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domingo, 29 de maio de 2016

FILME: ELE ESTÁ DE VOLTA - 2015



Direção: David Wnendt - 2015 
Duração: 101 min
Título Original: Er ist wieder da 
País de Origem: Alemanha 

Baseado no livro Ele está de volta de Timur Vermes.

Um filme comédia e documentário que todos deveriam assistir.

O ano é 2014 e Hitler (Oliver Masucci) acorda perto de seu bunker em Berlim e tenta entender o que ocorreu ao mundo, para isto se vale de ler todos os jornais numa banca de um jornaleiro que o acolheu. Enquanto isto em uma grande emissora de TV uma mulher toma posse da diretoria e o vice que acreditava que seria promovido se torna seu inimigo. É ele quem demite um cinematógrafo, justamente quem irá encontrar Hitler.  Resolvem então rodar pela Alemanha para que Hitler possa ouvir as pessoas. 

O estarrecedor, ou não, já nem sei, é que as filmagens sobre Hitler falando com pessoas é real, e a reação que as pessoas tem assustam até mesmo o ator. Hitler ouve atentamente o que o povo tem a dizer sobre a Alemanha.   

A emissora de TV lhe dará espaço e o promoverá, tudo por audiência. Até mesmo quando o vice consegue tirar a nova diretora e lhe perguntam se então é a favor de Hitler ele responde - agora eu sou o diretor. Ou seja, a partir deste momento seus princípios, se é que tinha algum, deixam de valer, e o que importa é a audiência. 

O filme mostra claramente o que é a mídia, mas pior que isto, é ver como as pessoas buscam um herói que as livre de tudo aquilo que consideram estranho, diferente, pois uma das principais queixas dos alemães são os emigrantes, apenas trocam os judeus pelos muçulmanos, africanos e outros. 

Hitler sabe que o povo espera este salvador, e sabe fazer uso da propaganda. Interessa-se de imediato pela Televisão e pela internet. Mas também percebe que na TV só passa besteiras, entretenimento, o que evita que as pessoas pensem. As pessoas riem com o personagem Hitler, mas que no filme é o próprio. Hitler sabe que o melhor momento para ele é quando há crise, insatisfação, problemas econômicos. O discurso de salvar o país, a Alemanha para os alemães, recuperar a moral e a tradição, a família. Os alemães que aparecem no filme dizem que é necessário uma experiência nacionalista para que se recuperem os bons costumes, se combata os corruptos, haja emprego. Temas atuais e tão conhecidos nossos também. 

O filme que serviu de alerta para o povo alemão deve servir para outros países também. Há uma tendência para a extrema-direita seja na França, Áustria e outros países, inclusive o Brasil. O que fica visível no filme é a manipulação da mídia e da política, do discurso que vai de encontro ao que deseja o povo. Isto é impactante. O final do filme quando Hitler diz que não adianta matá-lo, que ele está em cada um de nós é uma verdade que é difícil de digerir. Ele lembra então que quem o elegeu foi o povo. 

Após a apresentação dos nomes dos participantes há cenas do mundo atual, que em nada diferem do que foi o fascismo. E o único que se deu conta e resolveu agir, bom este, acaba internado num hospital psiquiátrico.

Temos que ver este filme, pensar, se analisar. O racismo, o sexismo, a violência, o desejo de se livrar do diferente e estranho, a necessidade de que venha um salvador e resolva tudo isto, tudo isto ainda é atual. 

David Wnendt nasceu em 1977 em Gelsenkirchen, Alemanha

segunda-feira, 16 de maio de 2016

FILME: A ONDA - 2008



Direção: Dennis Gansel - 2008
Duração: 108 min
Título Original: Die Welle
País de Origem: Alemanha


Assisti ao filme A Onda, é um excelente filme para mostrar como o passado retorna mesmo quando se acredita que não irá mais acontecer. Os alunos do Prof. Rainer (Jürgen Vogel) são adolescentes que participam de um projeto da escola cujo tema é Autocracia, governo de um só, ou seja uma ditadura. O exemplo que usam é do nazismo, porém alegam que isto nunca mais acontecerá. Então o professor utiliza de um método diferente fazendo com que eles vivenciem uma situação de autocracia onde ele é o líder. É o suficiente para que os efeitos em um grupo que busca amparo, mudanças, que está enfrentando questões difíceis, no caso deles, de família, de exclusão, de aceitação, de identidade, se unifiquem num só pensamento excluindo os que não aderiram. O líder passa a ser a autoridade e a voz maior, um deus. 

Por outro lado, no filme "Romero" que postei recentemente no blog  isto também acontece, mas o resultado não é um fascismo, um fundamentalismo, mas ao contrário, é a luta pela liberdade, pelo fim da ditadura. Romero consegue dar esperança ao povo que sofre, luta por ele, o defende, e eles passam a acreditar que podem sair da situação em que estão e ter uma vida melhor. Onde estaria a diferença? Provavelmente no líder e na sua necessidade ou não de poder? de domínio ou não? 
Esta situação se repete a cada vez que haja pessoas com medo, com questões difíceis e que buscam alguém que as salve ou lhes traga respostas e alternativas, elas irão seguir este líder, irão agir com um só em relação à ele. Por isto uma das formas que as ditaduras possuem de desmantelar um espírito de grupo, de união e identificação deixando as pessoas temerosas e sem rumo, é justamente lhes proibindo associações e até mesmo a religião, ou fazendo o contrário como o nazismo fez, trazendo a todos para junto do líder seguindo suas idéias. 


O filme se passa numa escola na Alemanha, o grupo se denomina "A Onda", usam uniforme e tem até uma saudação. Somente uma aluna percebe o perigo e se opõe, mas não é ouvida e dizem que ela age assim por que não fazem o que ela deseja. O professor acaba perdendo o controle da situação o que leva a um desfecho trágico e ele não consegue mais conter o grupo. 

Dennis Gansel nasceu em 1973 em Hanôver, Alemanha

quinta-feira, 23 de julho de 2015

FILME: BEM VINDO À ALEMANHA - 2011


Direção: Yasemin Samdereli - 2011
Duração: 101 min
Título Original: Almanya Willkommen in Deutschland
Roteiro: Yasemin Samdereli e Nesrin Sandereli
País: Alemanha

Este filme é muito atual, e nos mostra o lado oposto, de como se sentem os imigrantes ao chegar a um país e do quanto também estranham a cultura local. 

Logo após a Segunda Guerra devido a falta de mão de obra a Alemanha abriu suas fronteiras para receber imigrantes, principalmente turcos. 

Hüseyin (Fahri Yardim) era um jovem turco que se apaixonou por Fatma (Demet Gül), como a família dela foi contra o casamento eles fugiram. Mas a vida de casados e a vinda dos filhos não foi fácil, e por mais que Hüseyin trabalhasse nunca era o suficiente, até o dia que ouviu sobre as propostas de trabalho na Alemanha. Ele foi o primeiro a partir deixando sua família na Turquia. Mais tarde a família toda se mudou para lá. 



Vemos logo no início do filme um garoto, o neto de Hüseyin (Vedat Erincin) que se encontra num dilema de identidade. Na escola ele não pode fazer parte do time de futebol dos turcos porque não fala a língua deles, e não pode fazer parte do time alemão, porque não o consideram alemão. E eis aí resumido o conflito que sempre acompanha os imigrados, a falta de um lugar, de reconhecimento e a pergunta: quem sou eu? 

Nesta mesma época seu avô e sua avó Fatma (Lilay Huser) recebem o passaporte alemão, após muitos anos vivendo ali o que deixa Fatma feliz, mas não Hüseyin. Diante da situação de seu neto que chega em casa com um olho roxo devido a briga por causa dos times de futebol ele começa a remorar sua história, que vai sendo relatada por sua outra neta, que se encontra grávida do namorado, um inglês. Finalmente o avô se decide que é hora de passar férias na Turquia e compra uma casa lá. A família toda embarca para lá.

Ao longo do filme nos divertimos com as situações hilárias da vinda da família para a Alemanha e as diferenças culturais, o aprendizado da língua, as primeiras compras, o convívio com os outros. Também vemos a cultura turca na rememoração da vida dos avós quando jovens. 

Durante as férias o avô acaba falecendo e novamente surge a situação: tem que ser enterrado no cemitério dos estrangeiros porque o passaporte é alemão, mas ele nasceu ali e viveu ali muitos anos. O filme retrata bem todas estas questões de ser de um país e viver em outro, de adquirir uma cidadania, mas de se manter fiel ao país de nascença. 

Um bom filme para as questões atuais, mas enfocando não pelo lado eurocêntrico, mas do outro, e recordando a todos que a Alemanha em um momento e não somente ela, abriu suas portas por precisar de mão de obra. Coincidiu justamente com Angela Merkel declarando que alguns refugiados na Alemanha terão que voltar, e no filme é também ela quem concede o prêmio ao avô por sua dedicação à Alemanha. 


Yasemin Samdareli nasceu em 1973 em Dortmund, Alemanha

segunda-feira, 20 de julho de 2015

FILME: ARTEMISIA - 1997



Direção: Agnès Merlet - 1997
Duração: 95 min
Título Original: Artemisia passione estrema 
Roteiro: Agnès Merlet - Christine Miller e Patrick Amos 
País: França - Itália - Alemanha

Uma cinebiografia romanceada da pintora Artemisia Gentileschi 

Itália, 1610. Artemisia (Valentina Cervi) é uma jovem talentosa de 17 anos filha do pintor Orazio (Michel Serrault) apaixonada pela pintura, só que naquela época uma mulher não pode entrar para a Academia e menos ainda pintar corpos nus, principalmente um homem nu. Na falta de modelos ela se retrata a si própria através de espelhos. 



Seu pai então pede ao pintor Agostino Tassi (Miki Manojlovic) que dê aulas a sua filha. Artemisia aprenderá então a pintar paisagens ao ar livre o que naquela época era uma novidade e principalmente ele lhe ensinará a perspectiva.



O filme irá deformar a partir daí o que realmente aconteceu com a jovem pintora. No filme vemos surgir uma relação entre Artemisia e Agostino que acabará deflorando a jovem, mas ela o deseja. Seu pai ao descobrir o que está ocorrendo procura a polícia, Agostino será preso e julgado por estupro. O filme retrata estes dois anos da vida da pintora de 1610 à 1612, com o fim do processo. 



Ao contrário do que o filme mostra quando Artemisia é torturada como vemos ela irá manter as acusações de estupro conforme consta nos arquivos do processo, e com isto o filme não faz jus ao verdadeiro sofrimento pelo qual passou a jovem. 

Na realidade Artemisia foi estuprada por Agostino. Ele a acusa de ser uma mulher fácil, mas a diretora do filme optou por deformar a realidade transformando a relação dos dois em uma história de amor, o que não foi na realidade. A tortura foi bem retratada, é o suplício dos "sibilli" e se trata de passar uma corda entre os dedos e apertar, o que poderia tê-la impedido de pintar para sempre. 




Agnès Merlet nasceu em 1959 na França 




Artemisia Gentileschi nasceu em Roma no dia 08 de Julho de 1593, filha do pintor Orazio Gentileschi, que era amigo pessoal de Caravaggio e de Prudentia Montone que morreu quando ela tinha doze anos. Teve uma grande reputação na Europa e levou uma vida independente, trabalhou em várias cidades da Europa e acabou fixando-se em Nápoles em 1630. O julgamento do estupro durou sete meses quando Artemisia foi humilhada e severamente torturada, enquanto Agostino, apesar de ter sido condenado ao exílio por cinco anos, nunca cumpriu a pena, tendo retornado a Roma quatro meses depois.

Seus quadros ferozes de decapitação talvez sejam reflexos deste episódio. Ela se casou com um pintor desconhecido, numa casamento arranjado por seu pai.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

FILME: REMBRANDT - 1999


Direção: Charles Matton - 1999
Duração: 99 min
País: França - Alemanha - Holanda

Uma cinebiografia do pintor Rembrandt van Rijn desde sua chegada quando jovem à Amsterdam até sua queda e morte. 

Rembrandt (Klaus Maria Brandauer) chega à Amsterdam em 1631 e já é um pintor célebre, que pinta retratos e gravuras com seu talento reconhecido. Ele se casa com Saskia Uylenburg (Johanna ter Steege) que tenta lhe dar um filho, dos seis que nasceram apenas Titus irá sobreviver. Em seu último parto Saskia morre e o luto e o sofrimento por que passaram com a perda dos filhos atinge Rembrandt. Ao invés dos quadros com cores fortes passa a pintar com um misticismo que os nobres irão condenar, principalmente devido a religião e ao puritanismo. 

Retrato de Saskia Uylenburg 

Rembrandt pintou a Lição de anatomia do doutor Nicolaes Tulp (Jean Rochefort), uma de seus quadros mais famosos. O corpo que aparece no quadro é de um homem que havia sido condenado à morte no dia anterior por assalto a mão armada. 


O doutor Nicolaes Tulp será um dos mais aguerridos perseguidores do pintor quando após a morte de sua esposa ele se envolve com as criadas da casa além de mudar seu estilo de pintura para o misticismo. 

Durante a enfermidade de Saskia, Geertje Dircx foi contratada para cuidar de Titus e se torna amante de Rembrandt. Como ele não se casou com ela, acabou por processá-lo, mas ao descobrir que ela havia penhorado jóias de Saskia, Rembrandt conseguiu que ela fosse internada por doze anos em um asilo. Ele então iniciou um romance com Hendrickje Stoffels (Romane Bohringer) e em 1654 tiveram uma filha, Cornelia, o que provocou a intimação da mãe pela Igreja Reformada Holandesa para responder a acusação de que cometera atos de uma prostituta com o pintor. Como ela confessou a verdade foi excomungada, já ele não passou por isto pois não fazia parte de nenhuma igreja. 

Tulp conseguirá que a hipoteca de sua casa seja cobrada e Rembrandt terá que sair de lá, foi feito um leilão com todas as suas coisas que rendeu uma miséria. Mas ele nunca se dobrou a esta sociedade puritana e continuou a pintar. Hendrickje morrerá e depois será a vez de Titus, o que abalará profundamente Rembrandt, que morrerá um ano depois. 

O filme termina com a frase de Van Gogh diante da obra de Rembrandt - "É preciso estar morto várias vezes para poder pintar assim". 



É um belo retrato da sociedade dos países baixos desta época, com sua opulência de um lado e a miséria de outro. Rembrandt sempre se manteve livre, nunca se curvou aos desejos dos poderosos e pagou o preço por isto. Como vemos até hoje as pessoas não aceitam que o outro seja como quer, desejam que sigam o que elas querem. Rembrandt em uma cena do filme desenha uma gravura de dois negros numa taverna, e responde ao homem que está ao lado que critica com racismo os dois homens. Em agradecimento eles lhe dão um macaco que se torna o animal de estimação, até que o matam. 




Charles Matton nasceu em 1931 em Paris e faleceu em 2008 na mesma cidade, França

Rembrandt nasceu em 1606 em Leida e faleceu em 1669 em Amsterdam,  Países Baixos 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

FILME: UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA - 2015



Direção: Roy Andersson - 2015
Duração: 100 min
Título Original: En duva satt pa en gren och funderade pa tillvaron
País: Suécia, Noruega, Alemanha e França 

Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2014 

Um filme para refletir muito. Qual o sentido da vida, se é que tem? ou será que cada um deve construir este sentido, o que é mais provável? O filme é um soco no estômago. 

Logo no início vemos um casal num Museu de história Natural. O homem observa pássaros empalhados e se detém em frente a um pombo pousado num galho. 

O filme é melancólico, poucas cores, tépido, mas é justamente assim que é a vida de dois vendedores Sam (Nisse Vestblom) e Jonathan (Holger Andersson)  de artigos para divertir os outros, sacos de risadas, dentaduras de vampiro e a máscara do tio banguela. Os dois estão sem ânimo e cansados. Vivem num condomínio extremamente controlado por um porteiro que exige que todas as regras sejam cumpridas. 

Vamos vendo as pessoas em seu dia a dia, sem graça, sem novidades, tudo se repete, a vida passa. Mas se prestarmos bem atenção nos veremos refletidos ali também. Se pararmos para pensar no quanto nossos dias são tão repetitivos também, no quanto nos falta de vivacidade, alegria, capacidade de ouvir o outro ou mudar algo. Onde está o prazer. Jonathan tem um pensamento: é correto usar as pessoas para seu próprio prazer? Nesta pergunta se reflete muito do filme, onde as pessoas subjugam as outras, seja pela autoridade, pelo desprezo, pela indiferença, pelo sadismo ou pelo poder gerando um gozo com isto. Mas quem se deixa levar por isto também gosta sem o saber, também retira um gozo disto e pode justificar a vida e suas mazelas colocando sempre no outro a culpa como em determinado momento que Jonathan diz a Sam que foi ele quem teve a ideia, e o repete várias vezes. 

O filme vai mais fundo em uma crítica ao Homo Sapiens, mostrando um laboratório onde um macaco sofre choques enquanto a pesquisadora fala ao celular. 

E mais quando nos mostra uma cena onde pessoas são queimadas vivas dentro de um tubo com o nome da mineradora Sueca - Boliden AB, em uma referência ao desastre ocorrido no Chile nos anos 80 com esta empresa. As pessoas assistem vestidas em roupas de gala a este evento. Mas isto também remete ao holocausto e muitos outros atos bárbaros dos quais o ser humano, o homo sapiens é capaz. 


Ao final vemos as pessoas aguardando o ônibus e duas pessoas comentam que é mais uma quarta-feira, igual a todas as outras. Uma das pessoas que aguarda pensa que é quinta. Não, é quarta! e existe alguma diferença? Alguém explica que se não for assim o caos se instaura. Se não seguir as regras, a sociedade, o caos se instaura. 

O filme nos leva a refletir a existência, em vários momentos ouvimos o pombo arrulhando, mas ele não aparece, ele observa, e me coloco como um pombo assistindo a este filme. A vida passa, os dias da semana se repetem, mas se repetem por serem nomeados, no real é um dia após o outro, uma noite após a outra, tudo igual, quem nomeia, quem da cor a vida somos nós. Ao perceber o quanto somos parecidos com estes vendedores de várias maneiras, seja nas queixas, seja na falta de ânimo, seja na repetição, seja na falta de sentido ou no cansaço, é bom parar e pousar num galho para refletir. Refletir sobre como vivemos a vida, se não há algo para mudar e ser mais feliz, menos melancólico, menos repetitivo, e assumir a responsabilidade por esta vida. 

O filme é o último da trilogia sobre a humanidade, cujas obras anteriores são Canção do Segundo Andar (2000) e Vocês, os vivos (2007). 


Roy Andersson nasceu em 1943 em Gotemburgo, Suécia

domingo, 31 de maio de 2015

FILME: A ÚLTIMA RONDA DE WALLER - 1989


Direção: Christian Wagner - 1989
Duração: 95 min
Título Original: Wallers Letzter  gang
País de origem: Alemanha 

Waller (Rolf Illig)  passou sua vida trabalhando para a Estrada de ferro fazendo a ronda nos trilhos, e mesmo estando desativada ele continua diariamente percorrendo os trilhos, mas agora ele terá que deixar de fazer isto pois a Ferrovia não quer mais que ele continue. 

Ele parte para sua última ronda e a medida que avança vai se lembrando de sua vida, a cada estação, em certos locais, uma vez que aqueles trilhos são como os trilhos de sua vida, o passado e o presente, sempre os trilhos, mas como ele, a estrada de ferro também foi envelhecendo, sem uso, se no começo ainda está preservada depois ela se enche de capim, pontes estão caídas, até que se chega a um ponto onde não há mais nem os trilhos. 

Suas lembranças aparecem em preto e branco, desde sua infância, quando começou a trabalhar na ferrovia (Herbert Knaup) a morte de seu amigo na guerra, seu amor por Angelika (Crescentia Dünber) com quem teve uma filha, Rosina (Sibylle Canonica), a morte de Angelika no parto, e a dor que ele carregou por toda sua vida por isto. Sua luta para ficar com a filha e criá-la. A medida que caminha as lembranças lhe vem até que chega ao fim dos trilhos. 

Como a vida as coisas também mudam, e se por um lado pode-se se falar em progresso, de outro é a velhice que surge e deixa atrás de si os trilhos percorridos na vida. 

Um filme contemplativo, melancólico, mas que ao mesmo tempo demonstra a riqueza da vida. 




Christian Wagner nasceu em 1959 na Alemanha

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: AS QUATRO VOLTAS - 2010


Direção: Michelangelo Frammartino - 2010
Duração: 88 min
Título Original: Le Quattro volte
País: Itália - Alemanha - Suíça 

Uma vila medieval na Calábria, Itália onde as tradições são mantidas e há o pastoreio das cabras. Também produzem carvão de forma artesanal. 

Um filme para se sentir, pois não há falas, mas os sons da vila, das pessoas, dos animais e da natureza. É uma experiência única e para cada um é diferente.


Começa com um velho (Giuseppe Fuda) que pastoreia suas cabras junto com um cachorro. O dia a dia monótono dele, repetitivo, mas é um momento em que nos damos conta que também fazemos isto, em outro lugar, em outro tempo e contexto, mas repetimos diariamente as mesmas coisas da mesma forma. E o tempo passa, as estações mudam, os anos avançam, a vida se vai. O velho morre sozinho e somente o cachorro pode avisar a todos e o faz de forma brilhante e inteligente no dia da encenação da Paixão de Cristo. O enterro e a pedra que fecha o túmulo, ficamos do lado de dentro do túmulo, escuridão, alguns míseros sons.


As cabras, e no ritmo da vida se um  morre outro nasce, e nasce um cabritinho. Acompanhamos as cabras, o crescimento dos pequenos, até o dia em que este que nasceu se perde, e acaba se abrigando embaixo de uma imensa árvore. Novamente a escuridão e os sons.


Árvore imensa, majestosa. As estações passam, e quis que ela fosse a escolhida para a festa daquele ano,  assistimos sua derrubada, é levada para a vila, sobem nela, quem consegue ganha o prêmio. É derrubada, em seu topo vários presentes. Fim de festa, ela é serrada e levada para a carvoaria.





Vemos como se produz carvão artesanalmente. E a árvore imensa, agora tocos de madeira, é colocada por primeiro, e finalmente a escuridão novamente. Fim de mais um ciclo.



E tudo se repete na vila, o pequeno caminhão que já passava no tempo do velho sobe novamente a rua, carregado de carvão para vender ao povo. Vemos a fumaça saindo da chaminé. 

Tudo sempre se reorganiza, nada para, morrem uns mas a vida continua, nascem outros, e a vida continua. Voltas e mais voltas e tudo recomeça e tudo termina, e recomeça. O que vemos é a natureza, incluindo o ser humano, o que vemos é a vida como ela é, sem enfeites ou eufemismos, ela segue. Mesmo que a religião se faça presente, ela se faz como ritual, como parte da vida, esta vida que segue, e não como ordenadora da vida. E o homem também é formado de sais, é um mineral, que retorna à terra. O filme homenageia o ciclo da vida em suas quatro manifestações: humana, animal, vegetal e animal, e estão todos interligados. 

Belíssimo!

Veja o trailer: 




Michelangelo Frammartino nasceu em 1968 em Milão, Itália

quarta-feira, 6 de maio de 2015

FILME: AMOR SEM FRONTEIRAS - 2003


Direção: Martin Campbell - 2003
Duração: 127 min
Título original: Beyond borders
País: Estados Unidos - Alemanha 


O filme fala sobre a luta dos que buscam ajudar aos refugiados nos países em guerra ou que passam por situações de fome e doenças. 

Sarah (Angelina Jolie) conhece Nick (Clive Owen) numa recepção em homenagem ao seu sogro, pai de Henry (Linus Roache) com quem é casada. Ele está sendo homenageado por suas doações a pessoas necessitadas. Nick irrompe no meio da comemoração para expor a realidade da África que está bem longe daquele mundo de luxo e sofisticação onde vivem Sarah e o marido. Nick vem acompanhado de uma criança e lhe jogam uma banana. Eles acabam presos e a criança foge sendo encontrada morta no dia seguinte. Tudo isto afeta Sarah que se dispõe a ajudar Nick.



Ela parte para a Etiópia com um carregamento de medicamentos e comida e começa a descobrir a realidade disto tudo. A corrupção, as negociações para que algo consiga chegar ao campo, ela verá cenas terríveis de morte e fome e isto faz com que mude de vida e passe a trabalhar nas Nações Unidas.



O filme nos mostra além da Etiópia e a fome, o Camboja e depois a Chechênia. Paralelamente vemos o desenrolar da vida de Sarah junto ao marido, um casamento que vai se acabando.

Martin Campbell nasceu em 1943 em Hastings, Nova Zelândia. 

sábado, 25 de abril de 2015

FILME: LE MUR INVISIBLE - 2014



Direção: Julian Roman Pölsler - 2014
Duração: 108 min
Título Original: The wall

Adaptação do livro homônimo de Marlen Haushofer

Após assistir o filme fiquei chocada e num estado de angústia por um bom tempo. Precisei de alguns dias para conseguir escrever sobre ele. Sim, é uma ode à natureza, mas ele tem uma cena absolutamente chocante, real e cruel, e fiquei me perguntando porque? e analisando o fato do livro ter sido escrito por uma mulher. Retorno a isto no relato abaixo.

Um mulher (Martina Gedeck) vai para os Alpes Austríacos junto com um casal de amigos e seu cachorro. Assim que chegam o casal vai para o vilarejo a pé e o cachorro não os acompanha. No dia seguinte ao acordar ela percebe que eles não voltaram então segue pela estradinha com o cachorro para descobrir o que houve e se depara com um murro invisível, como uma imensa parede de vidro transparente, que ela nota tocando. Retorna e vai até uma casa nas proximidades e lá também o murro está, finalmente ela se dá conta que está presa dentro de um espaço circundado por este murro. 

Não há explicação para isto, nem o saberemos no filme que passa a focar na questão da mulher que precisa se adaptar a viver na natureza, sozinha, somente com o cachorro e depois os gatos e uma vaca que dará a luz a um bezerro. Ela começa a escrever um diário para manter sua sanidade mental. 

Até aí temos um belo filme, as paisagens são belíssimas, os sons da floresta, as mudanças de estação. Ela aprende a caçar apesar de não ser algo que lhe agrade. Um dia um de seus gatos é morto por uma raposa que depois ela terá a chance de matar, mas não o faz, compreendendo que é a lei da natureza, e que matar a raposa não trará o gato de volta e irá tirar da natureza este belo animal. A mulher deve deixar para trás uma vida na dita civilização, com todo seu stress e voltar a se ligar à natureza, ao planeta terra, e ao amor, o amor pelas plantas, pelos animais, pelo vento, pelo frio e pelo calor, a alegria de estar viva. 

A questão do filme que choca é quando aparece um homem e que irá matar seus animais, a cena é horrível e crua. Ela então vai assassiná-lo e jogará seu corpo nas pedras. A partir deste momento ela estará mais só ainda, sem a companhia do cachorro que havia se transformado em seu amigo. 

O filme termina quando acaba o papel e ela não pode mais escrever. 

A questão é do porque desta cena? esta intromissão deste homem surgido não se sabe de onde, dentro do círculo do murro invisível e que comete uma barbárie. Tentei encontrar uma resposta por um lado psicanalítico, mas também pelo lado místico. 

Há dentro de nós um lado masculino e feminino, independentemente do sexo biológico. A natureza apesar de nos parecer muitas vezes violenta e cruel é equilibrada, não há o premeditado ou a maldade e vingança. A raposa mata o gato por instinto. Mas o ser humano mata por prazer, por desespero, por vingança, por fome. Matar o bezerro pode ser por fome, mas o cachorro? porque ele defendeu a sua dona? não sabemos porque isto o filme não mostra. A cena da matança é cruel, não é matar para comer, é despedaçar, é destruir. A vaca Bela é encontrada depois enlouquecida na floresta. Ela mata o homem. Isto pode ser interpretado como ela matando este lado dentro de si mesma, ou eliminando de seu círculo dentro dos murros o que não se harmoniza com a natureza que seria então mais feminina. É o feminino que se liga à terra, aos animais, às plantas, às florestas, isto desde tempos imemoriais. 

Como o livro foi escrito por uma mulher foi o que pude pensar sobre esta cena. O que levaria uma mulher a colocar uma cena tão brutal? Esta intromissão na natureza? É quase que um alerta sobre o que o ser humano faz ao planeta através da destruição. 

Fui mais atingida porque amo os animais e principalmente os cachorros. 

Julian Roman Pölsler e seu cachorro que foi o que estava no filme. Nasceu em 1954 em Estíria, Áustria. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

FILME - BAGDA CAFÉ - 1987


Direção: Percy Adlon - 1987
Duração: 108 min
Título Original: Out of Rosenheim - Bagda Café


Perto de Las Vegas no deserto de Mojave, Jasmim (Marianne Sägebrecht) briga com o marido e ele a deixa ali. Empertigada, digna, ela com seus sapatos de salto, uma roupa que não tem nada a ver com o local que está, puxa sua mala e caminha pela beira da estrada. O marido ainda lhe deixa uma garrafa de café que ela ignora. Ele se arrepende, retorna, mas ela se esconde.



Um café a beira da estrada, com um posto de gasolina e um motel, chamado Bagda Café, lá vemos Brenda (CCH Pounder) brigando com seu marido Sal, que é folgado demais, devagar e se esquece de tudo. Ela o manda embora. Brenda é amargurada e briguenta. Está sentada numa cadeira desolada quando vê Jasmim chegando com sua mala. 


A relação inicial das duas mulheres não é das melhores. Brenda desconfia desta alemã perdida ali no meio do nada, e mais ainda quando vai fazer a limpeza do quarto e vê roupas masculinas e itens de higiene masculinos. Ela chama o xerife que nada pode fazer uma vez que os documentos de Jasmim estão em ordem. O caso é que Jasmim pegou a mala do marido na hora da briga, e então ao invés de ter uma crise ela simplesmente aceita aquilo e trata de se virar com isto. 

Hostilizada por Brenda a princípio Jasmim vai se aproximando das pessoas que por ali vivem tocando nos pontos que são mais importantes para cada um, como a música para o filho de Brenda, a pintura para Rudi Coxx (Jack Palance), as roupas para a filha de Brenda. Ela consegue captar o que há de melhor em cada um deles. Jasmim também começa a por ordem em tudo ali, limpar, organizar o que inicialmente deixa Brenda furiosa, mas depois ela reconhece que ficou bem melhor.

Jasmim e Brenda são mulheres que no começo do filme nos parecem um tanto "masculinizadas", mas o trabalho e a convivência irá aproximá-las e transformá-las e as perdas que ambas sofreram lhes dá a oportunidade de fruir de uma nova liberdade e de construir uma vida nova onde o homem se torna uma figura pífia, logo eles que no início do filme nos parecem os responsáveis por todas as dificuldades que ambas enfrentam. 

Brenda é um tanto neurótica, mas se explica através de todas as dificuldades que enfrenta. O filho que tem um bebê e que passa o dia tocando piano, a filha que vive com rapazes para cima e para baixo, toda a responsabilidade é dela, o marido era um inútil que não a ajudava em nada, o funcionário vive dormindo em sua rede.  A desordem de sua vida se reflete no ambiente ao seu redor. É onde justamente Jasmim irá mexer, organizando este caos.

Jasmim apesar de estar passando pelo mesmo problema que Brenda, o marido a deixou, e ela ainda está num país estrangeiro, reage de outra forma, ela lida com os problemas de forma criativa, e isto fica explícito no filme em sua reação ao abrir a mala trocada, ou o que fazer com aquele jogo de mágicas que inicialmente não lhe interessava e que foi justamente uma das formas que ela usou para abrir mais espaço e conquistar as pessoas, com a mágica, que metaforicamente podemos dizer que foi com um toque de mágica, de amor, de compreensão que ela transformou o Bagda Café num lugar alegre, cheio de vida e música.



Mas notamos que Brenda é uma pessoa que precisa do outro para a incentivar, uma vez que quando Jasmim tem que ir embora pois seu visto no país venceu, ela se entrega novamente a desordem, e tudo fica apático novamente. Por outro lado quando Jasmim retorna, tudo se reacende, e todos estão alegres de novo.

Percy Adlon nasceu em 1935 em Munique, Alemanha. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

FILME: PLUS TARD TU COMPRENDRAS - 2008


Direção: Amos Gitaï - 2008
Duração: 89 min
Título em português: Mais tarde, você compreenderá

Cinebiografia sobre a mãe de Catherine Clément

Comecei a ler o livro de Memórias de Catherine Clément e logo nas primeiras páginas ela fala de sua infância e de sua mãe, Rivka, judia, que teve seus pais deportados e mortos na Segunda Guerra. Seu irmão Jérôme Clément escreve sobre a história de sua mãe e é este relato que se transformou neste filme. Interessada procurei o filme, mas só o encontrei na internet em francês, que é minha língua materna. Assisti ao filme. 

No filme logo no início quando Victor visita o memorial em Paris aos judeus mortos na Shoah, vemos ao fundo a própria Catherine Clément e seu irmão Jérôme que fazem esta pequena aparição no filme. 

O filme mudará os nomes dos personagens, sendo que Victor (Hippolyte Girardot) será o irmão, e Tania (Dominique Blanc) é Catherine. 

Jeanne Moreau é Rivka, maravilhosa como sempre. O filme começa com a televisão mostrando o início do processo de Klaus Barbie, Rivka não suporta ouvir. Victor chega para jantar com ela, ele está buscando a história de sua família judia, tenta lhe fazer perguntas, mas Rivka desliza, ela não responde. Ele acaba de encontrar uma carta onde seu pai se declara ariano, assim como à filha Tania, mas a mãe como judia, o que o revolta. Ele ainda não havia nascido nesta época. Tania lhe mostra que seus pais fizeram o que todos fizeram, acreditavam no governo Francês, não imaginavam o que iria acontecer, mas ainda assim ele protegeu a filha declarando-a católica e ariana, e que com certeza Rivka sabia disto e esteve de acordo. 

Rivka está muito doente e em breve vai morrer. Ela nunca falou de sua família judia, do que aconteceu com seus pais, o que ocorreu com a maioria das pessoas após a guerra, a negação, ela acreditava que não contando protegia o filho, que era seu predileto, com o qual tinha maior ligação. Com isto o filme também reflete as relações de mãe-filho. 

Victor ficará indignado ao descobrir que o apartamento onde moravam seus avós paternos era o de seus avós maternos, ele foi lá durante anos e nunca lhe foi dito nada sobre isto. Ao final Rivka fala aos seus netos, filhos de Victor, os leva à Sinagoga e entrega ao garoto a estrela amarela que guardou durante anos e lhe pede para nunca esquecer. 

Quando Rivka morre é o tempo que a França reconhece sua culpa pelo colaboracionismo sob o governo de Vichy e por não ter protegido seus judeus franceses. Victor vai até a comissão onde é feito o levantamento dos bens para uma compensação financeira aos familiares, numa tentativa de reparar, principalmente pelo lado simbólico deste ato é necessário. Não mudará a história, mas simbolicamente há o reconhecimento da culpa e do erro. 

Há muitos detalhes neste filme que também remetem à Catherine Clément, que percebemos de onde vem, como por exemplo, ela gosta de falar das vacas sagradas da Índia, foi viver na Índia, mas sua mãe já era uma Hinduísta e dizia que queria renascer como uma vaca, mas uma vaca indiana, sagrada, pois assim não teria que ter medo de ser morta. 

Também a questão de não falar, de acreditar que assim se protege o outro, mas não é possível, a herança psíquica está ali, e vai vir a tona, o recalcado sempre retorna. 
  


Amos Gitaï nasceu em 1950 em Haifa, Israel. 

Jerome Clément 
Catherine Clément