A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA
NAWAL EL SAADAWI
FARO EDITORIAL – 1ª ED. – 2023
160 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – EGITO
Este livro é impactante,
principalmente por se tratar de uma ficção construída em cima a partir de uma
história real. Nawal El Saadawi realmente entrevistou uma mulher na prisão,
condenada à morte, e escreveu “A mulher com olhos de Fogo”.
Vou iniciar com uma pequena
ressalva ao título em português, que traz “O despertar feminista” como
subtítulo. Muitos podem pensar que se trata de um livro que aborda uma mulher
que desperta diante de um mundo absolutamente patriarcal e, a partir disso,
muda sua vida. Eu diria que, na verdade, ela tem uma conscientização feminista.
No entanto, isso não irá mudar sua vida, mas a levará a enfrentar uma verdade
que acaba por condená-la à morte.
Logo no início, Firdaus diz: “não
tenho tempo para ouvir você”. Ela quer contar sua própria história, da qual finalmente
se apropriou; É através de sua história que acompanhamos a formação de uma
consciência feminista.
É notório o quanto os olhos dos
outros são vitais para Firdaus. Em vários momentos do livro, ela irá se referir
aos olhos do outro. Sim, é pelo olhar do outro que nos constituímos, a
psicanálise o explica. E, em uma sociedade patriarcal e machista, esse olhar
objetifica o corpo da mulher. É através dessa objetificação que a mulher se
constitui.
Nawal El Saadawi escreveu o livro
em 1975. É importante levar isso em consideração. Sabemos que foi exatamente
nos anos 70 que os estudos das mulheres ganharam força, o que não quer dizer
que antes não houvesse estudos sobre o tema. Mas o caminho percorrido de lá
para cá já trouxe muitas mudanças.
Outro ponto que é importante
levar em consideração é que, por mais que a sociedade egípcia de 1975 fosse
machista e patriarcal, e ainda o é, não se pode generalizar as condições
relatadas por Firdaus para todas as mulheres egípcias. Isso só reforçaria a
visão Ocidental de que as mulheres do chamado Oriente precisam ser salvas. A
própria autora é um exemplo de que essa não é uma situação que se aplica a
todas. No entanto, sim, muitas mulheres enfrentaram e ainda enfrentam situações
como as narradas por Firdaus.
Não tenho conhecimento suficiente
sobre a situação atual das mulheres no Egito para fazer uma comparação com o
que é relatado no livro. Minha leitura se limita à obra, ao seu contexto de
produção e à experiência de Firdaus, narrada por Nawal El Saadawi.
O simples fato de nascer menina,
o que não é uma escolha, já define o destino de Firdaus naquela sociedade. A
menina não é valorizada como um menino, e ela percebe isso. Todas as violências
sofridas, na família, a mutilação genital, o abuso pelo tio, o casamento
forçado, até chegar à prostituição. Ter cursado a escola e obter um diploma de
nada lhe serviu.
Não existe apenas um vilão. Praticamente
todos os homens que cruzaram o caminho de Firdaus foram violentos ou, então,
pagavam para usufruir de seu corpo. Em um único momento, em que ela parece ter
encontrado um homem bom, se apaixonado e encontrado uma luz para si, sofrerá a
desilusão ao descobrir que ele se casará com outra. Sabemos o porquê: ela
dormia com ele sem ser casada, lhe contou sua vida e, portanto, não era uma
mulher considerada adequada para ser esposa de alguém.
Nem mesmo as mulheres são
generosas com ela. Seguem as normas sociais, e a esposa do tio é quem a casa
com um velho que irá espancá-la e controlar o que ela come. Uma prostituta a
ampara, dá-lhe um lugar para morar e boa comida, mas se aproveita do corpo dela,
vendendo-o. Isso demonstra como as mulheres internalizam normas patriarcais e também
as reproduzem.
Quando ela consegue um emprego, o
salário é muito baixo, e isso também é um reflexo da sociedade e do sistema
econômico. Portanto, não vale dizer que ela poderia ter seguido por outro
caminho e alcançado uma autonomia financeira pelo trabalho.
Quando ela retorna à prostituição
que, segundo sua experiência, é a única forma de ter uma certa autonomia e
independência financeira, surge o cafetão.
Para ela, ser prostituta é o
destino de todas as mulheres, inclusive das esposas. Eu não concordo com essa
visão, apesar de ser um dos pontos que as feministas apontam. Naqueles anos 70,
eu até compreendo, pois conheci muitas mulheres que consideravam o sexo uma
obrigação do casamento. Mas muita coisa mudou depois, e a mulher pode ter
desejo sexual e sentir prazer em suas relações sem, com isso, ser uma
prostituta.
Firdaus vê o véu cair de seus
olhos e enxerga uma realidade que a leva a odiar todos os homens. Ela enxerga a
insegurança deles, o desejo do poder, do status e do dinheiro que lhes dá
segurança. E tem consciência de que isso apavora os homens, eles têm medo dela.
E é isso que a condena.
Ela não escapa do sistema. Ela
prefere morrer a se submeter ao sistema.
“Eu me dei conta de que todos
esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade
gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem
limites.” (pág. 52)
“Em certa ocasião ele me deu uma
grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de
contusões. Então eu fui embora de casa e procurei o meu tio. Mas o meu tio me
disse que todos os maridos batiam nas suas mulheres, e a esposa do meu tio
ainda comentou que ela mesma apanhava do marido com frequência.” (pág. 75)
“Eu tomei consciência do fato de
que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente
escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar
conselhos, ou diziam que queriam me resgatar da vida que eu levava. Eu
costumava odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram
melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam
como algum tipo de heróis magnânimos – um papel que não fizeram nenhuma questão
de desempenhar em outras circunstâncias. Queriam se sentir nobres e superiores
lembrando-me do fato de que eu estava em situação de inferioridade. Eles diziam
a si mesmos: ‘Vejam só que pessoa maravilhosa eu sou. Estou tentando tirar essa
puta da lama antes que seja tarde demais’. (pág. 135)
Nawal El Saadawi nasceu em Kafr
Tahlah, Egito, em 1931 e faleceu no Cairo, Egito, em 2021. Foi uma escritora,
médica, psiquiatra e feminista egípcia.



























