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domingo, 12 de abril de 2015

FILME: MOMMY - 2014




Direção: Xavier Dolan - 2014
Duração: 139 min
País: Canadá 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014

O filme se passa no Canadá. Diane Després (Anne Dorval) está indo buscar seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) em uma instituição para jovens problemáticos de onde foi expulso por haver ateado fogo na cafeteria local e com isto um garoto sofreu queimaduras de terceiro grau. Diane acredita que é capaz de cuidar dele sozinha.

Steve é hiperativo e muitas vezes se torna agressivo. Em uma das cenas por haver sido contrariado em seu desejo de ofertar um presente à mãe que sabe que se trata de um objeto furtado ele a agride e ela tem que se refugiar em outro cômodo. É quando a vizinha da frente se aproxima e irá tentar ajudar Diane.

Um filme que é tocante e terno por um lado e que nos angustia por outro. Uma relação limite entre mãe e filho. Steve em certos momentos é terno e doce como um bebê, mas em outros agressivo e hiperativo. A presença de Kyla (Suzanne Clément), a vizinha, traz alguns momentos de alegria, e um fará bem ao outro, mas quando se vive em situações limites alguém terá que fazer uma escolha e tentar que ela seja a melhor, acreditar e ter esperança.


O que notamos é que após a morte do pai o filho se agarra à mãe, há algo até mesmo de incestuoso na relação dos dois, fusional, sem espaço para que um terceiro entre. Steve tem ciúmes de sua mãe e se torna agressivo. Por outro lado a mãe o superprotege dos outros. Não admite que ninguém fale algo dele, ou queira colocá-lo em seu lugar. Ela tenta ser rigorosa com ele, mas acaba não conseguindo, seja porque ele a cativa e seduz, ou porque ele se torna agressivo e neste momento ela não dá conta.



Para Steve talvez seja muito difícil ter uma mãe bonita e sexy, uma mãe sexuada, e na falta do pai para ser o objeto de desejo dela, ele não aceita que outro venha ocupar este lugar, então ele tenta suprir a falta da mãe de todas as maneiras. Kyla por um momento é uma interrupção disto, um terceiro que entra para afastar um pouco esta fusão. 


Xavier Dolan nasceu em 1989 em Montreal, Canadá 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

FILME: EU, MAMÃE E OS MENINOS - LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE - 2013


Direção: Guillaume Gallienne - 2013 
Duração: 85 min
Título original: Les garçons et Guillaume, à table. 

Após rir muito pela comédia, que me lembra bem a Comédia Humana, vejo o filme como algo extremamente sério. Um filme brilhante que se utiliza do humor, há melhor cura? para tratar de um tema difícil, a mãe e a identidade sexual do filho, de forma sensível.

A mãe de Guillaume costumava chamar seus filhos para ir à mesa dizendo: Les garços et Guillaume, à table. Os meninos e Guillaume, à mesa. Esta é a frase que marcou sua primeira infância.

Guillaume (Guillaume Gallienne) é tratado pela mãe (interpretada também por ele) como uma menina, e ele acredita ser uma menina. Ela é autoritária, mas o ama, e ele mais ainda. Nem a intervenção do pai (André Marcon) é capaz de mudar algo. Partindo da forma como a mãe chamava os filhos ele passa a ver que é diferente "dos meninos", portanto, deve ser uma menina. Seus irmãos faziam coisas diferentes dele, nas férias viajavam com o pai, e ele não ia porque não gostava de nada do que eles faziam, segundo a mãe, e Guillaume acredita nisto tudo. Seu problema é convencer o pai que é uma menina.

Ele passa a maior parte do filme buscando se afirmar como uma menina, nunca lhe passou pela cabeça ser um homossexual até o dia que sua mãe lhe diz isto. A partir daí ele começa a se questionar, ele diz: eu não sou um homossexual, sou uma menina e por isto gosto de meninos. Mas como é do sexo masculino terá que ir para o exército. Não será aceito e o médico o aconselha a procurar um psicanalista. Ele vai à vários, conversa com suas tias, avó, numa busca de se constituir, de sua identidade. Finalmente começará a compreender e seu primeiro passo é vencer seu maior medo, o de cavalos, o que fará. Então irá a uma reunião só de mulheres, e é quando ouve a frase oposta, As meninas e Guillaume, à mesa.

Durante toda sua vida havia sido tratado como homossexual, pela mãe, pelo seu pai e seus irmãos, pelos colegas do internato, até que neste momento alguém o identifica como homem, como alguém diferente das meninas.

E nesta reunião ele conhece Amandine, e se apaixona. Agora terá que se confrontar com a mãe, que durante o filme todo lhe aparece em visões, fazendo as escolhas por ele, incentivando ou desaconselhando-o a fazer algo. É a cena mais linda do filme, quando ele diz que há duas coisas que ele precisa lhe dizer, e a primeira é que ele não é homossexual e sim heterossexual. O diz informando que irá escrever uma peça de teatro sobre uma família que criou seu filho menino como se fosse um homossexual. A mãe o questiona, pergunta pela prova de que ele seja realmente heterossexual. Sim, se toda a família o via assim, ou todos são idiotas ou ele tem que ter uma prova. Então ele compreende. O medo dela de que ele amasse outra mulher, de que deixasse aquele lugar da menina que ela desejava. A segunda coisa a dizer é que ele e Amandine irão se casar, e a mãe em seu grand finalle diz: com quem?

O bebê nasce sem ter nenhuma noção de que é menino ou menina, isto lhe vai ser passado, vai ser constituído. Começa pelo nome, pelo o que lhe dirão, a educação que lhe darão, até o momento onde a criança descobre que há diferença sexual em seu corpo, o menino é diferente da menina. Mas a maior formação desta identidade vem pela linguagem e pela identificação com um dos pais. E é aí que Guillaume se identifica com a mãe, quer ser como ela, tão bonita, tão inteligente. A mãe já tinha dois filhos e desejava uma menina e ele se identifica a este desejo e o atende, é  o seu fantasma. E a mãe aceita isto. É uma fantasia tão forte que ele não percebe que não é uma menina, só o faz quando a mãe o chama de homossexual.

A Interpretação de Guillaume nos dois papéis é fantástica, a ponto de demorarmos para perceber que é o mesmo ator. Um filme que vale a pena assistir, seja para rir muito, seja para compreender o papel que uma família tem na construção da identidade de uma pessoa.

A música final é ótima. Recomendo.


Guillaume Gallienne nasceu em 1972 em Neuilly-Sur-Seine, França.

Trilha sonora de Marie-Jeanne Serrero. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

FILME: SONATA DE OUTONO - 1978




Direção: Ingmar Bergman - 1978
Duração: 99 min
Título original: Höstsonaten 
Roteiro: Ingmar Bergman 
País: Suécia 

Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Prêmio Globo de Ouro. 

Produção Suécia, Alemanha e França. 

A relação entre mãe e filha

De uma lado a filha Eva (Liv Ullmann), do outro a mãe Charlote (Ingrid Bergman), duas brilhantes interpretações.



A mãe vai visitar a filha no interior da Noruega onde ela vive com o marido após muitos anos sem se verem. O que era para ser um reencontro feliz transforma-se num confronto entre mãe e filha a respeito de seus conflitos, raivas, dores, cobranças.

Ao chegar Charlote descobre que sua outra filha doente que ela acreditava internada também está ali, Eva a trouxe para morar ali.

Charlote é espaçosa, fala muito, decide tudo e Eva é tímida, retraída, difícil de ser satisfeita. A mãe é uma pianista famosa, e Eva tenta tocar algo para a mãe. O rosto, a expressão que Ingrid Bergman coloca no rosto é algo impagável, não há palavras para expressar. O confronto se torna inevitável, Eva deixa todo seu ódio pela mãe aparecer e o fala. Ela se apega a sua verdade, ao que a mãe é para ela, seus efeitos. Não consegue olhar para a mãe, de certa maneira fala como a criança que não conseguia ver a mãe como uma mulher que também tem suas questões, que também pode ser frágil por baixo de tanta segurança.


Seu desejo de fusão com a mãe se reflete na relação que Eva mantém com seu filho morto, que está sempre ali e nunca se separam. Ela não permite que o filho morra.
Tudo é culpa da mãe, até a doença de Helena, a acusa de só ter olhos para si mesma.
Charlote tenta se defender, explicar, pedir perdão. Se recorda de sua mãe, fala de sua incapacidade de amar, de seus medos.
Eva julga, acusa dentro das suas certezas, não "perdoa" a mãe, exceto no final, quando a mãe vai embora novamente.
Charlote vive a solidão, sempre viajando, é famosa, mas não se satisfaz. É uma busca constante de algo que ela não sabe o que é. Nenhum lugar está bom. Talvez seja devido a divisão que sofre entre a carreira e a família.
Eva é ressentida em relação a sua mãe por seu pai, e ela tem certeza sobre o pai e a relação que ele tinha com a mãe, o que na verdade não pode saber. O que ela sabe é o que sentiu, o que introjetou, mas que não quer dizer que foi assim para os dois.
A mãe interna que Eva tem dentro de si não é uma mãe amorosa que cuidou dela. Ela não teve este modelo com o qual se identificar.
Se por um lado um filho não pode odiar a mãe, esta também não pode odiar o filho, mas o que o filme nos mostra e o que é a realidade tão difícil de ser aceita é que o amor e o ódio são faces da mesma moeda, onde um está com certeza tem o outro, do contrário é a indiferença. E mesmo sendo mãe ou filha, há sempre a alteridade de cada um, portanto o que Eva tem certeza de ser assim, não é para Charlote, nem para o pai dela. E esta mãe que Eva odeia, e que acha culpada pelo estado de Helena, é amada por esta filha que é desprezada, ou melhor, afastada pela falta de coragem da mãe de enfrentar isto.



Mas Charlote pede perdão à Eva, que só depois consegue pedir o mesmo, lhe escrevendo uma carta. Que este momento difícil e dolorido possa então abrir novas possibilidades para todos.



Vale ler o roteiro também onde é possível acompanhar o confronto com mais vagar, mas o filme tem que ser visto, pois as expressões faciais não podem ser descritas.

Assista ao trailer:







Ingmar Bergman nasceu em 1918 em Uppsala e faleceu em 2007 em Farö, Suécia. Seus temas são a existência, a solidão, a fé, a mortalidade. Para Bergman filmar é encontrar respostas. 



Frédéric Chopin 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: A ESTRANHA PASSAGEIRA - 1942



Direção: Irving Rapper - 1942
Duração: 117 min 
Título original: Now, Voyager 
Roteiro: Olive Higgins e Casey Robinson 
País: Estados Unidos 

Adaptação da novela homônima de Olive Higgins Prouty. 

Filme selecionado para preservação pela biblioteca do Congresso Nacional dos EUA. 



É um filme antigo (1942) .Uma mãe perversa (Gladys Cooper) que quase destrói a filha Charlotte ( Bette Davis) . Só não o faz por que a cunhada percebe e leva um amigo psiquiatra para vê-la, Dr. Jaquith (Claude Rains). Ele aconselha o internamento dela, mas com o intuito de afastá-la da mãe. Ela não fica internada muito tempo. E depois vai fazer uma viagem e conhece Jerry ( Paul Henreid) por quem se apaixona . A mudança que se opera é enorme. A mãe de Charlote é autoritária, possessiva, não permite a filha ter escolhas, critica tudo nela, chantagista, e só quer o seu desejo sendo atendido. Foi a última filha e ela diz que o filho caçula vem ao mundo para cuidar da mãe. E que ela vai fazer o que ela quer. Ainda bem que a cunhada entra no meio destas duas. Depois ela retorna, mas nunca mais será como antes. Como a mãe percebe elas se confrontam, e neste momento sua chantagem funciona no real, ela morre. A mãe chega a se jogar da escada de propósito para se fazer de vítima e prender a filha. Há outra mãe que não aparece, mas que ouvimos falar dela, a mãe de Tina, uma menina, e esta é pior ainda, a rivalidade em relação ao pai é tão grande que ela quer se livrar da filha.
O quadro é típico: baixa auto-estima, medo, crises, afastamento e isolamento, revolta. O filme não chega a mostrar a psicose, não há delírios, nem alucinações, nem a percepção de que sou culpada, eu causei. Isto fica claro quando a mãe morre, no começo ela se sente culpada, mas depois aos poucos, voltando para a clínica, ela se liberta. E passa a trabalhar lá, e depois fica com Tina. No meio disto tudo uma história de amor impossível.





Irving Rapper nasceu em 1898 em Londres, Inglaterra e faleceu em 1999 em Los Angeles, EUA

Trilha sonora de Max Steiner 

Max Steiner nasceu em 1888 em Viena, Àustria e faleceu em 1971 em Los Angeles, Califórnia, EUA. Foi um compositor do cinema americano.