quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: AQUELA QUE RESTOU

 

AQUELA QUE RESTOU

RENE KARABASH

EDITORA ERCOLANO – 1ª ED. – 2026

128 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – BULGÁRIA


A história se passa no norte da Albânia, em uma pequena aldeia que ainda mantém a tradição de seguir o Kanun (Kanun de Leka Dukaguini – leis antigas da Albânia). Essas leis incluíam a morte por vingança, e é interessante pensar que, no Nordeste brasileiro, isso também existe. Ismail Kadaré escreveu “Abril despedaçado”, e nós temos o filme homônimo, que se passa no Nordeste.

Eu, pessoalmente, vivi uma situação que me fez lembrar uma frase presente no livro.  Estando no Nordeste com um grupo, ocorreu um assassinato motivado por vingança entre famílias, e uma das pessoas ficou apavorada. Eu lhe disse que não precisava se preocupar, pois não seria um alvo, já que não pertencia à família envolvida.  

Karabash nos relata a história de Bekia, uma jovem que nasceu contrariando o desejo de seu pai de ter um filho homem. Mas não fosse apenas isso: sua mãe estava grávida de gêmeos e, durante a gestação, ocorreu um problema, levando à perda de um dos fetos, o menino. Portanto, aquela que restou foi Bekia, o “filhinho de papai”, como ela mesma se denominava.

Seguindo o Kanun, chega o dia em que Bekia será casada com um noivo que não conhece, mas de quem dizem ser feio. Ela não deseja esse destino e faz uma escolha: a única que lhe permite escapar da condição reservada às mulheres em um sistema extremamente patriarcal.

Bekia recusa o casamento e se torna uma virgem jurada, ou ostáinitsa, fazendo um juramento de castidade e passando a viver como um homem e mudando o nome para Matia, adquirindo os mesmos direitos. Trata-se de uma transição de gênero aceita que vigora em algumas regiões do norte da Albânia, do Kosovo, da Macedônia do Norte, da Sérvia, de Montenegro, da Croácia e da Bósnia.

É preciso fazer uma ressalva para que não haja confusões: isso não é a mesma coisa que ser um homem trans. Não se trata de uma decisão baseada na sexualidade nem na identidade de gênero, mas de uma mudança de status social, de papel e de posição dentro da família.

Bekia relata sua história a uma repórter que a entrevista por ser uma das poucas virgens juradas que ainda existem.

Ao recusar o casamento, ela também desencadeia a possibilidade de uma morte por vingança, pois a honra do noivo rejeitado deveria ser restaurada. Para isso, alguém de sua família precisaria ser assassinado. Cabia a ela escolher quem carregaria esse destino, e Bekia coloca a fita preta no braço do irmão mais moço, considerado frouxo como homem naquela sociedade. Ele foge para não morrer e, então, a honra de morrer segundo o Kanun recai sobre o pai de Bekia, o que ele aceita com muito orgulho. Morrer de velhice ou de doença é considerado vergonhoso para um homem.

Mas o livro reserva uma surpresa ao leitor quando descobrimos que o que levou BeKia a fazer o juramento foi muito mais do que o casamento forçado e a suposta perda da virgindade na noite anterior, e o quanto essa decisão trouxe consequências para todos os membros de sua família e também para outra jovem: Dana.

Preciso acrescentar um comentário. Tenho visto sinopses do livro que se referem à instituição da virgem jurada como sendo uma estratégia de sobrevivência dentro de sistemas que as oprimem. Nesse sentido, falar em “estratégia de sobrevivência” pode ser uma formulação enganosa se não for tensionada. O Kanun não abre uma fissura ao patriarcado; ele administra suas exceções sem nunca romper seu princípio estruturante. A virgem jurada não representa uma conquista de igualdade, mas uma reorganização excepcional da hierarquia sexual: ela só é reconhecida enquanto suspende sua condição feminina. O acesso aos direitos não decorre de uma transformação do estatuto da mulher, mas de sua reinscrição simbólica fora dele.

Bekia diz: “Uma mulher na Albânia vale vinte bois, não olhe os homens nos olhos, não vá ao bar, cuide das crianças, lave, cozinhe, no máximo leve o leite à leiteria, matar Bekia foi a coisa mais sensata que eu podia fazer.”.

Sua liberdade não emerge como afirmação de um sujeito feminino, mas como apagamento dessa própria categoria. 

Rene Karabash nasceu em Lovech, Bulgária, em 1989. É uma escritora búlgara. 



LIVRO: MÃE PÁTRIA

 

MÃE PÁTRIA: A desintegração de uma família na Venezuela em colapso

PAULA RAMÓN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2020

240 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VENEZUELA

Não é fácil encontrar escritoras venezuelanas traduzidas para o português. Diante disso, para representar uma mulher por país, no caso da Venezuela vou falar do livro de Paula Ramón, que relata como sua família passou de uma situação estável e promissora para uma desintegração diante dos acontecimentos políticos e econômicos do país.

O livro é um exemplo do que pode ocorrer, em nível familiar e pessoal, em função da política. Já ouvi muitas vezes, principalmente mulheres, dizerem: “Não me interesso por política!!!”. Pois deveriam, porque um governo pode trazer sérias consequências para qualquer pessoa, desde impactos econômicos até interferências na liberdade, na educação, na saúde e na segurança.

