SUBMISSÃO
OBJETIVA – 1ª ED. – 2015
Tradução: Rosa Freire D’Aguiar
251 páginas
PAÍS – FRANÇA
Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.
Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.
O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.
A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.
Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.
O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.






