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sábado, 7 de fevereiro de 2026

A FORÇA SILENCIOSA DE EUNICE PAIVA


 

AINDA ESTOU AQUI

MARCELO RUBENS PAIVA

ALFAGUARA – 1ª ED. 2015

296 páginas 

Não assisti ainda ao filme, mas diante de toda a repercussão recente, confesso que esperava mais do livro. Ainda estou aqui tem sido amplamente mobilizado no debate público como uma obra sobre a ditadura militar, mas, na leitura, essa dimensão aparece de forma relativamente limitada e, em certos momentos, até repetitiva.

A prisão e o assassinato de Rubens Paiva ocupam menos espaço do que se poderia supor. Os episódios ligados à repressão retornam ao longo do texto, mas sem grande aprofundamento histórico ou político, o que contrasta com a centralidade que o tema ganhou na mídia. A ditadura está ali, sem dúvida, mas não é esse o núcleo mais potente do livro.

O que realmente se impõe como experiência literária e afetiva é o relato do Alzheimer de Eunice Paiva. É um texto pungente, delicado, por vezes devastador. Se é possível usar essa palavra diante de uma doença tão cruel, trata-se de um relato “belíssimo”, justamente por sua contenção e honestidade. O apagamento progressivo da memória, a inversão de papéis entre mãe e filhos, a perda cotidiana e irreversível da pessoa que se ama é narrado com uma sensibilidade que sustenta o livro.

Chama atenção, no entanto, o pouco espaço dedicado à vida de Eunice entre a prisão do marido e o início da doença. Há apenas apontamentos: sua formação em Direito, sua atuação na defesa dos povos indígenas, a conquista de autonomia e independência. Eunice era uma mulher de classe média alta, dona de casa, inserida em um casamento tradicional, cuja vida foi abruptamente virada do avesso. Essa transformação — talvez uma das mais fortes — permanece quase como pano de fundo.

O livro toca em um ponto delicado e raramente explorado: a raiva que Eunice sentiu do marido. Uma raiva legítima, complexa, que conviveu com a lealdade, a defesa incansável de sua memória e a luta por justiça. Essa ambivalência humaniza a personagem e rompe com qualquer idealização fácil.

Até hoje, não se sabe exatamente do que Rubens Paiva foi acusado. No livro, a explicação apresentada envolve uma correspondência vinda do Chile com seu nome, destinada a outra pessoa. Ainda assim, a violência foi extrema e rápida. Muitos morreram nos porões da ditadura, mas esse caso se destaca pela brutalidade concentrada em poucas horas. Não há registro de delação. Eunice foi presa junto com a filha; a menina foi libertada rapidamente, enquanto Eunice permaneceu dias encarcerada. Mesmo sem agressão física direta, trata-se de tortura psicológica, e isso também destrói.

No fundo, Ainda estou aqui é menos um livro sobre a ditadura e mais um livro sobre uma mulher. Uma mulher que, de um dia para o outro, precisou se emancipar. Que perdeu o marido, o amparo financeiro, a posição social e a segurança. Sem pensão, já que Rubens Paiva foi declarado fugitivo e não morto, ela assumiu sozinha a criação dos filhos, o sustento da família e a reconstrução de si mesma.

Vou assistir agora ao filme — já ouvi que ele enfatiza muito mais a ditadura. Resta ver como essa escolha desloca o centro da narrativa. O livro, ao menos, permanece como o retrato de uma força feminina silenciosa, construída na perda, na raiva contida e na resistência cotidiana.



Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo em 1959. É escritor, dramaturgo e roteirista 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

À BEIRA DO MITO, À BEIRA DE SI

 


KAFKA À BEIRA-MAR

HARUKI MURAKAMI

ALFAGUARA – 1ª ED. 2008

576 páginas 


Kafka à Beira-Mar é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar. O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja justamente aí que resida sua força.

Apesar dessa abertura radical, o romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza narrativa do que na intensidade da atmosfera.

A obra é atravessada por múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e contemporaneidade coexistem sem hierarquia.

A história se desenrola a partir de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás. Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro psicológico, simbólico e contemporâneo.

O segundo personagem é Nakata, um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem, mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a causalidade linear.

Murakami constrói, assim, um romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito, como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino, em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso, que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.

Kafka à Beira-Mar não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.


Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês. 


sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DE UMA VIÚVA - JOYCE CAROL OATES



Oates, Joyce Carol. Objetiva, 2013 - Selo Alfaguara
Tradução: Débora Landsberg
453 páginas
Título original: A Widow's Story

Joyce Smith, esposa de Raymond Smith, casados por 47 anos, uma vida, e de repente, ela está viúva, sem esperar por isto apesar de ter havido o que ela supos serem sinais que isto iria ocorrer, mas não era previsível. Ela retorna de uma viagem e Ray está com uma gripe forte, ela o leva para o Hospital de Princeton que é o mais perto, pneumonia, ele fica internado, mas melhora, e já há a previsão para a alta quando ele sucumbe a uma infecção secundária e vem a falecer.

Choque, culpa, vazio, raiva, solidão, perder o sentido de viver, os sintomas do luto, tudo que vivemos nestes momentos de perda Oates irá nos relatar com franqueza neste livro. Toda sua dor, sua desorientação, as noites insones, a falta de energia, os amigos, as burocracias necessárias neste momento. Ela está exaurida, sofrendo, mas tem que continuar a vida.

Para quem passa uma vida ao lado de outra se ver de repente só é algo que desorienta totalmente ao que fica, ele não compreende, não sabe o que fazer, e irá a todo momento pensar: Ray faria isto, Ray faria aquilo, ele diria isto ou aquilo, o fantasma ronda, fica ali. O desejo de morrer junto, do suicídio, que Oates nos relata sob a forma de um basilisco que a persegue, aquele espécie de lagarto que zomba dela. Todo lugar onde se vai há dor e culpa: na última vez que estive aqui Ray estava junto, é estranho estar ali sem ele, ou, nunca estive aqui sem Ray, é horrível pensar que ele nunca conhecerá aquele lugar, pior ainda se ele desejava conhecer e agora não pode mais.

Ouvir condolências, ouvir as pessoas falando dele, dizendo que sentem muito, é horrível, mas se não ouvir também será horrível. Ficar em casa é ruim, mas não estar em casa também. Tudo na casa o recorda, onde compraram um quadro, a música que costumavam ouvir, ele estaria sentado ali, mas não está mais.

Sua culpa, ela se acusa de não ter feito mais, de não ter levado Ray para outro hospital, e pior, de ter sido ela a levá-lo àquele, e vê sua culpa projetada nos gatos que a estranham e se afastam como se eles soubessem que foi por culpa dela que Ray não está mais ali.

Um relato pungente sobre como realmente se sente uma pessoa de luto, o processo de separação daquele que perdemos, a parte que ele leva com ele e que não recuperamos mais, e teremos que construir algo novo no lugar. Até chegar um tempo em que as coisas se ajeitam, a separação ocorre, e a pessoa que perdemos poderá morrer, mas será sempre lembrada e amada.

Me chamou a atenção as questões culturais também, de como nos Estados Unidos após o falecimento de uma pessoa ela recebeu inúmeras cartas de condolências e presentes como flores, cestas de comida, de sucos, e como se desesperava com tudo isto. E depois ter que responder a todas estas cartas. E no caso de Oates a dificuldade que ela tinha de ouvir as pessoas falarem do marido, perguntarem dele ou falarem de sua perda, sendo que muitas vezes as pessoas anseiam por isto, por serem acolhidas, o que mostra que cada um tem sua forma de viver o luto.

Uma bela homenagem ao seu marido e a si mesma, assumindo sua dor e todas as dificuldades e desorientações, culpas e raivas que se sente no hora da perda de alguém que amamos muito, e de como aos poucos ela irá voltar a vida. Sofra por Ray, ele merece. Não só ele merece, ela também, pois é necessário viver o luto, chorar, sofrer, passar por ele para poder continuar depois.

Joyce e Raymond

Joyce Carol nasceu em 1938 em Lockport, New Your, EUA

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LIVRO: DEZ MULHERES - MARCELA SERRANO



SERRANO, Marcela. Alfaguara/ Editora Objetiva - 2012
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
267 páginas
Título Original: Diez Mujeres

Primeiro livro da escritora chilena Marcela Serrano que leio, e gostei muito. Natasha, uma terapeuta reúne por um dia nove de suas pacientes para que falem, contem suas histórias. Idades diferentes, classes sociais diferentes, origens diferentes e cada uma com seu drama pessoal, mas que ao ler a sensação que temos é que poderia ser uma história só.
Vamos nos identificando com um aspecto de uma, depois de outra, e ao final não fui capaz de dizer com qual eu me identifico mais, pois em cada uma das histórias encontrei algo que se parece com a minha.
Francisca que fala de sua mãe, Mané sobre a velhice, Juana sobre a dor e o viver para o outro, Simona sobre o prazer da solitude, do viver para si, Layla sobre a violência, o estupro que sofreu e que irá afetar sua vida sem que ela se dê conta, Luisa que nos fala sobre os desaparecidos, Guadalupe nos conta o como é descobrir sua homossexualidade e enfrentar os preconceitos, Andrea que tenta se encontrar no deserto, dar um sentido a sua vida, Ana Rosa que nos fala da morte e da culpa, e do incesto e suas consequências e a história de Natascha contada por uma amiga e colaboradora. Por mais que cada uma foque em algo, na soma de sua história ela nos falou muito mais.

Fiquei imaginando a cena inicial, estas nove mulheres se olhando sem saber o que aconteceu à outra, sem saber as dores, as dificuldades, as alegrias, qual desejo tem cada uma para quando chegam ao final do dia terem descoberto que todas, inclusive aquelas que umas invejam por terem tudo e imaginam que com isto não podem se deprimir, e nem passam por dificuldades, também tem dores e sofrimentos.

Mas, Serrano consegue nos falar de tudo isto de uma forma que me lembram as histórias contadas pelos antigos para ensinar sobre a vida, os contos que ainda não haviam sofrido a manipulação para se tornarem os "felizes para sempre" que tanto nos iludem, por que a vida não é assim, ela é feita de momentos, e entre estes momentos temos o trágico, mas também temos a alegria e o prazer. A cada relato nos refletimos, pensamos, aprendemos e descobrimos que não somos a única a passar por coisas difíceis, e que cada uma tenta a seu modo viver a vida que tem com tudo que isto significa.

No final do livro temos uma frase: " É que a literatura, como a psicanálise, luta com a complexa relação entre o saber e o não saber."

Quando contamos uma história, e principalmente se é a nossa história, nos ouvimos contar, mas também somos escutados por outros, e é nesta interação que surge o que não sabemos e não falamos, mas que o outro ouviu dentro de si. Sempre haverá mais palavras a serem ditas e ouvidas.

O livro é uma colcha de retalhos, retalhos que se costuram para nos aquecer.

Marcela Serrano nasceu em Santiago, no Chile, em 1951. Após o golpe militar de 11 de Setembro de 1973 exilou-se na Itália até 1977. Formou-se em Belas Artes.