Por outro lado, pessoalmente me abstenho que emitir opiniões sobre a Venezuela. Já vi pessoas que defendem o país e Maduro, assim como já vi muitas outras execrando o governo.  Aqui me atenho ao livro e o que relata uma venezuelana que hoje mora fora do país.

Seu pai, Jesús, era espanhol e fugiu durante a Guerra Civil Espanhola para a França. Lutou na Segunda Guerra Mundial e acabou preso em um campo de concentração alemão, sendo libertado apenas ao final da guerra. Considerado apátrida pelo governo de Franco na Espanha, instalou-se em Paris, onde casou-se com uma espanhola e teve um filho. Então ele leu sobre um lugar chamado Venezuela, que lhe pareceu promissor, e convenceu a família a se mudar para lá.

Em poucos anos, Jesús ascendeu à classe média alta, teve mais dois filhos e depois se separou da primeira esposa. Paulina, mãe de Ramón, nasceu em Capacho, um pequeno povoado nos Andes venezuelanos, próximo à fronteira com a Colômbia. Foi estudar Biologia na Universidade de Maracaibo, que era pública.

Maracaibo é o berço do petróleo na Venezuela, conhecida como a “Arábia Saudita” da venezuelana. Jesús conheceu Paulina ao lhe dar carona, juntamente com algumas amigas, e os dois se apaixonaram. Foram anos prósperos; havia empregos e eles eram bem remunerados.

No entanto, nos anos de 1970, uma guerra que não tinha nada a ver com a Venezuela mudou a sorte de todos. Foi a guerra do Yom Kippur, que provocou uma crise mundial do petróleo. Os preços aumentaram muito, e o setor foi estatizado em 1976, quando foi criada a Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Isso trouxe imensa riqueza ao país.

Em 1981 os preços começaram a cair. Foi o fim do boom petroleiro, e começaram os ajustes econômicos. A partir desse momento, as crises político-econômicas se sucederam. Em 4 de fevereiro de 1992, militares descontentes lançaram uma tentativa de golpe de Estado, mas ela durou pouco e o então desconhecido Hugo Chavez se rendeu.

Em 1999, Chavez chegou ao poder, e sua ascensão coincidiu com um novo boom petroleiro, que possibilitou a criação de programas sociais paralelos ao sistema público constitucional e empregou milhares de pessoas com salários acima do mínimo. Tudo melhorou, inclusive na casa de Ramón. No entanto, a situação não permaneceria assim, e viriam novas crises e conflitos políticos até chegarmos aos dias atuais.

Ramón discorre sobre todo esse processo venezuelano e sobre como ele afetou sua família e a si própria, levando-a finalmente a deixar a Venezuela e, do exterior, usar de mil maneiras para conseguir enviar ajuda para sua mãe. Também aborda as diferenças políticas que surgiram dentro da própria família, entre os que apoiavam o governo e os que não o faziam.

Em 1969, a feminista estadunidense Carol Hanisch, popularizou a frase “o pessoal é político”. Neste livro, porém, vemos que também “o político é pessoal”. 

Paula Ramón nasceu em Maracaibo, Venezuela. É uma jornalista 



terça-feira, 16 de junho de 2026

LIVRO: DETALHE MENOR


 

DETALHE MENOR

ADANIA SHIBLI

TODAVIA – 1ª ED. – 2021

112 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PALESTINA 


1949, um ano após a Nakba, um batalhão do exército de Israel monta acampamento no deserto de Neguev, próximo à fronteira com o Egito. Sua missão: encontrar árabes que ainda permaneciam na região.

Logo na primeira noite, o comandante é mordido por uma aranha, mas ele apenas trata a picada e continua suas rondas em busca dos árabes até que encontra um acampamento de beduínos. Os soldados matam todos, inclusive os camelos, mas uma menina e um cachorro sobrevivem e são levados para o acampamento, onde a menina é trancafiada em uma cabana. O comandante ordena que ninguém toque nela.

No entanto, o que se sucede é o contrário. A menina é estuprada e depois morta com sete tiros, sendo enterrada no deserto. O cachorro sobrevive e, depois de quase ser morto pelo comandante, foge uivando.

Esta é a primeira parte do livro, que é curto, mas extremamente impactante, doloroso e dilacerante. A escrita da autora é seca e repetitiva. Um bando de homens, soldados de Israel, que agem de modo automático. O comandante é retratado repetindo os mesmos movimentos dia após dia.

Fico com uma impressão de que o cachorro tem um papel fundamental na escrita da autora. O cão é simbólico; ele demonstra mais “humanidade” do que os soldados na narrativa. Além disso, por não ter sido morto, parece possuir um valor maior que a menina, uma vez que nenhum dos dois representava perigo imediato aos soldados ou ao comandante.

 O cachorro é um detalhe nesta parte da história, mas que a meu ver, representa muito mais do que o restante. Tanto é que a segunda parte, que se passa 25 anos depois, inicia com um cachorro uivando ao longe.

Uma palestina que vive na Palestina Ocupada, em Ramallah, lê um artigo em um jornal sobre o que aconteceu, e um “detalhe menor” chama sua atenção: a menina foi morta no dia de seu nascimento, 13 de agosto.

A notícia tece em volta dela, como uma aranha, uma teia que a prende e a faz desejar saber mais sobre o que aconteceu. Essa jovem traz em si mesma os efeitos traumáticos da ocupação: o medo, o estresse e a desorientação. Ao  mesmo tempo, porém, ela procura não se entregar e enfrentar todas as barreiras, sejam as psicológicas, sejam as reais, que precisa atravessar para passar de uma zona a outra controlada pelos israelenses e chegar ao local onde ocorreu o assassinato da menina beduína.

Ela persiste em sua busca. Deseja descobrir o outro lado da história, não apenas a narrada pelos soldados. No caminho, enquanto aguardava na fila para passar pela primeira barreira, uma menina que vende chicletes insiste muito para que ela compre. Ela não quer, mas acaba lhe dando dinheiro. A menina então joga duas caixas de chiclete no banco do carro e vai embora. Um pequeno detalhe. Um detalhe menor que irá definir o destino da jovem palestina em sua busca.

Adania Shibli constrói a narrativa de Detalhe Menor com uma escrita econômica, quase austera, mas de uma potência impressionante. Não há excesso, não há sentimentalismo, mas há uma violência que atravessa todas as páginas. Ao final, nos perguntamos quem tem o direito de ser lembrado e quem pode ser transformado em um simples detalhe menor.

O que me impressionou no romance não é apenas o que ele conta, mas como ele conta. A repetição obsessiva dos gestos do comandante, a ausência quase total de psicologização das personagens na primeira parte, a maneira como o espaço do deserto parece absorver tudo: a água, o sangue. A estrutura em espelho das duas partes, a recorrência da aranha, do cachorro, dos sons.

A autora não explica o horror; ela o faz operar na própria forma do texto. Quanto menos ela comenta, mais sentimos. O horror está na normalidade dos procedimentos. São os detalhes, elementos aparentemente insignificantes que estruturam toda a narrativa.

Um exemplo é o camelo morto com capim na boca. O animal estava simplesmente comendo. A vida cotidiana é interrompida de forma abrupta e absurda. Através dessa imagem a autora comunica mais do que muitas páginas de descrição sangrenta.

O mesmo ocorre com o estupro da menina. Sabemos o que aconteceu, mas Shibli não transforma a menina em espetáculo, não vamos consumir a cena. Isso é muito diferente de outras literaturas sobre violência, onde se transforma o sofrimento em objeto de observação.

Da mesma forma a reação automática dos soldados. O comandante que vivia repetindo gestos mecânicos, os soldados que obedeciam mecanicamente, a violência incorporada na rotina. No final, décadas depois, a resposta continua automática. Não há reflexão, não há reconhecimento da pessoa diante deles. Há apenas o reflexo condicionado de uma máquina que continuar funcionando.


Adania Shibli nasceu na Palestina em 1974. É uma escritora palestina que deveria ter recebido o prêmio alemão Litprom na feira de Frankfurt, no entanto a premiação foi cancelada quando o diretor da premiação associou o evento ao “terror bárbaro do Hamas contra Israel”, conforme reportagem que consta no Le Diplomatique, o que gerou forte reação de escritores, editoras e organizações literárias que viram na decisão uma forma de silenciamento de uma voz palestina.

O livro Detalhe Menor, escrito originalmente em árabe, foi traduzido para mais de onze idiomas. Shibli domina vários idiomas, mas escrever em árabe, sua língua materna, também é uma forma de resistência. 




domingo, 14 de junho de 2026

LIVRO: SOB CUSTÓDIA

 


SOB CUSTÓDIA 

ANITA DESAI

ROCCO – 1ª ED. - 1984

212 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÍNDIA

Deven é um professor universitário que dá aulas em uma universidade particular, onde ensina literatura hindi. Certo dia, Murad, um velho amigo, aparece inesperadamente com uma proposta para entrevistar o grande poeta urdu Nur, que mora em Nova Delhi, para sua revista.

Deven é apaixonado pela poesia urdu e, mesmo alegando mil desculpas, como seu trabalho, sua família e seu filho, acaba aceitando a proposta e vai até a casa do poeta para solicitar a entrevista.

Sua expectativa é imensa; mal pode esperar a hora de poder conhecer e conversar com o velho poeta. Porém, ao chegar à casa deste, sofre uma grande decepção. O lugar é precário, e o poeta é um bêbado que todas as noites reúne à sua volta bajuladores que, aos olhos de Deven, são desprezíveis. É impossível falar com Nur, que está sempre rodeado dessas pessoas. Deven retorna para sua cidade e desiste da entrevista.

No entanto, Murad acaba por convencê-lo a tentar novamente e sugere que utilize um gravador para registrar as conversas; depois, poderia escrever com calma em sua casa. O problema é onde conseguir um gravador. Deven então conversa com o professor do departamento de urdu de sua universidade, que fica encantado com a possibilidade de ter a voz do poeta gravada e consegue que a instituição  libere  verba para a compra do gravador e das fitas.

É impactante perceber como Deven se deixa manipular e não consegue reagir. Sua admiração pela poesia urdu e pelo poeta é maior do que sua capacidade de confrontar a realidade e perceber o quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e de seu desejo de salvar a poesia urdu. Ele quer colocar o poeta e sua obra sob custódia; quer ser o guardião dessa língua que está morrendo em uma Índia que se moderniza. O urdu era a língua culta dos muçulmanos que habitavam grande parte do território indiano. Com a independência da Índia do Império Britânico, também ocorreu a partilha do território e a criação do Estado do Paquistão, para onde se mudaram a maioria dos muçulmanos.

Deven apesar de ensinar hindi na universidade, ainda escreve em urdu. Sua vida medíocre e seu casamento com uma mulher que também alimentava ilusões, lembraram-me Madame Bovary; a diferença é que ela se nutriu de filmes, e não de romances. As brigas do casal são constantes. O contraste entre o Deven que é continuamente explorado pelos outros e o Deven que encontramos em sua casa com a esposa, é grande. É nesse espaço que ele se torna mesquinho, fala alto e chega até mesmo a agredi-la.  Ela é seu espelho e confirma a ideia de que “uma vítima não procura ajuda em outra vítima, procura alguém que a liberte”.

Ao confrontar a realidade da vida do poeta, seu declínio e suas mazelas, Deven não consegue abandonar o sonho nem a idealização que construiu, mesmo que isso o conduza à ruína. O urdu e sua poesia funcionavam como uma tábua de salvação diante da vida ordinária que levava; perceber que até isso se perdeu, é algo que ele não consegue enfrentar.

Deven é um personagem difícil de aceitar, até porque sabemos que existem muitas pessoas assim. Em vários momentos sentimos vontade de sacudi-lo para que reaja, para que não se deixe manipular e explorar. Mesmo quando a sorte parece favorece-lo e sempre surge alguém para ajuda-lo, ele encontra alguma maneira de estragar tudo logo em seguida.

Nas últimas páginas do livro, a autora, através de uma carta que é enviada a Deven, deixa evidente a sociedade machista e patriarcal em que os personagens vivem e, principalmente, o quanto o próprio Deven despreza intelectualmente as mulheres. E se ele nos passa a impressão de ser medíocre e facilmente manipulável, também revela certa prepotência ao acreditar que é ele quem tem sob custódia a poesia urdu, sem perceber que essa mesma custódia também o mantém prisioneiro.  

Anita Desai nasceu em Mussoori, Índia, em 1937. É uma romancista indiana e professora emérita de Humanidades John E. Burchard.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

LIVRO: ELES TE PEGARAM TAMBÉM

 

ELES TE PEGARAM TAMBÉM

FUTHI NTSHINGILA

DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026

224 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL

Hans é um ex-policial que vive em uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.

Zoé cresceu enfrentado a violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de sua família para Hans.

Com a pandemia, que podemos supor ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento, ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse finalmente tomará coragem para contar a sua.

É através desses relatos e memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.

As lembranças de ambos abordam o período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa, flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.

Hans pertence a uma família bôer, enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo com ela.

É através dos relatos dos dois que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a assumir a presidência do país.

O título do livro se refere a uma frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se à crença na superioridade racial e ao racismo.

O que mais me tocou foi o contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo ficou nele que o levou a se torturar na velhice.

A ideologia nunca consegue apagar completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la, mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.

Já Zoé, vítima desse racismo, a questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.

Ao alternar as memórias de Hans e Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento, arrependimento e redenção.


Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.



segunda-feira, 8 de junho de 2026

FILME: TO KILL A TIGER - (Matar um Tigre)

 

Direção: Nisha Pahuja – 2002

Duração: 2h 7 min

País – Canadá – Índia

Disponível na Netlfix – acesso em junho/2026


Durante uma festa de casamento em uma pequena aldeia da Índia – Jharkhand - uma menina de 13 anos não retornou para casa. Algumas horas depois, ela é encontrada cambaleando.

Ela havia sido levada à força para uma área de mata e estuprada por três homens. Seu pai, Ranjit, vai à polícia, e os homens são presos. No entanto, as famílias dos homens detidos e os líderes da aldeia iniciam uma campanha para que ele retire as acusações.

É o início da luta de um pai para obter justiça por sua filha. Os moradores da aldeia alegam que a questão deve ser resolvida pela comunidade, e não pela justiça, e a solução é um casamento forçado para reestabelecer a honra da menina. O pai não aceita essa solução. Não aceita casar sua filha com um dos estupradores.  

O documentário é filmado ao vivo, e inclusive a equipe de filmagem é hostilizada pelos moradores da aldeia, ao mesmo tempo que a família da menina. Mesmo diante das ameaças e pressões, o pai decide ir até as últimas consequências para obter justiça por sua filha.

Não é um documentário fácil de assistir. A luta é árdua, e ficamos torcendo por esse pai que não aceita a imposição da comunidade. Para o Estado indiano, ao qual a grande maioria dos crimes sexuais não são reportados e resolvidos nas aldeias com casamentos forçados, é um caso inédito.

Os líderes das aldeias são homens, patriarcais, que olham para a mulher como um objeto. E temos um pai, também um homem, que se opõe a eles. Ele enfrentará inúmeros obstáculos e dificuldades, inclusive para sustentar sua família, mas não irá desistir de defender os direitos de sua filha na justiça e de buscar a condenação dos estupradores.

To Kill a Tiger é um documentário sobre violência sexual, mas também sobre a coragem moral. Sua luta transforma um caso particular em uma discussão universal sobre justiça, dignidade e os direitos das meninas e mulheres.


Nisha Pahuja nasceu em Nova Delhi, Índia, em 1967. É uma cineasta nascida na Índia radicada em Toronto, Ontário, Canadá. 


sábado, 6 de junho de 2026

FILME: QUANDO BANGLADESH CHOROU – FARAAZ



 

FILME: QUANDO BANGLADESH CHOROU – FARAAZ

Direção: Hansal Mehta – 2023

País: Índia

Duração: 1h 52 min


O filme é inspirado no atentado em Daca, Bangladesh, em 2016, em um restaurante que deixou 20 civis mortos, além de policiais e dos próprios terroristas. O local era o Holey Artisan Bakery, localizado no bairro diplomático.

A importância deste filme neste momento, no Brasil, é que mostra o que são, de fato, terroristas. Diante da tendência de considerar narcotraficantes ou grupos de resistência armada, em outros lugares, como terrorismo, é importante saber diferenciar essas três categorias.

A resistência armada, ou guerrilha, tem como objetivo lutar contra invasões de seus territórios, ocupações, ditaduras ou governos opressores e busca a libertação do território, a independência ou uma mudança de regime político.

O terrorismo, por sua vez, tem como objetivo coagir governos, impor ideologias, desestabilizar a ordem pública ou o governo através da intimidação e do medo generalizado.

Enquanto a resistência armada procura evitar atingir a população civil, o terrorismo não se importa com isso; ao contrário, a população costuma ser seu principal alvo, atacando locais públicos e cidadãos desarmados.

O narcotráfico são organizações criminosas que atuam no tráfico de drogas, pessoas e outras atividades ilícitas em larga escala, formando redes de crime organizado.

O filme relembra o atentado em Bangladesh perpetrado pelo Estado Islâmico (ISIS), um grupo extremista armado de ideologia jihadista sunita. Seu objetivo é instituir o califado, isto é, um governo sob interpretação rigorosa da lei islâmica – a sharia. São considerados terroristas devido seus ataques contra civis, execuções brutais, extrema violência e destruição de patrimônios históricos e culturais.

Cinco jovens foram cooptados pelo ISIS. Um deles é bem educado e formado em Universidade. Eles passam a acreditar em uma interpretação extremista e distorcida do Alcorão, convencendo-se de que, ao morrerem, irão para o paraíso e de que o martírio representa uma honra.

Faraaz (Zahan Kapoor) é um jovem muçulmano que está no restaurante acompanhado de duas amigas estrangeiras. Ele conhece o líder do grupo (Aditya Rawal), justamente aquele que estudou na Universidade. O confronto entre os dois deixa clara a diferença entre suas interpretações do Alcorão.

Durante o ataque, os terroristas matam todos os estrangeiros e não-muçulmanos, enquanto poupam os muçulmanos. Ao mesmo tempo, começam a pregar, afirmando que Bangladesh precisa voltar a ser o que era no passado. Em determinado momento, as críticas feitas pelo líder ao Ocidente apresentam questões legítimas, mas isso não serve, em hipótese alguma, como justificativa para atos terroristas.  

Foram horas de terror até que eles libertam os muçulmanos. No entanto, Faraaz se recusa a sair sem suas amigas estrangeiras e sela seu destino.

Outro ponto que chama a atenção, e não apenas neste filme, é a sensação de desorganização na polícia indiana e, neste caso, bengalesa. Elas aparecem sempre discutindo entre si e demonstrando dificuldade para agir de forma rápida e coordenada. No filme, ao final, quem invade o restaurante e mata os terroristas é o Exército.

Preciso incluir aqui um adendo: os Estados tendem a definir como terroristas os grupos que desafiam sua autoridade por meio da violência. Ao mesmo tempo, grupos insurgentes costumam se apresentar como movimentos de libertação, resistência ou revolução. “O terrorista de uns é o combatente da liberdade de outros”.

Terrorismo é um conceito frequentemente disputado na política internacional, mas naquele dia em Daca, no restaurante, se manifestou de forma concreta.


                          Hansal Mehta nasceu em Mumbai, Índia, em 1968. É um cineasta indiano. 


quinta-feira, 4 de junho de 2026

FILME: A VOZ DE HIND RAJAB


 

A VOZ DE HIND RAJAB

Direção: Kaouther Ben Hania - 2025 

Duração: 1h 30 min

País: Tunísia


É muito difícil falar deste filme por várias razões. Em primeiro lugar, por se tratar de uma obra que, mesmo sendo uma dramatização, utiliza as gravações originais da criança pedindo ajuda e repetindo sem parar: “Vem me buscar! Estou com medo!”

Em segundo lugar, devido ao contexto atual, no qual se trava um embate entre o que é considerado antissemitismo e o que é entendido como antissionismo. O Ocidente, de modo geral, se posiciona ao lado de Israel, sendo que as vozes dissidentes, em muitos lugares, enfrentam detenções, expulsões de Universidades e outras formas de retaliação.

O impacto do filme é avassalador. Não tenho conhecimento de nenhum outro que traz literalmente ao vivo, o desespero de uma criança em uma guerra. Temos muitos filmes realizados posteriormente com sobreviventes, mas aqui acompanhamos o drama praticamente em tempo real.

Uma menina palestina de 5 anos chamada Hind Rajab ficou sozinha e presa dentro de um carro em Gaza após todos seus familiares terem sido mortos pelo exército de Israel quando tentavam sair de uma região sob ataque, em janeiro de 2024.

Durante horas, ela manteve contato por telefone com o Crescente Vermelho na Cisjordânia, distante 83 km de onde ela se encontrava. Ela implorava ajuda. Ao fundo, ouvem-se tiros. Ela está escondida sob os corpos de seus familiares.

O desespero das pessoas que estão do outro lado da linha. Em vários momentos, a impotência as leva ao descontrole. A ambulância estava a apenas oito minutos do local onde a criança se encontrava.  Havia, porém, toda uma burocracia exigida por Israel para eles poderem chegar até ela.

Era necessária uma coordenação junto a Cruz Vermelha, o Ministério da Saúde e o Exército de Israel. Após uma espera de 3 horas, chega o sinal verde para a ambulância seguir até o local. Quando os socorristas finalmente chegaram, perderam o contato tanto com a menina quanto com a equipe de resgate.  

O filme encerra-se nesse momento. O que sabemos depois vem das notícias que podemos ler em jornais e dos letreiros finais do filme.

 Somente em fevereiro, após o fim do cerco naquela região, as equipes de resgate conseguiram chegar ao local. Encontraram a ambulância destruída e os corpos dos dois socorristas e um pouco mais à frente, o carro da família e o corpo da criança. O carro foi atingido por mais de 350 tiros, segundo noticiado em jornais.

A sensação que permanece é a de uma imensa crueldade. Exigir durante horas que se estabeleça uma coordenação com rota segura para o resgate e depois simplesmente alvejar a ambulância e assassinar uma criança.

As normas internacionais de guerra determinam que ambulâncias sejam protegidas, equipes médicas não podem ser alvos em conflitos e civis não devem ser atacados diretamente. Hospitais devem, na medida do possível, serem preservados. Israel ignora essas normas sob a alegação de que o Hamas se esconde nesses locais e se utiliza de ambulâncias para se deslocar.

O que torna o filme quase insuportável não é apenas a morte da criança, mas a longa espera. Durante horas, ouvimos Hind pedir ajuda. Sabemos que ela está viva, sabemos que está com medo, sabemos que há pessoas tentando alcançá-la. Ainda assim, o socorro não chega. O espectador termina o filme com uma sensação profunda de impotência diante de uma violência que parece ter perdido qualquer limite moral.

 

                               Kaouther Bem Hania nasceu em Sidi Bouzid, Tunísia, em 1977. 



domingo, 31 de maio de 2026

FILME: A NEGRA DE ....


 

A NEGRA DE ....

Direção de Ousmane Sembène – 1972

Duração: 65 minutos

País – SenegalFrança


Baseado em um conto da coleção Voltaique de Sembène, de 1962, que por sua vez foi inspirado em um incidente da vida real. Embora, tenha sido mal recebido pelos críticos de cinema ocidentais em seu lançamento inicial, na década de 2010 passou a ser visto como um clássico do cinema mundial. 


Diouana (Mbissine Thérèse Diop) é uma jovem senegalesa que vive em Dakar, no Senegal, e está a procura de emprego como babá. Passa dos dias batendo de porta em porta até o dia em que conhece um rapaz, que se tornará seu namorado, e que a leva a um local - A Praça das Babás - onde estão várias mulheres aguardando para que sejam escolhidas por alguém para trabalhar. 

Surge então Madame (Anne-Marie Jeninek), uma francesa em busca de alguém para cuidar de seus filhos. As outras mulheres imediatamente cercam Madame, enquanto Diouana permanece sentada e, juntamente por isso, foi escolhida, por não ter sido agressiva nem exigente. 

Diouana fica muito feliz por conseguir um emprego e oferece aos patrões uma máscara tradicional de presente, que comprou de um menino por 50 francos. A máscara agrada aos patrões, que passam a exibi-la em uma parede de sua casa. A vida segue, Diouana cuida das crianças e, quando está de folga, encontra o namorado. 

Madame e Monsieu (Robert Fontaine) vão retornar para a França e convidam Diouana a ir com eles para continuar cuidando das crianças. Ela fica absolutamente encantada, vai conhecer a França. Conta para sua mãe, que autoriza que ela vá. Ela sonha com o dia em que pisará nesse país que colonizou o Senegal. 

Assim que chega, Madame a encarrega de trabalhos domésticos que ela não fazia em Dakar. As crianças estão de férias, e ela terá que limpar, cozinhar, lavar e passar, o que a deixa indignada, pois não foi para isso que foi contratada. A patroa passa a tratá-la com rispidez, ao contrário do que fazia no Senegal. Ela, que tanto sonhou em conhecer a França, não sai do apartamento, é praticamente uma prisioneira. Não conhece ninguém, não fala a língua, e Madame não a leva sequer para conhecer a cidade e as lindas lojas sobre as quais dizia à Diouana que havia na França e que a encantariam. 

Madame agora a trata praticamente como uma escravizada. Manda-a tirar seus sapatos de salto alto, dizendo: "Não esqueça de que você é uma empregada doméstica". Todo o racismo vem à tona, tanto o dela quanto o dos convidados que vão almoçar na casa dos patrões. Um deles a beija no bochecha e diz: "Nunca beijei uma negra antes". Durante o almoço, ouvimos as conversas dos franceses, marcadas por visões colonialistas e racistas. 

Chega uma carta da mãe de Diouana, que o Monsieur lê para ela. Na carta, a mãe pergunta por que não tem notícias dela e por que não enviou dinheiro, conforme combinado? Diouana a cada dia que passa fica mais deprimida. Levanta tarde, não faz mais nada, e Madame diz que, se ela não trabalhar não vai comer. 

Monsieur tenta animá-la e lhe paga seu salário, que ela não aceita. Em seguida ela recupera a máscara, arruma sua mala, e se mata na banheira da casa. 

A notícia do suicídio sai no jornal - A negra que se matou no apartamento de franceses. 

Monsieur então vai para Dakar, leva a mala e a máscara para entrega à mãe de Diouana. Também quer dar o dinheiro do salário, mas a mãe recusa. Ele vai embora e é seguido pelo menino que havia vendido a máscara, agora recuperada, que corre atrás dele usando-a sobre o rosto. 

O roteiro de A Negra de... foi rejeitado pelo então chefe do Departamento de Cinema do Ministério da Cooperação, que financiava filmes francófonos, provavelmente devido ao tema do filme. Sembène reduziu o filme para uma hora de duração para cumprir as exigências do Centre National du Cinéma e a produção foi feita com um orçamento muito baixo. Em 1981, Angela Davis observa (sobre as trabalhadoras domésticas): "O seu dilema trágico é brilhantemente captado no filme de Ousmane Sembène intitulado A Negra de...."

As críticas dos países colonizadores na época do lançamento do filme foram a favor de Monsieur que segundo eles era atencioso. A observação sobre a recepção de Monsieur mostra como muitos espectadores europeus da época enxergavam a violência colonial apenas quando ela era explícita. Como Monsieur não agride Diouana fisicamente e demonstra alguns gestos de aparente gentileza, parte da crítica ignorou que ele participa da mesma estrutura de exploração e confinamento que a destrói. A dominação nem sempre se apresenta como brutalidade aberta; muitas vezes ela se manifesta como paternalismo, tutela e "boa intenção".

A obra aborda questões raciais, a persistência das relações coloniais e os efeitos psicológicos da dominação colonial. Nesse contexto, a máscara presente ao longo da narrativa assume um forte valor simbólico, representando identidade, apropriação cultural e resistência.


Ousmane Sembène nasceu em Ziguinchor, Senegal, em 1923 e faleceu em Dakar, Senegal, em 2007. Foi um diretor senegalês e escritor. 

O filme está disponível na plataforma do Telecine. Acesso em maio de 2026. 


 



quarta-feira, 27 de maio de 2026

MULHERES SENEGALESAS ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE



UMA CARTA TÃO LONGA

MARIAMA BÂ

JANDAÍRA – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – SENEGAL 


Uma Carta tão longa, da escritora senegalesa Mariama Bâ, acompanha Ramatoulaye logo após a morte de seu marido, momento em que escreve uma longa carta à sua melhor amiga de infância, Aïssatou. Ao longo desta carta, na qual rememora sua vida e a de sua amiga, a autora discorre sobre os vários problemas enfrentados pelas mulheres senegalesas, os costumes e tradições, a religião e a poligamia.  

Se por um lado vemos Ramatoulaye se construindo em meio a tudo o que lhe acontece, muitas vezes decidindo conforme tradições e aquilo que aprendeu desde a infância, Aïssatou já surge como uma mulher diferente, que enfrenta o sistema e toma decisões em prol de si mesma, sem se preocupar tanto com a honra familiar e tradições senegalesas.

Ambas passaram pelo mesmo drama: maridos com os quais conviveram durante anos, construindo uma vida em comum, tendo filhos e partilhando tudo, decidem tomar uma segunda esposa, ou a “coesposa”, como são chamadas. No caso de Aïssatou, o casamento do marido foi resultado da vingança da sogra, que nunca aceitou a união do único filho homem com uma mulher de casta inferior. Durante anos ela planejou sua vingança até conseguir obrigá-lo a se casar com sua prima.

Aïssatou não aceitou a situação: pediu o divórcio, partiu com os filhos, estudou e foi morar nos Estados Unidos, conquistando estabilidade financeira. Já o marido de Ramatoylaye encantou-se por uma amiga de sua filha e fez de tudo para conquistá-la. A jovem o chamava de velho, mas acabou aceitando o casamento por imposição da mãe. Após isso, ele abandonou a primeira família.

Os filhos de Ramatoylaye revoltaram-se  e queriam que a mãe seguisse o exemplo de Aïssatou, porém ela escolheu permanecer onde estava, mantendo-se como primeira-esposa. Com a morte do marido surgem novos pretendentes. O primeiro é o irmão mais velho dele, que deseja casar-se com ela como segunda esposa, o que ela não aceitou. O segundo é o homem que se apaixonara por ela na juventude e que era o predileto de sua mãe; novamente ela não aceitou.

 Desde que Madou se casou com uma adolescente, Ramatoulaye passou a viver em solidão, tendo que lutar para manter os filhos. Ao mesmo tempo, relembra casos de outras mulheres que entraram em depressão, algo que ela própria tenta evitar. A amiga é sempre um suporte emocional para ela e exemplo, ainda que Ramatoulaye não siga exatamente o mesmo caminho.  

 O livro discute a situação feminina no Senegal. Quantas mulheres que são postas de lado após o segundo casamento do marido. Mas não apenas, é uma sociedade absolutamente patriarcal e muçulmana na qual a mulher tem pouco valor e é sempre colocada em segundo plano. O debate sobre política que Ramatoylaye tem com seu antigo apaixonado, um médico e político, evidencia isso de maneira muito clara.

A definição que a autora faz da depressão é feita de forma sensível e precisa. Mariama Bâ também desenvolve uma bela reflexão sobre o amor e a amizade. Através de relatos íntimos a autora constrói uma crítica social, principalmente sobre a condição das mulheres senegalesas. 

 

Mariama Bâ nasceu em Dacar, Senegal, em 1929 e faleceu na mesma localidade em 1981. Foi uma pioneira escritora e feminista senegalesa


QUANDO A GUERRA ULTRAPASSA TODOS OS LIMITES


 

HIROSHIMA

JOHN HERSEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2002

176 páginas

Ao lermos o livro “Hiroshima” de John Hersey, nos compadecemos dos japoneses afetados e também ficamos horrorizados com tamanha monstruosidade perpetrada pelos Estados Unidos contra civis. De fato, aquele povo era inocente, exceto talvez pelos militares locados na cidade e em Nagazaki.

É preciso lembrar que os japoneses foram extremamente cruéis na sua expansão pela Ásia, como ocorreu no Massacre de Nanquim (1937), na China, que ficou conhecido como o Estupro de Nanquim, marcado por estupros e assassinatos em massa. Em Cingapura, em 1942, também massacram chineses no episódio conhecido como o Massacre de Sook.

No entanto, esses atos de crueldade não justificam o que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki. Lançar bombas atômicas que em questão de segundos destruíram tudo, matando mais de cem mil pessoas imediatamente em Hiroshima.  Muitas outras morreram depois sob os efeitos da radiação, algo totalmente desconhecido pelos médicos na época.

Pessoalmente, não aceito a justificativa dos Estados Unidos de que, agindo assim, pouparam inúmeras vidas. Com certeza, pouparam vidas americanas e de militares. Acredito que foi mais um experimento para observar os efeitos e os resultados de uma bomba atômica e, diante do sucesso destrutivo, impor o medo ao mundo, já que naquele momento apenas eles possuíam tal arma.

Hersey, jornalista estadunidense, traz em seu livro o relato e o testemunho de seis sobreviventes do horror e retorna 40 anos depois para saber o que lhes aconteceu. Mesmo tendo sobrevivido, todos sofreram as consequências de terem sido expostos à explosão e à radiação, o que mudou suas vidas.

É interessante perceber que a cultura japonesa levou a grande maioria da população a aceitar o que ocorreu; em momento algum levantavam a questão ética e moral do uso de uma bomba dessa magnitude contra duas cidades. Mas precisamos, sim, pensar nessa ética, e mais do que nunca, pois estamos assistindo a outra destruição atualmente, em Gaza, com a morte de milhares de pessoas, não instantaneamente, mas dia após dia, sem falar nos traumas dos que conseguem sobreviver.

Ler Hiroshima é um alerta. Aquela primeira bomba ainda era considerada “fraca”; hoje, bombas atômicas ou de hidrogênio possuem um poder de morte e destruição infinitamente maior. 

John Hersey nasceu em Tianjin, China, em 1914 e faleceu em Key West, Flórida, EUA, em 1993. Foi um escritor e jornalista estadunidense. 



sábado, 23 de maio de 2026

A LITERATURA COMO ARQUIVO DA VIOLÊNCIA

 


UM TÚMULO PARA BÓRIS DAVIDOVITCH

DANILO KIS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 1987

152 páginas

 

PAÍS – EX-IOGUSLÁVIA – ATUAL SÉRVIA


São contos interligados, mas o que realmente surpreende é a escrita de Danilo Kis. O autor transforma pequenas biografias oriundas de documentos em verdadeiras obras de arte da literatura. 

Para aqueles que não gostam de cenas de maus tratos a animais, o primeiro conto pode ser especialmente odioso. Ainda assim, ou pule-o ele ou enfrente-o, mas não abandone o livro, porque vale a pena continuar.

Os contos, construídos a partir dessas pequenas biografias, deixam muito claro o quanto, durante o stalinismo, ninguém estava seguro. O clima era de total desconfiança e traição, e tudo dependia do humor do “pai”, com seu sorriso sempre amigável nos retratos dispersos pelas instituições públicas, ocupando o lugar onde antes poderia haver um crucifixo ou a imagem (ícone) de uma santa ou de um santo.

Em um dia você está ali, cooperando e sendo bem visto; no seguinte, encontra-se na cadeia, sendo torturado ou enviado para um gulag. O mesmo acontece com os chamados presos políticos que, na prisão ou no gulag, têm seu destino selado pelo jogo de cartas entre os “chefes” dos criminosos.  

São, portanto, pequenas biografias romanceadas de algumas vítimas do terror stalinista, e Kis traça ainda um paralelo com a Inquisição, incluindo o capítulo “Cães e livros”. O autor cita Marco Aurélio, em Meditações: “Quem viu o presente viu tudo: o que ocorreu num passado recente e o que irá ocorrer no futuro.” Para Kis, trata-se de uma evolução cíclica dos tempos.

De fato, quando estudamos História, percebemos o quanto tudo parece sempre se repetir de alguma maneira: em outro tempo, em outro contexto, mas com o ser humano permanecendo, essencialmente, o mesmo.

Um livro duro, inquietante e profundamente atual. 

Kis Danilo nasceu em Subotica (antiga Ioguslávia), Sérvia, em 1935 e faleceu em Paris, França em 1989.