Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de maio de 2016

FILME: O BALÃO VERMELHO - 1956


Direção: Albert Lamorisse - 1956
Duração: 34 min
Título Original - Le Ballon Rouge
País de Origem - França

Paris, anos 50, um garoto encontra um balão vermelho indo para a escola. Ele o pega e o leva junto. É o início de uma história mágica. O balão é quem o segue, lhe obedece. Porém logo o ciúme dos outros meninos irá estragar esta amizade diferente entre o menino e o balão. Um professor também não gostará nada disto e o castigará. 

O ciúme, o preconceito, a rivalidade, a não aceitação de algo diferente levará a um final trágico, mas também especial e mágico. A solidão de uma criança excluída dos bandos que se apega a um balão, pode parecer fantasioso, mas é comum, a criança solitária se apegar a algo inanimado e lhe dar vida para ter companhia. 

Recomendo!!

Albert Lamorisse nasceu em 1922 em Paris, França e faleceu em 1970

FILME: XXY - 2007


Direção: Lucia Puenzo - 2007
Duração: 90 min
País de Origem: Argentina - Espanha - França

Um belo filme que nos fala da transexualidade que serve para que as pessoas possam compreender melhor do que se trata e de como uma pessoa que nasce com as duas características sexuais se sente e o preconceito que existe. 

Alex (Inés Efron) filha de Kraken (Ricardo Darin) e de Suli (Valeria Bertuccelli) nasceu com ambas as características sexuais. Seus pais para se afastar dos preconceitos e dos que acreditam que é necessário corrigir a ambiguidade sexual da criança se mudam para um vilarejo no Uruguai onde kraken trabalha como biólogo. 

Alex toma hormônios para se tornar uma menina, mas começa a resistir a isto e para de tomá-los. Nesta época recebem a visita de um casal de amigos com um filho adolescente, Alvaro (Martin Piroyansky), cujo pai é um médico que faz as cirurgias de correção. A mãe de Alex deseja esta cirurgia, porém seu pai não acredita que isto seja a solução, considerando que seria uma violência ao corpo de Alex.

Alex e Alvaro se sentem atraídos, até que tem um encontro sexual revelador para ambos. Os garotos do vilarejo desconfiam que há algo de errado e acabam cercando Alex numa praia e descobrem que ela é uma menina com órgãos genitais duplos. 

O filme é uma lição, pois o pai de Alex compreende o drama de Alex, e a apoia em suas decisões quando opta por não fazer uma cirurgia e ser como é, escolha difícil diante de uma sociedade que não aceita isto. 

O filme é sensível, e vem ao encontro dos preconceitos, da dificuldade que as pessoas tem em aceitar tudo que não seja o considerado normal. Mas o importante é que mostra que sexo biológico, gênero e opção sexual são coisas diferentes, e isto ainda é muito pouco compreendido. 

Lucia Puenzo nasceu em 1976 em Buenos Aires, Argentina

quarta-feira, 9 de março de 2016

DOCUMENTÁRIO: LOUISE BOURGEOIS Une vie - 2008



Direção: Camille Guichard -
Duração: 52 min
País de Origem: França 

Louise Bourgeois nasceu em Paris em 1911, mas viveu em Nova Yorque a partir de 1938. É reconhecida internacionalmente por seu trabalho de escultas nos anos 70. 

Sou fã desta escultora. Sua obra traduz o feminino, a infância, a sexualidade. O documentário sob forma de entrevista com ela nos fala de seu percurso e de como cada obra se constituiu para ela, qual a essência de cada uma e é justamente nisto que vemos vir a tona o feminino. 

Sua infância foi dolorosa em função de ter um pai que era infiel a sua mãe chegando a levar suas amantes a viver com a família como preceptora das crianças. Ela nos relata também de forma bem freudiana, ela leu os livros de Freud, a castração da menina no complexo de Édipo. Seu pai descascava uma laranja com as mãos e ao retirar a casca por completo e segurá-la aberta nas mãos fica um formato de corpo de uma mulher com um pênis. Bourgeois se considerada desconstruída por seu pai e sua obra o reflete. Ela nos diz que o presente destrói o passado e é muito difícil recriá-lo. Seus traumas de infância são inseparáveis de sua obra, não há como não associá-los. É através da arte que ela passa do passivo da infância como vítima para o ativo reparador, realizando um trabalho de recriação de seu passado. As ameaças que sentimos não podemos mudar, mas sempre é possível negociar com elas. 

Trabalhando com vários materiais, Bourgeois faz esta reconstrução pela arte, suas figuras são deformadas ou mutiladas, as angústias viram totens, ela revive as emoções da mulher, do feminino. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

FILME: MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA - 2015


Direção: Justin Kurzel - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - França - Estados Unidos

Macbeth (Michael Fassbender) e Banquo (Paddy Considine) são generais do exército do Rei Ducan (David Thewlis) da Escócia. Eles vencem uma revolta chefiada por Macdonwald e pelo Barão de Cawdor o que muito agrada ao rei. No caminho de volta os dois encontram-se com as três feiticeiras que lhes fazem profecias, saudando Macbeth como Barão de Glamis, Barão de Cawdor. Elas então dizem: Salve Macbeth, ainda serás rei! Menor do que Macbeth e maior! Nem tão feliz, entretanto muito mais feliz! E para Banquo - Tu engendrarás reis, embora nunca o sejas. 

