quarta-feira, 1 de abril de 2026

A TRAVESSIA: FUGA, RESISTÊNCIA E EXÍLIO

 


FUGA DA TERRAS DAS NEVES

A fuga do jovem Dalai Lama para a liberdade

STEPHAN TALTY

EDITORA GAIA – 1ª ED. – 2012

254 páginas

 

Em Fuga da Terra das Neves, Stephan Talty constrói um relato que vai muito além da travessia dramática do líder tibetano após a invasão chinesa. O livro articula história, espiritualidade e política ao apresentar não apenas os acontecimentos que levaram ao exílio, mas também o universo simbólico e religioso do Tibete, o processo de reconhecimento da reencarnação do Dalai Lama, sua infância e formação no Palácio de Potala, em Lhasa, com seus rituais, regras rigorosas e códigos milenares.

Ao contextualizar a vida tibetana e sua religiosidade, o autor mostra o lugar singular que o Dalai Lama ocupa na sociedade: não apenas como líder espiritual, mas como eixo simbólico de identidade, coesão e continuidade cultural. Essa centralidade ajuda a compreender por que, com a chegada das tropas chinesas, sua permanência em território tibetano se torna um ponto estratégico. Para a China, mantê-los sob controle significaria uma vitória política decisiva: dobrar o Dalai Lama seria, em grande medida, dobrar o próprio Tibete.

O cerco se intensifica quando o Dalai Lama se refugia no palácio de verão. Temendo por sua vida, os tibetanos organizam resistência e cercam o local como forma de proteção. É nesse momento de tensão extrema que se decide a fuga. Com apoio de rebeldes tibetanos e também da CIA, a saída é planejada de forma discreta, atravessando montanhas e territórios hostis em uma jornada de aproximadamente duas semanas até a Índia. O livro acompanha esse percurso passo a passo, revelando o risco constante, o medo, a exaustão e a dimensão humana de um jovem líder lançado precocemente à condição de exilado.

A chegada à Índia tampouco é simples. Inicialmente relutante em conceder asilo, o governo indiano acaba cedendo diante da pressão e do pedido dos Estados Unidos, acolhendo o Dalai Lama em um gesto que teria consequências geopolíticas duradouras. A partir daí, o Tibete passa por uma transformação radical: de um território historicamente fechado a estrangeiros, converte-se em uma região controlada pela China, que reivindica seu direito histórico sobre a área. O processo de modernização imposto vem acompanhado de vigilância, medo e repressão, ainda que muitos tibetanos sigam preservando sua religiosidade e o vínculo simbólico com o Dalai Lama.  

A leitura suscita uma reflexão inevitável. Se não fosse o exílio forçado, talvez o mundo não tivesse tido acesso à voz do Dalai Lama, às suas reflexões sobre compaixão, ética, política e espiritualidade. É possível imagina que, permanecendo no Tibete, ele estivesse ainda preso a protocolos rígidos e a uma estrutura que limitava sua atuação pública. O exílio, embora profundamente doloroso e injusto, também parece ter sido um processo de amadurecimento e libertação pessoal. Ainda assim, permanece o lamento: nenhuma abertura ao mundo compensa a perda de uma terra, de um povo e de uma história interrompida pela ocupação.

 

A china invadiu o Tibete em 1950, logo após a Revolução Chinesa, com o Exército de Libertação Popular entrando em Chamdo. A alegação de que o território do Tibete pertencia à China historicamente gera controvérsias, portanto não vou abordar a questão aqui.

 


Stephan Talty nasceu em Buffalo, Nova Iorque, EUA, em 1964. É um escritor estadunidense. 


O DIA EM QUE TUDO FOI ARRASTADO

 

ARRASTADOS: OS BASTIDORES DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO

O maior desastre humanitário do Brasil

DANIELA ARBEX

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2022

328 páginas

“QUANDO A VIDA HUMANA ENTRA NO CÁLCULO DO LUCRO.”

O livro de Daniela Arbex traz depoimentos e detalhes da investigação efetuada após a tragédia. Os sobreviventes são conhecidos, assim como seu salvamento para quem acompanhou os acontecimentos pela televisão na época, mas no livro ouvimos deles próprios o que sentiram e pensaram no exato momento. Também acompanhamos o drama das famílias e parentes em busca de informações e, finalmente, o enfrentamento da realidade da morte de seus entes queridos.

O novo neste livro é acompanhar também os bombeiros: o que sentiram, como agiram, e conhecer toda a estratégia montada para o resgate, inclusive o trabalho do IML (Instituto Médico Legal) e as ações da própria população.  Seguimos, assim, o pós-tragédia, que além de toda a dor do luto revelou outras fraturas.

 As ações indenizatórias da Vale provocaram situações conflituosas entre os moradores. Surgiram abusos de pessoas que nada tinham a ver com a tragédia, ao mesmo tempo em que apareceram movimentos de resistência e reivindicação. Os laços sociais foram rompidos. Houve a perda do lugar, do pertencimento, de ser parte de algo ou de algum lugar. Permanece a pergunta daqueles que perderam tudo - casa, familiares, história – como seguir vivendo?

O livro também expõe as depressões, a angústia, mas igualmente a força de enfrentar tudo isso.

A narrativa termina com o resultado da investigação:  o levantamento de provas de que a Vale sabia que a barragem poderia romper a qualquer momento. A empresa chegou inclusive a calcular quanto teria de gastar em indenizações. Ainda assim, seu lucro continuaria maior – eis o ponto.

E, de fato, se no primeiro momento houve uma queda nas ações na bolsa de valores, ao final do ano a empresa fechou em alta e com lucro.

Duas tragédias - as duas maiores do Brasil: esta, humanitária; a outra, ecológica. em Mariana. E o que foi feito?

Mariana Nunca Mais.... Brumadinho Nunca mais....????


Daniela Arbex nasceu em Juiz de Fora – MG, em 1973. É uma jornalista e documentarista brasileira, dedica-se à defesa dos direitos humanos


MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão.