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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CONSCIÊNCIA FEMINISTA COMO PROCESSO HISTÓRICO

 

A CRIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA FEMINISTA

A luta de 1.200 anos das mulheres para libertar suas mentes do pensamento patriarcal

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

472 páginas

A Criação da Consciência Feminista é uma obra fundamental de Gerda Lerner, historiadora que teve papel decisivo na consolidação da História das Mulheres como campo acadêmico. Neste livro, Lerner investiga como, ao longo de séculos, mulheres foram lentamente construindo uma consciência de si enquanto grupo oprimido, apesar de viverem em sociedades estruturadas para silenciá-las, isolá-las e excluí-las da produção do conhecimento. O foco central não é apenas a opressão, mas o processo histórico pelo qual algumas mulheres conseguiram reconhecê-la, nomeá-la e, progressivamente, transformá-la em pensamento crítico e ação política.

A autora percorre um arco histórico que vai da Antiguidade ao século XIX, analisando textos, experiências religiosas, produções intelectuais e práticas sociais nas quais mulheres começaram a refletir sobre sua própria condição. Lerner demonstra que a exclusão das mulheres da educação formal e das instituições do saber não impediu completamente a produção de pensamento feminino, mas a tornou fragmentária, descontínua e muitas vezes invisibilizada. Um ponto central do livro é a ideia de que a consciência feminista não surge de forma espontânea ou individual, mas como resultado de processos coletivos, de transmissão entre mulheres e de momentos históricos específicos que permitiram brechas dentro da ordem patriarcal.

Ao longo da obra, Lerner também critica a historiografia tradicional por tratar a experiência masculina como universal, mostrando como isso distorce a compreensão da história como um todo. Ela sustenta que a consciência feminista nasce quando as mulheres passam a entender que sua condição não é natural nem imutável, mas histórica, e, portanto, passível de transformação. O livro não se propõe a narrar uma história linear do feminismo, mas a explicar as condições que tornaram possível o surgimento do pensamento feminista moderno. Trata-se de uma leitura clara, rigorosa e didática, essencial para quem deseja compreender as bases históricas do feminismo e o longo processo de construção da consciência das mulheres sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca.


Gerda Lerner nasceu em Viena, Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

DESMONTANDO A JORNADA DO HERÓI COMO NORMA

 


A HEROÍNA DE 1001 FACES

O Resgate do protagonismo feminino na narrativa exclusivamente masculina da jornada do herói

MARIA TATAR

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

479 páginas

Em A Heroína de 1001 Faces, Maria Tatar parte de uma crítica direta e necessária a Joseph Campbell e ao seu clássico O Herói de Mil Faces. Não se trata apenas de apontar uma ausência incômoda — a quase inexistência de mulheres —, mas de questionar o próprio alicerce de uma narrativa que se pretende universal e que, no entanto, é profundamente masculina. A resposta de Campbell, segundo a qual às mulheres caberia o papel de mães dos heróis, torna essa exclusão ainda mais reveladora.

É a partir desse vazio que Tatar constrói seu projeto: buscar as heroínas apagadas, deslocadas ou mal interpretadas pela tradição. Daí o título provocador — 1001 faces, uma a mais, aberta ao infinito, recusando a ideia de um modelo único e normativo de heroísmo.

A autora inicia pela mitologia, revisitando figuras femininas que escapam à passividade e à função meramente auxiliar. Em seguida, avança para a literatura, destacando escritoras e suas protagonistas, personagens que não percorrem a jornada do herói tal como descrita por Campbell, mas que enfrentam desafios igualmente radicais. O percurso se expande para séries e filmes contemporâneos e culmina nas mulheres detetives, figuras que investigam, desobedecem, persistem e que pensam.

O mérito central do livro está em mostrar que o feminino não é uma versão menor do masculino. As heroínas não são menos corajosas, audaciosas ou fortes; elas apenas agem de outra forma. Muitas vezes não partem para conquistar territórios, mas para preservar vínculos; não buscam a glória individual, mas a sobrevivência coletiva; não vencem monstros externos sem antes enfrentar violências íntimas, sociais e simbólicas.

Tatar não propõe substituir um modelo por outro, nem criar uma nova fórmula rígida para o protagonismo feminino. Ao contrário, seu gesto é abrir o campo narrativo, mostrando que existem múltiplas formas de atravessar o perigo, o medo e a transformação. Ao fazer isso, o livro também nos convida a reler as histórias que consumimos — mitológicas, literárias ou audiovisuais — com um olhar mais atento às exclusões que naturalizamos.

A Heroína de 1001 Faces é um livro instigante, que valeu a leitura justamente por desmontar uma das narrativas mais consagradas do século XX e por devolver às mulheres o direito de serem não apenas origem, mas sujeito da aventura.


Maria Tatar nasceu em Pressath, Alemanha, em 1945. Naturalizou-se em 1956 como cidadã estadunidense. É uma acadêmica.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PATRIARCADO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA


 

A CRIAÇÃO DO PATRIARCADO

História da opressão das mulheres pelos homens

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2020

490 páginas

A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner, é uma obra essencial para compreender a construção histórica da sociedade patriarcal que ainda influencia nossas vidas hoje. Lerner oferece uma análise profunda das relações de poder entre homens e mulheres, mostrando que o patriarcado não é um fenômeno natural, mas uma construção social e histórica.

A autora inicia explorando a situação das mulheres antes do surgimento do patriarcado, destacando como sociedades matriarcais ou mais igualitárias foram gradualmente substituídas por estruturas dominadas por homens. Em seguida, ela descreve o processo histórico que consolidou o patriarcado, mostrando como mudanças econômicas, políticas e religiosas criaram mecanismos de dominação que institucionalizaram a desigualdade de gênero. Lerner também examina as diferentes formas de patriarcado que emergiram em épocas e culturas diversas, evidenciando que a opressão das mulheres variou em intensidade e forma, mas esteve sempre presente como instrumento de manutenção do poder masculino.

Ao discutir as implicações do patriarcado na sociedade contemporânea, Lerner revela como a ideologia patriarcal continua a sustentar desigualdades e limitações impostas às mulheres. Uma das maiores contribuições do livro é a forma como desafia as noções tradicionais de história: a autora mostra que a história das mulheres e a história do patriarcado são inseparáveis e que compreender um implica necessariamente compreender o outro. Além disso, evidencia que o patriarcado não é inevitável, mas resultado de processos históricos específicos, reforçando a ideia de que a opressão feminina é construída e, portanto, passível de transformação.

A Criação do Patriarcado é, assim, não apenas um estudo histórico, mas também um convite à reflexão sobre as estruturas de poder que ainda moldam nossas sociedades e sobre a necessidade de questioná-las criticamente.


Gerda Lerner nasceu em Viena, na Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


PANORAMA HISTÓRICO E POLÍTICO DA AMÉRICA LATINA


 

UMA BREVE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA

LORIS ZANATTA

CULTRIX – 1ª ED. – 2017

336 páginas

AUDIOLIVRO

NARRADOR – ZEZA MOTA     EDITOR: GRUPO PENSAMENTO


Uma Breve História da América Latina, de Loris Zanatta, oferece um panorama geral sobre a política e economia da região desde a colonização, a partir de 1800, até os tempos mais próximos do presente. Embora o livro seja resumido e não aprofunde todos os temas, ele fornece uma visão introdutória valiosa para quem, como eu, conhece pouco sobre a história latino-americana, especialmente considerando que o assunto raramente é abordado nas escolas, exceto por eventos isolados como a Guerra do Paraguai.

Zanatta mostra que a América Latina é uma região plural, composta por múltiplos países, tradições, culturas e geografias distintas. Apesar de alguns elementos em comum, como a herança do catolicismo, a colonização europeia e, posteriormente, a influência do imperialismo estadunidense, essas semelhanças não são suficientes para considerá-la uma unidade. A complexidade do continente lembra a observação de Gabriel García Márquez sobre as diferenças entre a Colômbia caribenha e a Colômbia andina, multiplicadas ao se considerar toda a América Latina, incluindo o Brasil, que se distingue ainda mais por suas particularidades.

Para quem tem pouco conhecimento prévio, o livro é um bom ponto de partida, oferecendo um panorama que permite compreender o contexto histórico e político da região antes de se aprofundar em estudos mais detalhados.