A primeira profecia logo se realiza quando chegam os emissários do rei e saúdam Macbeth como Barão de Cawdor. Lady Macbeth (Marion Cotillard) que sofre por não poder dar um herdeiro à Macbeth incitará o marido para que haja e seja rei, matando o Rei Ducan durante seu pernoite na vila onde moram. A partir deste feito o medo e a culpa irá atormentar Macbeth que passará a agir para eliminar qualquer um que possa se intrometer em seu caminho, a começar por Banquo. Aos poucos todos estes atos de morte, o sangue em suas mãos que ele nunca mais limpará o leva cada vez a atos mais infames, movido pelo medo, pela ambição e pela ganância. 

Chega o momento onde Lady Macbeth já não suporta mais, o marido enlouquece, tem visões de todos que assassinou. Ele procura as feiticeiras e novamente ouve previsões, desta vez vindo de fantasmas de mortos: Cuidado com Macduff! Ninguém nascido de mulher poderá vencê-lo! Macbeth só será vencido quando o grande bosque de Birnam, subindo a alta colina de Dunsinane, marchar contra ele. 

Macbeth então decide atacar Macduff (Sean Harris), mas este fugiu. Ele então mata toda sua família, esposa e filhos. Lady Macbeth já não suporta. Ela morre. Macduff retorna para se vingar. Cerca o castelo, o bosque de Birman é incendiado, e sobe ao castelo em fumaça. Chega o momento do confronto entre Macbeth e Macduff, que vence ao dizer que nasceu de uma cesariana, retirado de dentro de sua mãe, não tendo nascido pelas vias normais. 

Macbeth era um homem bom, honrado, mas ao ouvir as profecias ele se deixa levar pela ganância e desejo de poder. Sua esposa o confronta ao seu desejo e ao dela, que também deseja ser rainha. Eles cometem o primeiro crime hediondo, com barbaridade. Mas a crença de que farei isto somente para atingir o poder e depois viveremos em paz não funciona, a culpa e os fantasmas os perseguem. O medo de que outro se apodere do trono fazendo com que este ato criminoso se torne vão o leva a cometer outros na ilusão de desta forma ficar livre. Lady Macbeth é perseguida pelas manchas de sangue que não consegue limpar. Ele aos poucos enlouquece. 

Após vencerem a batalha ambos, Macbeth e Banquo, podem estar desejando a recompensa do feito, eles lutaram e venceram para que o reino da Escócia seja livre, então provavelmente inconscientemente desejavam a coroa. Isto se projeta nas feiticeiras que verbalizam o desejo. A questão é que um será rei e o outro pai de reis. Há um descompasso entre os dois que desejam a mesma coisa, mas se por um lado Banquo se ressente por nunca ser rei, Macbeth se angustia por não ter descendência, levando seu ato criminoso a um final, sem continuidade e que vai perdendo a razão de ser. O homem deseja a imortalidade. 

Se as feiticeiras não surgissem, o desejo inconsciente de ambos teria ficado adormecido, em sonhos, mas ao serem simbolizados pela palavra passam ao consciente, e daí para a ação. Por outro lado o rei Ducan é uma figura paternal, era um velho de barba branca. Aqui então temos o parricídio. Outro ponto é que no inicio do filme vemos um Macbeth temeroso, em dúvida, que quer desistir. É lady Macbeth quem o instiga, como uma mãe ao filho, mas depois ocorre a inversão, é ele quem comanda e ela aos poucos definha. 


Justin Kurzel nasceu em 1974 em Gawler, Austrália

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FILME: VINCERE - 2009



Direção: Marco Bellocchio - 2009
Duração: 118 min
País de Origem: França - Itália

O filme relata a relação de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) com Benito Mussolini (Filippo Timi) quando este era um jovem militante socialista radical. Ida apaixona-se perdidamente por ele, absolutamente fascinada por este homem, ela se desfaz de tudo que possui para ajudá-lo a fundar o jornal Il Poppolo d'Italia, o início do Partido Fascista. Ela engravida e nasce um menino. 

Durante a 1ª Guerra Mundial, Benito se alista no exército e fica um tempo sem dar notícias. Ela irá reencontrá-lo num hospital onde também encontrará a nova esposa dele, Rachele (Michela Cescon). 

Trata-se de uma história real pouco conhecida. Ida morreu em 1937 num manicômio psiquiátrico, sozinha, devastada, após sua imensa luta para ser reconhecida como esposa  do Duce, antes do casamento com Rachele que permaneceu sua esposa oficial até o fim de sua vida, e ter seu filho reconhecido como primogênito. Ao longo do filme vemos flashes de mulheres internadas em hospícios e trechos de documentários sobre a época e a ascensão de Mussolini ao poder. 

Logo no início do filme, estamos em 1910 e Benito desafia os cristãos dizendo que irá provar a inexistência de Deus: " se Deus não me fulminar em 05 minutos será demonstrado que ele não existe." Ida está fascinada por este homem, como em breve estará o povo italiano, que será, como Ida, traído e subjugado. 

Ida após ter sido abandonada por Benito não consegue ultrapassar isto, irá destruir sua vida na tentativa de ser reconhecida. Era uma mulher independente, bonita, inteligente, com posses, dona de uma casa de moda feminina em Milão. Abre mão de sua vida por ele. As cenas de amor dos dois no começo do filme mostram seu olhar vidrado nele, e o dele distante, em outro lugar. Há uma falta de limites dela em relação à ele, lhe entrega tudo, corpo, alma, posses. Apesar de dar tudo como ela mesma diz com alegria, como se isto fosse uma felicidade para ela de poder ajudar, no fundo o que ela deseja é ser única para ele, é ser A mulher. 

Ela se fixará nisto por toda sua vida, neste lugar que deseja acima de tudo, sendo incapaz de aceitar o fato que ele a deixou e trocou por outra mulher. Abrirá mão de qualquer possibilidade de reinício de uma vida com seu filho (Filippo Timi), com isto levando a ambos para o trágico. Lembra Antígona, uma vez que também vai contra o Estado e sua lei. Sua obstinação em afirmar que era a esposa e que o filho foi reconhecido, o que nunca foi comprovado oficialmente. 

Ida não é louca, ela sabe onde está, quem é, mas se fixa na loucura deste amor, me lembrando Camille Claudel com Rodin, que também se fixa nele. Acaba sendo internada após gritar para todos ouvirem que já escreveu ao papa, ao primeiro-ministro, ao presidente do tribunal de Milão para que ele vá preso. Depois vai viver com sua irmã e seu cunhado tem a guarda de seu filho. O indício da erotomania, ela diz que só ela o compreende e que está convencida que ele também a ama. É um certeza delirante e que a impede de fazer algo diferente com sua vida. Acabara sendo subjugada pela polícia fascista, seu filho será afastado dela e entregue para outra pessoa criá-lo o que trará um grande sofrimento para ele. E ela dirá que ele está fazendo isto para testá-la, que quer ter certeza de que pode sacrificar tudo por ele, e que quando ele tiver esta certeza irá buscá-la e a apresentará à Itália como sua legítima esposa. 

Ela não pode dar uma outra vida a seu filho, uma nova família. Ele acabou internado em um manicômio e morreu aos 26 anos abandonado. 

Marco Bellocchio nasceu em 1939 em Bobbio, Itália.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

FILME: TRÊS LEMBRANÇAS DA MINHA JUVENTUDE - 2015


Direção: Arnaud Desplechin - 2015
Duração: 120 min
Título Original: Trois souvenirs de ma jeunesse
País de origem: França

Paul Dédalus (Mathieu Amalric) é questionado pela sua namorada sobre seu passado as vésperas de seu retorno para a França. Ele é um antropólogo e irá lembrar dos três acontecimentos que determinaram sua vida, três lembranças de sua infância e juventude.

Primeiro será sobre sua mãe e a infância. A mãe sofria de distúrbios psíquicos e o amedrontava a ponto dele deixar sua casa e ir morar com sua tia Rose (Françoise Lebrun). Após a morte de sua mãe o que deixa seu pai (Olivier Rabourdin) melancólico ele retorna para sua casa. O segundo fato já é na adolescência quando Paul (Quentin Dolmaire) viaja com o colégio para a Rússia e sendo um jovem militante aceita entregar seu passaporte europeu para ajudar na fuga de alguns judeus que queriam ir para Israel. O terceiro é sua paixão por Esther (Lou Roy Lecollinet).

São as recordações mais marcantes que Paul se recorda. Provavelmente devido sua mãe acabou fugindo a assumir um compromisso com alguma mulher o que irá refletir na sua relação com Esther. Ele se recorda aos poucos e diante situações como quando chega a França e é detido devido haver um outro Paul Dédalus, é neste momento que nos fala sobre sua ida à Rússia.

Os anos de juventude em Paris indo e vindo até Roubaix no norte da França  para ver Esther. Seus estudos de antropologia e depois sua opção por ir para países distantes ao invés de assumir uma relação com Esther. Esta por sua vez apesar da inicial aparência de total segurança em relação aos homens nos recorda a mãe de Paul, nos momentos depressivos e de medo que ela sofre. Em sua vida surgem duas outras mães, sua tia Rose e a professora de antropologia, mas após a morte desta parece que isto se encerra.

O ponto alto do filme ao meu ver é o final, onde Paul reencontra seu melhor amigo da juventude e toda a mágoa, ressentimento que ele carregou durante sua vida em relação a ele por ter seduzido Esther virá a tona.



Arnaud Desplechin nasceu em 1960 em Roubaix, França. 

FILME: GRACE DE MÔNACO - 2014


Direção: Olivier Dahan - 2014
Duração: 103 min
Roteiro: Arash Amel 
País de Origem: Estados Unidos - França

Cinebiografia da princesa de Mônaco, Grace Kelly, em um período conturbado para o principiado de Mônaco que estava em conflito com De Gaulle, então presidente da França.

