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terça-feira, 11 de agosto de 2026

LIVRO: A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA

 

A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA

NAWAL EL SAADAWI

FARO EDITORIAL – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – EGITO 

Este livro é impactante, principalmente por se tratar de uma ficção construída em cima a partir de uma história real. Nawal El Saadawi realmente entrevistou uma mulher na prisão, condenada à morte, e escreveu “A mulher com olhos de Fogo”.

Vou iniciar com uma pequena ressalva ao título em português, que traz “O despertar feminista” como subtítulo. Muitos podem pensar que se trata de um livro que aborda uma mulher que desperta diante de um mundo absolutamente patriarcal e, a partir disso, muda sua vida. Eu diria que, na verdade, ela tem uma conscientização feminista. No entanto, isso não irá mudar sua vida, mas a levará a enfrentar uma verdade que acaba por condená-la à morte.

Logo no início, Firdaus diz: “não tenho tempo para ouvir você”. Ela quer contar sua própria história, da qual finalmente se apropriou; É através de sua história que acompanhamos a formação de uma consciência feminista.

É notório o quanto os olhos dos outros são vitais para Firdaus. Em vários momentos do livro, ela irá se referir aos olhos do outro. Sim, é pelo olhar do outro que nos constituímos, a psicanálise o explica. E, em uma sociedade patriarcal e machista, esse olhar objetifica o corpo da mulher. É através dessa objetificação que a mulher se constitui.

Nawal El Saadawi escreveu o livro em 1975. É importante levar isso em consideração. Sabemos que foi exatamente nos anos 70 que os estudos das mulheres ganharam força, o que não quer dizer que antes não houvesse estudos sobre o tema. Mas o caminho percorrido de lá para cá já trouxe muitas mudanças.

Outro ponto que é importante levar em consideração é que, por mais que a sociedade egípcia de 1975 fosse machista e patriarcal, e ainda o é, não se pode generalizar as condições relatadas por Firdaus para todas as mulheres egípcias. Isso só reforçaria a visão Ocidental de que as mulheres do chamado Oriente precisam ser salvas. A própria autora é um exemplo de que essa não é uma situação que se aplica a todas. No entanto, sim, muitas mulheres enfrentaram e ainda enfrentam situações como as narradas por Firdaus.

Não tenho conhecimento suficiente sobre a situação atual das mulheres no Egito para fazer uma comparação com o que é relatado no livro. Minha leitura se limita à obra, ao seu contexto de produção e à experiência de Firdaus, narrada por Nawal El Saadawi.

O simples fato de nascer menina, o que não é uma escolha, já define o destino de Firdaus naquela sociedade. A menina não é valorizada como um menino, e ela percebe isso. Todas as violências sofridas, na família, a mutilação genital, o abuso pelo tio, o casamento forçado, até chegar à prostituição. Ter cursado a escola e obter um diploma de nada lhe serviu.

Não existe apenas um vilão. Praticamente todos os homens que cruzaram o caminho de Firdaus foram violentos ou, então, pagavam para usufruir de seu corpo. Em um único momento, em que ela parece ter encontrado um homem bom, se apaixonado e encontrado uma luz para si, sofrerá a desilusão ao descobrir que ele se casará com outra. Sabemos o porquê: ela dormia com ele sem ser casada, lhe contou sua vida e, portanto, não era uma mulher considerada adequada para ser esposa de alguém.

Nem mesmo as mulheres são generosas com ela. Seguem as normas sociais, e a esposa do tio é quem a casa com um velho que irá espancá-la e controlar o que ela come. Uma prostituta a ampara, dá-lhe um lugar para morar e boa comida, mas se aproveita do corpo dela, vendendo-o. Isso demonstra como as mulheres internalizam normas patriarcais e também as reproduzem.

Quando ela consegue um emprego, o salário é muito baixo, e isso também é um reflexo da sociedade e do sistema econômico. Portanto, não vale dizer que ela poderia ter seguido por outro caminho e alcançado uma autonomia financeira pelo trabalho.

Quando ela retorna à prostituição que, segundo sua experiência, é a única forma de ter uma certa autonomia e independência financeira, surge o cafetão.

