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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O CIÚME COMO NARRATIVA E A CONDENAÇÃO SEM PROVA


 

DOM CASMURRO

MACHADO DE ASSIS

PRINCIPIS – 2019

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

208 páginas


Dom Casmurro é um romance sobre o ciúme, mas, sobretudo, sobre o poder de quem narra. Lido há muito tempo, o que permanece é menos a dúvida sobre Capitu e mais a certeza da insegurança de Bentinho. Para mim, Capitu não traiu. O que existe ali é a imaginação de um homem incapaz de lidar com o amor sem posse.

Bentinho narra a própria história tentando convencer o leitor, e talvez a si mesmo, de que foi traído. Mas o romance inteiro se constrói sobre indícios frágeis, suposições, interpretações enviesadas, leituras paranoicas de gestos e olhares. Capitu é condenada sem prova, julgada sem defesa, silenciada sem possibilidade de resposta. Tudo passa pelo filtro de uma subjetividade ressentida.

O ciúme em Dom Casmurro não nasce de fatos, mas da insegurança. Bentinho projeta em Capitu seus medos, suas dúvidas, sua fragilidade emocional. Ele não confia nela porque não confia em si. O olhar de Capitu — famoso, enigmático, “de ressaca” — torna-se ameaça justamente porque ele não suporta a autonomia do outro.

Machado de Assis constrói uma obra-prima ao transformar o narrador em personagem pouco confiável. O leitor atento percebe as fissuras do discurso, as contradições, o esforço excessivo de convencer. A narrativa não busca a verdade objetiva dos acontecimentos, mas revela o funcionamento do ciúme: como ele reorganiza a memória, distorce o passado e cria uma lógica própria.

Capitu, por sua vez, é uma personagem de força silenciosa. Inteligente, observadora, estrategista em um mundo que não lhe oferece espaço de fala, ela incomoda exatamente por não ser transparente. E talvez seja isso que Bentinho não perdoe: Capitu pensa, decide, age, e ele não a controla.

Dom Casmurro não é um romance sobre adultério. É um romance sobre a construção da culpa. A tragédia não está na traição, que jamais se comprova, mas na incapacidade de Bentinho de amar sem vigiar, sem suspeitar, sem reduzir o outro a uma extensão de si.

Reler Machado hoje é perceber o quanto ele antecipa discussões profundamente contemporâneas: gaslighting, narrativas de poder, silenciamento feminino. Capitu não precisa ser inocentada — porque talvez nunca tenha sido culpada. O verdadeiro réu sempre foi Bentinho, e o tribunal é a própria linguagem.


Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu na mesma cidade em 1908. Foi um escritor brasileiro. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

PAIXÃO, VIOLÊNCIA E RECUSA DA ORDEM SOCIAL

 


O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

EMILY BRONTË

PRINCIPIS – 2020

368 páginas 

O morro dos ventos uivantes costuma ser apresentado como uma história de amor. Mas essa definição é insuficiente — e, de certo modo, enganosa. O romance de Emily Brontë não narra um amor conciliador ou redentor, e sim uma paixão absoluta, violenta, destrutiva, que se coloca frontalmente contra as normas sociais, morais e afetivas da Inglaterra vitoriana.

Catherine Earnshaw e Heathcliff crescem juntos após o pai de Catherine acolher o menino de rua em sua casa. Na infância, formam um vínculo profundo, quase indissociável, marcado pela liberdade, pela cumplicidade e pela identificação com a paisagem selvagem dos páramos. Com a morte do pai, porém, a ordem social se impõe: o irmão de Catherine rebaixa Heathcliff à condição de servo, lembrando-o constantemente de seu lugar subalterno.

Catherine, por sua vez, é uma personagem que escapa a qualquer ideal feminino dócil. Seu temperamento é explosivo, indomável, tão áspero quanto o vento que varre o morro onde vive. Ainda assim, pressionada pelas convenções sociais e pela promessa de segurança, ela se casa com Edgar Linton, um homem respeitável, civilizado e socialmente adequado — exatamente o oposto de Heathcliff. A escolha não é fruto de amor, mas de adequação. E é essa cisão que torna a tragédia inevitável.

Heathcliff parte, mas retorna anos depois transformado, enriquecido e tomado por um ressentimento absoluto. Compra a casa onde cresceu e passa a habitar o lugar como uma presença quase espectral, movido por um desejo de vingança que não distingue culpados de inocentes. A morte de Catherine, após o parto, não encerra a história: ao contrário, radicaliza o ódio, a obsessão e a recusa de aceitar a perda.

A narrativa é mediada pela governanta Nelly Dean, que conta essa história a um forasteiro recém-chegado à região, curioso sobre o comportamento estranho de seu locatário. Essa estrutura de relato indireto cria distância e, ao mesmo tempo, reforça o caráter perturbador dos acontecimentos — como se aquilo que é narrado fosse grande demais para ser dito de forma direta.

Emily Brontë escreve um romance que desafia frontalmente a moral vitoriana. Catherine e Heathcliff não são exemplos, não são modelos, não são personagens edificantes. São figuras que vivem os sentimentos até o limite — o amor, o ódio, o desejo de posse, a crueldade. Catherine, sobretudo, encarna uma feminilidade impossível de domesticar: ela ama para além das regras, pensa para além do permitido, e paga por isso um preço altíssimo.

O morro dos ventos uivantes é um livro sobre paixões que não se ajustam à sociedade. Um romance selvagem, ermo, violento, onde a paisagem não é cenário, mas extensão dos personagens. Ali, onde os ventos uivam, não há conciliação possível — apenas a insistência brutal de sentimentos que recusam ser civilizados.



Emily Brontë nasceu em Thornton, Condado de York, em 1848 e faleceu em Haworth, Reino Unido, em 1848. Escritora e poetisa britânica. Este é o único retrato da autora que foi pintado por seu irmão.