Quando a atriz Grace Kelly casou-se com o Príncipe Rainier III de Mônaco em 1956 parecia um verdadeiro conto de fadas, o que sempre sucede quando uma pessoa que não é da realeza alcança este sonho, como outro exemplo, a Princesa Diana na Inglaterra. 

Mas a realidade nem sempre coincide com o sonho, e o filme começa num período onde Grace( Nicole Kidman) já mãe de dois filhos, não está feliz com sua vida repleta de cerimonial e posturas necessárias a sua posição de princesa. Ela então recebe um convite de Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths) para voltar as telas de cinema, porém seu marido Rainier (Tim Roth) é contra, apesar de deixar a ela a escolha. 

Além disto o momento é delicado, Rainier sofre pressões do então presidente da França, Charles De Gaulle (André Penvern) que decide cobrar impostos de Mônaco ou retomar o principiado como território francês. Grace que havia decidido aceitar voltar ao cinema terá que rever sua decisão. Com a ajuda de seu melhor amigo e o único em quem confia, Francis Tucker (Frank Langella) ela irá operar uma mudança em si mesma em prol de seu marido e do principiado. 

O filme é uma ficção, apesar de vários fatos serem reais. Vale para um momento de descontração. O filme fica longe do La Môme sobre Piaf do mesmo diretor.


Olivier Dahan nasceu em 1967 em La Ciotat, França


A família com seus três filhos 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

FILME: A PELE DE VÊNUS - 2013



Direção: Roman Polanski - 2013
Duração: 96 min
Título Original: La Vênus a la fourrure
Roteiro: Roman Polanski e David Ives
País: França - Polônia


Baseado no romance do século XIX do austríaco Leopold Sacher-Masoch publicado em 1870 que acabou originando o termo masoquismo, baseado em seu nome.

"E o todo poderoso o golpeia e o coloca nas mãos de uma mulher."

"Amar e ser amado é como ser encantado. Entretanto, mais forte e mais lindo. E esse tormento que me consome. A cópula com essa mulher para a qual sou um brinquedo, um escravo miserável, servil, o chão onde ela pisa, minha deusa, minha ditadura, minha vênus coberta por peles."

Thomas ( Mathieu Amalric) é um dramaturgo que pretende encenar no teatro uma livre adaptação do livro de Sacher-Masoch. Ele está a procura de uma atriz e tem dificuldades em encontrá-la. Mas eis que surge Vanda ( Emmanuelle Seigner), atrasada, toda atrapalhada, quase que implorando uma chance para fazer o teste do papel de Vanda, pois o personagem tem o mesmo nome.



Se no início Vanda parece despreparada além de criticar a peça aos poucos ela adentra o personagem de forma impressionante e conduz Thomas a desempenhar o papel de Severin. De repente já não sabemos o que é encenação e o que é realidade, os papéis se invertem, há momentos que Vanda o chama de Thomas e outros de Severin, levando-o a confessar que há muito de sua vida pessoal na peça.

Quando Vanda lhe passa (à Severin) a sua "pele" (no filme um cachecol de lã), suas mãos tremem. Vanda lhe pergunta o porque e indaga se em sua infância não houve algo ao que Severin responde: " nós todos somos explicáveis e permanecemos inextricáveis. A vida nos faz ser o que somos num instante, imprevisível." É quando ele lhe conta sobre sua tia que usava uma pele. Ele foi uma criança terrível que perturbava a vida dos criados e do gato, e também não se portava bem com sua tia, até o dia que ela resolve se vingar e lhe dar uma lição. Ela entra em seu quarto junto com duas criadas munida de uma vara, ele tenta fugir, mas as criadas o seguram, é jogado sobre a pele, e elas cavalgam sobre ele enquanto de calças arriadas a tia lhe dá uma surra, o chamam de menina. A tia ainda o obriga a agradecer de joelhos e a beijar seu pé. A partir deste dia uma pele nunca mais foi uma simples pele e uma vara uma simples vara. "Em um instante ela fez de mim este que sou agora."

Até os dias atuais ela retorna em seus sonhos, e Severin diz à Vanda que ela lhe ensinou a coisa mais preciosa do mundo, que nada é mais sensual que a dor, nem nada mais excitante que a degradação. Ela se tornou meu ideal diz ele. Desde então eu procuro sua réplica e quando encontrar essa mulher me casarei com ela.

Há muito de psicanálise nisto. Quando nos apaixonamos geralmente o fazemos por nós mesmos,ou seja, vemos no outro nosso ideal. Aqui no filme talvez Séverin diz meu ideal como o ideal de mulher para ele, ou seja, alguém que o faça sofrer. Mas ao nos apaixonarmos também vemos um traço, que geralmente é de nossos amores objetais primários, ou seja, normalmente a nossa mãe. Porém em casos de abusos na infância, de algo que marca muito forte, que causa um trauma, esta marca pode mudar e permanecer se não for analisada e desvendada, para poder ser superada. Há a introjeção do agressor ou a posição de objeto deste agressor. De cruel ele passa a ser o objeto da crueldade de outro, de um sádico. Por que sua tia bem o é, uma vez que não seria necessário isto para educar o garoto.

