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terça-feira, 11 de agosto de 2026

LIVRO: A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA

 

A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA

NAWAL EL SAADAWI

FARO EDITORIAL – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – EGITO 

Este livro é impactante, principalmente por se tratar de uma ficção construída em cima a partir de uma história real. Nawal El Saadawi realmente entrevistou uma mulher na prisão, condenada à morte, e escreveu “A mulher com olhos de Fogo”.

Vou iniciar com uma pequena ressalva ao título em português, que traz “O despertar feminista” como subtítulo. Muitos podem pensar que se trata de um livro que aborda uma mulher que desperta diante de um mundo absolutamente patriarcal e, a partir disso, muda sua vida. Eu diria que, na verdade, ela tem uma conscientização feminista. No entanto, isso não irá mudar sua vida, mas a levará a enfrentar uma verdade que acaba por condená-la à morte.

Logo no início, Firdaus diz: “não tenho tempo para ouvir você”. Ela quer contar sua própria história, da qual finalmente se apropriou; É através de sua história que acompanhamos a formação de uma consciência feminista.

É notório o quanto os olhos dos outros são vitais para Firdaus. Em vários momentos do livro, ela irá se referir aos olhos do outro. Sim, é pelo olhar do outro que nos constituímos, a psicanálise o explica. E, em uma sociedade patriarcal e machista, esse olhar objetifica o corpo da mulher. É através dessa objetificação que a mulher se constitui.

Nawal El Saadawi escreveu o livro em 1975. É importante levar isso em consideração. Sabemos que foi exatamente nos anos 70 que os estudos das mulheres ganharam força, o que não quer dizer que antes não houvesse estudos sobre o tema. Mas o caminho percorrido de lá para cá já trouxe muitas mudanças.

Outro ponto que é importante levar em consideração é que, por mais que a sociedade egípcia de 1975 fosse machista e patriarcal, e ainda o é, não se pode generalizar as condições relatadas por Firdaus para todas as mulheres egípcias. Isso só reforçaria a visão Ocidental de que as mulheres do chamado Oriente precisam ser salvas. A própria autora é um exemplo de que essa não é uma situação que se aplica a todas. No entanto, sim, muitas mulheres enfrentaram e ainda enfrentam situações como as narradas por Firdaus.

Não tenho conhecimento suficiente sobre a situação atual das mulheres no Egito para fazer uma comparação com o que é relatado no livro. Minha leitura se limita à obra, ao seu contexto de produção e à experiência de Firdaus, narrada por Nawal El Saadawi.

O simples fato de nascer menina, o que não é uma escolha, já define o destino de Firdaus naquela sociedade. A menina não é valorizada como um menino, e ela percebe isso. Todas as violências sofridas, na família, a mutilação genital, o abuso pelo tio, o casamento forçado, até chegar à prostituição. Ter cursado a escola e obter um diploma de nada lhe serviu.

Não existe apenas um vilão. Praticamente todos os homens que cruzaram o caminho de Firdaus foram violentos ou, então, pagavam para usufruir de seu corpo. Em um único momento, em que ela parece ter encontrado um homem bom, se apaixonado e encontrado uma luz para si, sofrerá a desilusão ao descobrir que ele se casará com outra. Sabemos o porquê: ela dormia com ele sem ser casada, lhe contou sua vida e, portanto, não era uma mulher considerada adequada para ser esposa de alguém.

Nem mesmo as mulheres são generosas com ela. Seguem as normas sociais, e a esposa do tio é quem a casa com um velho que irá espancá-la e controlar o que ela come. Uma prostituta a ampara, dá-lhe um lugar para morar e boa comida, mas se aproveita do corpo dela, vendendo-o. Isso demonstra como as mulheres internalizam normas patriarcais e também as reproduzem.

Quando ela consegue um emprego, o salário é muito baixo, e isso também é um reflexo da sociedade e do sistema econômico. Portanto, não vale dizer que ela poderia ter seguido por outro caminho e alcançado uma autonomia financeira pelo trabalho.

Quando ela retorna à prostituição que, segundo sua experiência, é a única forma de ter uma certa autonomia e independência financeira, surge o cafetão.

Para ela, ser prostituta é o destino de todas as mulheres, inclusive das esposas. Eu não concordo com essa visão, apesar de ser um dos pontos que as feministas apontam. Naqueles anos 70, eu até compreendo, pois conheci muitas mulheres que consideravam o sexo uma obrigação do casamento. Mas muita coisa mudou depois, e a mulher pode ter desejo sexual e sentir prazer em suas relações sem, com isso, ser uma prostituta.

Firdaus vê o véu cair de seus olhos e enxerga uma realidade que a leva a odiar todos os homens. Ela enxerga a insegurança deles, o desejo do poder, do status e do dinheiro que lhes dá segurança. E tem consciência de que isso apavora os homens, eles têm medo dela. E é isso que a condena.

Ela não escapa do sistema. Ela prefere morrer a se submeter ao sistema.

“Eu me dei conta de que todos esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem limites.” (pág. 52)

“Em certa ocasião ele me deu uma grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de contusões. Então eu fui embora de casa e procurei o meu tio. Mas o meu tio me disse que todos os maridos batiam nas suas mulheres, e a esposa do meu tio ainda comentou que ela mesma apanhava do marido com frequência.” (pág. 75)

“Eu tomei consciência do fato de que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar conselhos, ou diziam que queriam me resgatar da vida que eu levava. Eu costumava odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam como algum tipo de heróis magnânimos – um papel que não fizeram nenhuma questão de desempenhar em outras circunstâncias. Queriam se sentir nobres e superiores lembrando-me do fato de que eu estava em situação de inferioridade. Eles diziam a si mesmos: ‘Vejam só que pessoa maravilhosa eu sou. Estou tentando tirar essa puta da lama antes que seja tarde demais’. (pág. 135)


Nawal El Saadawi nasceu em Kafr Tahlah, Egito, em 1931 e faleceu no Cairo, Egito, em 2021. Foi uma escritora, médica, psiquiatra e feminista egípcia. 


segunda-feira, 29 de junho de 2026

LIVRO: QUEM TEM MEDO DO GÊNERO?

 


QUEM TEM MEDO DO GÊNERO?

JUDITH BUTLER

BOITEMPO EDITORIAL – 1ª – 2024

388 páginas

Em “Quem tem medo do gênero?”, Judith Butler analisa como o conceito de gênero tem sido mobilizado em debates políticos contemporâneos, especialmente por grupos conservadores e de extrema-direita, como narrativas com intuito de criar pânico moral.

A autora argumenta que o termo “gênero” passa a ser frequentemente distorcido em discursos públicos, sendo associado a ameaças à infância, à família e à ordem social, contribuindo dessa maneira para a mobilização de afetos políticos como medo e insegurança. Esses discursos, segundo Butler, acabam sendo utilizados para sustentar projetos políticos autoritários e excludentes em diferentes contextos nacionais.

Ela traz vários exemplos que estão acontecendo no mundo e também aponta Instituições e pessoas que financiam esses projetos e algumas Ongs para propagar essas narrativas.

Muitas pessoas diante das mentiras propagadas acabam com medo que seus filhos sejam induzidos a uma escolha sexual ou de identidade sexual que não é possível impor. Com isso há muita desvirtuação do conceito e também a intenção de criar obstáculos aos feminismos que se utilizam do termo para tratar de outros aspectos do que esse difundido para causar medo.

A autora discute como essas narrativas se articulam com ataques a políticas de direitos reprodutivos, debates sobre educação, além de disputas em torno de identidades trans e questões relacionadas ao reconhecimento social e jurídico dessas populações.

Butler também tece críticas a grupos de mulheres que se opõem a inclusão de pessoas trans dentro do campo feminista, argumentando que certas formas de exclusão acabam reforçando mecanismos de violência e marginalização já existentes.

Ela relata que iniciou a desenvolver o livro após a hostilidade extremamente agressiva que sofreu em sua visita ao Brasil no aeroporto em 2017, por manifestantes antigênero. Ela e sua parceira, Wendy Brown, foram ameaçadas de agressão física e só não foi atingida porque um jovem se colocou entre ela e o agressor recebendo os golpes a ela destinados.

O que chama a atenção nessas pessoas é que nenhuma delas, em algum momento, leu um livro de Butler ou procurou saber mais sobre o que significa gênero. Suas reações são baseadas em informações distorcidas ou em interpretações simplificadas de suas teorias, frequentemente difundidas em redes sociais e discursos políticos, sem mediação acadêmica.  

É uma leitura necessária e atual. É preciso conhecer um pouco mais sobre o que significa gênero e sobre o que é real ou mentira no que se diz. A leitura é acessível a qualquer pessoa, diferentemente de outras obras da autora, e é um convite a reflexão crítica.


Judith Butler nasceu em Cleveland, Ohio, EUA, em 1956. É uma filósofa pós-estruturalista.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UMA HISTÓRIA PLURAL DO FEMINISMO


 

FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL

LUCY DELAP

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022

336 páginas

Em Feminismos: uma história global, Lucy Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.

