segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A GUERRA VISTA A PARTIR DAS MULHERES


 

GRITOS DA GUERRA: O CONFLITO RÚSSIA – UCRÂNIA NA VOZ DAS MULHERES QUE SOFREM

GUSTAVO GUMIERO

REFERÊNCIA – 1ª ED. – 2023

176 págs.

AUDIOBOOK

Ouvi este audiobook sobre a guerra na Ucrânia a partir da experiência das mulheres. São três depoimentos de mulheres cujas vidas foram profundamente alteradas pelo conflito: algumas tiveram de deixar o país, outras não conseguem retornar, e há aquelas que permanecem enfrentando diretamente a guerra. Como em todos os conflitos armados, mulheres, crianças e idosos aparecem como os grupos mais afetados.

Além dos relatos, o autor apresenta um panorama histórico da Ucrânia, oferecendo elementos para compreender a complexidade do conflito. E essa complexidade é central. Se nos guiarmos exclusivamente pelas informações da mídia ocidental, teremos uma compreensão parcial e limitada da guerra.

O conflito é frequentemente descrito como uma guerra por procuração, isto é, um embate indireto entre grandes potências, sobretudo Estados Unidos e Rússia, travado em território ucraniano. A partir dessa leitura, o autor interpreta as recentes tentativas de negociação, como os diálogos entre Donald Trump e Vladimir Putin, como um reconhecimento tardio de que o conflito poderia ter sido tratado diplomaticamente antes de sua escalada.

A própria Ucrânia é apresentada como um país internamente diverso e marcado por tensões identitárias. Há ucranianos fortemente ocidentalizados, que se veem como europeus, embora nem sempre sejam plenamente reconhecidos como tal pela Europa Ocidental, onde persistem hierarquias implícitas entre povos. Essa ambiguidade se reflete, por exemplo, nas políticas de acolhimento: enquanto mulheres ucranianas brancas encontraram maior abertura, pessoas negras foram barradas, revelando o racismo estrutural também presente nas crises humanitárias.

O livro lembra ainda que a Ucrânia abriga múltiplas identidades: ucranianos russófonos, comunidades gregas e populações judaicas, o que desmonta qualquer leitura simplista do país como um bloco homogêneo.

Gritos da guerra não pretende encerrar o debate, mas abrir escutas. Ao colocar as mulheres no centro da narrativa, o audiobook desloca o foco da geopolítica abstrata para a experiência concreta da perda, do deslocamento e da sobrevivência, lembrando que, por trás de qualquer guerra, há vidas cotidianas profundamente afetadas.

Gustavo Gumiero é um sociólogo brasileiro. 




CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


REESCREVER HOMERO A PARTIR DO SILÊNCIO


 

MULHERES DE TROIA

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

267 páginas

Mulheres de Troia, de Pat Barker, é a continuação de O silêncio das mulheres. Embora possa ser lido de forma independente, a leitura em sequência aprofunda significativamente a compreensão das personagens e dos acontecimentos, ainda que a autora retome, em alguns momentos, fatos centrais do livro anterior para situar o leitor. Aqui, a guerra já terminou: os gregos venceram, Troia caiu, todos os homens e meninos estão mortos, e as mulheres sobreviventes foram transformadas em escravas.

Briseida, agora casada com Álcimo conforme determinação de Aquiles, está grávida do herói morto. O filho de Aquiles assume a liderança dos guerreiros do pai, mas, apesar de seus esforços para se igualar a ele, revela-se uma figura marcada pela insuficiência e pela insegurança. A narrativa se expande e passa a dar voz não apenas a Briseida e às personagens femininas já conhecidas, mas também a Hécuba, rainha de Troia e viúva de Príamo, a Andrômaca, viúva de Heitor, a Cassandra, filha de Príamo, além de outras mulheres troianas agora submetidas à escravidão sob o domínio dos reis gregos.

Com o fim da guerra, todos desejam retornar para casa, mas os deuses não permitem. Um vento persistente impede que os navios sejam lançados ao mar, obrigando os gregos a permanecerem nos acampamentos. O tempo se arrasta, a irritação cresce, e a tensão se acumula, tornando evidente que algo terá de ser sacrificado para apaziguar os deuses e permitir o retorno. Nesse cenário suspenso entre a vitória e a punição, Pat Barker aprofunda as consequências morais, psicológicas e simbólicas da guerra, especialmente para aqueles que não empunharam armas, mas pagaram o preço mais alto.

A releitura do clássico homérico, agora a partir das mulheres silenciadas pela tradição épica, é especialmente potente. Barker não projeta uma voz contemporânea sobre o passado; ao contrário, constrói essas narrativas dentro do contexto histórico e simbólico da época, o que torna ainda mais perturbador o contraste entre heroísmo masculino e sofrimento feminino. Mulheres de Troia não apenas revisita Homero, mas interroga o próprio modo como a história da guerra foi contada, lembrando que toda vitória carrega, em sua base, uma multidão de vozes caladas.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


FICÇÃO COMO GESTO CRÍTICO


 

O SILÊNCIO DAS MULHERES

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

304 páginas

O silêncio das mulheres, de Pat Barker, é uma releitura potente da Ilíada, de Homero, que respeita os principais eixos do relato épico, mas rompe com o silêncio imposto às mulheres na tradição clássica. Na obra original, elas aparecem de forma marginal, muitas vezes apenas mencionadas, quando não responsabilizadas pelos conflitos masculinos. Barker desloca esse olhar e traz para o centro aquelas que sempre estiveram à margem da narrativa heroica.

O livro é particularmente instigante porque enfrenta um desafio delicado: como dar voz a mulheres de um tempo que não é o nosso, sem projetar sobre elas uma consciência contemporânea? A autora resolve essa tensão com grande precisão. Em nenhum momento a leitura soa anacrônica. As mulheres não são retiradas de seu contexto histórico, nem há uma denúncia explícita ou didática das violências naturalizadas pela guerra. O fato de que, após a vitória de um lado, as mulheres do outro sejam escravizadas e usadas como objetos sexuais é apresentado como parte da ordem do mundo narrado, sem suavizações, mas também sem julgamentos externos.

A história se concentra em Briseida, tomada como prêmio de guerra por Aquiles e posteriormente arrancada dele por Agamenon, quando este é obrigado a devolver Criseida ao pai. Esse gesto desencadeia a ira de Aquiles e sua recusa em continuar lutando. A partir desse ponto conhecido da tradição homérica, Barker constrói uma narrativa que se detém no cotidiano das mulheres escravizadas pela guerra: algumas antigas rainhas, como a própria Briseida, outras mulheres comuns. O livro acompanha o que fazem, como ocupam o tempo, o que dizem entre si, como sobrevivem física e emocionalmente à derrota e à perda de tudo o que as definia.

Trata-se de uma obra de ficção, de literatura, e é justamente aí que reside sua força. Ao reler um mito fundador do Ocidente a partir das vozes silenciadas, Pat Barker realiza um gesto semelhante ao de Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano, ao retornar a um tempo distante sem violentá-lo com categorias do presente. O silêncio das mulheres não corrige Homero, mas revela aquilo que sua narrativa deixou à sombra  e, ao fazê-lo, amplia de maneira decisiva nossa forma de ler a guerra, o heroísmo e a história.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


UMA DEUSA À MARGEM DO OLIMPO


 

CIRCE

Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens

MADELINE MILLER

PLANETA MINOTAURO – 2ª ED. - 2020

368 páginas

Em Circe, Madeline Miller reconta a mitologia grega a partir de uma perspectiva radicalmente deslocada: a da mulher que, na tradição clássica, foi reduzida a feiticeira perigosa, obstáculo moral ou punição divina. Aqui, Circe ganha voz, tempo e densidade — do nascimento à maturidade, antes, durante e depois dos acontecimentos narrados na Odisseia.

Filha do deus Hélio, Circe cresce marcada pela rejeição. Não é bela como as deusas, nem poderosa como os deuses. Sua diferença, no entanto, será justamente o que a salvará  e a condenará. Ao descobrir a feitiçaria, ela cruza um limite perigoso: preocupa Zeus e é punida com o exílio em uma ilha isolada do mundo. Ali, quase esquecida, recebe apenas visitas ocasionais de Hermes, que lhe traz notícias do que acontece entre deuses e mortais.

O isolamento não a enfraquece, mas a forma. Na solidão, Circe desenvolve suas magias, aprende a lidar com plantas, venenos e encantamentos, e constrói uma autonomia que não lhe foi permitida no Olimpo. Quando marinheiros chegam à ilha e, após comerem e beberem, a violentam, ocorre uma virada decisiva: Circe passa a transformá-los em porcos. O gesto, frequentemente lido como crueldade na tradição masculina, aqui aparece como resposta à violência, não como perversidade gratuita.

O mesmo acontece quando a tripulação de Odisseu chega à ilha. Advertido por Hermes, Odisseu consegue escapar do feitiço, e o encontro entre os dois foge ao roteiro habitual. Eles se tornam amantes, mas também algo mais raro: interlocutores. Circe devolve aos homens sua forma humana e Odisseu segue viagem. No entanto, a narrativa não termina com a partida do herói.

Circe fica grávida e dá à luz Telégono, a quem cria sozinha na ilha. A maternidade aqui não é idealizada: o filho é difícil, violento, marcado por uma força que o excede. Atena deseja matá-lo, e Circe, pela primeira vez, enfrenta diretamente uma deusa olímpica, protegendo o filho com um encantamento que nem Atena consegue atravessar. A ilha torna-se não apenas refúgio, mas território soberano.

Quando Telégono cresce, decide buscar o pai. Parte e retorna acompanhado de Penélope e Telêmaco. A partir daí, a narrativa se desloca novamente, abrindo espaço para novas alianças, afetos inesperados e escolhas que escapam tanto ao destino trágico quanto à submissão.

Não é possível falar do final sem revelar demais. Basta dizer que Circe não é uma história sobre punição, mas sobre transformação. Madeline Miller retira a feiticeira do lugar de monstro e a reinscreve como mulher que aprende, erra, ama, protege, escolhe. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens, Circe constrói algo mais raro: uma vida própria.


Madeline Miller nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1978. É uma escritora estadunidense. 


UMA REGIÃO DECISIVA E POUCO CONHECIDA


 

EUROPA CENTRAL: A HISTÓRIA FASCINANTE DE UMA REGIÃO DECISIVA

JANAINA MARTINS CORDEIRO

CONTEXTO – 1ª ED. – 2025

256 páginas

É difícil encontrar livros que tratem especificamente da Europa Central. Diante dos acontecimentos atuais, muitas vezes nos vemos sem compreender plenamente o que está em curso justamente pelo desconhecimento da história dessa região. Nesse sentido, Europa Central: A história fascinante de uma região decisiva cumpre um papel importante.

O livro não se aprofunda em análises extensas, mas oferece um panorama geral consistente da região, desde o Império Austro-Húngaro até os dias atuais. A autora constrói uma espécie de cronologia comentada, destacando os principais acontecimentos históricos, acompanhados de observações sobre a mentalidade dos povos da região, os efeitos da stalinização e as consequências deixadas após o fim da União Soviética.

Mesmo sendo um livro de caráter mais paradidático, foi uma leitura da qual aprendi muito, justamente porque essa parte da Europa costuma ser pouco abordada. Aprendemos bastante sobre a Europa Ocidental, sobre a Segunda Guerra Mundial a partir da Alemanha e dos países do norte europeu, mas a Europa Central aparece frequentemente como se estivesse à margem desses processos, como se não tivesse sido uma das regiões mais duramente atingidas pelos conflitos.

Na Primeira Guerra Mundial, por exemplo, costuma-se mencionar apenas o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro em Sarajevo, como se esse evento resumisse a participação da região no conflito. No entanto, a Europa Central sofreu profundamente com a guerra, suas rupturas políticas, deslocamentos populacionais e redefinições territoriais — aspectos que o livro ajuda a recolocar em perspectiva.

Vale a leitura, sobretudo para quem deseja compreender melhor a complexidade histórica dessa região decisiva e frequentemente esquecida.

                            Janaina Martins Cordeiro é professora de História Contemporânea. 



MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E FORÇA DAS MULHERES


 

RASTROS DE RESISTÊNCIA: Histórias de luta e liberdade do povo negro

ALE SANTOS

PANDA BOOKS – 1ª ED. – 2019

136 páginas

AUDIOLIVRO

Rastros de Resistência, de Ale Santos, recupera diversas histórias de luta e resistência do povo negro no Brasil e na África. O livro apresenta relatos sobre personagens e eventos pouco conhecidos, revelando trajetórias que foram apagadas da história oficial. Para quem, como eu, ainda desconhecia muitas dessas histórias, a obra é um importante instrumento de conhecimento e valorização da memória negra.

O autor aborda reinos africanos que existiam antes da colonização e que foram apagados das narrativas históricas dominantes, resgatando figuras centrais, como líderes, rainhas e guerreiras, cuja força e coragem inspiram as lutas atuais. Seguindo a linha de pensamento de Léonora Miano, que afirma ser necessário reavivar a história, especialmente a das mulheres, Santos cumpre um papel essencial ao trazer à tona memórias esquecidas, mostrando como o passado fortalece as lutas presentes.

O audiobook é complementado por um PDF com imagens e quadros que retratam tanto o racismo quanto os grandes líderes e heroínas negras, proporcionando uma experiência completa de aprendizado e reflexão.


Alexandre de Oliveira Silva Santos mais conhecido como Ale Santos nasceu em Cruzeiro – SP, em 1986. É um escritor, roteirista, ativista brasileiro. 


A PERIFERIA E O DESLOCAMENTO DO OLHAR

 

AMANHÃ VAI SER MAIOR: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual

ROSANA PINHEIRO-MACHADO

PLANETA – 1ª ED. – 2019

216 páginas

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um retrato rigoroso, ao mesmo tempo sensível e crítico, do Brasil recente. A autora acompanha o percurso que vai dos movimentos de rua de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro, construindo não apenas uma narrativa dos acontecimentos, mas um diagnóstico profundo das fraturas sociais, políticas e simbólicas que atravessam o país. O livro responde a muitas dúvidas ao oferecer uma leitura que foge tanto da simplificação moral quanto da análise apressada, permitindo compreender processos que, à primeira vista, parecem contraditórios ou incompreensíveis.

Um de seus maiores méritos está em iluminar a periferia e a classe trabalhadora a partir de dentro, explicando por que parcelas significativas desses grupos votaram em Bolsonaro. Em vez de julgamentos fáceis, a autora revela frustrações acumuladas, expectativas frustradas e ressentimentos construídos ao longo do tempo, mostrando como escolhas políticas são moldadas por experiências concretas de vida, insegurança material e sensação de abandono. Nesse percurso, o livro também explicita os erros cometidos pelo PT em relação aos trabalhadores que constituíam sua base histórica, evidenciando o distanciamento progressivo entre o partido e o cotidiano dessas populações, tanto no plano material quanto no simbólico.

A leitura provoca um deslocamento necessário: somos levados a confrontar o quanto nossas opiniões costumam ser formadas a partir de vivências pessoais limitadas e das narrativas oferecidas pela mídia, frequentemente incapazes de abarcar a complexidade social do país. Ao dar visibilidade a realidades pouco escutadas, Amanhã vai ser maior amplia nossa compreensão do Brasil e do povo brasileiro, exigindo empatia, escuta e revisão de certezas. Trata-se, assim, de um livro fundamental para quem deseja compreender o presente para além da indignação ou da polarização rasa, lembrando que não há possibilidade de futuro sem um entendimento profundo das raízes da crise que vivemos.


Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga brasileira. 


