domingo, 17 de maio de 2026

A LITERATURA “FEMININA”

 


A LITERATURA “FEMININA”

PESQUISA REALIZADA EM 2025

 

Dediquei um tempo a pesquisar sobre a literatura das mulheres. Os parâmetros que utilizei foram os seguintes:

- Encontrar uma escritora por país – considerando os 206 países/nações do Comitê Olímpico Internacional (COI).

- Verificar se havia traduções para o português de pelo menos uma escritora por país.

- Verificar quais escritoras (de qual país) eram mais traduzidas no Brasil.

- Quais temas são mais abordados pelas mulheres que escrevem e quais não.

- Procurar uma resposta para compreender porque os homens leem pouco as mulheres

- Analisar quais são traduzidas e tentar compreender as preferências.

- Considerar o que as mulheres brasileiras procuram para ler

- A literatura feminina é empobrecida ou é o mundo que as leem que é empobrecido?

- Existe literatura feminina ou isso é uma criação do mercado literário exotizando a produção feminina?

 

Os primeiros resultados foram os seguintes:

Dos 206 países constatei que temos 101 países que não possuem traduções para o português, no entanto, temos em inglês, francês e espanhol. São raros os locais onde não haja uma mulher escrevendo.

- O MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO E AS TRADUÇÕES

A maior parte das traduções para o português são de autoras europeias (Norte da Europa) e estadunidenses. É pouco o que temos da África, da Ásia, da Rússia, da Oceania e mesmo da América Latina. Diante disso vemos que há um viés colonialistas, eurocentrado e comercial. Agora, a pergunta é outra: isso é imposto pelas editoras ou elas estão atendendo ao que as mulheres buscam para ler?

Qual a fonte da influência sobre o que as mulheres escolhem ler? São as editoras e seu marketing? São os influencers? É o Tik Tok? É notório que praticamente não temos mais críticos literários sérios que dizem realmente o que pensam de um livro ou autor/a. As livrarias colocam bancadas logo na entrada onde encontramos: autoajuda, livros religiosos e os que estão em alta no mercado, os chamados best-sellers.

Os três filtros das traduções que definem quem chega, quem não chega e por que podem ser os seguintes:

- Colonial/racial

- Eurocêntrico/Geopolítico

- Mercadológico/Editorial

Um outro ponto a ser considerado são os tradutores disponíveis, no entanto, como temos as traduções em inglês, francês e espanhol, há possibilidade de tradução, mesmo que não seja direto do original, o que aliás sempre ocorreu.

Ou seja: não basta que existam autoras, elas precisam passar pelo funil

produzir → circular → ser traduzida → ser publicada → ser distribuída → ser lida

 

E cada etapa tem um porteiro (gatekeeper). O sistema editorial é um sistema de seleção geopolítica do que é considerado “universal”. Mulheres chegam menos porque:

  • produzem menos em termos quantitativos? (histórico)
  • publicam menos? (estrutura)
  • são traduzidas menos? (mercado)
  • são distribuídas menos? (economia)
  • são legitimadas menos? (crítica)
  • são ensinadas menos? (academia)

- OS TEMAS DOS LIVROS ESCRITOS POR MULHERES

Quais os principais temas que encontramos na literatura escrita por mulheres?

- A experiência de si mesma

- Sobre a maternidade

- Sofrimentos, racismo e traumas de guerra

- Relações amorosas – dificuldades, desencontros, violência

- Família

- Temas feministas

- Temas subjetivos

OBS: não incluo nessa análise livros escritos por mulheres que considero patriarcais, ou seja, romances com homens salvadores, ou o que comumente se chama de príncipe encantado.

É notório que há pouco foco em temas humanos universais. Isso é o que encontramos no catálogo traduzido.

Mas é preciso perguntar: isso ocorre porque o mercado seleciona as mulheres que escrevem o que o mercado quer que elas escrevam? Ou seja, o que os homens querem que as mulheres escrevam?

Mulheres que tratam de temas universais são traduzidas? Ou apenas as que atendem ao que o mercado quer? Se uma escritora africana escreve sobre política, economia, matemática ou psicologia, ela é traduzida? Se ela escreve sobre maternidade, estupros, guerra, casamentos, ela é traduzida.

Por outro lado, há na escrita das mulheres uma necessidade de resgate histórico e de tratar de problemas, sofrimentos e enfrentamentos. Um homem não vai escrever sobre a dor de uma mulher estuprada. Um homem não vai escrever sobre questões de uma lésbica. Um homem não escreve sobre maternidade.

- OS HOMENS LEEM MULHERES?

Por que os homens leem pouco as mulheres?

  • homens leem homens para ler “o humano”
  • mulheres leem homens para ler “o humano”
  • mulheres leem mulheres para ler “a mulher”
  • homens quase nunca leem mulheres porque seria “ler o feminino”

A literatura feminina ainda é percebida como gênero, a masculina como literatura.

Homens não gostam de ler sobre vulnerabilidade, intimidade, maternidade, corpo e trauma e não toleram quando as mulheres falam da violência praticada pelos homens. Isso cria um desinteresse defensivo.

Homens leem aquilo que dá status cultural entre outros homens. A leitura é performativa. Ler mulheres ainda não é símbolo de status, com exceções (Virginia Woolf, Lispector, etc.)

Quando mulheres escrevem sobre o “universal humano”, o mercado e a crítica tendem a rebaixar a categoria universal para particular. Mulheres leem romances de formação masculinos, homens não leem romances de formação femininos. O masculino é o universal. Homens quando escrevem são existenciais, as mulheres serão classificadas em algum termo como maternidade, família ou outro.

- QUAL O PERFIL DA LEITORA BRASILEIRA

O que as mulheres brasileiras querem ler?

Aqui o mercado editorial aponta os segmentos:

Romance comercial (sobretudo amor romântico patriarcal)
Autoajuda (desenvolvimento pessoal / espiritualidade)
Feminismo pop (Didático, empoderamento)
Memórias / experiências femininas
Literatura de trauma / violência
Romance histórico + mulheres (crescente)
Thriller / true crime (alta demanda)
LGBTQIA+ (nichos urbanos)

Religiosos e/ou espirituais

As mulheres brasileiras não são incentivadas a ler os grandes clássicos, ficção científica, literatura de ciência, leem os religiosos, mas não os teológicos.

Ou seja: a mulher brasileira é incentivada a ler o que a forma feminina contemporânea supostamente deve ser: autocentrada, terapêutica, romântica, resiliente.

“Querem romances de amor patriarcais?”

Sim, massivamente. É o maior segmento.
É um narcótico patriarcal barato: a fantasia que concilia opressão com desejo.

“Querem livros feministas?”

Sim, mas feminismo digestível. Bell Hooks vende. Silvia Federici vende. Judith Butler não vende.

“Querem reflexão universal humana?”

Muito menos. E quando querem, compram homens.

- QUANDO OS HOMENS LEEM AS MULHERES

A pesquisa internacional mostra que homens leem mulheres quando:

  1. há legitimação prévia do cânone
    (Woolf, Lispector, Sontag, Bishop)
  2. há interesse sexual/cultural pelo corpo feminino
    (Anaïs Nin, Erica Jong)
  3. há tema neutro/universal
    (Ursula Le Guin → ciência, política, cosmologia)
  4. há mediação acadêmica
    (curso de literatura, universidades)
  5. há mediação afetiva
    (mulher indica, mãe indica, namorada indica)

Ou seja: o homem raramente “descobre” uma mulher sozinho.

E se a literatura feminina contemporânea não for “feminina”, mas estiver apenas sendo lida e publicada como tal?

Ou seja, o problema não está nas mulheres autoras, mas no sistema de leitura, que produz a mulher como subgênero literário.

Agora vamos levantar algumas hipóteses

H1 — A literatura feminina contemporânea não é um gênero, mas uma categoria editorial construída.

As mulheres não escrevem apenas sobre mulheres; é o mercado que classifica o que elas escrevem como “feminino”.

Consequência.: o sistema des-universaliza a mulher.

H2 — O cânone masculino é universal; o cânone feminino é particular.

O universal pertence aos homens por privilégio histórico, não por mérito intrínseco.

Consequência.: ler homens é ler “o humano”; ler mulheres é ler “o íntimo”.

H3 — O mercado editorial opera como um dispositivo de gênero, filtrando o que pode ser considerado universal.

Mesmo quando mulheres escrevem sobre política, metafísica, cosmologia, ciência, economia ou história, raramente são traduzidas.

Consequência.: cria-se a impressão falsa de que “mulheres não escrevem sobre o universal”.

H4 — A circulação internacional de mulheres é governada por três vetores: colonialidade, eurocentrismo e mercadoria.

A literatura feminina global só chega ao Brasil se vier pelo eixo de consagração Norte → Sul.

Logo: a mulher latino-americana não lê a mulher latina — lê a mulher europeia e anglo-saxã.

H5 — A experiência feminina é exotizada como mercadoria literária.

Trauma, corpo, maternidade e violência se tornam os grandes temas vendáveis das mulheres.

Consequência.: o sofrimento vira capital cultural.

H6 — O feminino ainda é consumido como testemunho, e não como pensamento.

Quando uma mulher escreve, o mercado lê como relato; quando um homem escreve, lê como teoria.

Esse é um dos paradoxos mais profundos.

H7 — A mulher brasileira lê para se reconhecer, não para se projetar.

Sua leitura ainda é intimista, terapêutica, relacional.

Isso é um traço histórico-cultural, não biológico.

H8 — O romantismo patriarcal é o principal opióide literário feminino.

A mulher brasileira lê romances para experimentar, em fantasia, a conciliação impossível entre amor e opressão.

H9 — O feminismo pop compete com o romance patriarcal: são narcóticos opostos.

Um oferece conforto emocional, o outro oferece consciência política.

Ambos vendem muito; ambos falam com a mulher urbana contemporânea.

H10 — O Brasil é um país literariamente atlântico, não continental.

Olha para a Europa e EUA; não olha para a América Latina.

Isso vale para homens e mulheres, mas no caso das mulheres é mais grave porque apaga a experiência comum colonial.

H11 — A literatura indígena feminina rompe o sistema universal-particular.

As escritoras indígenas falam de cosmo, ética, política, ecologia, mundo — não do íntimo.

Consequência.: são mais universais que o universal europeu.

H12 — A tradução é a verdadeira fronteira do pensamento.

O que não é traduzido, não existe.
O que é traduzido, é moldado.
O que é traduzido por homens, é reinterpretado.

A luta do século XXI não é pela voz da mulher, mas pela universalidade da mulher.

Esta pesquisa ainda é uma análise inicial, mas optei por publicar meus primeiros apontamentos. Convido a todos que desejem colaborar que teçam comentários ou me forneçam dicas para a pesquisa.

 

sábado, 16 de maio de 2026

LIBERDADE, CENSURA E VÍNCULOS MATERNOS

 


O LEITE DA MÃE

NORA ISKTENA

EDITORA RUA DO SABÃO – 2026

164 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LETÔNIA


O livro inicia com o nascimento de duas meninas: a mais nova nasceu em 1969, enquanto sua mãe nasceu em 1944, ambas na Letônia. O que as diferencia é o contexto histórico. Em 1944, a Letônia vivia o período da Segunda Guerra Mundial, tendo sido invadira pelos nazistas após um breve período de independência do Império Russo. Já em 1969, o país estava integrado à União Soviética.

A autora intercala as vozes de mãe e filha relatando suas vidas e, ao mesmo tempo, apresenta a avó da jovem. São, portanto, três mulheres interligadas pelo sangue e pela maternidade. O ponto central é o leite materno que a mãe recusou à filha, por acreditar que, através dele, transmitiria a amargura e o veneno que carregava em si.

Isso me lembrou o filme “A Teta Assustada”, da cineasta peruana Claudia Llosa, no qual uma filha luta contra o medo herdado por meio do leite de sua mãe, violentada durante um período de extrema violência no Peru.

Por meio dessas três mulheres, Isktena constrói um romance em que se tornam perceptíveis os efeitos do autoritarismo e do controle estatal impostos pelo stalinismo aos povos sob ocupação soviética. A mãe sofre com a exigência da submissão ao comunismo, às suas ideologias e regras. Mulher brilhante, cientista e médica ginecologista, é tolhida e inclusive punida pelo regime.

A filha, nascida já sob a vigência desse sistema, não percebe a diferença entre liberdade e opressão. Vive sua vida tendo de cuidar da mãe, que considera mentalmente doente.

“A escravidão é liberdade” e “A liberdade é escravidão”, repete a mãe. O que isso significa?

