FÉ DISFARÇADA
MAYRA SANTOS-FEBRES
PALLAS – 1ª ED. – 2026
152 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PORTO RICO – Território
não incorporado dos Estados Unidos
“Fé disfarçada” é um livro curto,
no entanto, denso e que pode, em um primeiro momento, parecer extremamente
sexual, afinal, o narrador, Martín Tirado, está sempre ocupado com o que chama
de obelisco, ou seja, seu órgão sexual. Mas essa seria uma leitura muito
simplista do que a autora nos apresenta.
Outro ponto que pode nos enganar
é o título do livro, pois não se trata de nada ligado à religião, mas Fé é o
nome da protagonista. E, já me adiantando, preciso fazer uma distinção
importante para a compreensão do enredo – disfarce é diferente de fantasia.
O livro, como já adiantei, é
narrado por Martín, um jovem que trabalha em um Centro de Pesquisas Históricas
em Chicago, nos Estados Unidos, e tem Fé como sua chefe. Entrelaçando os
relatos de Martin, temos documentos históricos sobre casos de violências
extremas contra mulheres negras no Brasil, na Venezuela e no Caribe. Esses
documentos são fictícios, inclusive ao abordar uma personagem histórica
brasileira – Chica da Silva.
A autora trabalha com o passado
da escravização de mulheres negras e ao que elas foram submetidas, e com o
tempo atual, mostrando as reminiscências dessa escravização que ainda permanecem
na vida das mulheres negras. Para isso, ela utiliza a carne, o corpo, tão
ferido, machucado, abusado e estuprado durante a escravização. Aqui começamos a
compreender o uso do sexo na narrativa.
Durante suas pesquisas, Fé
recebeu de uma freira um vestido belíssimo que foi usado por uma mulher negra
para se apresentar à sociedade. No entanto, o vestido não disfarça a negritude
nem apaga o que aquele corpo sofreu. Dentro dele há uma armação de ferro, já
está enferrujado pelo tempo, e, ao vesti-lo, Fé machuca a própria carne, que
sangra.
Mas a pergunta que não quer
calar: por que a autora escolheu um homem para relatar a história? Eu penso que
ela faz essa escolha porque quer mostrar a volúpia masculina, o desejo do homem
como algo incontrolável e insaciável, em contraste com o estereótipo
historicamente atribuído às mulheres negras, como se fossem elas as
naturalmente lascivas. Essas mulheres foram estupradas e obrigadas ao sexo por
homens brancos movidos por esse desejo.
Fé instaura um ritual. Todos os Dias
dos Mortos, ela convida Martín para seu apartamento, onde há um quarto vazio,
todo branco, tendo apenas um sofá de madeira. Ela veste o vestido com a armação
de ferro que machuca sua carne e transa com Martín, e faz um pedido – “me tire
daqui”.
Em uma viagem à Espanha, Fé
presenteou Martín com uma navalha de Toledo, e ao final da narrativa, é com
essa navalha que ele pretende libertá-la, cortando o vestido. No entanto, a
autora deixa em suspenso o que acontecerá, o livro termina nesse ponto.
Esse final levanta outra questão:
mais uma vez será um homem para salvar uma mulher? não sabemos o que vai
acontecer, nem a reação de Fé ao que ele pretende fazer.
“(...) Eu queria ser como aquelas
freiras, brancas, puras, como aquelas princesas; vestir trajes que vão até o
chão, feitos de veludo bordado com fios de ouro e pedrarias. Mas no fundo,
sabia que aquilo não era para mim. Era lembrada disso pelas outras alunas e
pela cor de minha pele. Minha pele era o mapa dos meus ancestrais. Todos nus,
sem brasões ou bandeiras que os identificassem; marcados pelo esquecimento ou
apenas, pro cicatrizes tribais, correntes e marcas de chancela no lombo. Nenhum
tecido que me cobrisse, sagrado ou profano, poderia ocultar minha verdadeira
natureza.” (pág. 112)
Não há disfarce para isso!!!
Mayra Santos-Febres nasceu em
Carolina, Porto Rico, em 1966. É uma autora, poeta, romancista, professora de
literatura, ensaísta e crítica literária porto-riquenha.






























