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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

INFÂNCIA, POBREZA E ESCÂNDALO MORAL


 

CAPITÃES DA AREIA

JORGE AMADO

COMPANHIA DE BOLSO – 2009

280 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Ler Capitães da Areia muito jovem é uma experiência que não se esquece. Talvez porque Jorge Amado não escreva sobre a infância a partir da nostalgia, mas a partir da rua, da fome, da violência e da liberdade brutal que marca a vida dos meninos e meninas abandonados de Salvador. O livro revela um Brasil que prefere não ver: crianças vivendo à margem, organizadas em bandos, sobrevivendo entre pequenos furtos, afetos precários e uma relação dura com a cidade.

O que mais me marcou à época foi justamente essa revelação da pobreza infantil não como exceção, mas como estrutura. Jorge Amado não romantiza completamente esses meninos, embora haja ternura, ele os insere em um sistema social que os produz e depois os condena. A violência não surge do nada, ela é resposta, defesa, aprendizado precoce.

Há também um segundo impacto, inseparável da idade em que li o livro: a presença de uma cena de sexo envolvendo personagens muito jovens. Algo que causa polêmica até hoje e talvez por isso mesmo continue sendo um ponto sensível da obra. Na época, o choque não vinha apenas do conteúdo, mas do fato de que o livro desmontava a imagem idealizada da infância como espaço de pureza e proteção. Em Capitães da Areia, a infância é atravessada pelo desejo, pela exploração, pela falta de escolha.

Essa cena, tantas vezes isolada em debates morais, só faz sentido dentro do universo que o livro constrói: um mundo onde não há mediação adulta cuidadora, onde o corpo também é um território exposto. A polêmica persiste porque o livro obriga o leitor a encarar uma pergunta incômoda: o que a sociedade faz com suas crianças antes de julgá-las?

Reler Capitães da Areia hoje, mesmo à distância da leitura original, é perceber que o romance não envelheceu. A pobreza infantil, a criminalização da juventude pobre, o desconforto diante de corpos jovens fora do controle moral continua presente. O escândalo, talvez, nunca tenha sido o livro — mas a realidade que ele insiste em mostrar.


Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 1912 e faleceu em Salvador em 2001.Foi um escritor brasileiro. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O CUSTO HUMANO DA SALVAÇÃO

 


O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DE BOLSO – 2005

376 páginas 


Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago propõe uma reinterpretação radical da figura de Jesus, narrando sua história de modo a desafiar frontalmente as crenças religiosas convencionais. Não se trata de uma negação simples do cristianismo, mas de uma reescrita que desloca seus fundamentos, expondo tensões éticas, políticas e teológicas geralmente silenciadas.

A narrativa se inicia com o nascimento de Jesus em Belém, mas desde as primeiras páginas fica claro que Saramago não está interessado em repetir a versão bíblica consagrada. O autor rapidamente abandona a infância milagrosa e avança para a vida adulta, concentrando-se no momento em que Jesus passa a ser confrontado pelas exigências de sua missão — exigências que não aparecem como redenção, mas como imposição.

O Jesus de Saramago é, antes de tudo, um homem. Um homem atravessado por dúvidas, medos, desejos e tentações. Um homem que sofre, ama, hesita e se interroga. Ao humanizar radicalmente Jesus, Saramago desmonta a imagem de um messias plenamente consciente de seu destino e revela o peso insuportável de uma identidade divina que não foi escolhida, mas imposta. A relação com Deus não é de obediência serena, mas de conflito; a fé não é conforto, mas inquietação.

As relações de Jesus com seus discípulos, com Maria e com outras figuras bíblicas são igualmente deslocadas. Maria deixa de ocupar o lugar idealizado da virgindade intocável para surgir como mulher marcada pela dor, pela culpa e pela perda. A santidade dá lugar à experiência concreta, corporal e histórica. Ao fazê-lo, Saramago questiona não apenas dogmas específicos — como a Trindade ou a virgindade de Maria —, mas a própria lógica que sustenta uma teologia fundada no sacrifício.

Ao longo do romance, a crítica à Igreja Católica e ao seu papel histórico é incisiva. O cristianismo aparece menos como mensagem de amor e mais como projeto de poder, sustentado pela dor e pelo sofrimento humanos. Essa crítica atinge seu ponto mais alto no célebre encontro, em um barco, entre Jesus, Deus e o diabo. O diálogo entre os três é magistral e perturbador: Deus surge como figura sedenta de domínio, disposto a sacrificar o próprio filho para ampliar seu reino; o diabo, paradoxalmente, aparece como aquele que reconhece o horror desse plano; e Jesus, preso entre ambos, percebe que seu destino não é salvar o mundo, mas inaugurá-lo como espaço permanente de culpa e violência.

Nesse sentido, O Evangelho Segundo Jesus Cristo não é apenas um romance religioso, mas uma reflexão profunda sobre poder, obediência e responsabilidade. Saramago nos obriga a perguntar: que tipo de Deus exige o sofrimento como prova de amor? Que tipo de fé se funda no sacrifício de um inocente? Ao devolver a Jesus sua humanidade, o autor desloca o sagrado e expõe o custo humano das grandes narrativas de salvação.

É um livro incômodo — e justamente por isso necessário.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias na Espanha em 2010. Foi um escritor português que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: RELATO DE UM CERTO ORIENTE - MILTON HATOUM



Hatoum, Milton. Companhia das Letras - Selo Companhia de Bolso - 2008
152 páginas.

REENCONTRO COM SUAS RAÍZES

Uma mulher que não é nomeada retorna ao local de sua infância - Manaus - quando sua mãe adotiva, Emilie, falece e começa a se recordar de sua infância, que será narrada por ela mas, também por outros personagens que ali se encontram devido ao mesmo motivo e que irão se recordar de Emilie e de suas vidas naquela época.
O livro também trabalha com antíteses, como a cidade e a floresta, a vida e a morte, mas o mais impressionante é a aproximação que se faz entre duas religiões, a católica e a muçulmana, através do casamento de Emilie e seu marido também não nomeado. O Oriente vive no meio da floresta Amazônica, na cidade de Manaus, um certo Oriente com cara de Brasil, onde as diferenças conseguem conviver, mesmo com seus atritos.


Milton Hatoum nasceu em 1952 na cidade de Manaus - Amazonas.