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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

DA LUTA SOCIAL À FRAGMENTAÇÃO IDENTITÁRIA

 


O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES

As desigualdades agora se diversificam e se individualizam, e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.

FRANÇOIS DUBET

VESTÍGIO – 1ª ED. – 2020

128 páginas 

Tenho estudado a questão das políticas identitárias e das transformações nos modos de organização social, sobretudo quando comparadas às formas clássicas de luta baseadas nas classes sociais. Durante muito tempo, os movimentos sociais se estruturaram como coletivos amplos e múltiplos, movidos por um senso comum de luta e pela busca de melhorias que, ao menos em princípio, visavam o conjunto da sociedade, como nas disputas entre trabalhadores, patrões e capital.

Hoje, assistimos a um processo distinto. Grandes grupos se fragmentam em múltiplas identidades, muitas vezes organizadas em torno do ressentimento, da cólera e da indignação. Não raramente, esses grupos acabam reproduzindo as mesmas formas de violência simbólica — ou mesmo concreta — daqueles que dizem combater: atacam, agridem, ameaçam e inviabilizam o diálogo. Evidentemente, continuam existindo lutas estruturais fundamentais, como o movimento negro, mas, ao lado delas, proliferam inúmeros grupos identitários cuja dinâmica nem sempre favorece o debate público ou a construção do comum.

É nesse contexto que O tempo das paixões tristes se mostra um livro fundamental. Embora o estudo esteja centrado na realidade francesa, onde vive o autor, Dubet oferece ferramentas analíticas que podem ser plenamente mobilizadas no Brasil. Seu foco não é apenas institucional, mas profundamente humano: ele analisa jovens, escolas, trabalhadores, imigrantes, trajetórias individuais e experiências concretas de desigualdade.

Entre todos os livros que li até agora sobre o tema, este foi o que mais contribuiu para minha compreensão do problema. Dubet se pergunta, e nos ajuda a pensar, o que fragmentou as classes sociais, por que as identificações identitárias se intensificaram, de onde surge tanto ressentimento e, em muitos casos, tanto ódio. Em que momento a indignação, que historicamente impulsionou movimentos coletivos voltados à transformação social, se converte em uma multiplicidade de identidades fechadas em si mesmas, tornando o debate público quase impossível?

O autor aponta para um deslocamento decisivo: da identidade múltipla para a identidade fixa. Não sou apenas isto e sou atravessado por muitas dimensões, dá lugar a uma definição rígida do eu, incapaz de se constituir na relação com o outro. O reconhecimento deixa de ser relacional e passa a ser vivido como disputa permanente. A política se empobrece quando o sujeito se fecha exclusivamente em si mesmo.

Como chegamos a esse ponto? Por que esse modelo de identificação se tornou tão potente? São essas as perguntas que Dubet enfrenta — e são também as questões que sigo tentando compreender.


François Dubet nasceu em Périgueux, França, em 1946. É sociólogo e filósofo. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

O COLAPSO NÃO É UM ACIDENTE, É UM PROCESSO

 


O NAUFRÁGIO DAS CIVILIZAÇÕES

AMIN MAALOUF

VESTÍGIO – 1ª ED. 2020.

256 páginas 

Este é um livro que merece ser lido. Amin Maalouf parte do presente para desmontar uma ideia muito difundida sobre o “Oriente Médio”, mostrando que a região já foi palco de uma civilização radicalmente diferente da imagem de violência, fragmentação e intolerância que hoje costuma dominá-la e, sobretudo, explicando como se chegou a esse ponto.

Maalouf reconstrói um “Oriente Médio” plural, atravessado por convivências possíveis, projetos políticos e culturais que não estavam condenados ao colapso. Ao mesmo tempo, identifica as rupturas históricas, as interferências externas e as escolhas internas que levaram ao naufrágio dessa civilização, recusando leituras simplistas ou essencialistas.

Mas o livro não se limita ao “Oriente Médio”. Maalouf amplia o olhar para o Ocidente e analisa os processos que também o afetaram profundamente. O avanço do neoliberalismo, o culto ao individualismo e a consolidação da meritocracia aparecem como forças desagregadoras. Segundo o autor, esse giro político tem um marco decisivo nas eras de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, quando se estabelece um modelo que transforma não apenas a economia, mas as relações sociais, os valores e a própria ideia de futuro.

O naufrágio das civilizações é, assim, uma reflexão sobre perdas — de horizontes comuns, de projetos coletivos, de mundos possíveis. Uma leitura importante para quem deseja compreender como o mundo chegou ao ponto em que se encontra hoje, e por que tantas narrativas de progresso escondem processos profundos de destruição.



Amin Maalouf nasceu em Beirute, Líbano, em 1949. Reside na França, escritor.