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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

LIVRO: LIVRE - A jornada de uma mulher em busca do recomeço - CHERYL STRAYED



Strayed, Cheryl. Objetiva, 2013
375 páginas
Tradução: Débora Chaves
Título Original: Wild 

Assisti ao filme recentemente e já postei no Blog. Ontem terminei a leitura do livro. 

O filme condensa todo o percurso de Cheryl pela PCT - Pacific Crest Trail, por 1770 quilômetros partindo do deserto de Mojave no sul da Califórnia até a Ponte dos Deuses no Estado de Washington, mas no livro podemos acompanhá-la mais vagarosamente em suas dificuldades, obstáculos, momentos especiais, alegrias, conquistas, e toda a transformação que se processa nela mesma. 

Após a morte de sua mãe aos 45 anos de idade de um câncer Cheryl não se recupera e cada vez se perde mais de si mesma até o dia que ao descobrir que está grávida, sem ao menos saber quem seria o pai, ela faz um aborto e reconhece que virou algo horrível, que não é mais possível continuar assim. Ela se divorcia do marido, e começa os preparativos para sua caminhada sozinha pela PCT.

O livro relata esta jornada, e apesar de termos a impressão de que nada ocorre internamente, uma vez que ela está focada no externo, na atenção que tem que ter na trilha devido cascavéis, animais, buracos, obstáculos, o cansaço físico, a constatação de seu despreparo para fazer isto, o tamanho de sua mochila que ela apelida de "a monstra", o descuido de que poderia haver vários imprevistos o que a coloca em situações difíceis como a falta de água, ter que fazer um desvio devido a neve excepcional naquele ano que a tira de sua rota e acaba deixando-a sem dinheiro em alguns momentos, aos poucos algo dentro dela vai se transformando, como se tudo o que ocorre no externo seja apenas uma metáfora de sua transformação interna, até o momento em que ela dá o salto psíquico.

Era o dia que sua mãe deveria completar 50 anos, e neste dia Cheryl consegue gritar e colocar em palavras tudo que sente, é o momento de sua libertação interna que irá possibilitar um renascimento. Lamento que o filme não tenha colocado este momento por completo como está no livro. Ao assistir senti falta deste momento, onde ocorreu a cura? a ultrapassagem? o momento decisivo para toda sua mudança? e o encontrei no livro.

Confesso que adoraria ter a coragem dela, é uma caminhada de crescimento, de percepção de si mesma, de enfrentamento, de superação. Eu prefiro fazer isto no divã de um analista. O processo interno ocorre da mesma forma, mas leva mais tempo. Eu não superaria o medo da noite, o medo do outro, de sofrer algum tipo de agressão, nunca faria isto sozinha como ela fez, mas adoraria fazê-lo.


Com sua família que constituiu após a trilha

Cheryl na trilha 

Mapa da PCT

PCT
PCT
PCT

segunda-feira, 14 de julho de 2014

LIVRO: CONSOLAÇÃO - BETTY MILAN



Milan, Betty. Record, 2009
165 páginas

Laura vive em Paris com seu filho e o marido Jacques que vive a agonia terminal de um câncer, levando-o a reviver os fantasmas da segunda guerra mundial, dentro de uma semi-consciência.

Após a morte de Jacques ela retorna ao Brasil, sua terra natal, mas ao chegar ao aeroporto não se dirige de imediato para sua família, mas antes ela vai para o centro de São Paulo e ao cemitério Consolação.

O título consolação adquire a ambivalência do nome do cemitério como também a significação do consolo, da aceitação, da consolação não apenas pela morte do marido, mas pelas misérias da vida.

Caminha pelo cemitério e conversa com os mortos, depois segue o conselho de seu pai, e vagueia pelas ruas, conversa com moradores de rua. É uma errância, um perder-se para se reencontrar. Ao ouvir os mortos e os que nunca são ouvidos se dá conta de que ninguém deixa realmente de existir porque morre.

A pessoa que partiu continua viva, ela vive em nós, nas nossas lembranças, memórias, nas coisas que deixou, que fez, ela continua sendo o que foi. É esta a consolação para a perda, e isto é o saber viver.

Betty Milan 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: PAULA - ISABEL ALLENDE


Allende, Isabel. 2ª ed. Bertrand Brasil, 1995
Tradução: Irene Moutinho
472 páginas

Em 1991 Paula, a filha de Isabel Allende adoeceu gravemente e logo entrou em coma. Estavam na Espanha. Isabel vai para lá e sua mãe também, e começam a longa vigília na esperança que Paula acordasse.

Para vencer a angústia do tempo que não passa Isabel começa a escrever para sua filha este livro, onde conta a história da família, pensando que quando ela acordar poderá lhe oferecer estes escritos.

A maior dor de um ser humano é perder um filho. É tão brutal que não nem nomeação para este estado, dizemos que quem perdeu o cônjuge é viúvo, quem perdeu os pais é órfão, mas e quem perdeu um filho, o que é? Já não pode nem dizer sou mãe, teria que dizer fui mãe de ... pois este filho nunca será substituído, mesmo havendo outros.

O livro é o relato da dor desta mãe, das suas esperanças e angústias, medos, mas é também o relato de sua família e da história do Chile. A dedicação do marido de Paula, todo seu amor a sua jovem esposa que nos toca profundamente.

Foram meses, longos meses, enquanto este livro era escrito com a dor, mas também a força desta mãe, que precisava continuar a viver, é uma evocação à vida e uma linda homenagem à sua filha.

Isabel Allende com seus filhos Nicolas e Paula 

Isabel Allende Llona nasceu em 1942 na cidade de Lima - Peru, apesar de ter nascido em Lima é considerada Chilena, e atualmente vive nos Estados Unidos.





sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DE UMA VIÚVA - JOYCE CAROL OATES



Oates, Joyce Carol. Objetiva, 2013 - Selo Alfaguara
Tradução: Débora Landsberg
453 páginas
Título original: A Widow's Story

Joyce Smith, esposa de Raymond Smith, casados por 47 anos, uma vida, e de repente, ela está viúva, sem esperar por isto apesar de ter havido o que ela supos serem sinais que isto iria ocorrer, mas não era previsível. Ela retorna de uma viagem e Ray está com uma gripe forte, ela o leva para o Hospital de Princeton que é o mais perto, pneumonia, ele fica internado, mas melhora, e já há a previsão para a alta quando ele sucumbe a uma infecção secundária e vem a falecer.

Choque, culpa, vazio, raiva, solidão, perder o sentido de viver, os sintomas do luto, tudo que vivemos nestes momentos de perda Oates irá nos relatar com franqueza neste livro. Toda sua dor, sua desorientação, as noites insones, a falta de energia, os amigos, as burocracias necessárias neste momento. Ela está exaurida, sofrendo, mas tem que continuar a vida.

Para quem passa uma vida ao lado de outra se ver de repente só é algo que desorienta totalmente ao que fica, ele não compreende, não sabe o que fazer, e irá a todo momento pensar: Ray faria isto, Ray faria aquilo, ele diria isto ou aquilo, o fantasma ronda, fica ali. O desejo de morrer junto, do suicídio, que Oates nos relata sob a forma de um basilisco que a persegue, aquele espécie de lagarto que zomba dela. Todo lugar onde se vai há dor e culpa: na última vez que estive aqui Ray estava junto, é estranho estar ali sem ele, ou, nunca estive aqui sem Ray, é horrível pensar que ele nunca conhecerá aquele lugar, pior ainda se ele desejava conhecer e agora não pode mais.

Ouvir condolências, ouvir as pessoas falando dele, dizendo que sentem muito, é horrível, mas se não ouvir também será horrível. Ficar em casa é ruim, mas não estar em casa também. Tudo na casa o recorda, onde compraram um quadro, a música que costumavam ouvir, ele estaria sentado ali, mas não está mais.

Sua culpa, ela se acusa de não ter feito mais, de não ter levado Ray para outro hospital, e pior, de ter sido ela a levá-lo àquele, e vê sua culpa projetada nos gatos que a estranham e se afastam como se eles soubessem que foi por culpa dela que Ray não está mais ali.

Um relato pungente sobre como realmente se sente uma pessoa de luto, o processo de separação daquele que perdemos, a parte que ele leva com ele e que não recuperamos mais, e teremos que construir algo novo no lugar. Até chegar um tempo em que as coisas se ajeitam, a separação ocorre, e a pessoa que perdemos poderá morrer, mas será sempre lembrada e amada.

Me chamou a atenção as questões culturais também, de como nos Estados Unidos após o falecimento de uma pessoa ela recebeu inúmeras cartas de condolências e presentes como flores, cestas de comida, de sucos, e como se desesperava com tudo isto. E depois ter que responder a todas estas cartas. E no caso de Oates a dificuldade que ela tinha de ouvir as pessoas falarem do marido, perguntarem dele ou falarem de sua perda, sendo que muitas vezes as pessoas anseiam por isto, por serem acolhidas, o que mostra que cada um tem sua forma de viver o luto.

Uma bela homenagem ao seu marido e a si mesma, assumindo sua dor e todas as dificuldades e desorientações, culpas e raivas que se sente no hora da perda de alguém que amamos muito, e de como aos poucos ela irá voltar a vida. Sofra por Ray, ele merece. Não só ele merece, ela também, pois é necessário viver o luto, chorar, sofrer, passar por ele para poder continuar depois.

Joyce e Raymond

Joyce Carol nasceu em 1938 em Lockport, New Your, EUA

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: O ANO DA LEITURA MÁGICA - NINA SANKOVITCH



Sankovitch, Nina. Leya, 2011
Tradução: Paulo Polzonoff
232 páginas
Título original: Tolstoy and the purple chair. My year of magic reading.

Um sanatório de livros.

É a segunda vez que leio o livro. Trata-se de um livro onde os livros se transformam em terapia.
Nina após a morte de sua irmã empreende uma fuga ocupando-se de tudo e todos numa não aceitação da morte. Três anos assim e ela se dá conta que não pode continuar, precisa parar.
Ela inicia o que chamou de o ano da leitura mágica, ou seja, ler um livro por dia durante um ano e resenhá-lo. É um percurso solitário, mas as resenhas eram uma forma de troca com os outros a respeito do que leu.
Foi a forma que encontrou para poder fazer o luto da irmã, mas foi muito mais rico que isto, pois foi uma viagem, um percurso de crescimento, compreensão, desenvolvimento pessoal.
Ela chamou de Sanatório de livros. A palavra sanatório vem de sanar, curar, acabar com algo ruim.

Pessoalmente acho complicado absorver um livro por dia, preciso de mais tempo para saboreá-lo, digerir, pensar, criticar, aprender, apesar de que há livros que leio em poucas horas. Mas ela conseguiu.

Livros são companheiros, ler é um bálsamo, uma fuga, uma viagem, um encontro consigo e com o outro, é aprender, conhecer, compreender, mas é também um lazer, um entretenimento, dependendo do que buscamos em suas páginas. Livros tem vida própria, são vagabundos, andam por aí, voltam, somem, e caem em nossas mãos exatamente quando precisamos deles. Quando entro em uma livraria sem nenhum título em mente, mas precisando de algo, eu costumo andar pelos corredores, e de repente, um livro me atrai, e com certeza é o que eu preciso. É maravilhoso!

Nina em sua poltrona roxa lendo um livro por dia durante um ano. Ela nasceu em Evanston, Illinois, EUA. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

LIVRO - DIÁRIO DE LUTO - ROLAND BARTHES



Barthes, Roland. 1ª ed. Editora WMF Martins Fontes, 2011
Tradução: Leyla Perrone-Moisés
264 páginas


Por ocasião da morte de sua mãe Barthes iniciou um diário onde coloca dia a dia suas impressões e o que sentia de 26 de outubro de 1977, dia seguinte a morte de sua mãe até 15 de Setembro de 1979. Ele escrevia em fichas que depois formaram este livro. Como perdi minha mãe recentemente a leitura deste livro mostrou-me que muitos dos meus sentimentos foram vividos por ele também. Muitas vezes sentimo-nos sufocados e pressionados pela cultura que ele chama de futuromania, ou seja, que devemos ir em frente, continuar a vida, trabalhar, sair. Porém o luto requer um certo distanciamento e tem que ser vivido, do contrário ele se torna patológico. Barthes diz que justamente o luto foi algo que ele viveu sem neuroses e sem histeria.
Outro ponto que ele toca é sobre a questão da oscilação dos sentimentos. Um dia estamos bem e no outro péssimos, num momento queremos viver, no outro não. Ele diz: "momentos em que estou distraído (falo e se necessário, gracejo) - como que seco - aos quais sucedem bruscamente emoções atrozes, até as lágrimas."
E no meu caso, foi muito importante a leitura deste livro, pois Barthes também viveu sua vida juntamente com sua mãe, e isto é algo que traz algumas diferenças no luto, pois muitos dizem que é a hora da liberdade, mas alguém já tentou fruir uma liberdade em meio a dor? onde a fruição se deve à uma perda que causa dor?
Sobre a solidão, em um momento ele usa a expressão apartamento insonoro, e isto resume o que se sente, é justamente isto, a falta de sons, da presença, é a presença da ausência, do ter alguém ali, que provoca sons, respira, fala, se move.
Um outro ponto que merece uma reflexão, sobre o fato do filho ou filha cuidar da mãe, que acaba desta forma tomando o lugar do filho e este o lugar da mãe. Então a perda da mãe neste caso é como a perda de um filho, e existe dor maior do que esta?
Barthes sente o luto como algo que não se desgasta com o tempo, que não se submete ao tempo, " o tempo não faz passar nada, só faz passar a emotividade do luto".
A morte é sempre um assunto do qual fugimos, apesar de ser algo certo e garantido, tanto a nossa, como a dos entes queridos, e por isto a leitura deste livro é um aprendizado de algo que se não nos atingiu com certeza irá nos atingir. Barthes algum tempo depois da morte de sua mãe sofreu um acidente, foi atropelado, não morreu ali, foi hospitalizado, mas não tinha vontade de viver, ele foi ao encontro de sua mãe. Muitos comentavam que era quase um suicídio, ele desistiu de viver.

Roland Barthes nasceu em 1915 em Cherbourg, França e faleceu em 1980 em Paris. Foi escritor, filósofo, sociólogo, semiólogo, crítico literário. Formou-se em Letras Clássicas em 1939 e em Gramática e Filosofia em 1943 pela Universidade de Paris. Fez parte da Escola Estruturalista.