DESMONTANDO A JORNADA DO HERÓI COMO NORMA

 


A HEROÍNA DE 1001 FACES

O Resgate do protagonismo feminino na narrativa exclusivamente masculina da jornada do herói

MARIA TATAR

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

479 páginas

Em A Heroína de 1001 Faces, Maria Tatar parte de uma crítica direta e necessária a Joseph Campbell e ao seu clássico O Herói de Mil Faces. Não se trata apenas de apontar uma ausência incômoda — a quase inexistência de mulheres —, mas de questionar o próprio alicerce de uma narrativa que se pretende universal e que, no entanto, é profundamente masculina. A resposta de Campbell, segundo a qual às mulheres caberia o papel de mães dos heróis, torna essa exclusão ainda mais reveladora.

É a partir desse vazio que Tatar constrói seu projeto: buscar as heroínas apagadas, deslocadas ou mal interpretadas pela tradição. Daí o título provocador — 1001 faces, uma a mais, aberta ao infinito, recusando a ideia de um modelo único e normativo de heroísmo.

A autora inicia pela mitologia, revisitando figuras femininas que escapam à passividade e à função meramente auxiliar. Em seguida, avança para a literatura, destacando escritoras e suas protagonistas, personagens que não percorrem a jornada do herói tal como descrita por Campbell, mas que enfrentam desafios igualmente radicais. O percurso se expande para séries e filmes contemporâneos e culmina nas mulheres detetives, figuras que investigam, desobedecem, persistem e que pensam.

O mérito central do livro está em mostrar que o feminino não é uma versão menor do masculino. As heroínas não são menos corajosas, audaciosas ou fortes; elas apenas agem de outra forma. Muitas vezes não partem para conquistar territórios, mas para preservar vínculos; não buscam a glória individual, mas a sobrevivência coletiva; não vencem monstros externos sem antes enfrentar violências íntimas, sociais e simbólicas.

Tatar não propõe substituir um modelo por outro, nem criar uma nova fórmula rígida para o protagonismo feminino. Ao contrário, seu gesto é abrir o campo narrativo, mostrando que existem múltiplas formas de atravessar o perigo, o medo e a transformação. Ao fazer isso, o livro também nos convida a reler as histórias que consumimos — mitológicas, literárias ou audiovisuais — com um olhar mais atento às exclusões que naturalizamos.

A Heroína de 1001 Faces é um livro instigante, que valeu a leitura justamente por desmontar uma das narrativas mais consagradas do século XX e por devolver às mulheres o direito de serem não apenas origem, mas sujeito da aventura.


Maria Tatar nasceu em Pressath, Alemanha, em 1945. Naturalizou-se em 1956 como cidadã estadunidense. É uma acadêmica.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PATRIARCADO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA


 

A CRIAÇÃO DO PATRIARCADO

História da opressão das mulheres pelos homens

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2020

490 páginas

A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner, é uma obra essencial para compreender a construção histórica da sociedade patriarcal que ainda influencia nossas vidas hoje. Lerner oferece uma análise profunda das relações de poder entre homens e mulheres, mostrando que o patriarcado não é um fenômeno natural, mas uma construção social e histórica.

A autora inicia explorando a situação das mulheres antes do surgimento do patriarcado, destacando como sociedades matriarcais ou mais igualitárias foram gradualmente substituídas por estruturas dominadas por homens. Em seguida, ela descreve o processo histórico que consolidou o patriarcado, mostrando como mudanças econômicas, políticas e religiosas criaram mecanismos de dominação que institucionalizaram a desigualdade de gênero. Lerner também examina as diferentes formas de patriarcado que emergiram em épocas e culturas diversas, evidenciando que a opressão das mulheres variou em intensidade e forma, mas esteve sempre presente como instrumento de manutenção do poder masculino.

Ao discutir as implicações do patriarcado na sociedade contemporânea, Lerner revela como a ideologia patriarcal continua a sustentar desigualdades e limitações impostas às mulheres. Uma das maiores contribuições do livro é a forma como desafia as noções tradicionais de história: a autora mostra que a história das mulheres e a história do patriarcado são inseparáveis e que compreender um implica necessariamente compreender o outro. Além disso, evidencia que o patriarcado não é inevitável, mas resultado de processos históricos específicos, reforçando a ideia de que a opressão feminina é construída e, portanto, passível de transformação.

