Autobiografia do Algodão
Cristina Rivera Garza
Editora Autêntica Contemporânea - 1ª ed. 2025.
AUTOBIOGRAFIA DO ALGODÃO – CRISTINA RIVERA GARZA
Cristina Rivera Garza nos brinda
com “Autobiografia do algodão”, um livro que não foi escrito para ressuscitar a
história de seus avós e de suas lutas na fronteira do México com os EUA, mas
para reescrevê-la. Sua escrita é híbrida, ela trabalha o algodão como
organismo, matéria-prima e metáfora.
É uma autobiografia escrita no
coletivo, não se trata de mais uma autobiografia focada no eu individual, e a
pergunta é quem sou eu? E não o que me fizeram? Só aqui já temos algo precioso,
pois ela foge de um certo vitimismo, mas vai em busca de suas origens, de suas
raízes e que acabam demonstrando aspectos próprios dela, que ela assume com
orgulho.
A história de sua família
(particular) se encontra, se dá dentro do macropolítico (a história do algodão
no capitalismo agrícola). O algodão e a terra são personagens dessa história
particular, mas também da história de todos ali. Esse duplo movimento entre o
particular e o social-político se dá porque as histórias de família na América
Latina nunca estão separadas da história do colonialismo. Os corpos e memórias
se organizam na escala do latifúndio, da migração, da violência econômica, e
não apenas na esfera doméstica.
Garza faz uso na escrita de documentos,
registros históricos, telegramas. Mescla a ficção com a não ficção, com pitadas
de realismo mágico, uma defesa do meio ambiente que é algo moderno, se baseia
em um livro escrito por alguém que esteve presente nos acontecimentos, e as
histórias contadas por familiares. O “eu” aparece de modo fraturado, poroso, às
vezes investigativo, às vezes melancólico.
A fronteira é personagem, o rio
Bravo, que divide o território na geografia política, mas que na verdade une.
Durante muito tempo pensei no Oceano Atlântico como separando o Brasil da
Europa, eu no Brasil, a família toda da Europa, até que me dei conta que ele
unia os dois continentes. Garza traz Glória Anzaldúa, que também vivenciou esta
fronteira, só que do lado de lá. A planta, o algodão, atravessa a fronteira,
mas o corpo que a colhe nem sempre pode. Há um momento em que ela se refere às
nuvens, que também não são barradas pela fronteira e seus controles.
A história da greve dos
trabalhadores do algodão e a cidade ou vila onde ocorreu foram apagados da
história, e com isso se apagou também a história dessas famílias. Se apagou a
memória, ela nem sabia que era indígena, seus pais pouco falavam da família.


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