Essa formulação me remeteu ao livro “Livre”, de Lea Ypi, que já postei aqui no blog. Nele, a autora albanesa, questiona o que de fato significa liberdade e se ela realmente existe. Ikstena também mobiliza referências a “1984”, de George Orwell, e a trechos de “Assim falava Zaratustra” de Friedrich Nietzsche, obras que circulavam clandestinamente no país por serem proibidas.

 Aos poucos, a filha começa a compreender o que ocorreu em seu país. O padrasto de sua mãe lhe conta parte dessa história a portas fechadas, sempre alertando que aquela conversa não poderia sair dali. O pai da mãe foi preso durante a guerra e, posteriormente, considerado traidor pelos soviéticos. Ele sobreviveu, no entanto, a avó se afastou completamente dele se casando novamente.

A mãe não consegue viver duas vidas, e expressa seu esgotamento diante dessa duplicidade:

 “o ódio por aquela existência dupla e hipócrita na qual as pessoas eram forçadas a interpretar dois papéis. Portar bandeiras nas paradas de maio e outubro, aclamando o Exército Vermelho, o exército mais poderoso do mundo, a revolução e o comunismo e, na cozinha de casa, enxaguar tudo com um bom trago, fazer o sinal da cruz e ficar esperando que os britânicos chegassem através do rio Daugava para libertar a Letônia das botas russas.”

Nascer em determinado tempo e lugar molda profundamente nossas vidas. A avó, de coragem extrema ao salvar a filha, acabou se acomodando; a mãe jamais aceitou não poder ser livre e viver sob censura soviética; e a filha, nascida já dentro do regime, sequer percebia plenamente a realidade ao seu redor, até conhecer, na adolescência, um professor diferente, mas que será obrigada a delatar.

A grande metáfora do livro é Bambi, um hamster que a avó comprou para a neta. Inicialmente, ela o soltava para correr livremente pela casa. Porém, quando a avó compra uma fêmea para lhe fazer companhia, ela tem filhotes, o macho perde toda a vitalidade e acaba devorando-os.

 A filha o castiga. Depois disso, sempre ela se aproxima, ele agitado, como se ainda esperasse poder sair da gaiola novamente. Mas ela nunca mais o liberta, e ele vai murchando até morrer.  

Sem compreender por que ele comeu os filhotes, a menina ouve da mãe uma explicação devastadora: talvez ele apenas quisesse impedir que eles também acabassem vivendo em uma gaiola. 

Nora Isktena nasceu em Riga, Letônia, em 1969 e faleceu na mesma localidade em 2026. Foi uma escritora e gestora cultural letã. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

ENTRE MUROS VISÍVEIS E INVISÍVEIS.

 


EU VOU, TU VAIS, ELE VAI

JENNY ERPENBECK

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2024

368 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ALEMANHA (ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL)

 

Richard é um viúvo, professor emérito de filologia, que viveu a maior parte de sua vida na Alemanha Oriental. Com a queda do Muro de Berlim, precisou se reintegrar, na medida do possível, como um cidadão da Alemanha Ocidental.

Paralelamente, acompanhamos um grupo de homens negros refugiados, provenientes de diferentes lugares, cada um carregando sua própria história de luta, perdas e dores.

Ao longo do livro, a autora entrelaça os dilemas desses deslocados e refugiados. Não se abstém de mostrar a realidade dos refugiados nos países europeus: as dificuldades cotidianas, o desprezo das autoridades e os inúmeros obstáculos criados para impedir que essas pessoas construam uma vida minimamente digna. Querem apenas trabalhar e dar sentido às próprias vidas, mas são continuamente boqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. Nenhum deles deseja depender do Estado, mas ainda assim são tratados como um peso social. Isso sem falar no racismo, nos preconceitos e no medo que muitos europeus projetam sobre os imigrantes.

Por outro lado, Richard também experimenta formas de exclusão. Sendo oriundo da Alemanha Oriental, não tem direito ao mesmo salário dos professores do Oeste e só é convidado a participar de congressos ou palestras quando alguém desiste.

No início do livro, ele sequer percebe os homens negros na praça que cruza, homens que reivindicam, antes de tudo, visibilidade. Após assistir a uma reportagem na televisão, interessa-se por eles inicialmente como pesquisador e decide entrevista-los. Aos poucos, porém, começa a confrontar seus próprios preconceitos.

Richard passa então a “cuidar”, na medida do possível, desses homens: escuta suas histórias, oferece pequenas ajudas e se aproxima de suas realidades. Ainda assim, a impressão que fica é a de que esse movimento também constitui uma tentativa de preencher o próprio vazio após a morte da esposa e diante da ausência de filhos ou de uma família próxima. Apesar de manter uma rotina e um círculo de amizades, há nele uma falta persistente.

 Quando comparamos as dificuldades de Richard, como alguém deslocado dentro de sua própria história nacional, com a dos refugiados, a diferença é gritante. Isso não significa minimizar sua experiência, mas reconhecer que a situação dos refugiados é incomparavelmente mais grave. Ainda assim, o racismo e a exclusão atravessam ambos os casos, seja em relação aos oriundos do Leste, seja em relação aos refugiados africanos.  

Os refugiados tinham casas, famílias, rotinas e pertencimentos; de repente, em poucas horas, às vezes perdem tudo e só lhes resta fugir para não morrer.  Embora as histórias do romance sejam ficcionais, correspondem à realidade concreta de inúmeros migrantes.

Richard, um “outro” dentro de seu próprio país, falando alemão fluentemente e tendo sido separado da Alemanha Ocidental por questões políticas e bélicas, vê-se agora diante de outro “outro”: homens igualmente deslocados, porém lançados em condições muito mais precárias, também por razões política e guerras. Não se trata de escolhas individuais, mas de condições impostas por estruturas históricas e políticas que lhes roubam não apenas bens materiais, mas também o sentido de continuidade da própria vida e da vida familiar.  

O livro é, sobretudo, uma reflexão ética sobre o encontro com o diferente, a possibilidade de convivência, o respeito humano e os dilemas da solidão, do vazio e dos limites individuais diante de situações extremamente complexas.  

Ainda assim, senti falta de uma questão fundamental: o que produziu tantas guerras civis, conflitos e bombardeios nos países africanos? A Alemanha também foi um país colonizador e participou da partilha da África na Conferência de Berlim, desconsiderando territórios, reinos e grupos étnicos. Talvez situar essa história em Berlim não seja casual: há um diálogo implícito entre dois marcos históricos de divisão – o muro e a conferência.


Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim Leste, Alemanha, em 1967. É uma escritora e diretora de ópera alemã. 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE DITADURA, MISÉRIA E RESISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

BANHO DE LUA

YANICK LAHENS

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

239 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍSHAITI


Uma mulher morta, estendida em uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.

Intercalados aos pensamentos da morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto, ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem; e mesmo a contragosto, aceitam a relação.  

Aos poucos, nesse microuniverso familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema, o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis e

Posteriormente, é o filho de “Papa Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria. O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição histórica e o período deixam claro de quem se trata.  

O livro também apresenta elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças. 

                Yanick Lahens nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana. 



ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha. 


sexta-feira, 17 de abril de 2026

TEXACO COMO TERRITÓRIO INSURGENTE: A INVERSÃO DO “NÃO-LUGAR”

 


TEXACO

PATRICK CHAMOISEAU

PINARD – 1ª ED. – 2026

504 páginas

O romance “Texaco” constrói um retrato da Martinica a partir da voz de Marie-Sophie Laborieux, que narra sua história e a de sua família a um urbanista, oferecendo, por meio dessa interlocução, uma outra versão da história da ilha – não a oficial, mas aquela vivida pelos pobres, pelos colonizados e pelos descendentes de escravizados.

 A narrativa se inscreve, portanto, em uma perspectiva contra-hegemônica; é pelo olhar dos marginalizados que se reconstitui cerca de um século e meio de história. A escrita de Patrick Chamoiseau é ao mesmo tempo poética e visceral, recusando qualquer idealização. A miséria aparece em sua materialidade: a sujeira, a fome, as doenças, a violência; mas também em sua dimensão relacional, marcada por formas de solidariedade, especialmente entre as mulheres, que sustentam a vida cotidiana.

A história se desenvolve na contramão da narrativa colonial, evidenciando as dores, as estratégias de sobrevivência e as resistências daqueles que foram historicamente silenciados. Marie-Sophie emerge como uma figura central dessa resistência: uma mulher cuja força reside na palavra – na capacidade de narrar, de nomear e, assim, de existir. Seu “nome secreto”, que antecede a fundação de Texaco, aponta para essa dimensão simbólica da linguagem como constitutiva da identidade.

A obra também dialoga com o pensamento anticolonial. Diferentemente do que ocorre em “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, onde se evidencia o desejo de assimilação e os efeitos psíquicos da colonização (o negro que deseja tornar-se branco e francês), Texaco enfatiza a persistência de uma identidade crioula. Marie-Sophie, ainda que em certos momentos se deixe seduzir pelo imaginário francês, não se deixa capturar por ele: não há, nela, vergonha de ser negra, mas afirmação.

Nesse ponto, é importante precisar que Aimé Césaire teve um papel ambíguo e decisivo: foi um dos responsáveis pela departamentalização da Martinica, integrando-a à França, mas também o principal formulador da negritude, movimento que reivindica o valor das culturas negras frente à lógica colonial. A tensão entre assimilação e afirmação identitária atravessa o romance.

A memória, em “Texaco”, constrói-se sobretudo pela tradição oral. Lendas, mitos, cantos e ditados compõem um universo simbólico que não deriva da cultura do colonizador, mas emerge como expressão própria do povo. O uso do crioulo, em coexistência com o francês, não é apenas um recurso estilístico, mas um gesto político: a língua torna-se campo de disputa entre duas visões de mundo.

Nesse sentido, o romance afirma o sujeito negro como autor de sua própria cultura, recusando a centralidade da língua e da tradição francesa. Se, em “Pele negra, máscaras brancas”, a colonização aparece como força de apagamento, capaz de produzir sujeitos desenraizados, aqui se evidencia a resistência: a identidade crioula se reinscreve pela memória, pela oralidade e pela ocupação do espaço.

Texaco, a comunidade que dá nome ao livro, não é apenas um lugar. É um território insurgente. Aquilo que poderia ser visto como um “não-lugar”, na chave de Marc Augé, revela-se o oposto: um espaço saturado de memória, vínculos e história, constantemente destruído e reconstruído por aqueles que se recusam a desaparecer.

Marie-Sophie, por fim, encarna a possibilidade de imaginar outro mundo. Sua trajetória aponta para a construção de um espaço que escapa, ainda que precariamente- à lógica colonial, racista e patriarcal: Texaco, enquanto comunidade, não é apenas um lugar físico, mas a materialização de um projeto de existência crioula.  

A Martinica permanece, até hoje, como departamento ultramarino francês – dado que reforça a atualidade das tensões apresentadas no romance.  


Patrick Chamoiseau nasceu em Fort-de-France, Martinica, em 1953. É um escritor martiniquês-francês. 


sábado, 11 de abril de 2026

PENSAR A PARTIR DA COMPLEXIDADE

 


MEUS DEMÔNIOS

EDGAR MORIN

BERTRAND BRASIL  – 5ª ED. – 1995

276 páginas


Em Meus demônios, Edgar Morin realiza um exercício raro de autobiografia intelectual que não busca a celebração de si, mas a exposição das contradições que atravessam uma vida dedicada ao pensamento. O livro não é uma confissão no sentido clássico, tampouco um memorial pacificado; trata-se de um confronto direto com as forças internas — afetivas, políticas, ideológicas e existenciais — que moldaram sua trajetória.

Morin escreve a partir da recusa da linearidade. Sua vida aparece marcada por rupturas, ambiguidades e revisões constantes: o engajamento político, a experiência da Resistência, a militância comunista e o posterior afastamento do dogmatismo ideológico compõem um percurso que jamais se resolve em certezas definitivas. Os “demônios” a que o título se refere não são apenas conflitos íntimos, mas também as tentações do pensamento simplificador, da ortodoxia e da fidelidade cega a sistemas fechados.

Ao revisitar sua história, Morin explicita a inseparabilidade entre vida e pensamento. A teoria não nasce em abstração, mas no atrito com a experiência, com o erro, com o sofrimento e com o fracasso. Nesse sentido, Meus demônios antecipa e ilumina aquilo que se tornaria central em sua obra posterior: a defesa do pensamento complexo como resistência à mutilação do real, à redução da vida a esquemas binários e à separação artificial entre razão e emoção.

O livro também é atravessado por uma reflexão profunda sobre o século XX. Guerras, totalitarismos, desencantos políticos e crises civilizatórias não aparecem como pano de fundo, mas como forças que atravessam subjetivamente o autor. Morin reconhece sua própria vulnerabilidade diante das grandes narrativas de salvação histórica, mostrando como mesmo o pensamento crítico pode ser capturado por ilusões redentoras.

Há, em Meus demônios, uma ética da lucidez que se constrói a partir da aceitação da incompletude. Morin não se apresenta como alguém que venceu seus conflitos, mas como quem aprendeu a conviver com eles sem negá-los. Pensar, aqui, é um exercício permanente de vigilância contra o fechamento, contra a tentação da pureza ideológica e contra o conforto das respostas fáceis.

O livro permanece atual justamente por essa recusa da pacificação. Em tempos de polarização, certezas identitárias rígidas e discursos totalizantes, Meus demônios lembra que a complexidade não é fraqueza, mas condição ética do pensamento. Ler Morin é aceitar que a lucidez nasce do enfrentamento dos próprios abismos — e que pensar é, sempre, arriscar-se.

Edgar Morin nasceu em Paris, em 1921. É um antropólogo, sociólogo e filósofo francês. 




UMA VIDA CONTADA COM A MESMA IRREVERÊNCIA DE SUAS MÚSICAS


 

RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA

RITA LEE

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2016

296 páginas


Adorei ler esta autobiografia. Rita Lee fez parte da minha adolescência e cheguei a assistir um show dela - O Fruto Proibido.

No livro, ela conta sua vida sem rodeios ou subterfúgios. Fala abertamente de sua dependência alcóolica, de sua rebeldia, de sua forte ligação com a família, de seu período durante a ditadura e da censura que atingiu suas músicas.

Também aparece com força seu amor pelos animais e sua personalidade irreverente, que marcou sua trajetória artística e pessoal.


Rita Lee nasceu em São Paulo, em 1947 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi uma cantora, compositora, escritora e ativista brasileira. 


MAAT NÃO JULGA: ELA EQUILIBRA O MUNDO

 


MAAT, LA PHILOSOPHIE DE LA JUSTICE DE L’ANCIENNE EGYPTE

ANNA MANCINI

BUENOS BOOKS INTERNATIONAL – 2007

152 páginas

Pesquisei muito sobre Maat e não encontrei muita coisa em português que atendesse ao que eu procurava. A pergunta inicial era: porque as mulheres egípcias tinham uma posição melhor, em relação a direitos, liberdade e autonomia, do que outras mulheres das regiões ao redor?

Maat é uma das principais divindades egípcias, ao lado de Ísis e Osíris, e rege toda a vida egípcia. Trata-se de uma divindade feminina. Em minhas pesquisas ela sempre aparecia sendo traduzida simplesmente como “justiça”. Até que encontrei este livro – mas ele está em francês.

Anna Mancini pesquisou longamente sobre Maat. Ela apresenta os principais egiptólogos que escreveram sobre o tema, mas também aponta as falhas de muitos deles ao interpretar o conceito. Neste livro, Mancini realiza uma análise profunda da famosa cena conhecida como o Julgamento de Osíris, muito difundida através do Livro dos Mortos.

Segundo a interpretação tradicional, tratar-se-ia do julgamento da alma do morto para determinar se ele poderia ou não entrar no paraíso egípcio. Nessa cena, Maat aparece simbolizada como uma pluma colocada na balança ao lado do coração do morto.

Mancini demonstra, porém, que essa leitura está equivocada. Em primeiro lugar, não se trata de um julgamento no sentido ocidental da palavra. Ninguém ali emite uma sentença. A decisão se dá pela própria balança. Nem Osíris julga, nem Maat.

Ao longo do livro, Mancini analisa ponto por ponto essa cena – aliás, o próprio nome “julgamento” foi dado pelos ocidentais.  

Maat representa o equilíbrio cósmico, a justiça no sentido de igualdade, harmonia e complementaridade. Todos devem viver segundo esse princípio, principalmente o faraó. Esse fundamento ajuda a compreender, em parte, a posição relativamente elevada que a mulher ocupava na sociedade egípcia. Evidentemente, não é apenas isso: há também outros fatores ligados à religião egípcia – que nós chamamos de mitologia -, onde Ísis desempenha um papel fundamental, assim como uma concepção de maternidade bastante diferente da nossa.

Infelizmente, não encontrei tradução deste livro para o português.


Anna Mancini é francesa de origem italiana.