polônia e sempre se considerou polonês, mesmo após sua expulsão do país em 1968, quando foi forçado a renunciar à cidadania e se tornou apátrida. Judeu, ele foi atingido por um antissemitismo ainda fortemente presente no país, que, segundo a autora, tinha um caráter religioso mais do que ideológico.

Com a invasão nazista da Polônia, Bauman e seus pais fogem para a União Soviética. É lá que ele ingressa no Exército Vermelho e adere ao comunismo, acreditando que esse projeto político poderia garantir liberdade e pôr fim aos preconceitos contra os judeus. Isso, no entanto, não se concretiza. A repressão à liberdade de expressão, o controle sobre a vida das pessoas e a persistência do preconceito marcam profundamente essa experiência.

Ao final da guerra, Bauman retorna a Varsóvia, ingressa na universidade, estuda sociologia e constrói sua carreira acadêmica até o doutorado, tornando-se professor. Em 1968, porém, é novamente expulso do país, acusado injustamente de incitar revoltas estudantis — mais um episódio de perseguição antissemita.

Ele segue então com a esposa e as filhas para Israel, onde vive por três anos, e depois para a Inglaterra, país em que passará o resto da vida. É interessante notar que sua produção intelectual mais conhecida, assim como o célebre conceito de “modernidade líquida”, surge apenas após sua aposentadoria da Universidade de Leeds.

Trata-se de uma vida intensamente vivida, atravessada por exílios, rupturas e reinvenções, que resultou em uma obra vasta e em reflexões que permanecem extremamente atuais. Recomendo.


                            Izabela Wagner nasceu em Wolów, Polônia, em 1964. É socióloga.


QUANDO CONTROLAR O PASSADO SE TORNA UM PROJETO DE PODER

 

APAGANDO A HISTÓRIA: Como os Fascistas Reescrevem o Passado Para Controlar o Futuro

JASON STANLEY

 L&PM – 1ª ED. 2025


Apagando a História, de Jason Stanley, e Quem tem medo do gênero?, de Judith Butler, ajudam a compreender o que está acontecendo no mundo contemporâneo, especialmente diante do retorno de Trump nos Estados Unidos, de seus ataques às universidades e do empenho da extrema direita contra a teoria crítica da raça, a teoria de gênero, a história das mulheres e os cursos que abordam a sexualidade.

Ao estabelecer paralelos com o período de 1930 a 1945 na Europa — marcado pela ascensão do fascismo e do nazismo —, Stanley demonstra como a história é apagada e substituída por uma nova narrativa. Em geral, trata-se da construção de um mito nacionalista e de “tradições culturais” que devem ser celebradas como orgulho da nação. Um dos objetivos centrais desse processo é destruir conquistas e direitos relacionados à classe, ao gênero, à sexualidade e à raça.

Nesse contexto, todo espírito crítico passa a ser desencorajado. Não se trata mais de pensar, mas de aceitar, ou engolir, aquilo que esses regimes impõem como verdade. O ataque principal recai sobre a educação e as universidades: controla-se o que é ensinado e como é ensinado, moldando subjetividades e apagando conflitos históricos.

Jason Stanley expõe com clareza o perigo real representado pelos ataques da direita autoritária à educação. Identifica suas principais táticas, seus financiadores e traça as raízes intelectuais desse projeto político, mostrando que não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia deliberada de controle do presente por meio da manipulação do passado.


Jason Stanley nasceu em Syracuse em 1969. É um filósofo estudioso do neofascismo, particularmente nos EUA. 


UM OLHAR SEM ILUSÕES SOBRE O SÉCULO XX

 


A LEBRE DA PATAGÔNIA

CLAUDE LANZMANN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2011

Comprei este livro para ler a versão de Claude Lanzmann sobre sua vida com Simone de Beauvoir, mas fui surpreendida pela amplitude de seu conteúdo. A Lebre da Patagônia é um livro de memórias que atravessa o século XX a partir de uma experiência singular, intensa e profundamente política.

Lanzmann revisita sua participação na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, suas impressões, enquanto judeu, sobre Israel, e suas viagens à Coreia do Norte e à China. Nessas passagens, apresenta uma visão crítica e realista, bastante distinta daquela que, à época, levou muitos intelectuais a louvar o comunismo e o maoísmo sem maiores questionamentos.

O livro aborda também sua relação com Simone de Beauvoir, mas não se reduz a ela. Entrelaçam-se a essa narrativa o processo de realização de Shoah, seu filme monumental sobre o extermínio dos judeus, revelando não apenas os bastidores das filmagens, mas o peso ético e existencial que atravessou toda a sua feitura.

A leitura vale muito a pena, inclusive por sua estrutura: o livro não segue uma ordem cronológica linear, mas avança conforme as lembranças emergem. Esse movimento fragmentado constrói, pouco a pouco, um panorama complexo e perturbador do século XX, visto por alguém que o viveu intensamente — sem ilusões e sem concessões.


Claude Lanzmann nasceu em Bois-Colombe, França, em 1925 e faleceu em Paris em 2018. Foi um cineasta conhecido pelo documentário Shoah (1985).


UM PAÍS LIDO ATRAVÉS DE SEUS ESCRITORES

 


A LANTERNA MÁGICA DE MÓLOTOV UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DA RÚSSIA

RACHEL POLONSKY

TODAVIA – 1ª ED. 2018

A Lanterna Mágica de Mólotov é um livro no qual Rachel Polonsky empreende uma viagem pela história da Rússia seguindo os rastros de seus principais escritores. A partir desse percurso, a autora nos apresenta não apenas os autores e suas obras, mas também a cultura, a história, as tradições, a sociedade russa — além da fome, do totalitarismo e da violência que atravessaram esse território.

Rachel Polonsky mudou-se para a Rússia em 1990 e foi morar em um edifício que, nos anos stalinistas, era reservado aos servidores mais eminentes do Estado. Entre eles, Mólotov, cruel homem de confiança de Stálin, que possuía uma imensa biblioteca onde se encontravam inclusive livros proibidos de autores russos da época. Essa biblioteca permaneceu no local, e a autora teve acesso a ela — um detalhe perturbador, se lembrarmos que muitos dos escritores ali presentes foram enviados ao Gulag pelo próprio Mólotov.

A partir dessa descoberta, Rachel empreende uma jornada pela Rússia, visitando os locais de nascimento dos escritores, as cidades onde viveram e os espaços que marcaram suas trajetórias. Ao longo do caminho, ela entrelaça a história russa à história desses autores, mostrando como literatura, política e vida se confundem de maneira indissociável.

Aprendi muito sobre a Rússia com este livro, inclusive sobre regiões que hoje estão no centro dos conflitos da guerra na Ucrânia, bem como sobre um outro lado do país, menos conhecido, onde se desenha a nova rota da seda polar e operam os quebra-gelos nucleares. Um livro que ilumina a Rússia por dentro, revelando suas contradições, sombras e camadas históricas.



                    Rachel Polonsky é uma acadêmica britânica especializada em literatura eslava.


UMA OUTRA LEITURA DA DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

 

A DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

MARÍA-MILAGROS RIVERA GARRETAS

GINNA – 1ª ED. 2025

Estou profundamente impactada por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.

Um dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna — aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a língua materna é simbólica. Em lugar do Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.

Não há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma “natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e, paradoxalmente, nos liberta.

María-Milagros aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras (trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as fronteiras entre o público e o privado.

Sua crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.

Eu mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas. Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.

Sempre me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está me respondendo.



María-Milagros Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.