A Criação do Patriarcado é, assim, não apenas um estudo histórico, mas também um convite à reflexão sobre as estruturas de poder que ainda moldam nossas sociedades e sobre a necessidade de questioná-las criticamente.


Gerda Lerner nasceu em Viena, na Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


O DIVINO FEMININO NAS MITOLOGIAS DO MUNDO

 

DEUSAS: OS MISTÉRIOS DO DIVINO FEMININO

JOSEPH CAMPBELL

EDITADA POR SAFRON ROSSI

PALAS ATHENA – 1ª ED. – 2023

352 páginas

Deusas: Os Mistérios do Divino Feminino, de Joseph Campbell, explora a presença e o significado das deusas nas diversas culturas ao longo da história, destacando seu papel central nas tradições religiosas, mitológicas e espirituais. O livro analisa como o divino feminino foi representado, celebrado e, em muitos casos, reprimido ao longo do tempo, oferecendo uma perspectiva sobre o poder simbólico e social das figuras femininas sagradas.

Campbell investiga mitologias de diferentes partes do mundo, revelando padrões recorrentes e arquétipos femininos que refletem sabedoria, criatividade, força e transformação. O autor discute como a perda de reverência ao divino feminino, com a ascensão do patriarcado, impactou a cultura, a moral e as relações sociais, e sugere que recuperar o entendimento dessas forças pode enriquecer a vida pessoal e coletiva.

O livro convida o leitor a refletir sobre a relação entre mito, espiritualidade e gênero, mostrando que as deusas não são apenas figuras históricas ou religiosas, mas arquétipos vivos que inspiram identidade, poder e autonomia feminina. Campbell combina erudição, sensibilidade e insight mitológico, oferecendo uma obra acessível e profunda sobre a dimensão simbólica e cultural do feminino sagrado.


Joseph Campbell nasceu em White Plains, Nova Iorque, EUA, em 1904 e faleceu em 1987. Foi um mitólogo, conferencista, escritor e professor. 


O DESFECHO TRÁGICO: FEMINICÍDIO PREMEDITADO


 

PIMENTA NEVES: UMA REPORTAGEM

LUIZ OCTAVIO DE LIMA

INDEPENDENTLY PUBLISHED – 2013

295 páginas

Pimenta Neves: Uma Reportagem, de Luiz Octavio de Lima, relata o caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide por Pimenta Neves, buscando compreender as motivações e circunstâncias que levaram a esse crime. O autor traça a trajetória de ambos desde a infância, passando pelas carreiras e pelo encontro que culminou na relação entre os dois.

O livro evidencia que Pimenta Neves apresentava problemas emocionais e psíquicos, refletidos em suas relações amorosas e profissionais, incluindo casos de estupro, assédio moral e sexual, e uma postura de onipotência sobre funcionários e colaboradores. Seu comportamento abusivo evoluía gradualmente, aumentando a gravidade das situações. Por outro lado, Sandra, em alguns momentos, assumia uma postura de autoridade nos ambientes de trabalho, aproveitando-se da proteção e influência que Pimenta exercia, mas isso jamais justifica o desfecho trágico.

Quando Sandra decide se afastar, Neves reage de maneira extrema, entrando em desespero, enquanto aqueles ao redor percebem sinais claros de perigo. Apesar de algumas tentativas isoladas de intervenção, medidas mais efetivas que poderiam ter evitado o assassinato não foram tomadas. Ele a mata com dois tiros, um nas costas e outro na cabeça.

O livro também analisa o processo judicial, os recursos que possibilitaram sua liberdade provisória e os impactos sobre a família da vítima. Mais uma vez, o feminicídio não recebeu a devida justiça, especialmente considerando o prestígio e a condição financeira do acusado. O assassinato não foi um ato passional impulsivo: foi premeditado, planejado e executado, ainda que se reconheça seu estado emocional instável.

A obra expõe a gravidade do feminicídio e a falha das instituições em proteger mulheres, oferecendo reflexão crítica sobre poder, violência e impunidade.


Luiz Octavio de Lima era um jornalista brasileiro que faleceu em São Paulo, em 2020. 


QUEBRANDO O ESTEREÓTIPO DE SHERAZADE

 

EU MATEI SHERAZADE: CONFISSÕES DE UMA ÁRABE ENFURECIDA

JOUMANA HADDAD

RECORD – 1ª ED. - 2011

144 páginas

Eu Matei Sherazade, de Joumana Haddad, aborda questões de gênero, liberdade e representação da mulher na sociedade árabe. O livro combina memórias pessoais com reflexões políticas e sociais, e o título simboliza a ruptura com o estereótipo da mulher submissa e silenciosa presente na cultura árabe. Haddad escreve com paixão e honestidade sobre sua própria trajetória, revelando os desafios que enfrentou como mulher e escritora em uma sociedade patriarcal. A obra é inspiradora e instiga a reflexão sobre gênero, autonomia e liberdade de expressão, oferecendo uma perspectiva única e corajosa sobre as tensões entre tradição e emancipação feminina.


Joumana Haddad nasceu em Beirute, Líbano, em 1970. É uma escritora, palestrante, ativista de direitos humanos e jornalista libanesa. 


A MASCULINIDADE SOB O PATRIARCADO

 

O HOMEM SUBJUGADO

O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo

MALVINA E. MUSZKAT

SUMMUS EDITORIAL – 1ª ED. – 2018

176 páginas

O Homem Subjugado, de Malvina E. Muszkat, oferece uma análise perspicaz sobre a masculinidade vivida pelos homens que, apesar de aparentes privilégios, estão subjugados pelo sistema patriarcal e sofrem com suas imposições. O livro revela como muitos homens não refletem sobre si mesmos nem sobre sua própria alienação em um sistema que os ilude com uma ideia de poder e superioridade.

A autora, psicanalista, fundamenta suas observações tanto em experiências clínicas quanto em análises de homens de diferentes classes sociais, brancos e negros, na cidade de São Paulo. Muszkat discute como a subjetividade masculina é capturada pela moral patriarcal e pelo imperativo de ser “macho”, forte e invulnerável, evidenciando o sofrimento gerado por essas expectativas.

O livro também examina o papel das mulheres na reprodução e reforço do sistema patriarcal, seja na educação de filhos homens, seja nas expectativas que projetam sobre os homens ao seu redor.

O Homem Subjugado é leitura recomendada não apenas para estudiosos e interessados em gênero, mas especialmente para pais de meninos, oferecendo uma reflexão essencial sobre os dilemas contemporâneos da masculinidade e seus impactos na vida emocional e social dos homens.


Malvina E. Muszkat é psicanalista e especialista em gênero e sexualidade. 

PENSAR FORA DO CÂNONE OCIDENTAL

 


AS MENTIRAS DO OCIDENTE

DAGOBERTO JOSÉ FONSECA (ORG.)

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. - 2022

192 páginas


O livro é composto por capítulos escritos por diversos autores que demonstram aquilo que foi ocultado, apropriado e desprezado pelo Ocidente. A obra começa questionando a narrativa consagrada de que a filosofia teria nascido exclusivamente na Grécia, mostrando que suas origens estão também no Egito.

Ao longo dos textos, os autores evidenciam que a filosofia não se reduz a um único modo de pensar, nem à razão cartesiana como única forma legítima de racionalidade. Existem várias lógicas possíveis, e muitas delas foram sistematicamente silenciadas. Nesse sentido, o livro apresenta filosofias africanas e demonstra como elas constituem verdadeiras cosmovisões, formas completas de compreender o mundo, a vida e as relações humanas.

Trata-se de uma leitura fundamental para quem deseja deslocar certezas, conhecer outros pensamentos e romper com o monopólio epistemológico ocidental. Um livro que amplia horizontes e convida a pensar para além do cânone.


Dagoberto José Fonseca tem graduação, mestrado e doutorado em Ciências Sociais.