Mostrando postagens com marcador Ano 2024. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ano 2024. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de junho de 2026

LIVRO: QUANDO AS MONTANHAS CANTAM

 


QUANDO AS MONTANHAS CANTAM

NGUYEN PHAN QUÉ MAI

ALMA DOS LIVROS – 2024

360 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VIETNÃ


A narrativa inicia-se em Hanoi, em 1972, durante a Guerra do Vietnã. Huong é uma menina que vive com sua avó, pois sua mãe e seu pai estão lutando. As ofensivas estadunidenses aumentam e elas fogem para as montanhas, de onde assistem Hanoi arder em chamas.

Quando finalmente podem retornar à cidade, encontram sua casa totalmente destruída e decidem reerguê-la. É durante essa reconstrução que a avó, Diju Lan, começa a lhe contar sua vida.

Voltamos ao período pós-Primeira Guerra Mundial, quando o Vietnã estava sob domínio francês, em uma área colonizada denominada Indochina. Os bisavós de Huong vivem em uma aldeia e são prósperos e respeitados. Diju Lan é uma criança feliz ao lado de seu irmão. Com a Segunda Guerra Mundial, surgem os japoneses, que invadem o Vietnã, trazendo o horror e a Grande Fome. A avó assiste os pais serem assassinados: o pai, pelos japoneses, e a mãe, por um homem cruel da aldeia durante a grande fome.

Diju Lan decide mudar de trabalho para conseguir reerguer a casa e ter melhores condições de vida. Elas vivem no norte do Vietnã e, portanto, sob um governo comunista. Quando deixa seu emprego de professora, muito mal remunerado, e passa a viver do mercado negro, comercializando produtos, é excluída da comunidade por seus vizinhos que não lhe dirigem mais a palavra e proíbem os filhos de brincar com Huong. Para os comunistas, os comerciantes faziam parte da pequena burguesia e eram indignos.

Diju Lan ignora os vizinhos, reconstrói sua casa e passa a ter uma vida melhor. Uma noite, durante um temporal, alguém bate à porta da casa. É a mãe de Huong que retorna da guerra, que já está em seus momentos finais. Ela está destroçada por tudo o que viu e precisou fazer para sobreviver.

Chamou-me a atenção um antigo costume das mulheres de tingirem os dentes de preto, considerado um símbolo de beleza, elegância e status social. Normalmente, o processo era realizado na puberdade e, segundo Huong, era doloroso devido à mistura utilizada. Ela não passou por isso.

A autora alterna o tempo presente - o fim da guerra com os EUA e a reunificação do Vietnã sob um governo comunista com todas as consequências que isso acarretou - e a história da família contada pela avó, ambientada no período após a invasão japonesa e da Grande Fome, quando os Viet Minh conseguiram libertar as aldeias dos japoneses. Os Viet Minh eram um grupo guerrilheiro comunista e nacionalista que lutou contra os japoneses e franceses que ocupavam seu território.

Vamos, aos poucos, conhecendo a história do Vietnã, marcada por lutas, guerras, sofrimento e fome, mas também somos apresentados à sua cultura, culinária, tradições e religiosidade, especialmente ao culto aos ancestrais. O romance aborda ainda as dissidências internas entre aqueles que defendiam uma democracia e os comunistas, bem como as imposições dos comunistas e a vigilância exercida sobre a população, que impunha um pensamento de inspiração stalinista. Era preciso eliminar a burguesia e tudo que remetesse ao seu modo de vida, inclusive o comércio era condenado, todos deveriam comprar apenas nos armazéns do governo.

Diju Lan conta para sua neta o episódio da Reforma Agrária imposta pelos comunistas e o que sua família sofreu com isso. Sempre foram generosos com todos na aldeia em que viviam, trabalharam muito junto aos empregados e socorreram vários deles durante a Grande Fome. No entanto, instigados pelos Viet Minh, aqueles que não possuíam terras ou trabalho revoltaram-se contra os proprietários, inclusive muitos que haviam sido ajudados pela família. Novamente, Diju Lan perde tudo e precisa fugir com seus filhos, abandonando sua casa e sua história.  

O relato sobre a guerra contra os americanos, feito pelo tio de Huong, é dilacerante. O exército do Norte, para chegar ao Sul, caminhou milhares de quilômetros em meio à selva vietnamita, sofrendo bombardeios e perdendo inúmeras vidas. Ao mesmo tempo, temos a revelação da extraordinária beleza do interior do país, como o complexo de cavernas de Phong Nha-Ke Bang, atualmente um Parque Nacional e sítio de Patrimônio Mundial Natural da Unesco.

Outro tio de Huong que fugiu para não ser morto e se separou da família durante a Reforma Agrária, ao ser finalmente encontrado relata um outro lado da história do Vietnã: o daqueles que que fugiram para o Sul e tiveram que lutar contra seus próprios irmãos do Norte durante a guerra com os EUA.

O livro traz uma história do Vietnã que raramente é contada e pouco documentada, narrada a partir de dentro do país e relatada pelos que viviam no Norte. Dispomos de inúmeros relatos sobre a Guerra do Vietnã sob o ponto de vista estadunidense, mas ler este livro é conhecer o outro lado da história  e ouvir a voz daqueles que habitavam o Vietnã e sofreram desde a colonização francesa, passando pela invasão japonesa,  até a guerra e a reunificação do país, com todas as consequências que isto acarretou para o povo vietnamita.

 Nguyen Phan Qué Mai baseou-se em suas próprias memórias, nas lembranças de sua família e nos relatos de de outros vietnamitas, além das pesquisas que realizou sobre a história de seu país.

Algumas observações:

Um aspecto que também me chamou a atenção foi a descrição da Reforma Agrária. No romance, não são apenas os grandes proprietários que se tornam alvo da violência, mas também aqueles que possuíam pequenas propriedades ou haviam conseguido alguma estabilidade econômica. Os primeiros a aderirem ao processo de perseguição são justamente muitos dos que não possuíam terras ou estavam desempregados, inclusive várias pessoas que sido ajudadas pela família de Diju Lan, e ainda assim, participam ativamente das humilhações, da violência e das execuções públicas.

Essa passagem remete a um fenômeno recorrente da história. Como observou Gustave Le Bon ao analisar o comportamento das multidões, o indivíduo, quando inserido em uma turba, pode agir de forma muito diferente daquela que teria isoladamente. Ao mesmo tempo, o romance sugere algo igualmente humano e infelizmente recorrente: momentos de ruptura política e social frequentemente liberam ressentimentos antigos, invejas, rivalidades e desejos de vingança pessoal que encontram justificativa em uma causa coletiva. Situações semelhantes aparecem em diversos contextos históricos, como nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial, quando antigos vizinhos denunciavam judeus à Gestapo não apenas por convicção ideológica, mas também movidos por interesses pessoais, inveja ou acertos de contas. O romance mostra com sensibilidade como as grandes transformações históricas também revelam as zonas mais sombrias das relações humanas.

O livro aborda diferentes períodos históricos do Vietnã:

- A colonização francesa

- A ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial

- A Grande Fome de 1944 a 1945

- A guerra contra a França

- A Reforma Agrária no Norte, com julgamentos públicos, execuções, confiscos de terras e campanhas de denúncias

- A divisão do país

- A Guerra do Vietnã

- A reunificação em 1975

- Os campos de reeducação, a coletivização da economia, o controle ideológico e a vigilância sobre a população.


Nguyen Phan Qué Mai nasceu no Vietname do Norte em 1973. É uma poetisa e romancista vietnamita. 


 


segunda-feira, 29 de junho de 2026

LIVRO: QUEM TEM MEDO DO GÊNERO?

 


QUEM TEM MEDO DO GÊNERO?

JUDITH BUTLER

BOITEMPO EDITORIAL – 1ª – 2024

388 páginas

Em “Quem tem medo do gênero?”, Judith Butler analisa como o conceito de gênero tem sido mobilizado em debates políticos contemporâneos, especialmente por grupos conservadores e de extrema-direita, como narrativas com intuito de criar pânico moral.

A autora argumenta que o termo “gênero” passa a ser frequentemente distorcido em discursos públicos, sendo associado a ameaças à infância, à família e à ordem social, contribuindo dessa maneira para a mobilização de afetos políticos como medo e insegurança. Esses discursos, segundo Butler, acabam sendo utilizados para sustentar projetos políticos autoritários e excludentes em diferentes contextos nacionais.

Ela traz vários exemplos que estão acontecendo no mundo e também aponta Instituições e pessoas que financiam esses projetos e algumas Ongs para propagar essas narrativas.

Muitas pessoas diante das mentiras propagadas acabam com medo que seus filhos sejam induzidos a uma escolha sexual ou de identidade sexual que não é possível impor. Com isso há muita desvirtuação do conceito e também a intenção de criar obstáculos aos feminismos que se utilizam do termo para tratar de outros aspectos do que esse difundido para causar medo.

A autora discute como essas narrativas se articulam com ataques a políticas de direitos reprodutivos, debates sobre educação, além de disputas em torno de identidades trans e questões relacionadas ao reconhecimento social e jurídico dessas populações.

Butler também tece críticas a grupos de mulheres que se opõem a inclusão de pessoas trans dentro do campo feminista, argumentando que certas formas de exclusão acabam reforçando mecanismos de violência e marginalização já existentes.

Ela relata que iniciou a desenvolver o livro após a hostilidade extremamente agressiva que sofreu em sua visita ao Brasil no aeroporto em 2017, por manifestantes antigênero. Ela e sua parceira, Wendy Brown, foram ameaçadas de agressão física e só não foi atingida porque um jovem se colocou entre ela e o agressor recebendo os golpes a ela destinados.

O que chama a atenção nessas pessoas é que nenhuma delas, em algum momento, leu um livro de Butler ou procurou saber mais sobre o que significa gênero. Suas reações são baseadas em informações distorcidas ou em interpretações simplificadas de suas teorias, frequentemente difundidas em redes sociais e discursos políticos, sem mediação acadêmica.  

É uma leitura necessária e atual. É preciso conhecer um pouco mais sobre o que significa gênero e sobre o que é real ou mentira no que se diz. A leitura é acessível a qualquer pessoa, diferentemente de outras obras da autora, e é um convite a reflexão crítica.


Judith Butler nasceu em Cleveland, Ohio, EUA, em 1956. É uma filósofa pós-estruturalista.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

ENTRE MUROS VISÍVEIS E INVISÍVEIS.

 


EU VOU, TU VAIS, ELE VAI

JENNY ERPENBECK

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2024

368 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ALEMANHA (ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL)

 

Richard é um viúvo, professor emérito de filologia, que viveu a maior parte de sua vida na Alemanha Oriental. Com a queda do Muro de Berlim, precisou se reintegrar, na medida do possível, como um cidadão da Alemanha Ocidental.

Paralelamente, acompanhamos um grupo de homens negros refugiados, provenientes de diferentes lugares, cada um carregando sua própria história de luta, perdas e dores.

Ao longo do livro, a autora entrelaça os dilemas desses deslocados e refugiados. Não se abstém de mostrar a realidade dos refugiados nos países europeus: as dificuldades cotidianas, o desprezo das autoridades e os inúmeros obstáculos criados para impedir que essas pessoas construam uma vida minimamente digna. Querem apenas trabalhar e dar sentido às próprias vidas, mas são continuamente boqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. Nenhum deles deseja depender do Estado, mas ainda assim são tratados como um peso social. Isso sem falar no racismo, nos preconceitos e no medo que muitos europeus projetam sobre os imigrantes.

Por outro lado, Richard também experimenta formas de exclusão. Sendo oriundo da Alemanha Oriental, não tem direito ao mesmo salário dos professores do Oeste e só é convidado a participar de congressos ou palestras quando alguém desiste.

No início do livro, ele sequer percebe os homens negros na praça que cruza, homens que reivindicam, antes de tudo, visibilidade. Após assistir a uma reportagem na televisão, interessa-se por eles inicialmente como pesquisador e decide entrevista-los. Aos poucos, porém, começa a confrontar seus próprios preconceitos.

Richard passa então a “cuidar”, na medida do possível, desses homens: escuta suas histórias, oferece pequenas ajudas e se aproxima de suas realidades. Ainda assim, a impressão que fica é a de que esse movimento também constitui uma tentativa de preencher o próprio vazio após a morte da esposa e diante da ausência de filhos ou de uma família próxima. Apesar de manter uma rotina e um círculo de amizades, há nele uma falta persistente.

 Quando comparamos as dificuldades de Richard, como alguém deslocado dentro de sua própria história nacional, com a dos refugiados, a diferença é gritante. Isso não significa minimizar sua experiência, mas reconhecer que a situação dos refugiados é incomparavelmente mais grave. Ainda assim, o racismo e a exclusão atravessam ambos os casos, seja em relação aos oriundos do Leste, seja em relação aos refugiados africanos.  

Os refugiados tinham casas, famílias, rotinas e pertencimentos; de repente, em poucas horas, às vezes perdem tudo e só lhes resta fugir para não morrer.  Embora as histórias do romance sejam ficcionais, correspondem à realidade concreta de inúmeros migrantes.

Richard, um “outro” dentro de seu próprio país, falando alemão fluentemente e tendo sido separado da Alemanha Ocidental por questões políticas e bélicas, vê-se agora diante de outro “outro”: homens igualmente deslocados, porém lançados em condições muito mais precárias, também por razões política e guerras. Não se trata de escolhas individuais, mas de condições impostas por estruturas históricas e políticas que lhes roubam não apenas bens materiais, mas também o sentido de continuidade da própria vida e da vida familiar.  

O livro é, sobretudo, uma reflexão ética sobre o encontro com o diferente, a possibilidade de convivência, o respeito humano e os dilemas da solidão, do vazio e dos limites individuais diante de situações extremamente complexas.  

Ainda assim, senti falta de uma questão fundamental: o que produziu tantas guerras civis, conflitos e bombardeios nos países africanos? A Alemanha também foi um país colonizador e participou da partilha da África na Conferência de Berlim, desconsiderando territórios, reinos e grupos étnicos. Talvez situar essa história em Berlim não seja casual: há um diálogo implícito entre dois marcos históricos de divisão – o muro e a conferência.


Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim Leste, Alemanha, em 1967. É uma escritora e diretora de ópera alemã. 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

DO SUJEITO DISCIPLINAR AO SUJEITO DO DESEMPENHO

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO

BYUNG-CHUL HAN

VOZES NOBILIS – 1ª ED. – 2024

128 páginas

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han propõe uma leitura contundente das formas contemporâneas de dominação, deslocando o foco da repressão externa para a exploração internalizada. Já não vivemos, segundo o autor, sob o paradigma da disciplina, da proibição ou da negatividade, mas sob um regime de excesso: excesso de estímulos, de desempenho, de positividade e de exigência de produtividade.

Han descreve uma sociedade que não precisa mais impor limites pela força, porque os sujeitos passaram a se autoexplorar. O imperativo do “poder tudo” substitui o “não pode”, transformando a liberdade em um dispositivo de controle. O sujeito do desempenho acredita agir por vontade própria, quando na verdade está inteiramente capturado por uma lógica que exige eficiência permanente, flexibilidade absoluta e disponibilidade contínua. O resultado não é a emancipação, mas o esgotamento.

A partir desse diagnóstico, o autor relaciona o aumento de patologias psíquicas — como depressão, burnout e transtornos de ansiedade — a esse modelo social. O cansaço que marca nossa época não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de um cansaço que corrói o desejo, empobrece a experiência e elimina o espaço da contemplação, do ócio e da negatividade, elementos fundamentais para qualquer forma de pensamento crítico.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica à positividade compulsória. Ao eliminar o conflito, a alteridade e o limite, a sociedade do desempenho produz sujeitos isolados, incapazes de estabelecer relações verdadeiramente políticas. Tudo se torna projeto individual, inclusive o fracasso. A responsabilidade pelo esgotamento é deslocada do sistema para o indivíduo, que passa a se perceber como insuficiente, nunca produtivo o bastante.

Embora o livro seja breve, sua força está na capacidade de nomear sensações difusas do presente. O cansaço generalizado, a sensação de inadequação permanente e a dificuldade de sustentar a atenção encontram aqui uma interpretação filosófica que revela suas raízes estruturais. Ao mesmo tempo, a leitura suscita questões importantes: até que ponto esse diagnóstico não corre o risco de universalizar uma experiência que é atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça? Quem pode, de fato, adoecer de cansaço em uma sociedade marcada por precariedade extrema?

Sociedade do Cansaço não oferece soluções fáceis. Sua contribuição está menos em indicar saídas e mais em interromper a naturalização do esgotamento como destino individual. Ao revelar a violência silenciosa da positividade e da autoexploração, Han nos convida a repensar o valor do limite, da pausa e da recusa, gestos cada vez mais raros, mas talvez indispensáveis, em um mundo que não sabe mais descansar.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959. É um filósofo e ensaista sul-coreano. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

QUANDO OUTRAS LÍNGUAS DO FEMININO SE IMPÕEM AO OLHAR OCIDENTAL

 


A OUTRA LÍNGUA DAS MULHERES

LÉONORA MIANO

PALLAS – 1ª ED. - 2024

184 páginas

Uma das melhores leituras de 2024, só perde para A mais recôndita memória dos homens.

Léonora Miano nasceu em Douala, nos Camarões. Escritora amplamente reconhecida, vencedora de diversos prêmios literários, ela nos apresenta aqui um ensaio fundamental sobre as mulheres africanas.

Aprendi muito com este livro. Nós, ocidentais, temos grande dificuldade em compreender as culturas africanas e, infelizmente, há uma tendência persistente de projetar o olhar ocidental sobre as questões das mulheres do continente africano. Miano nos desloca desse lugar confortável e equivocado: ela nos aproxima da realidade dessas mulheres e mostra como o feminismo ocidental, tal como foi formulado, muitas vezes não responde às suas experiências.

A autora evidencia que as mulheres africanas não se colocam no lugar da vitimização, embora tenham sofrido, e ainda sofram, inúmeras violências. São mulheres fortes, guerreiras, que constroem e acionam suas próprias ferramentas para lidar com as adversidades. Ao longo do ensaio, Miano apresenta também figuras centrais da história africana: rainhas, líderes, mulheres poderosas e guerreiras.

Ela defende que as mulheres negras invistam, ou melhor, reinvistam, em sua própria história, recuperando referências femininas que possam servir como modelos de luta, resistência e libertação frente às opressões.

Valeu cada página deste pequeno livro tão grande.

          Léonora Miano nasceu em Duala, Camarões, em 1973. É uma escritora franco-camaronesa. 




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

COMO A HISTÓRIA TRANSFORMOU UMA GOVERNANTE EM MITO ERÓTICO

 

CLEÓPATRA:  SEU MITO, SUA HISTÓRIA

FRANCINE PROSE

PLANETA – 1ª ED. – 2024.

237 páginas

 

Cleópatra é um mito, quase uma lenda, embora tenha existido historicamente. Sua história, no entanto, foi majoritariamente contada por homens, que preferiram enfatizar seus amantes, Júlio César e Marco Antônio, em vez de seu papel político. Assim, Cleópatra foi frequentemente retratada como interesseira, prostituta, sedutora e exótica, capaz de desvirtuar os “bons” romanos.

Plutarco, Shakespeare, George Bernard Shaw e, mais tarde, Hollywood contribuíram para cristalizar essa imagem, sobretudo com o rosto de Elizabeth Taylor — representação que está longe da realidade histórica. Em 2023, a Netflix lançou uma nova versão em formato de documentário, com cenas dramatizadas, na qual Cleópatra é interpretada por uma mulher negra, o que gerou intensas polêmicas. Muitos insistem em preservar a Cleópatra de olhos claros. Não saberia afirmar se ela era negra ou branca, mas certamente não era Elizabeth Taylor.

Francine Prose mergulha na história, na literatura e na arte para reconstruir outra narrativa: a de uma mulher que governou o Egito por mais de vinte anos, com habilidade política, domínio de línguas e profundo conhecimento das tradições egípcias. O livro propõe uma visão distinta daquela consagrada pela tradição masculina, deslocando o foco do erotismo para o poder, da sedução para o governo.

Cleópatra, afinal, não foi um caso isolado. O Egito teve pelo menos três grandes rainhas que se destacaram: Hatshepsut, que governou como faraó; Nefertiti; e Cleópatra. A obra de Prose convida o leitor a reconsiderar não apenas a figura de Cleópatra, mas também o modo como a história das mulheres no poder foi sistematicamente distorcida, simplificada ou reduzida a estereótipos.

Francine Prose nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, EUA, em 1947. É uma escritora estadunidense..




COMO A ARQUEOLOGIA DESMONTA AS TEORIAS PATRIARCAIS


 

LADY SAPIENS: Como as mulheres inventaram o mundo

THOMAS CIROTTEAU – JENNIFER KERNER – ÉRIC PINKAS

BUZZ EDITORA – 1ª ED. – 2024.

208 páginas 

Li este livro em francês e fiquei muito feliz ao ver sua tradução publicada este ano. O título me atraiu imediatamente: estamos acostumados a ouvir falar do Homo sapiens, e, de repente, surge a Lady Sapiens. Durante muito tempo, ninguém falava das mulheres nos períodos paleolítico e neolítico. Quando comecei a estudar esse recorte para escrever meu livro, havia pouquíssimas informações disponíveis. Subitamente, porém, as pesquisas começaram a emergir e a ser publicadas e esta obra é um exemplo significativo desse movimento.

Em 2019, uma descoberta bastante recente, a estatueta da Vênus de Renancourt, na França, colocou em xeque muitas interpretações consolidadas sobre o período. O livro relata essa descoberta e mostra como ela contribuiu para rever concepções anteriores sobre o papel das mulheres na chamada “pré-história”.

Os autores são pesquisadores da área e apresentam uma série de informações novas, resultantes tanto de descobertas arqueológicas recentes quanto das revisões possibilitadas pelo uso do DNA antigo. Essas análises têm revelado dados muito diferentes daqueles que sustentaram, por décadas, interpretações marcadas por pressupostos patriarcais do século XIX.

Com foco explícito nas mulheres, Lady Sapiens desmonta a imagem do homem como protagonista exclusivo da invenção do mundo humano. O livro evidencia a centralidade das mulheres na organização social, na transmissão de saberes, nas práticas simbólicas e na sobrevivência coletiva, contribuindo para uma reescrita profunda das origens da humanidade.

Reler a obra agora em português reforça sua importância: trata-se de um livro que não apenas divulga descobertas recentes, mas participa ativamente da transformação da narrativa sobre o passado, abrindo espaço para uma história mais complexa, menos hierárquica e mais fiel à diversidade das experiências humanas.


Thomas Cirotteau nasceu em 1975. É escritor e diretor de cinema.


 Jennifer Kerner nasceu em 1987. É professora de Pré-História na Universidade Paris Nanterre e pesquisadora associada ao Museu do Homem e do Museu Nacional de História Natural, Paris.


Éric Pinkas é escritor e editor chefe da revista francesa História. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

RACISMO ESTRUTURAL, SISTEMA DE COTAS E PERMANÊNCIA UNIVERSITÁRIA

 


DE ONDE ELES VÊM

JEFERSON TENÓRIO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2024

208 páginas 


Joaquim é um jovem negro que teve uma infância marcada pela pobreza. Criado pela avó após a morte da mãe, ainda doente, ele precisa cuidar dela com a ajuda de uma tia. Apaixonado pela literatura, realiza um de seus maiores desejos ao ingressar na universidade por meio do sistema de cotas.

Acompanhamos Joaquim durante esses anos de formação. O sistema de cotas aparece como o que ele é: uma medida de justiça social. No entanto, a entrada na universidade não o poupa dos preconceitos estruturais da sociedade brasileira. As diferenças permanecem visíveis e, quando o racismo não se manifesta de forma explícita, surge sob a forma da condescendência, da compaixão, do olhar que não reconhece o outro como igual. Joaquim sente isso profundamente.

Além disso, a universidade não está preparada para acolher esses estudantes — nem institucionalmente, nem pedagogicamente. Professores despreparados, ausência de políticas de permanência, falta de compreensão das realidades sociais dos alunos. Cabe ao estudante “se virar”: buscar livros, tempo para estudar, condições mínimas para permanecer.

Joaquim mora longe, muitas vezes não tem dinheiro sequer para o ônibus ou para se alimentar. Precisa cuidar da avó e não compartilha da mesma vida de seus colegas, que vão a festas, têm carro próprio ou são buscados por motoristas. Ele vive da pensão da avó, mas sabe que precisaria trabalhar — o que significaria abandonar a universidade, já que o curso é diurno.

Nesse contexto, Joaquim não consegue sustentar o sonho de ser escritor como força organizadora de sua vida. Afoga suas frustrações no bar, nos encontros com amigos, na relação com a namorada branca, de classe social mais alta, que não consegue compreendê-lo — ao contrário da ex-namorada, negra e cotista, que partilhava de seu universo.

Há um momento emblemático: Joaquim precisa ler Ulisses, de James Joyce. A pergunta se impõe quase naturalmente: se mesmo leitores com formação sólida encontram dificuldades diante dessa obra, o que acontece com jovens da periferia, vindos de escolas públicas, que trabalham, cuidam da família e enfrentam o racismo cotidiano? A universidade propõe igualdade, mas ignora a equidade.

O romance evidencia o paradoxo do sistema de cotas: ele é justo e necessário ao permitir que negros, indígenas e estudantes pobres ingressem na universidade, mas falha ao não estruturar a permanência desses alunos. São os próprios cotistas que se organizam, se mobilizam e, aos poucos, forçam transformações no espaço universitário. Ainda assim, a sociedade insiste em atacar um sistema que é, antes de tudo, um direito.

Ao mesmo tempo, o livro provoca desconforto — e isso é importante dizer. Joaquim é um personagem que incomoda. Ser negro e pobre não justifica todas as suas escolhas. Usar o dinheiro da pensão da avó doente para beber ou frequentar prostíbulos, ainda que como forma de aliviar a dor, revela irresponsabilidade. Ficar sem dinheiro para o transporte porque gastou com bebida é uma escolha problemática. Outros estudantes negros, cotistas, enfrentam situações semelhantes e conseguem seguir, se formar, provar mais uma vez sua capacidade.

Mas talvez seja justamente aí que reside a força do romance. Joaquim não é um herói. É um ser humano, atravessado por falhas, fragilidades e contradições. O livro recusa a idealização do jovem negro como símbolo de superação permanente. Ele reage ao mundo que o violenta — muitas vezes da pior maneira possível. E isso também é real.

De onde eles vêm nos obriga a pensar não apenas nas estruturas injustas, mas também nos limites humanos diante delas. Joaquim precisará crescer, e esse processo se dá ao longo da narrativa — um desfecho que não cabe aqui relatar, para não antecipar o final do livro.



Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977. É doutor em teoria literária pela PUC-RS e escritor.


UM ROMANCE SOBRE OS LIMITES DA CIVILIZAÇÃO

 


NADA MAIS SERÁ COMO ANTES

MIGUEL NICOLELIS

PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024

512 páginas 

Miguel Nicolelis é conhecido sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.

A aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais, mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.

A trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a humanidade.

O romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se entrelaçam.

Entre os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral, vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas. O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos conduzir a um ponto de não retorno.

Nada mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam ecoando depois.



Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo em 1961. É um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como como  um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses. 

A PEDAGOGIA DO ÓDIO E A CRISE DA ÉTICA

 


JUVENTUDE SEM DEUS

ÖDÖN VON HORVÁTH

TODAVIA – 1ª ed. – 2024

176 páginas 

Juventude sem Deus foi o último livro lido em 2024 — e não poderia ser mais contundente como fechamento de um ano marcado por retrocessos e radicalizações. Ödön von Horváth, escritor nascido na atual Croácia, morreu tragicamente em 1938, em Paris, ao ser atingido por um galho durante uma tempestade. Sua morte precoce interrompeu uma obra que já se mostrava profundamente crítica e lúcida diante da ascensão do fascismo europeu.

O livro é curto, mas de uma densidade inquietante. Trata-se de uma narrativa escrita como advertência, quase um diagnóstico moral, sobre a Alemanha que se deixava seduzir pelo nazismo. A história é conduzida pelo ponto de vista de um professor que, ao corrigir redações escolares, se depara com uma frase brutal: “negros não são humanos”. Ao tentar corrigir o aluno e afirmar o óbvio — a humanidade comum —, o professor se vê transformado em inimigo.

A reação não vem apenas dos estudantes, mas sobretudo dos pais, que se mobilizam contra ele. Um abaixo-assinado pede sua expulsão da escola. A cena, embora situada nos anos 1930, soa assustadoramente atual: professores perseguidos por abordar temas considerados “ideológicos”, seja o marxismo, a história dos movimentos sociais, a sexualidade, as identidades de gênero ou qualquer assunto que desestabilize a moral conservadora. Horváth antecipa, com precisão quase profética, a lógica da censura travestida de defesa da família e da ordem.

Não por acaso, o livro foi proibido na Alemanha nazista e publicado inicialmente na Holanda. O pano de fundo da narrativa é a juventude hitlerista: jovens moldados pelo discurso radiofônico do regime, fascinados por armas, disciplina e obediência. O professor acompanha um grupo de alunos a um acampamento onde aprendem a atirar — e é nesse ambiente que ocorre um assassinato. A partir desse crime, a trama se adensa e coloca o protagonista em uma situação moralmente insustentável.

A culpa emerge como tema central. Não apenas a culpa individual ligada ao crime, mas uma culpa difusa, coletiva, que atravessa uma sociedade inteira. O professor vive uma crise de consciência diante de uma juventude que normaliza a violência, o racismo e a exclusão, e diante de um sistema que pune quem ainda tenta pensar criticamente. Sua fragilidade não é covardia: é o retrato de alguém que percebe, tarde demais, o quanto o mal se torna banal quando sustentado por instituições, famílias e discursos oficiais.

Juventude sem Deus não é apenas um romance sobre o nazismo; é um livro sobre o colapso ético de uma sociedade. Seu impacto reside justamente nisso: ele não aponta monstros isolados, mas mostra como o autoritarismo se instala no cotidiano, na escola, na linguagem, na formação dos jovens. Ler Horváth hoje é reconhecer que a história não se repete de forma idêntica, mas rima — e, muitas vezes, rima de forma perigosa.


Ödön von Horváth nasceu na Croácia, em 1901 e faleceu em Paris em 1938. Estudou teatro e se estabeleceu como dramaturgo em Berlim, onde escrevia peças que satirizavam e criticavam tanto a história alemã quanto o momento sociopolítico em que vivia.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Como funcionam as engrenagens do poder no Brasil

 


PODER E DESIGUALDADE

CESAR CALEJON; ANDRÉ RONCAGLIA

Civilização Brasileira – 1ª ed. – 2024

364 páginas

O livro Poder e Desigualdade foi escrito pelo jornalista Cesar Calejon e pelo economista André Roncaglia, que analisam conjuntamente a situação econômica e política do Brasil neste início do século XXI.

Considero de suma importância compreender o que está por trás de tantas notícias que circulam diariamente, muitas vezes sem qualquer análise técnica ou compromisso com os fatos. Há uma enorme distorção, em que a ideologia política de quem noticia se sobrepõe à informação baseada em dados. Além disso, os brasileiros tendem a cobrar tudo do presidente — seja quem for — e se esquecem das outras forças que atuam no sistema político e econômico e que, muitas vezes, chegam a impedir qualquer ação do governo.

Os autores mostram que o poder é complexo e envolve diferentes esferas: a midiática, a política, a econômica e a financeira, todas frequentemente articuladas para manter o poder concentrado nas mãos de poucos. O livro traz um capítulo sobre o agronegócio e a mineração; outro sobre como as oligarquias dominam a mídia; e outro ainda sobre a financeirização da economia, explicando como funcionam a dívida, as divisas, o sistema fiscal, a taxa Selic, o dólar — e como tudo isso exerce enorme influência sobre as decisões governamentais e suas margens de ação.

Nós, meros cidadãos, em geral não conhecemos esses mecanismos e acabamos culpando quem tem menos responsabilidade direta, sem eximir, evidentemente, sua parte. Soma-se a isso o papel das redes sociais, que hoje espalham desinformação em larga escala — como no caso recente do PIX. Vemos, por exemplo, o escândalo das Lojas Americanas nos jornais e nas redes, mas raramente compreendemos o que de fato ocorreu. O livro dedica um capítulo específico a esse episódio.

A leitura não é simples à primeira vista para quem não tem familiaridade com economia ou finanças. Ainda assim, os autores se esforçam em apresentar exemplos claros, simples e práticos, que ajudam a elucidar os mecanismos de funcionamento do sistema. Independentemente das inclinações políticas dos autores, o que o livro oferece é, sobretudo, uma explicação de como as engrenagens operam.



Cesar Calejon é um jornalista e escritor brasileiro


André Roncaglia é um economista brasileiro 



Diário de um cerco e a destruição da vida civil em Gaza


 

QUERO ESTAR ACORDADO QUANDO MORRER

ATEF ABU SAIF

Editora Elefante – 1ª – 2024

340 páginas 


Atef Abu Saif é escritor e também ministro da Cultura da Autoridade Nacional Palestina. Ele estava em Gaza quando começaram os ataques de Israel após o dia 7 de outubro de 2023. Encontrava-se ali com um de seus filhos; sua esposa e os outros filhos haviam permanecido em Ramallah, na Cisjordânia, onde a família reside. Foram 85 dias sob intenso bombardeio até que conseguissem sair de Gaza e retornar para casa. Durante todo esse período, Atef Abu Saif escreveu um diário — o livro agora publicado em dez países.

O relato é visceral. O horror de estar ali: milhões de pessoas sob ataque constante, sem qualquer lógica que pudesse ser compreendida. Diferentemente do que se costuma considerar como “alvos” em guerras, os mísseis, drones e, depois, os ataques terrestres se dirigiam a qualquer lugar — escolas, residências, hospitais, ruas. O alvo não era o Hamas, apesar das justificativas apresentadas por Israel; o alvo era a população civil. Trata-se de uma limpeza étnica.

Os habitantes recebiam ordens para seguir em direção ao sul e eram mortos no caminho, ou presos e levados para prisões em Israel. Morriam em suas casas, na fila da padaria, dentro de hospitais, em escolas. Crianças, idosos, mulheres e homens. Quando conseguiam chegar ao sul, eram novamente bombardeados.

E há algo ainda mais cruel: o cerco absoluto. Diferentemente da Ucrânia, por exemplo, onde parte da população conseguiu se refugiar em outros países, em Gaza isso é impossível. Não há saída. A ajuda humanitária foi cortada: sem água, sem eletricidade, sem internet, sem comida, sem medicamentos. Muitas vidas que poderiam ter sido salvas foram perdidas.

Os palestinos separam os membros da família para que, caso uma casa seja atingida, não morram todos juntos. O autor tem várias irmãs, irmãos e o pai em Gaza. Precisou deixá-los quando conseguiu partir. Ele relata que o medo é algo que, na guerra, desaparece — o mesmo que dirá outro autor de um diário sobre a Ucrânia. O cotidiano se reduz a encontrar pão e torcer para não estar no lugar onde o míssil vai cair. 

É um livro difícil de ler pelo que revela, mas absolutamente necessário — sobretudo por desmentir muito do que se diz no Ocidente.


Atef Abu Saif nasceu no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, em 1973. É um escritor palestino. 

Entre o corpo ferido e a imaginação como refúgio

 


A DISSOCIAÇÃO

NADIA YALA KISUKIDI

Bazar do Tempo – 1ª ed. 2024.

288 páginas 

Nadia Yala Kisukidi é a autora deste livro, A dissociação. Trata-se de uma obra instigante, que propõe um deslocamento em relação às formas mais habituais de abordar temas como racismo, pobreza, marginalização, periferias urbanas, preconceito, mas também sonhos e desejos.

A narrativa acompanha uma jovem negra, pobre e anã — cujo nome nunca sabemos — que vive com a avó na periferia da cidade industrial de Villeneuve d’Ascq, no norte da França. Quando atinge os dez anos de idade, seu corpo para de crescer, levando a avó a tentar de tudo para que ela volte a crescer. Em vão.

Podemos imaginar, mesmo antes da leitura, as violências que essa jovem sofre em uma sociedade europeia marcada pelo racismo e pelo preconceito. Para suportar a dor, ela desenvolve a capacidade de dissociar a mente do corpo. Essa dissociação lhe confere poder: permite que viaje por diferentes lugares, encontre outras pessoas que, como ela, também sofrem, e parta em busca de um lugar seguro. Ao mesmo tempo, ela escreve essa diáspora — suas experiências, seus encontros — no que chama de O Manual.

O corpo sofre a violência da xenofobia europeia, mas a mente se expande. Ela se dissocia por meio de mitos africanos — herança de um pai que nunca conheceu —, de fábulas e de um realismo mágico que atravessa toda a narrativa.

Filosofia da transcendência da matéria, crítica social e imaginação compõem o livro. E, mesmo em meio a tantas dores, encontramos a utopia: a busca por um lugar no mundo, o reconhecimento e o pertencimento.

Acompanhei o trajeto dessa aventura e, pouco a pouco, percebi onde o livro terminaria. E foi exatamente ali que ele chegou.


Nadia Yala Kisukidi nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1978. É filósofa, escritora e acadêmica na França.