Loris Zanatta nasceu em 1962. É professor de História da América Latina na Universidade de Bolonha, Itália. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

NEUROSSEXISMO, CIÊNCIA E PODER

 


HOMENS NÃO SÃO DE MARTE MULHERES NÃO SÃO DE VÊNUS

Como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos

CORDELIA FINE

CULTRIX – 1ª ED. 2015

424 páginas 

Você provavelmente já viu o livro — ou o filme — Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, que supostamente “provaria” a existência de diferenças sexuais no cérebro humano. A partir dessa ideia, constrói-se a narrativa de que os homens seriam mais racionais e lógicos, saberiam ler gráficos e dirigiriam melhor, enquanto as mulheres seriam mais emocionais, teriam maior empatia e facilidade para os relacionamentos, mas seriam péssimas motoristas, incapazes de interpretar dados ou lidar com números — e assim por diante.

Pois bem: a neurocientista e psicóloga Cordelia Fine, apoiada em inúmeras pesquisas científicas, desmonta esse mito pseudocientífico das diferenças cerebrais entre homens e mulheres.

É verdade que podem ser encontradas algumas diferenças, mas nenhuma que justifique desigualdades na capacidade intelectual entre os sexos. Matemática, física e ciência são igualmente possíveis para homens e mulheres; assim como empatia, cuidado com a casa, com os filhos e com os outros também o são. Não há predisposição biológica que determine essas divisões.

Mais uma vez, nos deparamos com uma pseudociência que tenta justificar a superioridade masculina a partir da biologia e da “natureza”. O mais preocupante é que muitas mulheres acabam acreditando nesses discursos e, por efeito social, passam a apresentar desempenho inferior em áreas consideradas masculinas. Ao mesmo tempo, muitos homens sequer se aventuram em campos vistos como femininos — e, quando o fazem, correm o risco de serem estigmatizados e feminizados pela sociedade.

Apesar de trazer uma grande quantidade de pesquisas e relatos — e embora a tradução por vezes me pareça um pouco truncada —, a leitura vale muito a pena.


Cordélia Fine nasceu em Toronto, Ontario, Canadá, em 1975. É uma psicóloga e Filósofa.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

LIVRO: O PONTO DE MUTAÇÃO - A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente - FRITJOF CAPRA


Capra, Fritjof. Cultrix, 1982
Tradução: Álvaro Cabral
432 páginas

Li este livro a primeira vez em 1983 para um trabalho na Universidade. Depois voltei inúmeras vezes à ele e a última foi em 2012 para novamente fazer um trabalho, desta vez para a Faculdade de Filosofia. Também assisti ao filme.

Um livro que continua atual e que merece ser lido. Capra é Ph.D. em Física Teórica e sua tese é de que precisamos mudar nossos paradigmas. Faz uma análise destes  visitando o pensamento de Descartes, Newton e de como estas idéias atuam no mundo, dividindo, separando, ao invés de ver o todo. Para Capra o todo é maior que a soma das partes, e ele defende uma visão holística do mundo.
Segundo Capra todas as crises pelas quais passamos sejam políticas, econômicas, psicológicas e sociais se dão porque temos uma visão errônea das coisas, queremos separar cada coisa e na realidade tudo isto funciona junto. Não há como resolver uma questão econômica sem levar em conta o contexto político, o psicológico das pessoas, o sociológico e o ecológico.

Capra parte em direção de uma nova física, com Einstein e a teoria da Relatividade na qual espaço e tempo são inseparáveis. Defende uma visão sistêmica do mundo vendo a tudo como relações, uma teia, e não por partes. A visão holística pensa no futuro, em que possamos deixar algo para nossos descendentes e frear o consumo desenfreado, e desgaste e a destruição da natureza sem pensar ecologicamente. É uma mudança de valores, ética e em nossas crenças, ou seja, trocar de paradigma. Um ponto de mutação, de mudança.

Este livro é para ser lido e relido, estudado e para meditar sobre o que estamos fazendo com nosso planeta, como estamos vivendo, o que realmente tem valor e o que não tem, quais nossas reais necessidades. Vivemos num mundo onde o vazio, a solidão, a violência, a depressão impera, será que estamos agindo da melhor forma? Será que não vale a pena mudar?

Fritjof Capra nasceu em 1939 em Viena, Áustria. É um físico teórico doutorado pela Universidade de Viena.


Entrevista com Fritjof Capra : http://www.youtube.com/watch?v=P6-yuMpk6B8