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segunda-feira, 29 de junho de 2015

DOCUMENTÁRIO: O GRANDE MUSEU - 2014



Direção: Johannes Holzhausen - 2014
Duração: 91 min
Título Original: Das Grobe Museum
País: Áustria

Ganhador do prêmio Caligari no Festival de Berlim

Johannes Holzhausen percorreu durante dois anos com sua equipe os bastidores do Kunsthistorisches Museum, o museu de belas artes de Viena, Áustria. Um filme para quem gosta de museus e de arte, e que impressiona pelo o que são os bastidores de um grande museu. 



Eles acompanham o dia a dia dos restauradores de arte, dos curadores, dos arquivistas, da reforma em alas, e todo o cuidado com o manuseio das obras em sua retirada e novamente a colocação, a disposição dos quadros nas paredes, dos objetos nas vitrines, da iluminação correta, de quais obras irão para as alas. É inacreditável o tamanho dos arquivos, a quantidade de objetos que ficam nos bastidores, sejam para restaurar, para a manutenção, ou que não estão expostos. 



O Kunsthistorisches Museum foi inaugurado em 1891 tendo sido construído por Gottfried Semper e Karl von Hasenauer para guardar a vasta coleção imperial dos Habsburgo, que ao longo dos séculos foram os patronos das artes no país. 



Johannes Holzhausen nasceu em 1960 em Salzburgo, Áustria 

sábado, 25 de abril de 2015

FILME: LE MUR INVISIBLE - 2014



Direção: Julian Roman Pölsler - 2014
Duração: 108 min
Título Original: The wall

Adaptação do livro homônimo de Marlen Haushofer

Após assistir o filme fiquei chocada e num estado de angústia por um bom tempo. Precisei de alguns dias para conseguir escrever sobre ele. Sim, é uma ode à natureza, mas ele tem uma cena absolutamente chocante, real e cruel, e fiquei me perguntando porque? e analisando o fato do livro ter sido escrito por uma mulher. Retorno a isto no relato abaixo.

Um mulher (Martina Gedeck) vai para os Alpes Austríacos junto com um casal de amigos e seu cachorro. Assim que chegam o casal vai para o vilarejo a pé e o cachorro não os acompanha. No dia seguinte ao acordar ela percebe que eles não voltaram então segue pela estradinha com o cachorro para descobrir o que houve e se depara com um murro invisível, como uma imensa parede de vidro transparente, que ela nota tocando. Retorna e vai até uma casa nas proximidades e lá também o murro está, finalmente ela se dá conta que está presa dentro de um espaço circundado por este murro. 

Não há explicação para isto, nem o saberemos no filme que passa a focar na questão da mulher que precisa se adaptar a viver na natureza, sozinha, somente com o cachorro e depois os gatos e uma vaca que dará a luz a um bezerro. Ela começa a escrever um diário para manter sua sanidade mental. 

Até aí temos um belo filme, as paisagens são belíssimas, os sons da floresta, as mudanças de estação. Ela aprende a caçar apesar de não ser algo que lhe agrade. Um dia um de seus gatos é morto por uma raposa que depois ela terá a chance de matar, mas não o faz, compreendendo que é a lei da natureza, e que matar a raposa não trará o gato de volta e irá tirar da natureza este belo animal. A mulher deve deixar para trás uma vida na dita civilização, com todo seu stress e voltar a se ligar à natureza, ao planeta terra, e ao amor, o amor pelas plantas, pelos animais, pelo vento, pelo frio e pelo calor, a alegria de estar viva. 

A questão do filme que choca é quando aparece um homem e que irá matar seus animais, a cena é horrível e crua. Ela então vai assassiná-lo e jogará seu corpo nas pedras. A partir deste momento ela estará mais só ainda, sem a companhia do cachorro que havia se transformado em seu amigo. 

O filme termina quando acaba o papel e ela não pode mais escrever. 

A questão é do porque desta cena? esta intromissão deste homem surgido não se sabe de onde, dentro do círculo do murro invisível e que comete uma barbárie. Tentei encontrar uma resposta por um lado psicanalítico, mas também pelo lado místico. 

Há dentro de nós um lado masculino e feminino, independentemente do sexo biológico. A natureza apesar de nos parecer muitas vezes violenta e cruel é equilibrada, não há o premeditado ou a maldade e vingança. A raposa mata o gato por instinto. Mas o ser humano mata por prazer, por desespero, por vingança, por fome. Matar o bezerro pode ser por fome, mas o cachorro? porque ele defendeu a sua dona? não sabemos porque isto o filme não mostra. A cena da matança é cruel, não é matar para comer, é despedaçar, é destruir. A vaca Bela é encontrada depois enlouquecida na floresta. Ela mata o homem. Isto pode ser interpretado como ela matando este lado dentro de si mesma, ou eliminando de seu círculo dentro dos murros o que não se harmoniza com a natureza que seria então mais feminina. É o feminino que se liga à terra, aos animais, às plantas, às florestas, isto desde tempos imemoriais. 

Como o livro foi escrito por uma mulher foi o que pude pensar sobre esta cena. O que levaria uma mulher a colocar uma cena tão brutal? Esta intromissão na natureza? É quase que um alerta sobre o que o ser humano faz ao planeta através da destruição. 

Fui mais atingida porque amo os animais e principalmente os cachorros. 

Julian Roman Pölsler e seu cachorro que foi o que estava no filme. Nasceu em 1954 em Estíria, Áustria. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: KLIMT - 2006


Direção: Raoul Ruiz - 2006
Duração: 130 min 


1918 - Gustav Klimt (John Malkovich) está internado quase à morte e recebe a visita de seu amigo Egon Schiele (Nikolai Kinsky). A partir deste momento temos uma retrospectiva da vida de Klimt desde a Exposição Universal de 1900 em Paris onde é elogiado e recebe um prêmio, enquanto que em sua terra natal, Viena, não ocorre o mesmo.

O filme trabalha com a realidade e a imaginação, retrata o que Klimt vê e pinta, através da vida fragmentada do artista, com hiatos, nos mostra as nuances, o dourado, o nu, e as mudanças que Klimt viveu e pintou. É a Europa do século XIX, a liberdade sexual e moral que aparecem em suas telas eróticas, mas que contradizem a arte oficial que além do mais é anti-semita.



Uma vida voltada para a arte, as mulheres, o amor. Teve inúmeros filhos com várias mulheres. Sua musa e modelo preferida Emilie Floger (Veronica Verres) por quem tem um amor estranho, ele não se relaciona sexualmente com ela. Serena Lederer (Sandra Ceccarelli) que também está no filme foi retratada por ele.

Aqui no blog já falei de Gustav Klimt no livro A Dama Dourada retrato de Adele Bloch-Bauer que também foi retratada por Klimt.

Raoul Ruiz nasceu em 1941 em Puerto Montt, Chile e faleceu em 2011 em Paris, França

Gustav Klimt nasceu em 1862 em Baumgarten, Áustria e faleceu em 1918 em Viena. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

FILME: LOURDES - 2009


Direção: Jessica Hausner - 2009
Duração: 96min 

Lourdes é um santuário na França nos Pireneus onde a Nossa Senhora apareceu para Bernadete na gruta. As peregrinações ao local são constantes em busca de uma cura milagrosa e também de conforto espiritual.

Christine (Sylvie Testud) é jovem e  sofre de uma doença degenerativa e participa de viagens organizadas pelos obreiros da Cruz de Malta e voluntários. Desta vez ela vai para Lourdes. Não consegue se mover, utiliza uma cadeira de rodas e depende dos outros para tudo, comer, beber, se locomover, vestir. Ela não consegue nem mover as mãos. Nesta viagem ela reencontra um rapaz da Cruz de Malta (Bruno Todeschini) que conheceu em outra viagem, para Roma. Christine está sob os cuidados de uma voluntária, Maria (Léa Seydoux) que também se interessa pelo mesmo rapaz da Cruz de Malta.




Acompanhamos o olhar de Christine por Lourdes, ela fala muito pouco e não é devota, apenas participa de tudo. Ela gostaria de ter uma vida "normal" e olha para os que podem andar, comer sozinhos com uma certa inveja. Sempre que a olham ou falam com ela dá um pequeno sorriso. Ela também será ajudada por Madame Hartl (Gilette Barbier) que não está ali em busca de uma cura, mas para preencher o vazio de sua vida, a solidão e por isto deseja ser útil e passa a cuidar de Christine e a rezar por sua cura.

O grupo com o qual Christine viaja é liderado por Cécile (Elina Lowensohn) que é metódica e séria. Ela diz que ali não se cura o corpo, mas sim a alma.

Em um dado momento Christine conseguirá mover suas mãos e os braços até levantar-se e andar. Esta cura surtirá inveja dos que não foram curados e questões sobre porque ela e não um outro. Ela terá que ser avaliada por uma junta médica que lhe dirá que esta recuperação pode não ser permanente, que pode ocorrer em sua doença. Mas Christine está feliz, ela pode então acompanhar o grupo ao passeio externo do qual estava excluída por ser cadeirante, e passa a ter uma esperança com o jovem da Cruz de Malta, com o qual dançará na festa de despedida. Mas ali ela cairá, e apesar de se levantar e ficar parada um pouco, assim que o jovem se vai, ela se senta novamente na cadeira de rodas e se deixa levar por Madame  Hartl.

O filme nos mostra o que é Lourdes ou qualquer outro santuário onde as pessoas movidas pelo desespero, pela doença, pela solidão vão em busca de um milagre. Mas Deus escolhe os que cura, e seus desígnios são insondáveis. Por que justamente Christine que nem devota é? A esperança de todos ali é encontrar a felicidade, mas esquecem que ela é efêmera e vai e volta. Buscam algo que na verdade está dentro de cada um, a liberdade, mas a maioria fica presa a uma cadeira de rodas ou a uma muleta.

Vemos as pessoas no filme que falam em Deus, rezam, esperam, mas também estão invejando, comentando, falando do outro, criticando, competindo. Sentem raiva e ciúmes. Então temos o palco do ser humano diante dos olhos. Eles não crêem com a fé, eles perguntam o que devem fazer para obter um milagre, para ter sucesso. Então acreditam que aquele que mais rezou, mais pediu é que deveria ser beneficiado com o milagre, como a menina na cadeira de rodas cuja mãe vai todos os anos à Lourdes em busca da cura, e não compreendem que Christine que foi ali para poder sair de casa, viajar é quem recebe a cura. Por outro lado Christine sabe que esta cura pode não durar.

Pessoalmente ainda vou um pouco mais longe, saindo da questão religiosa e da fé, Christine que fala tão pouco durante o filme vai á confissão e diz ao padre que sente raiva, diz o que deseja, e a palavra também tem o poder da cura. Além disto há o desejo e o amor, ela gostaria de poder estar ao lado do rapaz, de ser "normal" acreditando que assim poderia conquistá-lo, como vê Maria fazendo. Esta por sua vez ao perceber o interesse dos dois se afasta de Christine, não lhe dando mais a atenção devida, na hora de se alimentar ou a deixando parada num local na cadeira e indo embora.

Christine traz a força de dentro de si mesma para se levantar, do divino que tem em si, ela não espera uma cura de fora, e talvez esta seja a diferença.

Jessica Hausner nasceu em 1962 em Viena - Áustria 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

FILME: HORAS DE MUSEU - 2013


Direção: Jem Cohen - 2013
Duração: 107 min
Título Original: Museum Hours

Um filme diferente que mexe com nossa forma de olhar o mundo e a arte. Logo no início vemos um guarda , Johann (Bobby Summer) do museu de Viena - Kunsthistorisches Museum - sentado olhando, atrás dele uma imensa porta e na frente uma sala com quadros e pessoas olhando as obras.



O foco do filme é como a arte se relaciona com o mundo externo e nós com ambos. Ao olhar um quadro de Bruegel a curadora levanta a questão do que nós vemos e do que o pintor representou ali que pode ser algo totalmente diferente, e isto mostra que a arte vive e continua se expressando e de diversas formas, ela não é estática, não permanece no tempo. De certa forma há obras que nunca saberemos compreender o que foi dito ali, mas apenas interpretar através do que nós conhecemos.



O interessante é que o filme nos mostra a Viena atual, e não aquela bela cidade histórica, mas uma Viena do dia a dia, no inverno, com seus vendedores ambulantes que vendem produtos usados nas ruas, com placas de propagandas em frente aos seus mais belos monumentos e prédios, como uma propaganda da Coca Cola em frente à Catedral, tudo está ali, misturado. Prédios, ruas, que ainda guardam a memória, mas também convivem com o mundo atual.

Mas longe de ser um documentário, pois chega ali Anne (Mary Margaret O'Hara) que veio de Montreal e se torna amiga do guarda do Museu. Ela veio porque sua prima está no hospital em coma. Não tem muito dinheiro, e os dois conseguem andar por Viena e conhecê-la sem gastar muito, o que ao meu ver acaba mostrando muito mais o que é a cidade do que se ela se ativesse apenas aos pontos turísticos.

As impressões sobre as obras de Johann são interessantes, mas o melhor é sua observação das pessoas que frequentam o museu, é um olhar sobre o outro que nos diz muito.

Um filme diferente, híbrido de ficção com documentário, excelente.


Jem Cohen nasceu em 1962 em Kabul no Afeganistão. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

FILME: AMOR - 2012




Direção: Michael Haneke - 2012 
Duração: 124 min
Título original: Amour 
País- França - Áustria - Alemanha 

Venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2012 e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012. 


Um dos mais belos filmes que já vi sobre o Amor.

Apesar de ser um filme duro, um soco no estômago como disseram alguns, ele realmente mostra o que é amar, sem os disfarces da ilusão, do erotismo, dos véus. Ele retira os véus e é isto que choca.



Quando se envelhece vem a doença, a deterioração do corpo e em alguns casos da mente da pessoa que você mais ama. Os véus são retirados e você se vê diante de uma pessoa que mostra seu corpo nu, cru, sem fantasias. O que mais pode ser o amor neste momento? um pacto, uma aliança?

Quando Anne (Emmanuelle Riva) adoece Georges (Jean-Louis Trintignant)  poderia tê-la internado, como todos sugeriam, inclusive a filha, mas não, ele fica ao seu lado e cumpre com o que lhe prometeu.

Reduzida ao corpo e suas necessidades, comida, mas também evacuar, urinar, voltando a ser uma criança totalmente dependente, um bebê, mas que não tem futuro como este, a cada dia que passa é a deterioração que se acentua e não o crescimento. Ela deixa atrás de si uma vida, uma história, era pianista, dava aulas.



Ele fica no vazio rodeado das lembranças, da música, dos livros, quadros. E são estas lembranças que o mantém, que fazem que aguente. Mas o tempo passa.



Ela havia dito em um momento no início do filme: há uma imensa diferença entre a imaginação e a realidade, e o que ele vivia além da realidade era o real. Aquela mulher que ele amou, onde está ela? o corpo que ele amou, com o qual fez amor, onde está?

A filha  Eva (Isabelle Huppert) não compreende, acha que o pai está louco de fazer isto. Não percebe o gesto de amor. Talvez se incomode por sentir culpa por não cuidar ela da mãe, por não estar ali, mas ela não consegue, não consegue olhar para aquela mulher onde não vê sua mãe, a que era. Até ele, seu pai, lhe dizer isto, e ela desistir de tentar interferir.



Já não é mais o amor romântico que desejamos e que é construído, mas o real. E aí temos o amor real. Ambos sofrem muito, e não é o felizes para sempre! São aqueles que atravessam as tempestades juntos com um pacto, que sabem o que é o amor, que pode ver o outro em seus piores momentos e se sustenta ali, pelo amor, sem gritar por um outro, por ajuda que virá se colocar em seu lugar, permitindo fugir. Ele atende ao desejo dela, lhe dá o que não tem, até chegar a exaustão.



Ele a mata, como ela desejaria. A cena do tapa é por desespero e amor, e o rosto dela é de quem tem consciência ainda de sua degradação. É triste, é terrível esta cena, onde o amor se mostra pelo seu lado mais forte, real e terrível. Ele a mata por que não suportava que a vissem assim, ela gritava sem parar dor... dor... dor! Esta dor não era física. Ela teria se matado se pudesse.

A cena do pombo, quando ele captura o pombo com o cobertor para depois soltá-lo, apenas para ter algo a contar em sua carta que escreve. Foi a cena mais bela que vi até hoje sobre a solidão.

Um filme forte, mas belo, belíssimo. O belo nem sempre é o bonito que desejamos, mas faz parte da vida.

Assista ao trailer em francês com legendas em inglês






Michael Haneke nasceu em 1942 em Munique, Alemanha. Estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena. É considerado um cineasta Austríaco.