FILOSOFIAS AFRICANAS: UMA INTRODUÇÃO
NEI LOPES – LUIZ ANTONIO SIMAS
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 14ª ED. – 2020
144 páginas
Em Filosofias africanas: uma introdução,
Nei Lopes e Luiz Antonio Simas enfrentam uma das afirmações mais naturalizadas
do pensamento ocidental: a ideia de que a filosofia teria nascido
exclusivamente na Grécia e que, desde então, seria um patrimônio essencialmente
europeu e ocidental. O livro parte justamente da suspeita diante dessa
narrativa, e a suspeita se revela mais do que justificada.
A pergunta que atravessa toda a obra é simples
e profundamente política: se a filosofia é o exercício do pensamento crítico
sobre o mundo, por que tantas tradições filosóficas foram apagadas da história
oficial? O que se convencionou chamar de “origem” da filosofia parece menos um
fato incontestável e mais o resultado de um longo processo de exclusão,
silenciamento e epistemicídio.
Os autores mostram como o cânone filosófico
foi construído a partir de critérios racializados, eurocêntricos e masculinos.
A filosofia ensinada nas universidades permanece majoritariamente restrita a
homens brancos europeus e, em menor medida, norte-americanos. Mesmo as mulheres
foram sistematicamente apagadas dessa história, com raríssimas exceções, como a
recorrente presença de Hannah Arendt, que acaba funcionando quase como álibi
para a exclusão das demais.
O livro começa pelo Egito antigo, afirmando
algo que ainda causa desconforto: o Egito é africano. E mais: filósofos gregos
como Platão e Aristóteles dialogaram com saberes egípcios, africanos,
orientais. Santo Agostinho, um dos pilares do pensamento cristão ocidental, era
africano. No entanto, a narrativa dominante tratou de embranquecer essas
heranças, deslocando-as de seus contextos históricos e geográficos.
Um ponto central da crítica apresentada por
Lopes e Simas é a desqualificação das tradições orais. O Ocidente estabeleceu a
escrita como critério de racionalidade e objetividade, ignorando que o próprio
Sócrates — figura fundadora da filosofia grega — nada escreveu. Ainda assim,
filosofias transmitidas oralmente foram classificadas como “primitivas”,
“míticas” ou “pré-racionais”, enquanto o pensamento europeu era elevado à
condição de universal.
Essa hierarquização dos saberes não pertence
apenas ao passado. Ela continua operando nos currículos acadêmicos, nas
bibliografias e na forma como se define o que é ou não filosofia. África,
Índia, China, América Latina e “Oriente” seguem sendo tratados como margens do
pensamento, quando, na verdade, possuem tradições filosóficas milenares,
complexas e profundamente reflexivas.
O livro não pretende oferecer uma história
total das filosofias africanas, e nem poderia, dado seu caráter introdutório.
Seu mérito está em abrir fendas no discurso hegemônico, em deslocar certezas e
em devolver dignidade filosófica a saberes que foram historicamente
inferiorizados. Trata-se menos de substituir um cânone por outro e mais de
questionar a própria ideia de cânone como dispositivo de poder.
Filosofias africanas: uma introdução é um livro
pequeno em extensão, mas potente em implicações. Ele nos obriga a reconhecer
que a filosofia não nasceu na Grécia, não pertence ao Ocidente e não é
monopólio dos homens. Pensar filosoficamente é uma capacidade humana plural,
situada e histórica. Descolonizar a filosofia é, antes de tudo, descolonizar
nossas próprias mentes.
Nei Lopes nasceu em Irajá, Rio de Janeiro, em 1942. É um compositor, cantor e estudioso das culturas africanas.
Luiz Antonio Simas nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. É
professor, historiador e compositor.



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