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terça-feira, 16 de junho de 2026

LIVRO: DETALHE MENOR


 

DETALHE MENOR

ADANIA SHIBLI

TODAVIA – 1ª ED. – 2021

112 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PALESTINA 


1949, um ano após a Nakba, um batalhão do exército de Israel monta acampamento no deserto de Neguev, próximo à fronteira com o Egito. Sua missão: encontrar árabes que ainda permaneciam na região.

Logo na primeira noite, o comandante é mordido por uma aranha, mas ele apenas trata a picada e continua suas rondas em busca dos árabes até que encontra um acampamento de beduínos. Os soldados matam todos, inclusive os camelos, mas uma menina e um cachorro sobrevivem e são levados para o acampamento, onde a menina é trancafiada em uma cabana. O comandante ordena que ninguém toque nela.

No entanto, o que se sucede é o contrário. A menina é estuprada e depois morta com sete tiros, sendo enterrada no deserto. O cachorro sobrevive e, depois de quase ser morto pelo comandante, foge uivando.

Esta é a primeira parte do livro, que é curto, mas extremamente impactante, doloroso e dilacerante. A escrita da autora é seca e repetitiva. Um bando de homens, soldados de Israel, que agem de modo automático. O comandante é retratado repetindo os mesmos movimentos dia após dia.

Fico com uma impressão de que o cachorro tem um papel fundamental na escrita da autora. O cão é simbólico; ele demonstra mais “humanidade” do que os soldados na narrativa. Além disso, por não ter sido morto, parece possuir um valor maior que a menina, uma vez que nenhum dos dois representava perigo imediato aos soldados ou ao comandante.

 O cachorro é um detalhe nesta parte da história, mas que a meu ver, representa muito mais do que o restante. Tanto é que a segunda parte, que se passa 25 anos depois, inicia com um cachorro uivando ao longe.

Uma palestina que vive na Palestina Ocupada, em Ramallah, lê um artigo em um jornal sobre o que aconteceu, e um “detalhe menor” chama sua atenção: a menina foi morta no dia de seu nascimento, 13 de agosto.

A notícia tece em volta dela, como uma aranha, uma teia que a prende e a faz desejar saber mais sobre o que aconteceu. Essa jovem traz em si mesma os efeitos traumáticos da ocupação: o medo, o estresse e a desorientação. Ao  mesmo tempo, porém, ela procura não se entregar e enfrentar todas as barreiras, sejam as psicológicas, sejam as reais, que precisa atravessar para passar de uma zona a outra controlada pelos israelenses e chegar ao local onde ocorreu o assassinato da menina beduína.

Ela persiste em sua busca. Deseja descobrir o outro lado da história, não apenas a narrada pelos soldados. No caminho, enquanto aguardava na fila para passar pela primeira barreira, uma menina que vende chicletes insiste muito para que ela compre. Ela não quer, mas acaba lhe dando dinheiro. A menina então joga duas caixas de chiclete no banco do carro e vai embora. Um pequeno detalhe. Um detalhe menor que irá definir o destino da jovem palestina em sua busca.

Adania Shibli constrói a narrativa de Detalhe Menor com uma escrita econômica, quase austera, mas de uma potência impressionante. Não há excesso, não há sentimentalismo, mas há uma violência que atravessa todas as páginas. Ao final, nos perguntamos quem tem o direito de ser lembrado e quem pode ser transformado em um simples detalhe menor.

O que me impressionou no romance não é apenas o que ele conta, mas como ele conta. A repetição obsessiva dos gestos do comandante, a ausência quase total de psicologização das personagens na primeira parte, a maneira como o espaço do deserto parece absorver tudo: a água, o sangue. A estrutura em espelho das duas partes, a recorrência da aranha, do cachorro, dos sons.

A autora não explica o horror; ela o faz operar na própria forma do texto. Quanto menos ela comenta, mais sentimos. O horror está na normalidade dos procedimentos. São os detalhes, elementos aparentemente insignificantes que estruturam toda a narrativa.

Um exemplo é o camelo morto com capim na boca. O animal estava simplesmente comendo. A vida cotidiana é interrompida de forma abrupta e absurda. Através dessa imagem a autora comunica mais do que muitas páginas de descrição sangrenta.

O mesmo ocorre com o estupro da menina. Sabemos o que aconteceu, mas Shibli não transforma a menina em espetáculo, não vamos consumir a cena. Isso é muito diferente de outras literaturas sobre violência, onde se transforma o sofrimento em objeto de observação.

Da mesma forma a reação automática dos soldados. O comandante que vivia repetindo gestos mecânicos, os soldados que obedeciam mecanicamente, a violência incorporada na rotina. No final, décadas depois, a resposta continua automática. Não há reflexão, não há reconhecimento da pessoa diante deles. Há apenas o reflexo condicionado de uma máquina que continua funcionando.


Adania Shibli nasceu na Palestina em 1974. É uma escritora palestina que deveria ter recebido o prêmio alemão Litprom na feira de Frankfurt, no entanto a premiação foi cancelada quando o diretor da premiação associou o evento ao “terror bárbaro do Hamas contra Israel”, conforme reportagem que consta no Le Diplomatique, o que gerou forte reação de escritores, editoras e organizações literárias que viram na decisão uma forma de silenciamento de uma voz palestina.

O livro Detalhe Menor, escrito originalmente em árabe, foi traduzido para mais de onze idiomas. Shibli domina vários idiomas, mas escrever em árabe, sua língua materna, também é uma forma de resistência. 




quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NOS LARES CRISTÃOS


 

O GRITO DE EVA

A violência doméstica em lares cristãos

MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

THOMAS NELSON BRASIL – 1ª ED. - 2021

178 páginas


O grito de Eva, de Marília de Camargo César, parte de uma constatação incômoda: o machismo atravessa todas as esferas do patriarcado — sociedade, política, família e também a religião. Existe a ilusão de que pessoas religiosas seriam, por definição, amorosas e incapazes de praticar violência, mas o livro demonstra que essa expectativa não corresponde à realidade. A autora reúne relatos de mulheres cristãs que, ao buscarem ajuda dentro de suas igrejas, acabam sendo aconselhadas a rezar mais, a compreender, a relevar, a suportar. Esse tipo de orientação, longe de proteger, contribui para a perpetuação da violência doméstica.

Ao mesmo tempo, o livro não constrói uma crítica simplista ou homogênea às lideranças religiosas. Há também depoimentos e reflexões de pastores que discordam dessas práticas e reconhecem a violência como algo incompatível com o cristianismo. Fica evidente que tudo depende da interpretação dos textos sagrados e, sobretudo, do que se deseja extrair deles. A Bíblia oferece ensinamentos, mas a leitura desses textos exige responsabilidade histórica e ética: é fundamental distinguir aquilo que pertence a um contexto social específico daquilo que pode ser compreendido como princípio válido para outros tempos.

A autora lembra que, no período em que muitos textos bíblicos foram escritos, a mulher não tinha voz, era socialmente submissa e confinada ao espaço doméstico. Nesse sentido, a atuação de Jesus aparece como profundamente disruptiva: ele escuta as mulheres, conversa com elas, as acolhe, rompendo com o status quo de uma sociedade patriarcal. Marília também chama atenção para o fato de que o Gênesis apresenta dois relatos da criação — o primeiro e o segundo — e que é apenas no segundo que surge Eva a partir da costela de Adão, distinção frequentemente ignorada em leituras literalistas.

Um ponto especialmente instigante é a reflexão sobre o silêncio de Adão diante da cena da maçã e da serpente. Por que, tendo ouvido Deus, ele não interveio, não recusou, não aconselhou Eva? Esse silenciamento masculino, raramente problematizado, desloca a responsabilidade exclusiva atribuída à mulher e revela como certas leituras bíblicas operam seletivamente para reforçar a culpa feminina.

Em relação à submissão, o livro oferece uma explicação mais ampla do conceito, mostrando que ele não se refere apenas às mulheres. O problema surge quando essa ideia é aplicada de forma unilateral, enfatizando a submissão feminina e silenciando as exigências éticas dirigidas aos homens. Essa leitura parcial sustenta relações abusivas e legitima violências que nada têm de sagradas.

O grito de Eva é, acima de tudo, um livro de orientação e encorajamento. Ele afirma, com clareza, que mulheres cristãs não precisam se submeter à violência física ou ao abuso psicológico para serem fiéis à sua fé. Elas merecem amor, dignidade e vida plena,  e tomar uma atitude diante da violência não significa ir contra os ensinamentos sagrados, mas, ao contrário, reafirmar o valor da própria vida.

                   Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

JUSTIÇA CLIMÁTICA COMO QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS

 

JUSTIÇA CLIMÁTICA

MARY ROBINSON

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2021

192 páginas

Este é um livro que todos deveriam ler. Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex–alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, dirige atualmente a Mary Robinson Foundation – Climate Justice, dedicada à defesa de pessoas em situação de risco e diretamente prejudicadas pelas mudanças climáticas, além de atuar junto à ONU nesse campo. Sua trajetória política e humanitária confere ao livro não apenas autoridade, mas um compromisso ético claro com aqueles que menos contribuíram para a crise climática e mais sofrem suas consequências.

A obra reúne diversos relatos, sobretudo de mulheres, que evidenciam como a crise climática atinge de forma desproporcional povos e comunidades que não são responsáveis por sua origem. São populações que pagam o preço do desenvolvimento capitalista dos países ricos e industrializados, enfrentando perdas materiais, culturais e territoriais em nome de um progresso do qual nunca participaram plenamente.

É ao mesmo tempo interessante e profundamente lamentável conhecer as situações vividas no Alasca, na Lapônia, em diferentes regiões da África, em Kiribati — uma nação ameaçada de desaparecer, cujo presidente chegou a comprar terras em outro país para realocar sua população — e em tantos outros lugares. O livro dá voz à luta dessas pessoas para preservar seus modos de vida diante de transformações climáticas abruptas e irreversíveis.

Antes, o clima era conhecido: sabia-se o tempo das chuvas e das secas, quando semear, quando colher; as estações do ano eram estáveis. Hoje, essa previsibilidade desapareceu. O derretimento das geleiras no Alasca e no Ártico, as enchentes recorrentes, as secas prolongadas, tudo aquilo que se costuma chamar de “desastre natural”, revela-se, na verdade, consequência direta de ações humanas. A natureza responde, mas não é a causa.

Mary Robinson também introduz de forma clara o conceito de transição justa, lembrando que a mudança para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis precisa considerar as comunidades e os trabalhadores que dependem dessas atividades. O fechamento de minas de carvão, por exemplo, exige políticas que garantam alternativas reais de trabalho e subsistência, evitando que a solução de um problema produza novas injustiças sociais.

Apesar de relativamente curto e de focar em alguns exemplos específicos, quando sabemos que há muitos outros, o livro cumpre plenamente seu propósito. Justiça Climática é um alerta contundente e, ao mesmo tempo, um chamado à ação. As questões que ele apresenta não pertencem ao futuro: são urgentes, presentes e exigem respostas imediatas.


Mary Robinson nasceu em Ballina, Irlanda, em 1944. Foi a primeira mulher presidente da Irlanda e Alta Comissária das Nações Unidas para os direitos humanos. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

OLHAR PARA A AMÉRICA LATINA


 

O ANO DA CÓLERA: Protestos, tensão e pandemia em 5 países da América Latina

SYLVIA COLOMBO

ROCCO – 1ª ED. – 2021

256 páginas

O ano da cólera, de Sylvia Colombo, parte de uma pergunta incômoda e necessária: o que nós, brasileiros, realmente sabemos sobre nossos vizinhos latino-americanos? Para além das disputas de futebol, há pouco interesse efetivo pelos países que compartilham conosco o mesmo continente. Nosso olhar costuma se voltar para a Europa, os Estados Unidos e, mais recentemente, para potências como China, Rússia ou para o “Oriente Médio”. A América do Sul permanece, muitas vezes, como um território próximo e ao mesmo tempo desconhecido, e a autora reconhece que esse distanciamento não é exclusivo do leitor, mas algo do qual ela própria também faz parte.

O livro não se propõe a uma análise aprofundada de cada país, mas oferece uma visão panorâmica dos principais acontecimentos recentes em cinco países da América Latina, articulando-os com seus contextos históricos, políticos e sociais. Essa abordagem permite compreender por que certos processos assumiram formas específicas, evitando leituras apressadas ou meramente ideológicas. Ao longo do texto, fica evidente o quanto nossas opiniões costumam ser construídas a partir de preconceitos, clichês e disputas políticas externas, sem real preocupação em conhecer o país concreto, com suas contradições e particularidades.

A autora nos convida a revisitar acontecimentos que, muitas vezes, nos surpreenderam justamente por desconhecimento. O que levou às grandes manifestações no Chile, frequentemente visto como um modelo de estabilidade e “civilidade” na América Latina? O que de fato ocorreu na Bolívia com a saída de Evo Morales? O que se passou na Venezuela para além do slogan repetido como ameaça política — “virar uma Venezuela”? Como compreender a volta do kirchnerismo na Argentina? E por que o Uruguai aparece como uma espécie de exceção silenciosa no cenário latino-americano, raramente lembrada nas análises mais correntes?

Sylvia Colombo constrói um panorama que não oferece respostas fechadas, mas amplia o campo de compreensão, permitindo que o leitor comece a pensar de maneira mais informada e menos estereotipada sobre esses países. O livro se encerra com a chegada da pandemia de Covid-19 e seus impactos na região, cobrindo os acontecimentos até 2020, além de incluir breves incursões por outros contextos latino-americanos, como Colômbia, Equador, México e El Salvador. O ano da cólera cumpre, assim, um papel fundamental: não esgota os temas, mas abre caminhos para uma leitura mais atenta e menos provinciana do nosso próprio continente. Vale a leitura.


Sylvia Colombo é uma jornalista e historiadora especializada em América Latina 


RACISMO COMO SISTEMA DE CASTAS


 

CASTA: AS ORIGENS DE NOSSO MAL-ESTAR

ISABEL WILKERSON

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

464 páginas

Casta, de Isabel Wilkerson, oferece uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos, mostrando que ele funciona na realidade como um sistema de castas. Nesse sistema, existe uma casta privilegiada e outras subalternas, estruturando relações sociais de forma feroz e cruel, colocando seres humanos em posição de servidão quase permanente, com poucas possibilidades de ascensão, seja profissional ou intelectual, exceto com enorme esforço, determinação e superação de enormes obstáculos. Embora costumemos pensar que esse sistema pertence ao passado, Wilkerson mostra que ele permanece presente no cotidiano, e mesmo aqueles que conseguem ascender socialmente continuam a enfrentar discriminação racial.

A autora estabelece paralelos com as castas da Índia e com o nazismo, que, em parte, se inspirou nas leis raciais dos EUA, demonstrando como a doutrinação social leva à internalização do racismo. Essa análise revela o funcionamento do racismo estrutural, que permanece no inconsciente das pessoas, incluindo aquelas que se consideram não racistas.

Embora o foco do livro seja os afro-americanos, sua leitura é igualmente relevante para compreender o racismo brasileiro, que, embora historicamente negado, permanece evidente e atua de forma internalizada mesmo quando não explícita. Wilkerson amplia ainda a reflexão para todos os grupos marginalizados, colocados à margem da sociedade e tratados como inferiores. Sua crítica à supremacia branca destaca a ilusão de superioridade que sustenta tragédias históricas e sociais, mostrando que tais crenças não possuem fundamento racional, mas são construídas por aqueles que se veem como superiores.

Casta é, portanto, uma leitura essencial para compreender como estruturas históricas, sociais e psicológicas moldam a discriminação e perpetuam desigualdades, convidando à reflexão crítica sobre o racismo em qualquer sociedade.


Isabel Wilkerson nasceu em Washington D.C. em 1961. É uma jornalista estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A RELAÇÃO ENTRE DOMINAÇÃO DA NATUREZA E DAS MULHERES


 

ECOFEMINISMOS

VANDANA SHIVA – MARIA MIES

LUAS EDITORA – 2021

504 páginas


Ecofeminismos é uma obra central do pensamento crítico contemporâneo, escrita por Vandana Shiva e Maria Mies, que articula feminismo, ecologia, economia política e crítica ao capitalismo global. O livro parte da constatação de que a exploração da natureza e a opressão das mulheres não são processos distintos, mas historicamente conectados e sustentados pela mesma lógica patriarcal, colonial e capitalista.

As autoras demonstram como o modelo de desenvolvimento moderno, apresentado como universal e progressista, se baseia na expropriação dos recursos naturais, no apagamento dos saberes tradicionais e na desvalorização do trabalho feminino, especialmente o trabalho de cuidado e de subsistência. A racionalidade econômica dominante transforma tanto a natureza quanto as mulheres em “recursos” exploráveis, invisibilizando os custos sociais, ambientais e humanos desse sistema. Nesse sentido, o livro desmonta a ideia de neutralidade da ciência moderna e da economia, revelando seu caráter profundamente masculinizado e eurocêntrico.

Um eixo fundamental da obra é a crítica à divisão entre produção e reprodução. Mies e Shiva argumentam que o capitalismo só se sustenta porque depende de esferas que ele não reconhece como produtivas: o trabalho doméstico, o cuidado, a agricultura de subsistência e os ciclos naturais. Ao serem considerados “naturais” ou “gratuitos”, esses campos tornam-se passíveis de exploração ilimitada. O ecofeminismo surge, então, não como um essencialismo que associa mulheres à natureza, mas como uma crítica política a essa associação imposta historicamente para justificar dominação.

O livro também apresenta experiências concretas de resistência, sobretudo no Sul Global, onde mulheres desempenham papel central na defesa da terra, da água, das sementes e da vida comunitária. Essas práticas apontam para outras formas de organização social e econômica, baseadas na interdependência, na sustentabilidade e na valorização dos saberes locais. Para as autoras, o ecofeminismo não é apenas uma teoria, mas um projeto ético e político que propõe uma transformação radical da relação entre humanidade, natureza e economia.

Ecofeminismos é uma leitura densa, mas fundamental, que amplia o feminismo para além da questão de gênero, inserindo-o no centro das crises ecológica, social e civilizatória contemporâneas. É um livro que convida à revisão profunda das noções de progresso, desenvolvimento e poder, mostrando que não há justiça social sem justiça ambiental — e que ambas passam, necessariamente, pela libertação das mulheres.


Vandana Shiva nasceu em Dehra Dun, Uttar Pradesh (atual Uttarakhand), Índia, em 1952. É uma filósofa, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana.

Maria Mies nasceu em Steffein, Alemanha, em 1931 e faleceu em 2023. Foi uma socióloga alemã. 


 


DESCOLONIZAR O FEMINISMO E A PRÓPRIA IDEIA DE MULHER

 


A INVENÇÃO DAS MULHERES

Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero

OYÈRÓNKẸ́ OYĚWÙMÍ

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2021

324 páginas

Neste livro fundamental, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí parte de uma constatação decisiva: ao iniciar uma pesquisa na Nigéria com o povo iorubá, percebeu rapidamente que não poderia utilizar a categoria “gênero” como ferramenta analítica. Aquilo que no pensamento ocidental aparece como evidente — a organização social a partir da diferença sexual — simplesmente não operava da mesma forma naquela sociedade antes da colonização europeia.

Oyěwùmí demonstra, de maneira consistente, que o gênero não organizava a sociedade iorubá pré-colonial. As hierarquias sociais não se estruturavam a partir do sexo biológico, mas de critérios como senioridade, linhagem, ancestralidade e posição relacional. A categoria “mulher”, tal como formulada no Ocidente moderno, não existia como eixo estruturante da vida social. Trata-se, segundo a autora, de uma imposição colonial que traduz violentamente uma ordem social que não era generificada.

Ao projetar o gênero como categoria universal, o olhar europeu não apenas interpreta mal a sociedade iorubá, mas ele a recria segundo seus próprios esquemas epistemológicos e esse gesto não é neutro. Ele reorganiza a experiência social, redefine papéis, institui hierarquias e, sobretudo, produz subordinação onde antes ela não existia da mesma forma.

O papel social das mulheres na sociedade iorubá era central, mas fundamentado em outros princípios. A maternidade, por exemplo, tinha grande relevância simbólica e social, mas não era compreendida nos termos ocidentais modernos: idealizados, essencializados e biologizados. Não se tratava de reduzir a mulher ao corpo ou à função reprodutiva, mas de situá-la em uma rede de relações ancoradas na ancestralidade e na continuidade da comunidade.

A crítica de Oyěwùmí ao pensamento ocidental é direta e profunda. Ao desmontar a lógica biológica e binária que sustenta a noção moderna de gênero, ela demonstra que existem outras formas de sociabilidade, outras racionalidades e outras maneiras de organizar o mundo que não se baseiam no corpo como destino social.

A leitura deste livro foi decisiva para responder a uma pergunta que atravessa meus estudos sobre as mulheres: a categoria gênero é universal? A resposta é clara — não, não é. O gênero pode ser uma ferramenta analítica potente em sociedades ocidentais patriarcais, onde ele é construído socialmente como mecanismo de subordinação feminina. Mas não pode ser aplicado indiscriminadamente a todas as culturas sem produzir distorções profundas.

Esse também não é o caso quando se estudam, por exemplo, as mulheres do Império Cuxe. A invenção das mulheres nos obriga, assim, a repensar não apenas a história das mulheres, mas os próprios fundamentos teóricos a partir dos quais essa história tem sido escrita. Trata-se de um livro que descoloniza o pensamento e, ao fazê-lo, nos desestabiliza de maneira necessária.


Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí nasceu na Nigéria em 1957. É uma pesquisadora oxunista nigeriana e professora. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

MAQUIAVEL E A POLÍTICA FEMININA


 

PRINCESAS DE MAQUIAVEL – POR MAIS MULHERES NA POLÍTICA

JULIANA FRATINI (ORG.)

MATRIX EDITORA – 1ª ED. – 2021

208 páginas

Princesas de Maquiavel, organizado por Juliana Fratini, inicia-se com uma analogia ao clássico O Príncipe, de Maquiavel, escrito para um príncipe homem, transportando suas reflexões para o universo feminino e político, daí o título.

O livro reúne depoimentos de mulheres na política que relatam as dificuldades enfrentadas, incluindo o machismo e a violência política direcionada a elas. Também abordam iniciativas voltadas para aumentar a participação feminina, destacando a solidariedade e a sororidade entre mulheres na política. Além disso, a obra evidencia conquistas concretas dessas mulheres, como leis aprovadas, projetos implementados e outras realizações que transformam o cenário político.

Princesas de Maquiavel é uma leitura instigante que combina reflexão teórica, experiência prática e inspiração, mostrando a força, a determinação e a importância da presença feminina na política contemporânea.


Juliana Fratini é uma cientista política brasileira.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

NATUREZA, CULTURA E O COLAPSO DAS SEPARAÇÕES MODERNAS

 


ESCUTE AS FERAS

NASTASSJA MARTIN

EDITORA 34 – 1ª ED. – 2021

112 páginas

Este é um livro curto, mas profundamente impressionante. A autora, Nastassja Martin, é uma antropóloga francesa que pesquisa povos da Sibéria. Durante um trabalho de campo, ela é atacada por um urso, que lhe morde o rosto e a perna. Martin consegue ferir o animal, que foge, gesto que lhe salva a vida.

O livro relata o longo e doloroso processo de restabelecimento físico, tudo o que a autora enfrenta entre hospitais na Rússia e na França, as cirurgias, a dor e as limitações impostas ao corpo. No entanto, o aspecto mais potente da obra está em outro plano: o do processo interno, psíquico e existencial desencadeado pelo encontro violento com o animal.

Martin não trata o ataque apenas como um acidente ou um evento a ser superado. Ela o pensa como uma fratura ontológica, um choque entre mundos — o humano e o não humano — que desestabiliza identidades, fronteiras e certezas. A experiência coloca em questão a separação moderna entre natureza e cultura, corpo e espírito, razão e instinto. A antropóloga, acostumada a observar e interpretar o outro, torna-se ela própria atravessada pela alteridade radical da fera.

Escute as feras é, assim, um livro sobre vulnerabilidade, metamorfose e escuta. Um relato em que o corpo ferido obriga o pensamento a se refazer, e onde a experiência extrema abre espaço para outra forma de compreender o humano, o animal e o mundo compartilhado.


Nastassja Martin nasceu em Grenoble, França, em 1986. É antropóloga, especializada nas populações do Extremo Norte. 


RESISTÊNCIA, COLABORACIONISMO E HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


 

UMA MULHER SEM IMPORTÂNCIA

A história secreta da espiã americana mais perigosa da Segunda Guerra Mundial

SONIA PURNELL

PLANETA – 1ª ED. – 2021

416 páginas


Uma Mulher Sem Importância, de Sonia Purnell, narra a extraordinária trajetória de Virginia Hall, uma mulher de coragem e determinação incomuns. Nascida nos Estados Unidos em uma família de posses, seu destino parecia ser o casamento conforme os desejos de sua mãe, mas Hall aspirava a muito mais. Com o apoio do pai, foi estudar na Europa e sonhava em tornar-se diplomata em uma época em que tal carreira era praticamente inacessível às mulheres.

Um revés inesperado ocorreu na Turquia, quando, em um acidente de caça, Hall disparou acidentalmente no próprio pé, necessitando de amputação acima do joelho devido a uma gangrena. A partir daí, passou a usar uma perna mecânica, carinhosamente apelidada de Cuthbert, sem que isso diminuísse sua determinação.

Com o estourar da Segunda Guerra Mundial, Hall ingressou na SOE, o serviço secreto britânico, e atuou como espiã na França, país que amava como uma segunda pátria. Lá, desempenhou um trabalho imenso com a resistência: treinando combatentes, fornecendo armas, elaborando planos de resgate para prisioneiros e promovendo sabotagens contra os alemães. Apesar de sua coragem e eficácia, jamais recebeu o reconhecimento que merecia durante a vida, muitas vezes devido ao machismo que impedia que suas realizações fossem vistas como equivalentes às dos homens, mesmo quando as superava.

Após a guerra, Virginia Hall trabalhou na recém-criada CIA nos Estados Unidos, novamente enfrentando o silêncio e a falta de reconhecimento. Considerada uma das maiores inimigas do Terceiro Reich, foi procurada incansavelmente, mas nunca capturada, embora tenha perdido amigos e companheiros, especialmente devido ao agente duplo Robert Alesch.

O livro de Purnell não só celebra a vida desta mulher extraordinária, mas também oferece um retrato detalhado da resistência francesa, do colaboracionismo e do contexto de Vichy e do governo de Pétain, proporcionando uma compreensão profunda do período histórico e da luta de indivíduos excepcionais contra o totalitarismo.


Sonia Purnell é uma jornalista e escritora inglesa. 


ENTRE MUROS E PONTES: ALTERNATIVAS PARA O FUTURO


 

A ERA DOS MUROS: POR QUE VIVEMOS EM UM MUNDO DIVIDIDO

TIM MARSHALL

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

352 páginas


A Era dos Muros, de Tim Marshall, é um livro impactante que revela a extensão da presença de barreiras físicas ao redor do mundo. Eu não tinha conhecimento de quantos muros existem atualmente e o livro detalha tanto os motivos alegados para sua construção quanto as críticas a essas estruturas. Marshall aborda muros na América, Europa, Ásia e África, descrevendo desde barreiras de concreto até cercas simples e até mesmo construções feitas de areia.

O que torna a leitura particularmente perturbadora é perceber como, diante de conflitos, crises humanitárias, refugiados e desafios climáticos, a solução adotada muitas vezes é erguer muros. Embora em alguns casos haja resultados positivos, como a redução de atentados terroristas, a sensação de isolamento e separação é inevitável. Como o autor ressalta, na Idade Média, as cidades muradas eram locais de proteção, para onde as pessoas corriam em busca de segurança; hoje, no entanto, os muros separam, afastam e simbolizam divisão.

Marshall convida o leitor a refletir sobre o impacto social e psicológico dessas barreiras, mostrando que, em vez de pontes e conexões, muitas sociedades optam por cercas e fronteiras, perpetuando divisões que poderiam ser superadas por diálogo e cooperação.


Tim Marshall nasceu na Inglaterra em 1959. É um jornalista e escritor britânico. 


IDEALISMO EM CONFRONTO COM A MÁQUINA DO PODER

 

A EDUCAÇÃO DE UMA IDEALISTA: MEMÓRIAS

SAMANTHA POWER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2021

632 páginas

As memórias de Samantha Power inspiram, não por ingenuidade, mas justamente porque revelam o idealismo colocado à prova. Sim, ela se assume idealista. Mas é uma idealista que age, que entra em territórios devastados, ocupa espaços institucionais e aceita o risco do fracasso. Erra, recua, perde batalhas e, ainda assim, não desiste.

Nascida na Irlanda, Samantha Power migra ainda jovem para os Estados Unidos com a mãe, o padrasto Eddie e o irmão. Essa experiência inicial de deslocamento já marca sua percepção do mundo: pertencimento nunca é algo garantido, é sempre construído. Mais tarde, como jornalista, viaja para a Bósnia para cobrir a guerra. Ali, diante da violência extrema, da limpeza étnica e da indiferença internacional, vive experiências que irão moldar definitivamente sua visão política e ética. A guerra deixa de ser abstração e passa a ter rostos, nomes, corpos.

De volta aos Estados Unidos, decide estudar Direito. Não como abandono do jornalismo, mas como continuidade: compreender os mecanismos formais que organizam, ou paralisam, a ação internacional. Sua trajetória a leva à política institucional, participando da campanha de Barack Obama, e posteriormente ao governo norte-americano. Nomeada por Obama como embaixadora dos EUA na Organização das Nações Unidas, passa a ocupar um dos espaços mais complexos e contraditórios da política global.

O livro não idealiza esse percurso. Pelo contrário: mostra com clareza o embate permanente entre princípios morais e interesses geopolíticos. Power narra suas tentativas de intervir ou pressionar diante de conflitos no Iraque, Sudão e Síria, sempre consciente dos limites impostos pela soberania, pelos vetos, pelos jogos de poder. Ao mesmo tempo, destaca seu compromisso contínuo com a defesa das populações civis, em especial das mulheres, quase sempre as primeiras vítimas das guerras e as últimas a serem ouvidas.

A Educação de uma Idealista não é apenas a história de uma carreira bem-sucedida. É o relato de uma formação ética em permanente tensão: como agir sem trair valores? Como aceitar compromissos sem naturalizar a violência? Como permanecer sensível ao sofrimento do outro quando se está cercada por protocolos, discursos e estratégias?

Ao final, fica claro que o idealismo de Samantha Power não é um ponto de partida confortável, mas um processo doloroso de aprendizado. Um idealismo que não se satisfaz com boas intenções, mas insiste em permanecer ativo mesmo quando o mundo oferece poucas respostas. Um livro que convida a pensar não apenas sobre política internacional, mas sobre o preço, e a necessidade, de continuar acreditando na responsabilidade diante do outro.


Samantha Power nasceu em Londres, Reino Unido, em 1970. É uma política, diplomata, escritora, jornalista e advogada.