O filme pode ser visto também sob o viés da questão do poder. No amor como na política, só um pode ter o poder, diz Severin. Vênus só pode reinar em um mundo de escravos. No início Vanda parece frágil, está à mercê do poder do diretor da peça do teatro, mas aos poucos isto muda, e na medida em que ambos vão ensaiando a peça, eles encarnam seus personagens, trocam de lugar, e ao final temos Vanda no lugar do mais forte, do que subjuga o outro.



Mas se pensarmos no que aconteceu na infância de Severin, e o diretor Thomas não nega que há muito de sua vida e de si mesmo na peça, vamos ver alguém que tem o desejo da dor como prazer, e que irá em busca de alguém que seja o sádico. Porém Vanda questiona isto, não aceita o desejo de dominar pois compreende que ele ao lhe pedir que o domine a está submetendo ao desejo dele e com isto a domina. É aqui o ponto da liberdade de Vanda que não entra neste "jogo" nem de poder, nem do sadomasoquismo.

Temos uma cena num divã onde Vanda nos parece assumir o lugar de um psicanalista. Thomas está no divã e ela lhe fala de sua noiva e da relação dos dois. Fala sobre o desejo dele.

Um filme que fala do amor, do patológico, de desejos, de poder. Do querer ser um objeto para preencher um espaço vazio que se vê no outro.



Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Emmanuelle Seigner, protagonista deste filme é sua esposa. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: MINHA MÃE - 2015



Direção: Nanni Moretti - 2015
Duração: 107 min
Título Original: Mia Madre
País: Itália - França

Um filme sensível sobre uma mulher, Margherita (Margherita Buy) diante de todos os desafios que uma vida impõe. Diretora de cinema está iniciando as filmagens de um filme que tem como protagonista um astro americano, Barry Hughins (John Turturro). Por outro lado sua vida pessoal não está fácil. Acaba de se separar de seu companheiro, tem uma filha adolescente, e sua mãe (Giulia Lazzarini) está internada no hospital. O contrapeso é seu irmão Giovanni (Nanni Moretti) que está ao seu lado diante de todas estas situações difíceis, principalmente a questão da mãe.

Margherita me parece viver em conflito com o que deseja e o que faz, tem dificuldades em se relacionar com os outros afastando-os, mas ao mesmo tempo se sente só. Ela está tão focada em si mesma que nem toma conhecimento que sua filha esteve perdidamente apaixonada e que sofreu muito com isto, o que acabou interferindo em seus estudos. Quando fica sabendo disto através de sua mãe, ela reage mais preocupada com o fato dela não ter se apercebido do que com o sofrimento que a filha enfrentou. 

Sua mãe é uma doente terminal, ela está morrendo. Margherita não consegue lidar com isto. Através de suas lembranças ela vai se culpando ao mesmo tempo que não consegue aceitar a velhice e a doença de sua mãe. Isto fica nítido na cena onde sua mãe que quer ir ao banheiro e deseja fazê-lo sem a ajuda de enfermeiras ou o uso da cadeira de rodas não ultrapassa os três primeiros passos e é vencida pelo cansaço. Margherita não consegue aceitar isto. O ambíguo é a recordação de uma cena onde sua mãe insiste em dirigir seu carro e ao estacionar acaba esbarrando no da frente levando Margherita a ter uma atitude autoritária, rasgando a carteira de habilitação da mãe, com isto considerando-a inapta para continuar a dirigir. Não lhe passa pela cabeça que sua mãe é um sujeito e que pode arcar com este pequeno incidente. Para encerrar de vez com isto Margherita simplesmente destrói o carro jogando-o várias vezes contra a parede.

O filme é sobre o crescimento desta mulher que confrontada com várias questões difíceis ao mesmo tempo, seja no trabalho onde ela deve lidar com um ator que não se deixa dominar por ela, como sua equipe que acaba sempre abaixando a cabeça, seja com a doença da mãe, seja com seus relacionamentos amorosos, seja com uma filha adolescente. 

Giovanni está ali para que tudo não fique trágico demais, apesar de que ele também sofre com a questão de sua mãe, e tem que fazer escolhas em sua vida, mas ele as faz. Ada,a mãe, é justamente o oposto da filha, sempre soube estar próximas as pessoas e ser amada por elas. Parece-me que a identificação da filha com a mãe é pelo seu oposto, como se ela tentasse ser diferente, mas ao final ela irá perceber o quanto as lições de sua mãe foram fundamentais para que ela possa viver melhor, sem precisar ser igual a sua mãe. 



Nanni Moretti nasceu em 1953 em Brunico, Itália 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

DOCUMENTÁRIO: SARTRE POR ELE MESMO - 1976


Direção: Pierre-André Boutang e Guy Seligmann - 1976
Duração: 187 min
Título Original: Sartre par lui même
País: França

O documentário nos mostra 03 horas de entrevistas com Jean-Paul Sartre respondendo a todas perguntas feitas sobre sua vida, sua obra, e seu percurso intelectual e político. Filmado em seu apartamento ou no de Simone de Beauvoir, estão presentes além dos dois, Jacques-Laurent Bost, André Gorz, Jean Pouillon, Marie Olivier, François Périer e Serge Reggiani. 



Sartre fala de sua infância com seus avôs, sua mãe, o casamento desta em segundas nupcias, sua vinda para Paris onde conhece Paul Nizan e em seguida Simone de Beauvoir, seus primeiros contatos com a filosofia e sua rejeição da psicanálise freudiana e do surrealismo em voga na época. Inicialmente Sartre não se interessa pela política, irá para Berlim em pleno nazismo e estudará a fenomenologia de Hegel. Será quando ficar preso num campo de prisioneiros que despertará para o mundo. Até este momento Sartre havia ignorado o nazismo, a guerra civil da Espanha, dedicando-se totalmente a escrita do "O ser o nada". Também publicou "A Náusea". 

Após escapar do campo de prisioneiros ele começa sua atuação política, inicialmente através do teatro, como a peça "As moscas" falando de forma simbólica sobre o regime de Vichy. Após a guerra sua obra se torna conhecida e célebre, o momento é oportuno, todos querem viver e esquecer a guerra. A França passa a respirar o existencialismo, é algo além da filosofia, se torna social. Sartre e Beuavoir fundam a revista "Temps Modernes", e passam a tomar parte ativa nos acontecimentos políticos, Sartre se torna um intelectual engajado, ativo. Ele fala sobre sua participação no partido comunista e sua saída, sobre a viagem à Cuba, sua militância sobre a questão da Argélia. Recusa o prêmio Nobel de literatura. E nos fala de maio de 1968.

O documentário é o percurso, a trajetória de vida de Jean-Paul Sartre e de todos os acontecimento políticos e sociais vividos por ele. Vale para conhecer além deste grande filósofo e escritor também toda uma época da história.

Pierre-André Boutang nasceu em 1937 em Paris e faleceu em 2008 na Córsega, França

Guy Seligmann 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MINISSÉRIE: SARTRE A ERA DAS PAIXÕES - 2006



Direção: Claude Goretta - 2006
Duração: 190 min
Título Original: Sartre: L'agê des passions 
País: França 

Trata-se de uma minissérie em dois episódios que reconstitui a atuação de J.P. Sartre entre os anos de 1958 e 1964.



Durante estes sete anos acompanhamos Sartre (Denis Podalydès) em seus debates filosóficos, literários e políticos, sua atuação contra a Guerra da Argélia, suas viagens à Cuba e à Rússia, sempre acompanhado de Simone de Beauvoir (Anne Alvaro).

O Filme também traz a vida mais pessoal de Sartre, como seus amores, principalmente neste período por Carla ( Maya Sansa), uma italiana que vivia em Paris e namorava Frédéric (Frédéric Gorny) que se engaja na militância contra a guerra da Argélia e por Lena (Nino Kirtadzé), uma russa. Suas viagens pela Itália, para onde iam praticamente todos os anos, muitas vezes acompanhados de Sylvie (Élisabeth Vitali). Também adentramos um pouco o mundo das editoras com a famosa Gallimard que publicou os livros de Sartre e Simone através das conversas de Sartre e Robert Gallimard (Carlo Brandt). As amizades, as discussões intelectuais, os livros, as impressões e a atuação de Sartre e Beauvoir na revista Os Tempos Modernos.

A todos que se interessam por Sartre e Beuavoir recomendo que assistam. Mas o filme também é um retrato da época, de Paris, da efervescência intelectual , da agitação política que já antecipava o maio de 68. 

Claude Goretta nasceu em 1929 em Genebra, Suíça

sábado, 8 de agosto de 2015

FILME: LA SAPIENZA - 2015


Direção: Eugène Green - 2015
Duração: 104 min
País: França - Itália

O filme atraiu-me por tratar de arte, da bela arquitetura das igrejas na Itália, mas fui surpreendida por outro aspecto. Alexandre (Fabrizio Rongione) é um arquiteto e totalmente racional, sua esposa Aliénor (Christelle Prot) trabalha com o lado humanitário das construções e estudou sociologia e psicanálise. E ambos irão encontrar dois irmãos que são voltados para a espiritualidade. São três formas de ver o mundo que no filme irão se encontrar e oferecer possibilidades diferentes para cada um deles.

Alexandre encontra-se em crise, está em dúvida em relação a tudo que fez e seu casamento não está bem. Ele resolve ir para a Itália e sua esposa o acompanha. Irão primeiro para Stresa, a beira do lago Maggiore,
Será ali que encontrarão os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro) num momento onde a jovem se sente mal e Aliénor se prontifica imediatamente a levá-los de táxi para casa.

Alexandre parte para Roma e Aliénor sugere que leve Goffredo com ele, ela deseja ficar para tentar ajudar Lavínia. A viagem se transformará em um aprendizado para ambos e significará a libertação para Alexandre que poderá enfrentar seus fantasmas e a culpa que sente.

As visitas às igrejas e as explicações sobre a arquitetura com a visão de Alexandre e a de Goffredo são extremamente interessantes. Se inicialmente Alexandre estava arredio, aos poucos ele se abre e simpatiza com o jovem e passa a escutá-lo.







Aliénor ao tentar ajudar Lavínia através da psicanálise acabara também compreendendo outras maneiras de ver a vida, por um lado espiritual onde seu conhecimento não pode ajudar muito, apesar do interesse de Lavínia. Há um momento no filme em que o diretor Eugène Green aparece no papel de um imigrante e fala para Aliénor sobre seu destino que leu nas estrelas. 

Um filme interessante que mostra como os saberes podem se mesclar e criar novas possibilidades, o que era impossível enquanto cada um estava em sua própria maneira de ver o mundo e a si mesmo. Um enriquece o outro e abre novas portas, ou como a metáfora do filme, deixa a luz entrar. 

O título do filme deriva de Sant'Ivo alla Sapienza, uma igreja católica que foi construída pelo arquiteto Francesco Borromini, em Roma nos anos 1642-1660, e é considerada uma obra prima do Barroco. 

Francesco Borromini nasceu em 1599 em Bissone, Lago Lugano que hoje pertence à Suíça e faleceu em Roma, Itália em 1667. Foi um arquiteto barroco que competia com o grande mestre Gian Lorenzo Bernini. A morte de Borromini foi algo inesperado, ele queimou todos seus desenhos e se matou com sua própria espada. 

Eugène Green nasceu em 1947 em Nova Yorque, EUA.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

FILME: UMA ALMA ASSOMBRADA POR UMA PINTURA - 1994


Direção: Shuqin Huagn e Zhang Yimou - 1994
Duração: 135 min
Título Original: Hua Hun
País: China - França - Taiwan

Cinebiografia da pintora chinesa Pan Yu-liang baseado no livro escrito por Shih Nan intitulado Hua Hun. 

Um dos grandes feitos de filmes assim é nos apresentar a artistas sobre os quais pouco ou nada sabemos. É o caso desta pintora chinesa, Pan Yu-liang,  que eu não conhecia e que é a maior representante da arte ocidental na China.

Início do século XX, Yuliang (Gong Li) após a morte de seus pais encontra-se num bordel onde deve se tornar prostituta. Quis o destino que seu primeiro cliente fosse Chan-hua Pan um inspetor da alfândega a quem todos queriam agradar e lhe levam Yuliang. Ele se recusa a isto, mas ela implora que a salve e ele aceita pagando sua dívida ao bordel. Eles irão se casar, ela será a segunda esposa dele. Após Pan se afastar da Revolução de Yunnan eles se mudam para Xangai onde ela aprende a pintar e tem aulas no Art Institute de Xangai.

O que acabará interferindo entre eles é que Pan deseja um filho, mas por haver tomado uma droga ainda no bordel ela nunca poderá ser mãe. Os desenhos de nus com modelos vivos são condenados e os alunos do Instituto se dispersam, alguns irão para Paris e Yuliang também vai, deixando Pan com sua primeira esposa para que possa ter um filho.



Em Paris ela ganha um prêmio por um auto-retrato nu. Em 1930 ela retorna para a China e se torna professora, mas a inveja de um colega que não aceita uma mulher e jovem como professora o leva a por a público seu passado no bordel. Yuliang retorna pela segunda vez à Paris e lá permanecerá pelo resto de sua vida. Ao final terá uma grande exposição pelo seu trabalho.

Em 1985, depois de sua morte, a China levou muitos de seus trabalhos para o Museu Nacional de Arte em Beijing.


Pan Yu-Liang nasceu em 1895 em Anhui, República Popular da China e faleceu em 1977 em Paris, França





Shuqin Huang nasceu na República Popular da China 

Zhang Yimou nasceu em 1951 em Xian, República Popular da China 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

FILME: VOYAGE EN CHINE - 2015


Direção: Zoltan Mayer - 2015
Duração: 95 min
País: França

Liliane (Yolande Moreau) é casada com Richard (André Wilms), um homem que lhe dá pouca atenção. Em uma noite ela recebe um telefonema que seu filho Christophe faleceu em um acidente na China, onde estava morando. Liliane deseja trazer o corpo do filho para a França, mas se depara com uma burocracia infinita e incompreensível que não lhe esclarece absolutamente nada. Finalmente se decide a ir pessoalmente à China para buscar o corpo, mas irá sozinha, não quer que o pai a acompanhe, uma vez que pouco se importou com o filho durante toda sua vida, não precisa se importar agora. 



Esta viagem de dor e luto irá mudar a vida de Liliane completamente. Ela chega a um país com uma cultura totalmente diferente da sua e sem falar uma palavra de chinês. Sentimos em nós a angústia que isto causa, sem poder compreender ninguém, nem falar com o outro, porém há uma diferença crucial, pois não existe muita diferença entre seu percurso na França em busca de informações de como transladar o corpo do filho, onde todos falam francês, mas não dizem nada e não se compreende nada, e sua situação na China com a língua, mas ali as pessoas a acolhem, se esforçam para compreender e ajudá-la. 




Ela irá para o interior do país, e as paisagens são belas. Conhecerá Danjie (Qu Jing Jing) que foi a namorada de seu filho. Será acolhida pela senhora dona da hospedagem e fará um amigo que a ajudará a conseguir os documentos necessários. É justamente aí que vemos quando o ser humano deseja ajudar o outro ou não. Mesmo sem falar chinês e eles sem falarem francês, ela consegue o que precisa. 



Liliane conhecerá os amigos do filho e saberá algumas coisas sobre sua vida. Ela sente não ter ido antes quando ele ainda estava vivo, e começa a escrever uma espécie de diário onde conversa com ele sobre suas impressões do que está vivendo, como forma de compensar este vazio que sente. Ao descobrir que para o taoismo as pessoas que morrem em acidentes não vão para o céu, ou nirvana, ela resolve com Danjie cumprir os rituais necessários para que sua alma se liberte. E depois opta pela cremação por ser uma forma mais fácil inclusive de levar o filho para a França, realizando também o ritual fúnebre na China. 



Um filme que mostra que a dor muitas vezes é uma porta para uma nova vida, pois nos dá coragem de agir. 


Zoltan Mayer nasceu na França 

terça-feira, 21 de julho de 2015

FILME: LE LIVRE DE MARIE - 1984


Direção: Anne-Marie Miéville - 1984 
Duração: 35 min
País: França - Suíça 

O filme vem antes de Je vous Salue Marie. Trata-se da história de Marie, uma menina de onze anos que vive momentos difíceis, pois seus pais (Bruno Cremer e Aurore Clément)  estão se separando e tudo irá mudar para ela. 

Marie tenta se consolar ouvindo Réssurection de Gustav Mahler, mas não obtém êxito. A dificuldade para qualquer criança ou jovem diante da separação dos pais que rompe com o imaginário infantil dos pais perfeitos e ao mesmo tempo abala a segurança da criança. 

A diretora Anne-Marie Miéville é a terceira esposa de Jean-Luc Godard e o curta foi escrito como um complemento para o filme Je vous Salue Marie.



Anne-Marie Miéville nasceu em 1945 em Lausane, Suíça 

FILME: JE VOUS SALUE, MARIE - 1985


Direção: Jean-Luc Godard - 1985
Duração: 102 min
Roteiro: Jean-Luc Godard 
País: França - Suíça

Filme que causou tanta polêmica e escândalo e que eu não havia assistido. No entanto o que encontro neste filme é pura arte. Uma nova maneira de contar a história de Maria e José, mas dentro de um contexto moderno, mesmo que em vários momentos do filme apareça escrito Naquele tempo.. , mas o que justamente o filme nos lembra a da contemporaneidade da história que não se perdeu lá atrás e que é possível trazer este mistério para o mundo atual com um casal jovem que nunca transou e justamente por isto deixa José (Thierry Rode) incrédulo  no começo sobre Maria (Myriem Roussel) ser virgem e estar grávida. 

Paralelamente temos a história de um professor de ciência (Johan Leysen) que estuda a origem da vida e tem um caso com uma de suas alunas, Eva (Anne Gautier), não à toa chamada de Eva, e que come uma maçã. 

José trabalha como taxista e está sempre com seu cachorro e Maria estuda, joga basquete e ajuda seu pai no posto de gasolina. Vemos um avião sobrevoando para aterrissar e depois vemos Gabriel acompanhado de uma menina maliciosa. Gabriel não se pode dizer que seja um primor de delicadeza, nem um pouco angelical digamos, mas é ele, o anjo Gabriel que vem até Maria e que depois irá de maneira um tanto grosseira e bruta abrir os olhos de José para que ele acredite, para que creia, para que confie, o que no final acabará ocorrendo, mas não sem antes ele se debater muito e inclusive se aproximar de Juliette (Juliette Binoche), mas que não conseguirá conquistá-lo. 

Como estamos na modernidade o que Maria enfrentará é o ceticismo, até mesmo do médico que a viu nascer que ao constatar sua virgindade e ao mesmo tempo a gravidez, não consegue conceber que ela não tenha tido algum contato com José. Não há escândalo, há indiferença, ok!, então que assim seja. Ela também irá duvidar do amor de José ao saber de seus encontros com Juliette. 

Finalmente eles se acertam e passam a viver junto, a criança nasce. Mas Maria não é diferente das outras mulheres, ela gosta de se vestir bem, não é uma santa, e a castidade que lhe é imposta pesa, ela tem desejos e tem que lutar contra esta tentação. É um percurso espiritual, onde ela quer que a alma seja corpo. Não se trata de uma Maria passiva, ela tem que alcançar algo, se superar, estar acima dos outros, é este seu percurso e que não é fácil, ela é humana. Com isto ela se encontra na solidão, aquela de todos que são diferentes, mas a dela é maior. 

O professor de ciências não consegue afinal explicar a origem da vida, há um ponto onde ele não consegue mais e tem que admitir que há algo maior. José também quer compreender, quer saber tudo, é cego, não consegue ver além da ciência, do materialismo. Para ele é o corpo que age sobre o espírito e terá que percorrer seu caminho de crescimento também até encontrar o amor. 



No final vemos um casal banal, o filho parte, Maria sabe que tem que ser assim, mas ela volta a ser uma mulher como qualquer outra, perde sua pureza. 

Há algo na mulher que é mistério, mas na modernidade atual isto se perdeu, nem mesmo Maria o mantém, nem mesmo quando o anjo Gabriel a saúda, ele por um momento faz com que ela lembre, vem algo, mas ela retoma a vida cotidiana e banal. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França