A obra percorre um amplo arco temporal, do século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas — direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe, colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem, reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser compreendido como uma constelação de lutas.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia, revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a práticas feministas enraizadas em realidades locais.

O livro também não silencia os conflitos internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros, entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.

Outro aspecto relevante é a articulação entre feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas também vulnerável às dinâmicas do poder.

Sem idealizações, Delap reconhece os limites e contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo, conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.

Feminismos: uma história global é um livro fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa, mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre inacabada.


Lucy Delap é uma historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de gênero e feminismo. 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CONSCIÊNCIA FEMINISTA COMO PROCESSO HISTÓRICO

 

A CRIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA FEMINISTA

A luta de 1.200 anos das mulheres para libertar suas mentes do pensamento patriarcal

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

472 páginas

A Criação da Consciência Feminista é uma obra fundamental de Gerda Lerner, historiadora que teve papel decisivo na consolidação da História das Mulheres como campo acadêmico. Neste livro, Lerner investiga como, ao longo de séculos, mulheres foram lentamente construindo uma consciência de si enquanto grupo oprimido, apesar de viverem em sociedades estruturadas para silenciá-las, isolá-las e excluí-las da produção do conhecimento. O foco central não é apenas a opressão, mas o processo histórico pelo qual algumas mulheres conseguiram reconhecê-la, nomeá-la e, progressivamente, transformá-la em pensamento crítico e ação política.

A autora percorre um arco histórico que vai da Antiguidade ao século XIX, analisando textos, experiências religiosas, produções intelectuais e práticas sociais nas quais mulheres começaram a refletir sobre sua própria condição. Lerner demonstra que a exclusão das mulheres da educação formal e das instituições do saber não impediu completamente a produção de pensamento feminino, mas a tornou fragmentária, descontínua e muitas vezes invisibilizada. Um ponto central do livro é a ideia de que a consciência feminista não surge de forma espontânea ou individual, mas como resultado de processos coletivos, de transmissão entre mulheres e de momentos históricos específicos que permitiram brechas dentro da ordem patriarcal.

Ao longo da obra, Lerner também critica a historiografia tradicional por tratar a experiência masculina como universal, mostrando como isso distorce a compreensão da história como um todo. Ela sustenta que a consciência feminista nasce quando as mulheres passam a entender que sua condição não é natural nem imutável, mas histórica, e, portanto, passível de transformação. O livro não se propõe a narrar uma história linear do feminismo, mas a explicar as condições que tornaram possível o surgimento do pensamento feminista moderno. Trata-se de uma leitura clara, rigorosa e didática, essencial para quem deseja compreender as bases históricas do feminismo e o longo processo de construção da consciência das mulheres sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca.


Gerda Lerner nasceu em Viena, Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A HERANÇA DE BEAUVOIR REVISITADA POR JULIA KRISTEVA

 


BEAUVOIR PRESENTE

JULIA KRISTEVA

EDIÇÕES SESC – 1ª ED. 2019

128 páginas 


Em Beauvoir Presente, Julia Kristeva nos oferece uma reflexão apaixonada sobre a obra, a vida e a presença intelectual de Simone de Beauvoir, atravessando literatura, filosofia e feminismo. O livro não é apenas uma homenagem, mas uma tentativa de pensar Beauvoir como força viva, cujo pensamento continua a interrogar nossa relação com o corpo, a linguagem e a política de gênero.

Kristeva destaca a singularidade de Beauvoir: sua capacidade de articular experiência pessoal e análise teórica, transformando vivências femininas em conceitos universais sobre liberdade, opressão e alteridade. Ao revisitar O Segundo Sexo e outros textos, Kristeva ressalta a atenção de Beauvoir às tensões entre biologia, cultura e existência, mostrando que a filosofia feminista não pode ser dissociada da vida concreta das mulheres.

O livro também dialoga com a própria trajetória de Kristeva, apontando como Beauvoir permanece um ponto de referência para pensar o sujeito feminino, a escrita e a criação. A autora propõe que a obra de Beauvoir continua presente não apenas em debates acadêmicos, mas na maneira como as mulheres contemporâneas se reconhecem e se afirmam, desafiando normas patriarcais e construindo identidades complexas.

Um dos méritos de Beauvoir Presente é explorar a atualidade do pensamento de Beauvoir, mostrando que os dilemas da emancipação feminina — autonomia, sexualidade, ética e responsabilidade social — permanecem urgentes. Kristeva evidencia que a filosofia de Beauvoir não se limita ao contexto histórico do século XX, mas se estende ao nosso tempo, inspirando reflexão crítica sobre gênero, poder e criatividade.

A escrita é densa, mas poética, e reflete o diálogo entre duas grandes pensadoras: uma revisita a obra da outra, e ambas nos lembram que a filosofia se faz também na experiência vivida, na atenção às relações humanas e na coragem de enfrentar estruturas de opressão. Beauvoir Presente é, assim, leitura essencial para quem deseja compreender a continuidade do feminismo intelectual e a relevância da obra de Beauvoir no mundo contemporâneo.


Julia Kristeva nasceu em Sliven, Bulgária, em 1941 e possui cidadania francesa. É uma filósofa, linguista, crítica literária e psicanalista. 


CONJUGAR O MUNDO A PARTIR DO CUIDADO, DA ESCUTA E DA DESOBEDIÊNCIA FEMINISTA

 


ESPERANÇA FEMINISTA

DEBORA DINIZIVONE GEBARA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. 2022

280 páginas 

Um livro magnífico, um dos mais belos que li nos últimos tempos sobre o feminismo. As autoras selecionam alguns verbos — como escutar, falar, compartilhar, entre outros — e, a partir de cada um deles, tecem reflexões sobre como compreendem a conjugação desses verbos à luz de uma esperança feminista.

Débora nos traz suas experiências: como saiu de um lugar de mulher branca privilegiada para a compreensão das muitas outras mulheres que vivem realidades distintas. Mostra como passou a perceber o quanto o sistema patriarcal estava entranhado em seus pensamentos, atitudes e ideias, e como aprendeu a estranhar o patriarcado. Seu texto sobre o verbo escutar é belíssimo.

Ivone dispensa apresentações. Ela é sensacional. Com uma veia profundamente poética, vai conjugando os verbos, sempre desobedecendo ao que não considera correto, sempre nos convidando a pensar para além do lugar comum.

E se, no princípio, era o verbo, talvez o que precisemos hoje seja aprender a conjugá-lo com amor, solidariedade e sororidade — sabendo, antes de tudo, ouvir, para depois falar.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora, ensaísta e documentarista brasileira.


Ivone Gebara nasceu em São Paulo em 1944. É uma freira católica, filósofa e teóloga feminista brasileira. 


 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

DESCOLONIZAÇÃO, GÊNERO E PODER EM UM PAÍS MARCADO PELA VIOLÊNCIA

 


PRETA E MULHER

TSITSI DANGAREMBGA

KAPULANA – 1ª ED. 2023

112 páginas 

É um livro pequeno — apenas 112 páginas —, mas de uma densidade impressionante. Em Preta e mulher, Tsitsi Dangarembga reúne três textos nos quais escreve sobre sua infância, sobre ser feminista no Zimbábue contemporâneo e sobre os processos de independência e descolonização do país.

O relato da infância é dilacerante — e essa palavra não é gratuita, é a forma como a própria autora se nomeia: dilacerada. Seus pais são enviados pelos colonizadores para estudar em Londres, e ela e o irmão mais velho são separados deles e encaminhados para lares adotivos da classe operária inglesa. No momento da entrega, as crianças são deixadas em uma “sala dos sonhos”, repleta de brinquedos que nunca haviam visto ou possuído. Quando retornam para buscá-las, Tsitsi está ansiosa para contar à mãe sobre os brinquedos, mas eles já não estão ali. Foram embora. A ausência se impõe com violência. A angústia se instala como experiência fundadora.

No texto sobre o feminismo no Zimbábue, Dangarembga expõe um cenário de profunda opressão. Lutar pelos direitos das mulheres é difícil em uma sociedade em que a misoginia é naturalizada e atravessa todas as classes sociais — nem mesmo as mulheres da elite escapam. Como escreve a autora:

“Ser feminista enquanto preta e mulher no Zimbábue é viver no epicentro do racismo estrutural e de um patriarcado estrutural militarizado brutal que cooptou partes significativas das instituições estatais”.

E ainda: “As mulheres passam por traumas baseados em gênero e sexo todos os dias.”

Há também uma reflexão importante sobre o patriarcado tradicional anterior à colonização, no qual as mulheres detinham formas reais de poder e reconhecimento — uma organização que foi profundamente desestruturada com a imposição colonial. Ao tratar da independência e da descolonização, Dangarembga oferece um panorama crítico de como esse processo se deu no Zimbábue e quais foram seus resultados concretos, longe das narrativas idealizadas.

Preta e mulher é um livro de escrita direta, dura e necessária. Um testemunho que articula corpo, memória, colonialismo e feminismo, e que nos obriga a encarar as continuidades da violência colonial no presente.



Tsitsi Dangarembga nasceu em Mutoko, Rodésia do Sul. É uma romancista, dramaturga e cineasta zimbabauana.


EXÍLIO, FEMINISMO E RESISTÊNCIA FEMININA

 


ENVELHECER É PARA AS FORTES

HELENA CELESTINO

RECORD – 1ª ED. 2022

168 páginas 

Helena Celestino, jornalista e pesquisadora, nos apresenta neste livro a história de mulheres exiladas em Paris durante os anos 70, obrigadas a deixar o Brasil pela ditadura. No exílio, elas formaram círculos de apoio mútuo e descobriram novas possibilidades de ação, incluindo o feminismo, ainda incipiente e desconhecido para muitas delas.

Celestino narra a trajetória de cada uma, acompanhando os encontros em Paris e a posterior volta ao Brasil. Com o tempo, essas mulheres envelheceram, e novos desafios se impuseram: o corpo, a velhice, as transformações da sociedade e o confronto com uma nova geração de mulheres que tinha perspectivas diferentes. Assuntos como envelhecimento, sexualidade e autonomia na velhice ainda permanecem tabus, mesmo entre feministas.

A narrativa evidencia que essas mulheres, que já haviam sido pioneiras ao lutar contra a ditadura, participar da revolução sexual, viver múltiplas experiências, casar ou recusar a maternidade, construir carreiras e reinventar-se, agora enfrentam a necessidade de novas reinvenções. Elas lidam com a perda de garra ou motivação de uma juventude que já passou, e com a percepção de que podem estar vistas como ultrapassadas diante da nova geração.

O livro é uma faceta da história das mulheres durante o período da ditadura e do exílio, mas seu mérito é mostrar como essas experiências moldaram vidas cheias de coragem, movimento e transformação. Ao mesmo tempo, revela a complexidade do envelhecimento feminino, a necessidade constante de adaptação e a persistência da força, mesmo quando o corpo e a sociedade impõem limites diferentes.



                                            Helena Celestino é pesquisadora e jornalista. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A CORAGEM DE FALAR, A FORÇA DE TRANSFORMAR


 

IRMÃ OUTSIDER: ENSAIOS E CONFERÊNCIAS

AUDRE LORDE

AUTÊNTICA – 1ª – 2019.

240 páginas 

Em Irmã Outsider, Audre Lorde nos apresenta uma obra que é ensaio, manifesto e testemunho, reunindo textos e discursos que atravessam décadas de luta contra o racismo, o sexismo, a homofobia e todas as formas de opressão interligadas. Lorde, poeta, feminista e militante negra, constrói neste livro um corpo teórico e político que se sustenta na experiência pessoal e na ação coletiva, provando que a subjetividade é sempre também território de resistência.

A força do livro está na interseccionalidade antes mesmo do termo se popularizar: Lorde não separa raça, gênero, sexualidade ou classe. Pelo contrário, mostra como a opressão é múltipla e como a luta também deve ser integrada. Ser mulher negra lésbica nos Estados Unidos, nos anos 70 e 80, significava enfrentar barreiras que se reforçavam mutuamente — e Lorde analisa cada uma delas com rigor, sensibilidade e coragem.

Um dos textos centrais, “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, revela sua filosofia política: o silêncio diante da injustiça é cúmplice da opressão. Lorde afirma que falar é um ato de coragem, mas também de necessidade, pois a invisibilidade de certos corpos e vozes perpetua o sistema de desigualdade. Seus ensaios combinam crítica social e poética, demonstrando que a palavra, quando usada para nomear o real, é arma de transformação.

Lorde também problematiza a ideia de unidade entre mulheres. Para ela, a solidariedade feminista não é automática: ela precisa ser construída a partir do reconhecimento das diferenças, da escuta ativa e da justiça interna aos movimentos. Ignorar as desigualdades dentro do próprio movimento é reproduzir, em pequena escala, a opressão que se combate fora dele.

Além disso, Irmã Outsider é uma obra de memória: ao narrar sua trajetória, Lorde nos lembra que a luta política é inseparável da experiência vivida. Ela denuncia o racismo estrutural e o sexismo da sociedade branca dominante, mas também critica as estruturas internas de exclusão nos próprios espaços de resistência. Essa honestidade crítica torna o livro atemporal e universal.

Ler Audre Lorde é entender que a emancipação não se dá apenas em grandes gestos ou políticas públicas: ela começa no reconhecimento da própria força, na afirmação da identidade e no compromisso com a justiça para todas. Irmã Outsider é, assim, leitura obrigatória para quem busca compreender feminismo negro, interseccionalidade e o poder transformador da palavra.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista