quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

OBRIGAÇÕES DE DAR, RECEBER E RETRIBUIR

 


ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas

MARCEL MAUSS

EDITORA VOZES – 1ª – 2025

144 páginas

Ensaio sobre a Dádiva, de Marcel Mauss, é um clássico da antropologia que analisa as práticas de troca e reciprocidade nas sociedades arcaicas, propondo uma compreensão profunda da economia, da moral e da sociabilidade humana. Mauss demonstra que a dádiva não é apenas um ato de generosidade, mas um mecanismo complexo que envolve obrigações, alianças e o fortalecimento de vínculos sociais.

O autor estuda diversas culturas, mostrando como a troca de presentes cria redes de poder e hierarquia, mas também estabelece deveres éticos e morais entre indivíduos e grupos. A dádiva, segundo Mauss, é inseparável de obrigações de dar, receber e retribuir, revelando que mesmo nas sociedades antigas, a interação social não é neutra, mas carregada de significado simbólico e social.

O livro provoca uma reflexão sobre como os sistemas econômicos modernos podem ter perdido a dimensão relacional e moral que caracteriza as trocas humanas. Mauss nos convida a enxergar a economia e a sociabilidade como elementos indissociáveis, revelando que a lógica da dádiva continua presente, ainda que de forma mais sutil, nas interações contemporâneas.


Marcel Mauss nasceu em Épinal, França, em 1872 e faleceu em Paris, em 1950. Foi um sociólogo e antropólogo francês. Era sobrinho de Émile Durkheim. 


DEFINIÇÃO DE NÃO-LUGAR

 


NÃO-LUGARES: INTRODUÇÃO A UMA ANTROPOLOGIA DA SUPERMORDENIDADE

MARC AUGÉ

PAPIRUS – 1994

112 páginas

Em Não-lugares, Marc Augé propõe uma reflexão antropológica sobre as transformações do espaço naquilo que ele chama de supermodernidade. O autor parte da ideia de que a intensificação da mobilidade, do consumo e da circulação de informações produziu espaços radicalmente distintos daqueles tradicionalmente estudados pela antropologia clássica, centrada em comunidades estáveis, identidades compartilhadas e memórias coletivas.

Augé define como “não-lugares” os espaços de passagem, transitórios e funcionais, como aeroportos, rodovias, shoppings, hotéis, supermercados e estações de metrô. Diferentemente dos “lugares antropológicos”, esses espaços não produzem identidade, não criam vínculos duradouros nem se ancoram em uma história comum. Neles, o indivíduo permanece anônimo, reduzido à condição de usuário, consumidor ou passageiro, identificado apenas por documentos, cartões, bilhetes ou senhas.

O livro não afirma que os não-lugares sejam necessariamente negativos, mas destaca seu caráter ambíguo. Eles são produtos de uma modernidade que valoriza a eficiência, a rapidez e a padronização, ao mesmo tempo em que enfraquece experiências de pertencimento e de memória. Nos não-lugares, a comunicação ocorre sobretudo por meio de textos normativos — placas, avisos, instruções — e não pela interação humana direta. Trata-se de um espaço regulado, previsível e impessoal.

Augé também ressalta que lugar e não-lugar não são categorias fixas ou absolutas. Um mesmo espaço pode ser vivido como lugar por alguns e como não-lugar por outros, dependendo da experiência subjetiva, do tempo de permanência e da relação estabelecida com ele. Assim, a distinção funciona mais como uma ferramenta analítica do que como uma classificação rígida da realidade.

Não-lugares é uma obra breve, porém decisiva, que oferece uma chave de leitura para compreender a vida contemporânea, marcada pelo deslocamento constante e pela fragilização dos laços simbólicos. Ao deslocar o olhar antropológico para esses espaços cotidianos e aparentemente banais, Marc Augé nos convida a refletir sobre como habitamos o mundo atual e sobre o que se perde, e se transforma, quando a experiência humana se organiza cada vez mais em territórios de passagem.


Marc Augé nasceu em Poitiers, França, em 1935 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi um etnólogo e antropólogo francês. 


PENSAR DE LONGE PARA COMPREENDER DE PERTO


 

DE PERTO E DE LONGE

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON

COSAC & NAIFY – 1ª ED. 2005

272 páginas

Em De Perto e de Longe, Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a compreender a formação de um pensamento singular.

O relato de Lévi-Strauss é fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como espelho e estímulo.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista, ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que, em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para compreender, afasta-se para pensar.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.

Nesse sentido, De Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.


Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.

Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor e filósofo francês. 


 


OLHAR PARA A AMÉRICA LATINA


 

O ANO DA CÓLERA: Protestos, tensão e pandemia em 5 países da América Latina

SYLVIA COLOMBO

ROCCO – 1ª ED. – 2021

256 páginas

O ano da cólera, de Sylvia Colombo, parte de uma pergunta incômoda e necessária: o que nós, brasileiros, realmente sabemos sobre nossos vizinhos latino-americanos? Para além das disputas de futebol, há pouco interesse efetivo pelos países que compartilham conosco o mesmo continente. Nosso olhar costuma se voltar para a Europa, os Estados Unidos e, mais recentemente, para potências como China, Rússia ou para o “Oriente Médio”. A América do Sul permanece, muitas vezes, como um território próximo e ao mesmo tempo desconhecido, e a autora reconhece que esse distanciamento não é exclusivo do leitor, mas algo do qual ela própria também faz parte.

O livro não se propõe a uma análise aprofundada de cada país, mas oferece uma visão panorâmica dos principais acontecimentos recentes em cinco países da América Latina, articulando-os com seus contextos históricos, políticos e sociais. Essa abordagem permite compreender por que certos processos assumiram formas específicas, evitando leituras apressadas ou meramente ideológicas. Ao longo do texto, fica evidente o quanto nossas opiniões costumam ser construídas a partir de preconceitos, clichês e disputas políticas externas, sem real preocupação em conhecer o país concreto, com suas contradições e particularidades.

A autora nos convida a revisitar acontecimentos que, muitas vezes, nos surpreenderam justamente por desconhecimento. O que levou às grandes manifestações no Chile, frequentemente visto como um modelo de estabilidade e “civilidade” na América Latina? O que de fato ocorreu na Bolívia com a saída de Evo Morales? O que se passou na Venezuela para além do slogan repetido como ameaça política — “virar uma Venezuela”? Como compreender a volta do kirchnerismo na Argentina? E por que o Uruguai aparece como uma espécie de exceção silenciosa no cenário latino-americano, raramente lembrada nas análises mais correntes?

Sylvia Colombo constrói um panorama que não oferece respostas fechadas, mas amplia o campo de compreensão, permitindo que o leitor comece a pensar de maneira mais informada e menos estereotipada sobre esses países. O livro se encerra com a chegada da pandemia de Covid-19 e seus impactos na região, cobrindo os acontecimentos até 2020, além de incluir breves incursões por outros contextos latino-americanos, como Colômbia, Equador, México e El Salvador. O ano da cólera cumpre, assim, um papel fundamental: não esgota os temas, mas abre caminhos para uma leitura mais atenta e menos provinciana do nosso próprio continente. Vale a leitura.


Sylvia Colombo é uma jornalista e historiadora especializada em América Latina 


CUIDADO: UM CONCEITO QUE NÃO É UNIVERSAL

 



COSMOPOLÍTICA DO CUIDADO

Percorrendo caminhos com mulheres líderes quilombolas

NATHALIA DOTHILING

CONTRACORRENTE – 1ª ED. – 2022

120 páginas


Este livro, resultado da pesquisa realizada pela autora em duas comunidades quilombolas situadas no estado de Santa Catarina, foi essencial para que eu percebesse que a noção de cuidado, tal como pensada por mulheres brancas, difere, e muito, daquela vivida por mulheres negras, quilombolas, faveladas e até mesmo por mulheres negras nos Estados Unidos.

Aqui, o foco recai sobre as mulheres quilombolas e sobre como elas compreendem o cuidado. A primeira diferença marcante é que o trabalho doméstico realizado nas casas de mulheres que as remuneram por esse serviço não é considerado, por elas, como cuidado. A esse trabalho elas dão outro nome: servir.

O cuidado, para essas mulheres, é aquilo que realizam em suas próprias casas, com seus filhos e no interior da comunidade. A alegria que sentem quando conseguem deixar o trabalho remunerado, geralmente mal pago e exaustivo, para dedicar-se ao cuidado do próprio lar é imensa. Há prazer e afeto nesse fazer, o que difere profundamente da experiência de muitas mulheres que realizam o trabalho doméstico por obrigação, dever ou por não haver outra pessoa que o faça.

Cozinhar, limpar, cuidar dos próprios filhos, dos filhos das vizinhas e dos idosos da comunidade constitui um trabalho de cuidado que, nesse contexto, não é desvalorizado, tampouco pelos homens. Pelo contrário, trata-se de uma atividade reconhecida e respeitada. O aspecto mais interessante é que são justamente essas mulheres cuidadoras que acabam assumindo posições de liderança. Elas se tornam lideranças comunitárias, responsáveis por resolver questões políticas, participar de reuniões com a prefeitura, lutar pelo reconhecimento do território e reivindicar melhores condições de trabalho e de vida para toda a comunidade.


Nathalia Dothiling é mestra em antropologia social


ESCREVER COMO ALERTA E RESPONSABILIDADE

 

O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE

SUE KLEBOLD

VERUS – 1ª ED. – 2016

430 páginas

 

O acerto de contas de uma mãe, de Sue Klebold, é um livro que todos os pais, mães e responsáveis por crianças e adolescentes deveriam ler. Diante de um massacre, a reação mais comum é tentar transformar os autores em monstros, psicóticos ou produtos evidentes de lares negligentes e abusivos. Essa explicação simplificadora funciona como uma zona de conforto: se o mal está sempre fora, então dentro de casa estamos seguros. O livro desmonta exatamente essa ilusão e, é por isso que ele é tão perturbador e necessário, sobretudo num contexto atual em que a violência em escolas, a ansiedade, a depressão e o suicídio entre jovens se tornam cada vez mais presentes.

O massacre da escola de Columbine, ocorrido em 1999, marcou profundamente os Estados Unidos e introduziu no debate público o termo bullying, ainda que este não possa ser apontado como causa direta do ocorrido. Dois adolescentes, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram na escola e assassinaram treze pessoas, ferindo muitas outras, algumas com sequelas permanentes. Sue Klebold escreve a partir do lugar mais difícil possível: ela é a mãe de Dylan. O livro não é um tributo ao filho, tampouco uma tentativa de justificá-lo. É um alerta doloroso, escrito por alguém que amava profundamente seu filho e que jamais imaginou que ele fosse capaz de tal violência.

Sue e Tom, o pai, eram pais presentes, atentos, amorosos e responsáveis. Viviam numa família de classe média, estruturada, que valorizava a convivência, os rituais familiares, o diálogo e também os limites. Dylan era visto como um adolescente alegre, carinhoso, companheiro, alguém que brincava, ria e se mostrava afetuoso. A pergunta que atravessa todo o livro é justamente essa: como alguém criado nesse ambiente pôde cometer algo tão devastador? A resposta que Sue constrói ao longo dos anos é inquietante: seu filho sofria de depressão profunda e conseguia camuflá-la de maneira quase perfeita, algo que nem mesmo profissionais conseguiram identificar. Ele carregava uma dor imensa e um vazio constante, e em determinado momento passou a desejar a própria morte, embora não tivesse coragem de se suicidar.

Eric, por outro lado, era visto como um jovem problemático, agressivo, tomado pelo ódio. Seus pais buscavam ajuda psiquiátrica e terapêutica, tentando contê-lo e compreendê-lo. Quando esses dois adolescentes se unem — um desejando matar, o outro desejando morrer —, o resultado é a tragédia que se conhece. Sue deixa claro que não havia, da parte dela, qualquer conhecimento prévio de que algo assim pudesse ocorrer. Ela percebia que algo não estava bem, mas não possuía ferramentas para reconhecer os sinais da depressão em adolescentes, tão diferentes dos sintomas em adultos.

Após o massacre, o livro acompanha o que vem depois: o luto impensável de perder um filho, somado ao peso de ser mãe de um assassino. A exposição midiática, as acusações, o ódio direcionado à família, as ameaças, o isolamento forçado dentro da própria casa, que de lar se transforma em um espaço de medo. Ao mesmo tempo, Sue relata os gestos de solidariedade, a ajuda de amigos, vizinhos e de outras famílias que também haviam perdido filhos ou enfrentado situações semelhantes. Seu casamento, após trinta anos, não resiste a tamanha devastação. Ainda assim, Sue Klebold escolhe transformar sua dor em responsabilidade pública, escrevendo este livro para alertar outros pais, para que possam reconhecer sinais, falar sobre saúde mental e talvez evitar que outras tragédias aconteçam.


MULHERES QUILOMBOLAS E A LUTA PELO TERRITÓRIO


 

DEVIR QUILOMBA

MARILÉA DE ALMEIDA

EDITORA ELEFANTE - 2022

392 páginas

Baseado na pesquisa realizada por Mariléa de Almeida, o livro aborda os quilombos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial no protagonismo feminino. São as práticas das mulheres quilombolas que estruturam a luta pelo território, a manutenção das tradições, dos cultos e a mobilização constante pelo direito à terra — um direito que frequentemente esbarra na burocracia governamental.

O livro mostra como são essas mulheres que sustentam a vida coletiva, articulam resistências e mantêm viva a memória ancestral. A entrada das igrejas neopentecostais nas comunidades quilombolas aparece como um elemento de tensão, produzindo impactos profundos nas formas tradicionais de organização e espiritualidade. Por isso, algumas mulheres defendem com firmeza a preservação do terreiro, entendido não apenas como espaço religioso, mas como lugar de identidade, memória e pertencimento.

A autora destaca ainda a importância das griottes, as contadoras de histórias, responsáveis pela transmissão oral do conhecimento, e das práticas culturais como o jongo, que articulam corpo, memória e resistência. O livro também aborda as dificuldades enfrentadas no acesso à educação formal e critica a ausência do ensino da história da África e da população negra nas escolas, evidenciando como o apagamento histórico reforça desigualdades e fragiliza identidades.


Mariléa de Almeida nasceu em Vassouras – RJ, em 1973. É doutora em História. 


RACISMO COMO SISTEMA DE CASTAS


 

CASTA: AS ORIGENS DE NOSSO MAL-ESTAR

ISABEL WILKERSON

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

464 páginas

Casta, de Isabel Wilkerson, oferece uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos, mostrando que ele funciona na realidade como um sistema de castas. Nesse sistema, existe uma casta privilegiada e outras subalternas, estruturando relações sociais de forma feroz e cruel, colocando seres humanos em posição de servidão quase permanente, com poucas possibilidades de ascensão, seja profissional ou intelectual, exceto com enorme esforço, determinação e superação de enormes obstáculos. Embora costumemos pensar que esse sistema pertence ao passado, Wilkerson mostra que ele permanece presente no cotidiano, e mesmo aqueles que conseguem ascender socialmente continuam a enfrentar discriminação racial.

A autora estabelece paralelos com as castas da Índia e com o nazismo, que, em parte, se inspirou nas leis raciais dos EUA, demonstrando como a doutrinação social leva à internalização do racismo. Essa análise revela o funcionamento do racismo estrutural, que permanece no inconsciente das pessoas, incluindo aquelas que se consideram não racistas.

Embora o foco do livro seja os afro-americanos, sua leitura é igualmente relevante para compreender o racismo brasileiro, que, embora historicamente negado, permanece evidente e atua de forma internalizada mesmo quando não explícita. Wilkerson amplia ainda a reflexão para todos os grupos marginalizados, colocados à margem da sociedade e tratados como inferiores. Sua crítica à supremacia branca destaca a ilusão de superioridade que sustenta tragédias históricas e sociais, mostrando que tais crenças não possuem fundamento racional, mas são construídas por aqueles que se veem como superiores.

Casta é, portanto, uma leitura essencial para compreender como estruturas históricas, sociais e psicológicas moldam a discriminação e perpetuam desigualdades, convidando à reflexão crítica sobre o racismo em qualquer sociedade.


Isabel Wilkerson nasceu em Washington D.C. em 1961. É uma jornalista estadunidense. 


RESSIGNIFICAR O LUGAR DAS MULHERES

 


MULHERES, MITOS E DEUSAS

O feminino através dos tempos

MARTHA ROBLES

GOYA – 2ª ED. – 2019

448 páginas

Através de temas: as origens, tragédias, amor, fadas, rainhas, caminho de Deus até o nosso tempo, Robles traça perfis de mulheres ressignificando o papel dessas mulheres no mundo e com isso o papel feminino.

Ela também faz uma análise dos mitos, das lendas e dos arquétipos construídos sobre a mulher, o que serviu para reafirmar o machismo, o patriarcado e até mesmo a misoginia.

Li o livro no início do meu percurso no estudo das mulheres e além de tudo que aprendi com ele também encontrei mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram importantes em meus estudos como María Zambrano.

Em Mulheres, Mitos e Deusas: O feminino através dos tempos, Martha Robles percorre uma vasta constelação de temas — as origens, as tragédias, o amor, as fadas, as rainhas, o caminho de Deus até o nosso tempo — para traçar perfis de mulheres que atravessam a história, a mitologia e a literatura. Ao fazê-lo, a autora não apenas apresenta essas figuras, mas ressignifica seus papéis, recolocando o feminino no centro de narrativas que tradicionalmente o relegaram à margem.

O livro se constrói como uma leitura crítica dos mitos, lendas e arquétipos associados às mulheres, revelando como essas construções simbólicas foram usadas para reafirmar o machismo, o patriarcado e, muitas vezes, a misoginia. Robles mostra que o mito nunca é neutro: ele educa, disciplina e naturaliza hierarquias. Ao revisitar essas narrativas, a autora desmonta imagens cristalizadas e abre espaço para interpretações que devolvem complexidade, potência e ambiguidade às figuras femininas.

Minha leitura deste livro ocorreu no início do meu percurso nos estudos sobre as mulheres, o que torna sua importância ainda maior. Além do vasto aprendizado que ele proporcionou, encontrei ali mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram referências fundamentais em meus estudos posteriores, como María Zambrano. Nesse sentido, Mulheres, Mitos e Deusas não é apenas uma obra de consulta ou reflexão, mas um livro formador, capaz de abrir caminhos, despertar perguntas e inaugurar percursos intelectuais duradouros.


Martha Robles nasceu em 1948. É Socióloga e escritora mexicana. 


A REPRESSÃO DA IGREJA E A EMERGÊNCIA DO PATRIARCADO

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A RELAÇÃO ENTRE DOMINAÇÃO DA NATUREZA E DAS MULHERES


 

ECOFEMINISMOS

VANDANA SHIVA – MARIA MIES

LUAS EDITORA – 2021

504 páginas


Ecofeminismos é uma obra central do pensamento crítico contemporâneo, escrita por Vandana Shiva e Maria Mies, que articula feminismo, ecologia, economia política e crítica ao capitalismo global. O livro parte da constatação de que a exploração da natureza e a opressão das mulheres não são processos distintos, mas historicamente conectados e sustentados pela mesma lógica patriarcal, colonial e capitalista.

As autoras demonstram como o modelo de desenvolvimento moderno, apresentado como universal e progressista, se baseia na expropriação dos recursos naturais, no apagamento dos saberes tradicionais e na desvalorização do trabalho feminino, especialmente o trabalho de cuidado e de subsistência. A racionalidade econômica dominante transforma tanto a natureza quanto as mulheres em “recursos” exploráveis, invisibilizando os custos sociais, ambientais e humanos desse sistema. Nesse sentido, o livro desmonta a ideia de neutralidade da ciência moderna e da economia, revelando seu caráter profundamente masculinizado e eurocêntrico.

Um eixo fundamental da obra é a crítica à divisão entre produção e reprodução. Mies e Shiva argumentam que o capitalismo só se sustenta porque depende de esferas que ele não reconhece como produtivas: o trabalho doméstico, o cuidado, a agricultura de subsistência e os ciclos naturais. Ao serem considerados “naturais” ou “gratuitos”, esses campos tornam-se passíveis de exploração ilimitada. O ecofeminismo surge, então, não como um essencialismo que associa mulheres à natureza, mas como uma crítica política a essa associação imposta historicamente para justificar dominação.

O livro também apresenta experiências concretas de resistência, sobretudo no Sul Global, onde mulheres desempenham papel central na defesa da terra, da água, das sementes e da vida comunitária. Essas práticas apontam para outras formas de organização social e econômica, baseadas na interdependência, na sustentabilidade e na valorização dos saberes locais. Para as autoras, o ecofeminismo não é apenas uma teoria, mas um projeto ético e político que propõe uma transformação radical da relação entre humanidade, natureza e economia.

Ecofeminismos é uma leitura densa, mas fundamental, que amplia o feminismo para além da questão de gênero, inserindo-o no centro das crises ecológica, social e civilizatória contemporâneas. É um livro que convida à revisão profunda das noções de progresso, desenvolvimento e poder, mostrando que não há justiça social sem justiça ambiental — e que ambas passam, necessariamente, pela libertação das mulheres.


Vandana Shiva nasceu em Dehra Dun, Uttar Pradesh (atual Uttarakhand), Índia, em 1952. É uma filósofa, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana.

Maria Mies nasceu em Steffein, Alemanha, em 1931 e faleceu em 2023. Foi uma socióloga alemã. 


 


TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos.