Mostrando postagens com marcador Tragédias Massacres e Violências. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tragédias Massacres e Violências. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O DIA EM QUE TUDO FOI ARRASTADO

 

ARRASTADOS: OS BASTIDORES DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO

O maior desastre humanitário do Brasil

DANIELA ARBEX

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2022

328 páginas

“QUANDO A VIDA HUMANA ENTRA NO CÁLCULO DO LUCRO.”

O livro de Daniela Arbex traz depoimentos e detalhes da investigação efetuada após a tragédia. Os sobreviventes são conhecidos, assim como seu salvamento para quem acompanhou os acontecimentos pela televisão na época, mas no livro ouvimos deles próprios o que sentiram e pensaram no exato momento. Também acompanhamos o drama das famílias e parentes em busca de informações e, finalmente, o enfrentamento da realidade da morte de seus entes queridos.

O novo neste livro é acompanhar também os bombeiros: o que sentiram, como agiram, e conhecer toda a estratégia montada para o resgate, inclusive o trabalho do IML (Instituto Médico Legal) e as ações da própria população.  Seguimos, assim, o pós-tragédia, que além de toda a dor do luto revelou outras fraturas.

 As ações indenizatórias da Vale provocaram situações conflituosas entre os moradores. Surgiram abusos de pessoas que nada tinham a ver com a tragédia, ao mesmo tempo em que apareceram movimentos de resistência e reivindicação. Os laços sociais foram rompidos. Houve a perda do lugar, do pertencimento, de ser parte de algo ou de algum lugar. Permanece a pergunta daqueles que perderam tudo - casa, familiares, história – como seguir vivendo?

O livro também expõe as depressões, a angústia, mas igualmente a força de enfrentar tudo isso.

A narrativa termina com o resultado da investigação:  o levantamento de provas de que a Vale sabia que a barragem poderia romper a qualquer momento. A empresa chegou inclusive a calcular quanto teria de gastar em indenizações. Ainda assim, seu lucro continuaria maior – eis o ponto.

E, de fato, se no primeiro momento houve uma queda nas ações na bolsa de valores, ao final do ano a empresa fechou em alta e com lucro.

Duas tragédias - as duas maiores do Brasil: esta, humanitária; a outra, ecológica. em Mariana. E o que foi feito?

Mariana Nunca Mais.... Brumadinho Nunca mais....????


Daniela Arbex nasceu em Juiz de Fora – MG, em 1973. É uma jornalista e documentarista brasileira, dedica-se à defesa dos direitos humanos


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TESTEMUNHAR A CATÁSTROFE

 

HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR TERREMOTO DO SÉCULO

RODRIGO ALVAREZ

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010

120 páginas

Em Haiti, depois do inferno: memórias de um repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema de água, comida e socorro imediato.

A narrativa é atravessada por imagens de destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que ultrapassa a simples descrição factual.

O livro, porém, não se limita ao acontecimento sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras, pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.

Nesse sentido, a tragédia natural revela também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas, interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.

Curto e direto, o livro não pretende esgotar a complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência histórica e responsabilidade ética.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ESCREVER COMO ALERTA E RESPONSABILIDADE

 

O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE

SUE KLEBOLD

VERUS – 1ª ED. – 2016

430 páginas

 

O acerto de contas de uma mãe, de Sue Klebold, é um livro que todos os pais, mães e responsáveis por crianças e adolescentes deveriam ler. Diante de um massacre, a reação mais comum é tentar transformar os autores em monstros, psicóticos ou produtos evidentes de lares negligentes e abusivos. Essa explicação simplificadora funciona como uma zona de conforto: se o mal está sempre fora, então dentro de casa estamos seguros. O livro desmonta exatamente essa ilusão e, é por isso que ele é tão perturbador e necessário, sobretudo num contexto atual em que a violência em escolas, a ansiedade, a depressão e o suicídio entre jovens se tornam cada vez mais presentes.

O massacre da escola de Columbine, ocorrido em 1999, marcou profundamente os Estados Unidos e introduziu no debate público o termo bullying, ainda que este não possa ser apontado como causa direta do ocorrido. Dois adolescentes, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram na escola e assassinaram treze pessoas, ferindo muitas outras, algumas com sequelas permanentes. Sue Klebold escreve a partir do lugar mais difícil possível: ela é a mãe de Dylan. O livro não é um tributo ao filho, tampouco uma tentativa de justificá-lo. É um alerta doloroso, escrito por alguém que amava profundamente seu filho e que jamais imaginou que ele fosse capaz de tal violência.

Sue e Tom, o pai, eram pais presentes, atentos, amorosos e responsáveis. Viviam numa família de classe média, estruturada, que valorizava a convivência, os rituais familiares, o diálogo e também os limites. Dylan era visto como um adolescente alegre, carinhoso, companheiro, alguém que brincava, ria e se mostrava afetuoso. A pergunta que atravessa todo o livro é justamente essa: como alguém criado nesse ambiente pôde cometer algo tão devastador? A resposta que Sue constrói ao longo dos anos é inquietante: seu filho sofria de depressão profunda e conseguia camuflá-la de maneira quase perfeita, algo que nem mesmo profissionais conseguiram identificar. Ele carregava uma dor imensa e um vazio constante, e em determinado momento passou a desejar a própria morte, embora não tivesse coragem de se suicidar.

Eric, por outro lado, era visto como um jovem problemático, agressivo, tomado pelo ódio. Seus pais buscavam ajuda psiquiátrica e terapêutica, tentando contê-lo e compreendê-lo. Quando esses dois adolescentes se unem — um desejando matar, o outro desejando morrer —, o resultado é a tragédia que se conhece. Sue deixa claro que não havia, da parte dela, qualquer conhecimento prévio de que algo assim pudesse ocorrer. Ela percebia que algo não estava bem, mas não possuía ferramentas para reconhecer os sinais da depressão em adolescentes, tão diferentes dos sintomas em adultos.

Após o massacre, o livro acompanha o que vem depois: o luto impensável de perder um filho, somado ao peso de ser mãe de um assassino. A exposição midiática, as acusações, o ódio direcionado à família, as ameaças, o isolamento forçado dentro da própria casa, que de lar se transforma em um espaço de medo. Ao mesmo tempo, Sue relata os gestos de solidariedade, a ajuda de amigos, vizinhos e de outras famílias que também haviam perdido filhos ou enfrentado situações semelhantes. Seu casamento, após trinta anos, não resiste a tamanha devastação. Ainda assim, Sue Klebold escolhe transformar sua dor em responsabilidade pública, escrevendo este livro para alertar outros pais, para que possam reconhecer sinais, falar sobre saúde mental e talvez evitar que outras tragédias aconteçam.