Para ela, ser prostituta é o destino de todas as mulheres, inclusive das esposas. Eu não concordo com essa visão, apesar de ser um dos pontos que as feministas apontam. Naqueles anos 70, eu até compreendo, pois conheci muitas mulheres que consideravam o sexo uma obrigação do casamento. Mas muita coisa mudou depois, e a mulher pode ter desejo sexual e sentir prazer em suas relações sem, com isso, ser uma prostituta.

Firdaus vê o véu cair de seus olhos e enxerga uma realidade que a leva a odiar todos os homens. Ela enxerga a insegurança deles, o desejo do poder, do status e do dinheiro que lhes dá segurança. E tem consciência de que isso apavora os homens, eles têm medo dela. E é isso que a condena.

Ela não escapa do sistema. Ela prefere morrer a se submeter ao sistema.

“Eu me dei conta de que todos esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem limites.” (pág. 52)

“Em certa ocasião ele me deu uma grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de contusões. Então eu fui embora de casa e procurei o meu tio. Mas o meu tio me disse que todos os maridos batiam nas suas mulheres, e a esposa do meu tio ainda comentou que ela mesma apanhava do marido com frequência.” (pág. 75)

“Eu tomei consciência do fato de que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar conselhos, ou diziam que queriam me resgatar da vida que eu levava. Eu costumava odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam como algum tipo de heróis magnânimos – um papel que não fizeram nenhuma questão de desempenhar em outras circunstâncias. Queriam se sentir nobres e superiores lembrando-me do fato de que eu estava em situação de inferioridade. Eles diziam a si mesmos: ‘Vejam só que pessoa maravilhosa eu sou. Estou tentando tirar essa puta da lama antes que seja tarde demais’. (pág. 135)


Nawal El Saadawi nasceu em Kafr Tahlah, Egito, em 1931 e faleceu no Cairo, Egito, em 2021. Foi uma escritora, médica, psiquiatra e feminista egípcia. 


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

LIVRO: A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS

 


A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS

BOTHAYNA EL-ESSA

INSTANTE – 1ª ED. – 2025

224 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – KUWAIT


Este é um livro que trata da censura de livros. O ponto que mais chama a atenção é que censurar livros não significa apenas uma censura política ou ideológica, como ocorreu com livros marxistas ou considerados comunistas no Ocidente, nem somente por uma questão moralista ou sexual.

Bothayana El-Essa nos mostra uma censura que inclui esses aspectos, mas vai além, inclui livros que possam levar pessoas a imaginar ou interpretar. A linguagem tem que ser superficial. E aí entramos em outro campo que vem me preocupando atualmente: uma certa “censura” que opera de uma forma totalmente imperceptível para a grande maioria das pessoas: o mercado.

É interessante ver que a autora lista uma série de livros que são os autorizados: autoajuda, religiosos aprovados pelo conselho religioso, romances simples, os de pensamento positivo, os que promovem a meritocracia, os que focam em uma literatura do eu, incluindo aí o individualismo e a vitimização, e os de superação individual. Então é só pensar nas vitrines ou sites de livrarias atuais.

O mercado controla o que vai ser traduzido e divulgado. O algoritmo controla o que aparece nas pesquisas do Google ou da IA, e então temos os youtubers e influencers divulgadores de livros, que se atém justamente a esses livros. Isso reduz enormemente o leque de livros ou autores aos quais chegamos para ler.

Sim, há muitas editoras menores fazendo um trabalho sensacional e trazendo outros autores de lugares diferentes, fora do eixo eurocêntrico ou estadunidense, mas que não possuem a mesma abrangência de divulgação e, o pior, não despertam o interesse da grande maioria.

Atualmente, os leitores são conduzidos por rankings - os mais vendidos, a lista dos melhores, os que você tem que ler antes de morrer etc.-, algoritmos e influenciadores. Não é uma censura explicita, mas não deixa de ser um cerceamento. Também estamos vendo algo que não é novo em absoluto, mas muito pelo contrário, que é a retirada e censura de livros em escolas e bibliotecas públicas. E a questão atual não é mais apenas o que um governo determina, mas algo aleatório: um prefeito de uma cidade decide censurar, um vereador ou um deputado, e em função de sua própria ideologia religião. Ou seja, em cidades vizinhas há livros que foram proibidos em uma delas e, na outra, não.

 “A biblioteca do censor de Livros” traz tabelas das normas de censura e o manual da leitura correta para o censor de livros, que são extremamente interessantes, além dos motivos da censura e várias ilustrações no decorrer do livro.

Há um momento em que o Novo Censor vai ao escritório do chefe do departamento e se depara com uma biblioteca imensa, repleta dos livros proibidos. Isso não é nada que impacte, em todos os governos que censuravam livros, os que estavam no alto escalão possuíam os livros e os liam. Mas aqui o que chama a atenção é que o chefe chama esta biblioteca de cemitério de livros. E o que isso significa? Que são livros mortos, não é uma biblioteca viva que circula, de livros que são lidos.

O primeiro livro que o Novo Censor lê e que mexe com ele é “Zorba, o Grego”. A partir da leitura desse livro, tudo muda para o censor, que começa a interpretar e imaginar, o que é totalmente proibido na Nova República que se instaurou com a vitória do Movimento Popular do Realismo Positivista e a queda da democracia. 

O sistema se preocupava principalmente com a imaginação das crianças. Havia cartazes espalhados por todos os locais e uma campanha para conscientizar: “Seu filho sofre de imaginação? Não hesite em pedir ajuda. Não permita que sofra. Você não está sozinho. Conte Conosco.” O Censor tinha uma filha com os sintomas da imaginação, e seu maior medo era que ela fosse enviada para um centro de reabilitação, de onde raramente uma criança retornava para sua família.

Havia um núcleo de resistência que tentava salvar os livros da fogueira, que ocorria uma vez por ano, no dia do Eid da Purificação, uma data em que se permitia lembrar o Velho Mundo com festas, danças, fantasias, o que nos lembra muito nosso Carnaval, mas em que também se queimavam os livros que foram proibidos. Os membros da resistência eram chamados de “câncer” porque corroíam o sistema por dentro.

E havia milhares de coelhos em todos os lugares. É interessante pensar nos coelhos. O primeiro pensamento nos leva para o coelho de “Alice no país das maravilhas”, mas aqui são milhares. Coelhos se reproduzem sem parar, e isso revela que aquilo que o sistema tenta eliminar volta incessantemente.

O final do livro surpreende: “a imaginação é real, a realidade é imaginária” é a conclusão do Censor. E é então que ele percebe algo, e que não vou revelar aqui, para deixar o prazer da descoberta a quem ler o livro.


                         Bothayna El-Essa nasceu no Kuwait em 1982. É uma romancista.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

LIVRO: EVA DOS SEUS ESCOMBROS


 

EVA DOS SEUS ESCOMBROS

ANANDA DEVI

EDITORA MEIA AZUL – 1ª ED. – 2025

138 páginas

  

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ILHAS MAURÍCIO 


Ananda Devi apresenta uma Ilhas Maurício muito distante dos cartões-postais da ilha para os turistas que a visitam e de seus luxuosos resorts. São quatro personagens: Eva, Sad, Clélio e Savita, que vivem na periferia, em um lugar chamado Troumaron.

A autora utiliza uma linguagem poética e lírica para dar voz a esses quatros personagens, que vivem uma realidade muito diferente daquela experimentada pelos turistas que visitam a ilha e não tem a percepção desse lado do país. 

Eva é a personagem principal e ela faz uso de seu corpo como forma de resistência. Já Savita deseja ir embora dali, mas quer que Eva vá com ela.

Saadiq, ou Sad, é um jovem apaixonado por Eva que é sensível e gostaria de ser poeta e se inspira em Rimbaud. Clélio, por sua vez, revolta-se com as condições de sua vida e de sua família e espera que seu irmão, que se mudou para a França, retorne para buscá-lo, conforme lhe prometeu. Sad e Clélio pertencem a uma gangue que domina o bairro.

Já li muitos livros que retratam a vida nas periferias e nas favelas. Não é o cenário, porém, que se torna o ponto alto deste livro, mas a linguagem utilizada pela autora. Mesmo sendo um livro curto, li-o devagar. Cada capítulo que traz o relato de um dos personagens e, com grande sensibilidade e poesia, não deixa de revelar toda a tristeza e a miséria que permeiam essas vidas.

Troumaron é um trocadilho e pode ser lido como “buraco marrom”. Na colonização francesa do Caribe marrons eram os africanos escravizados que fugiam e criavam comunidades – as marronages – equivalentes aos nossos quilombos. Porto Luís, a cidade onde fica Troumaron, parece não incorporar o local, lhe dá as costas como diz um dos personagens. É no meio desses escombros que a autora dá voz aos quatro personagens.

O contraste entre Porto Luís, voltada para o turismo internacional, e esse mundo à parte, que enclausura sem muros, que retém ali uma parte da população menos favorecida, que destrói sonhos e compromete o futuro dos jovens que ficam sem perspectivas, nos é mostrado através desses quatro personagens. As correntes da escravidão permanecem, ainda que agora se manifestem nas inúmeras impossibilidades que aprisionam esses jovens. Eles vivem entre os escombros e, apesar das tentativas de Sad de tirar Eva desse mesmo lugar, essa se mostra uma tarefa árdua demais.  

Quero acrescentar uma análise a mais sobre o livro. A referência a Arthur Rimbaud não parece gratuita. Se em Uma temporada no Inferno a escrita acompanha uma travessia pelo sofrimento e pela desilusão, em Troumaron a poesia de Sad nasce em meio aos escombros, como uma tentativa de resistir a uma realidade que insiste em sufoca-lo.

A linguagem poética empregada por Ananda Devi não suaviza a violência nem a miséria. Ao contrário, demonstra que a poesia também é capaz de dar formas ao horror, assim como Paul Celan mostrou que, mesmo após Auschwitz, ela continuava sendo uma linguagem possível para dizer o indizível.

Eva chama muito a atenção. Já pelo nome que corresponde a Eva bíblica que vivia em um paraíso, e as Ilhas Maurício são consideradas um paraíso turístico. Mas também pelo fato de fazer uso de seu corpo para conseguir o que deseja. Um corpo que serve de resistência, mas antes disso ele foi transformado, pelas circunstâncias, em capital, em mercadoria, em único recurso disponível.

Em um dos episódios, um delegado lhe entrega uma arma, e Eva não consegue interpretar aquele gesto dentro de uma lógica de confiança, solidariedade ou simples decisão pessoal. Ela procura imediatamente a contrapartida, porque foi assim que aprendeu a sobreviver. Isso é mais profundo do que denunciar a exploração sexual. A autora mostra como um sistema de violência consegue moldar a subjetividade. Para Eva é impossível conseguir qualquer coisa sem oferecer seu corpo. Essa é uma forma de colonização da consciência.

Ananda Devi não está apenas denunciando a pobreza. Ela mostra como a pobreza, o patriarcado, a violência e a exclusão produzem subjetividades. Cada personagem passa a enxergar o mundo através da estrutura que o oprime.


Ananda Devi nasceu em Trois Boutiques, Ilhas Maurício, em 1957. É uma escritora. 


quinta-feira, 30 de julho de 2026

LIVRO: FÉ DISFARÇADA


 

FÉ DISFARÇADA

MAYRA SANTOS-FEBRES

PALLAS – 1ª ED. – 2026

152 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PORTO RICO – Território não incorporado dos Estados Unidos

Fé disfarçada” é um livro curto, no entanto, denso e que pode, em um primeiro momento, parecer extremamente sexual, afinal, o narrador, Martín Tirado, está sempre ocupado com o que chama de obelisco, ou seja, seu órgão sexual. Mas essa seria uma leitura muito simplista do que a autora nos apresenta.

Outro ponto que pode nos enganar é o título do livro, pois não se trata de nada ligado à religião, mas Fé é o nome da protagonista. E, já me adiantando, preciso fazer uma distinção importante para a compreensão do enredo – disfarce é diferente de fantasia.

O livro, como já adiantei, é narrado por Martín, um jovem que trabalha em um Centro de Pesquisas Históricas em Chicago, nos Estados Unidos, e tem Fé como sua chefe. Entrelaçando os relatos de Martin, temos documentos históricos sobre casos de violências extremas contra mulheres negras no Brasil, na Venezuela e no Caribe. Esses documentos são fictícios, inclusive ao abordar uma personagem histórica brasileira – Chica da Silva.

A autora trabalha com o passado da escravização de mulheres negras e ao que elas foram submetidas, e com o tempo atual, mostrando as reminiscências dessa escravização que ainda permanecem na vida das mulheres negras. Para isso, ela utiliza a carne, o corpo, tão ferido, machucado, abusado e estuprado durante a escravização. Aqui começamos a compreender o uso do sexo na narrativa.

Durante suas pesquisas, Fé recebeu de uma freira um vestido belíssimo que foi usado por uma mulher negra para se apresentar à sociedade. No entanto, o vestido não disfarça a negritude nem apaga o que aquele corpo sofreu. Dentro dele há uma armação de ferro, já está enferrujado pelo tempo, e, ao vesti-lo, Fé machuca a própria carne, que sangra.

Mas a pergunta que não quer calar: por que a autora escolheu um homem para relatar a história? Eu penso que ela faz essa escolha porque quer mostrar a volúpia masculina, o desejo do homem como algo incontrolável e insaciável, em contraste com o estereótipo historicamente atribuído às mulheres negras, como se fossem elas as naturalmente lascivas. Essas mulheres foram estupradas e obrigadas ao sexo por homens brancos movidos por esse desejo.

Fé instaura um ritual. Todos os Dias dos Mortos, ela convida Martín para seu apartamento, onde há um quarto vazio, todo branco, tendo apenas um sofá de madeira. Ela veste o vestido com a armação de ferro que machuca sua carne e transa com Martín, e faz um pedido – “me tire daqui”.

Em uma viagem à Espanha, Fé presenteou Martín com uma navalha de Toledo, e ao final da narrativa, é com essa navalha que ele pretende libertá-la, cortando o vestido. No entanto, a autora deixa em suspenso o que acontecerá, o livro termina nesse ponto.

Esse final levanta outra questão: mais uma vez será um homem para salvar uma mulher? não sabemos o que vai acontecer, nem a reação de Fé ao que ele pretende fazer.

“(...) Eu queria ser como aquelas freiras, brancas, puras, como aquelas princesas; vestir trajes que vão até o chão, feitos de veludo bordado com fios de ouro e pedrarias. Mas no fundo, sabia que aquilo não era para mim. Era lembrada disso pelas outras alunas e pela cor de minha pele. Minha pele era o mapa dos meus ancestrais. Todos nus, sem brasões ou bandeiras que os identificassem; marcados pelo esquecimento ou apenas, pro cicatrizes tribais, correntes e marcas de chancela no lombo. Nenhum tecido que me cobrisse, sagrado ou profano, poderia ocultar minha verdadeira natureza.” (pág. 112)

Não há disfarce para isso!!!


Mayra Santos-Febres nasceu em Carolina, Porto Rico, em 1966. É uma autora, poeta, romancista, professora de literatura, ensaísta e crítica literária porto-riquenha. 


terça-feira, 28 de julho de 2026

LIVRO: CORREIO NOTURNO

 


CORREIO NOTURNO

HODA BARAKAT

EDITORA TABLA – 1ª ED. – 2020

160 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LÍBANO


A primeira carta é de um homem que escreve para a mulher que ama. Inicialmente pensamos tratar-se de uma declaração de amor, mas, aos poucos, a carta se transforma em um relato de sua mágoa em relação a ela, de tudo o que ele considerava não corresponder ao que sentia e fazia. A carta termina bruscamente, quando ele decide ir ao encontro de um homem que o observava da janela de um apartamento em frente.

A segunda carta é escrita por uma mulher hospedada em um hotel, que encontra essa primeira carta no meio de uma bíblia e a começa a lê-la. Ela relata isso ao homem que aguarda no hotel, que, no entanto, não vem e não envia nenhuma mensagem. Há recordações do tempo em que eram felizes, uma primavera que passaram juntos. Ele é casado, mora no Canadá e foi quem pediu esse encontro, porém não comparece. A carta contém tudo o que ela gostaria de lhe dizer e tudo o que esperava dele caso viesse.

A terceira carta é a mais impactante. Um homem escreve para sua mãe enquanto está em um aeroporto. Ele não a vê há anos e decide lhe contar o que lhe aconteceu. Aqui temos um jovem que foi preso sem saber o motivo. Algo meio Kafkaniano, mas de uma crueldade muito maior. Ele foi torturado ao extremo até confessar o que nem sabe, e depois disso, é incorporado ao grupo e passa a ser ele o torturador de outros. Ele explica que precisou fazer isso para sobreviver, mas admite que, em determinado momento, também começou a sentir prazer em torturar. Quando o Estado se impõe e acaba com o grupo, ele foge e passa a viver uma vida miserável em outro lugar, até o momento em que uma mulher o acolhe em seu apartamento onde encontra algum conforto. Mas o medo nunca o abandona, ele tem medo que ela o expulse e decide fazer com que ela se apaixone por ele. O desfecho é trágico.

A quarta carta é de uma mulher cuja sua mãe a obrigou a casar-se com um homem desprezível, com quem teve uma filha. Agora ela escreve ao irmão para relatar tudo que aconteceu e explicar por que tomou certas decisões.

A quinta carta é de um homem homossexual que escreve ao pai, dizendo o quanto sua vida foi despedaçada após ser expulso de casa por ele, incapaz de aceitar um filho gay.

Barakat une essas cartas, que nunca chegaram aos seus destinatários, fazendo com que cada um encontre a carta do outro e a comente, exceto o homem homossexual que não encontra nenhuma.

Em uma segunda parte, intitulada Aeroporto, temos a versão dos destinatários das cartas: a mulher a quem o primeiro homem declara seu amor misturado ao rancor, o homem que deveria encontrar a mulher no hotel, a prisão do torturador e o irmão que responde à irmã. Essa parte me recordou “Risíveis Amores”, de Milan Kundera. Não pelo tema, mas porque, nos dois livros, primeiro vemos um personagem pensando e falando do outro. Naturalmente construímos uma imagem desse destinatário. Quando esse outro finalmente fala, descobrimos alguém completamente diferente daquele que imaginávamos. Barakat faz isso de forma surpreendente.

O livro termina com a carta de um carteiro, que relembra os bons tempos em sua região quando entregava as cartas de bicicleta. Então, vieram a guerra e, principalmente, o Estado Islâmico. Já não existiam endereços para onde enviar cartas, nem pessoas aguardando ansiosamente por elas.  Nos correios restam pilhas de cartas que não chegaram aos seus destinatários e ele decide catalogá-las e deixar sua própria explicando como classificou as mesmas.

Bakarat oferece uma visão da guerra sem descrever combates ou ataques. Seu foco está nos efeitos psíquicos, as separações, os destinos que se alteram completamente, o exílio. A autora não trata apenas da guerra, aborda costumes da região, como o casamento forçado, a desonra de se divorciar, de se prostituir ou de ser homossexual. São histórias marcadas pela violência, pela intolerância e pelo desenraizamento, cujas vidas permanecem suspensas como as cartas que nunca encontraram seus destinatários.

                    Hoda Barakat nasceu em Beirute, Líbano, em 1952. É uma romancista libanesa. 


 


segunda-feira, 27 de julho de 2026

LIVRO: AS LEIS

 

AS LEIS

CONNIE PALMEN

EDITORA 34 – 1ª ED. – 1997

192 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PAÍSES BAIXOS (HOLANDA)


Marie Deniet é uma estudante de filosofia que tem encontros com sete homens diferentes: um astrólogo, um epiléptico, um padre, um filósofo, um psicólogo, um físico e um artista.

O astrólogo, o primeiro que ela encontra, traça seu mapa astral. Deniet estava acostumada a ouvir os outros falando de si mesmos, mas aqui ocorre o contrário, ela ouve alguém falar dela, e com uma certa precisão em suas observações que precisa reconhecer. Para quem não compreende astrologia, como é meu caso, é um capítulo um pouco entediante e confuso.

O epiléptico é seu segundo encontro. Daniel expõe toda uma filosofia da dor e da questão do corpo, que ou esconde uma doença ou dor ou a expõe. A epilepsia está no segundo caso, a pessoa sofre uma crise em plena rua, baba, contorce-se. Não há como esconder. Ele faz uma crítica a Susan Sontag sobre a metáfora da doença.

Ela terá então o terceiro encontro, com o filósofo que será o orientador de seu mestrado. Em seguida, encontrará um padre, um artista e o último será um psiquiatra.

Mas o que Marie busca nesses homens? Aos poucos vamos compreendendo. Ela vem de um pequeno vilarejo católico e teve uma infância e adolescência em que a religião oferecia um sentido para a vida. Quando um jovem lhe empresta um livro de Sartre, ela rompe com Deus e acaba se vendo diante de um vazio de sentido. Muda-se para Amsterdã e começa sua busca.

Aqui é preciso, antes de tudo, fazer uma ressalva. O livro é de 1991 e, para leitoras mais jovens, talvez soe um tanto machista e patriarcal, mas quem é mais velha percebe um percurso que foi muito comum para as mulheres. A pergunta que pode surgir é: porque ela busca nos homens um sentido para sua vida. Primeiro, porque estuda filosofia, e sabemos bem como essa disciplina ainda mantém um cânone predominantemente masculino, mesmo diante de tantas mulheres filósofas. Segundo, porque durante muito tempo os homens foram considerados os detentores da verdade e das leis. Mas isso não diminui o livro; pelo contrário, trata-se de um romance de formação.

Confesso que me incomodou o capítulo com o filósofo, em que vemos uma Marie usando a sedução para atrair o olhar do mestre. Ela, que há muito tempo não usava mais vestidos nem saias, passa a vestir ambos, além de meias de náilon e salto alto. Tenta capturar o olhar dele, e consegue. No entanto, ele não se aproxima como ela esperava. Será por meio dos idosos que frequentam suas aulas e a apresentam a ele que esse contato finalmente acontecerá. Quando ela conclui sua dissertação, o filósofo a encaminha a um padre para orientar seu doutorado.

Aqui temos um capítulo que beira o intragável. O encontro em si é interessante, porém a questão é que ela o considera o homem mais feio que já viu. Ele é corcunda, mas ela acredita que pode lhe dar a felicidade de ser desejado ao lhe oferecer sexo desde que ele não a toque.

Em seguida vem o artista, sua grande paixão. Surgem então questões que a colocam em dúvida sobre ser mulher e ser intelectual. Para ter o amor dele, teria que estar sempre a disposição dele? Justamente ela, que sempre manteve distância dos homens com quem se relacionava. E acredita que pode salvá-lo, dar-lhe amor e fazê-lo feliz. Uma cena muito comum, ainda hoje, quando mulheres se apaixonam. Ele a abandona.

E, finalmente, o psiquiatra, que está mais para um psicanalista. Aqui não temos mais a voz masculina; somente ela fala. É quando ela consegue perceber sua busca infrutífera por leis que pudessem ditar seu destino ou dar um sentido para a vida. Também percebe o quanto confundiu o desejado com o desejante, ou seja, o que ela de fato deseja?

Há análises interessantes e um crescimento que acontece aos poucos. Percebemos certa prepotência típica da juventude, mas ao mesmo tempo uma busca por sentido, um desejo por algo cujo objeto ela não consegue identificar. Ela ama desejar. É somente quando ela se perde que poderá encontrar o que chama de sentido da vida. Eu diria, porém, que o sentido é algo que apenas cada um de nós pode construir, porque ele não existe em si mesmo, nem se apresenta como uma lei. 

Connie Palmen nasceu em Sint Odiliënberg, Países Baixos, em 1955. É uma escritora holandesa




terça-feira, 30 de junho de 2026

LIVRO: QUANDO AS MONTANHAS CANTAM

 


QUANDO AS MONTANHAS CANTAM

NGUYEN PHAN QUÉ MAI

ALMA DOS LIVROS – 2024

360 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VIETNÃ


A narrativa inicia-se em Hanoi, em 1972, durante a Guerra do Vietnã. Huong é uma menina que vive com sua avó, pois sua mãe e seu pai estão lutando. As ofensivas estadunidenses aumentam e elas fogem para as montanhas, de onde assistem Hanoi arder em chamas.

Quando finalmente podem retornar à cidade, encontram sua casa totalmente destruída e decidem reerguê-la. É durante essa reconstrução que a avó, Diju Lan, começa a lhe contar sua vida.

Voltamos ao período pós-Primeira Guerra Mundial, quando o Vietnã estava sob domínio francês, em uma área colonizada denominada Indochina. Os bisavós de Huong vivem em uma aldeia e são prósperos e respeitados. Diju Lan é uma criança feliz ao lado de seu irmão. Com a Segunda Guerra Mundial, surgem os japoneses, que invadem o Vietnã, trazendo o horror e a Grande Fome. A avó assiste os pais serem assassinados: o pai, pelos japoneses, e a mãe, por um homem cruel da aldeia durante a grande fome.

Diju Lan decide mudar de trabalho para conseguir reerguer a casa e ter melhores condições de vida. Elas vivem no norte do Vietnã e, portanto, sob um governo comunista. Quando deixa seu emprego de professora, muito mal remunerado, e passa a viver do mercado negro, comercializando produtos, é excluída da comunidade por seus vizinhos que não lhe dirigem mais a palavra e proíbem os filhos de brincar com Huong. Para os comunistas, os comerciantes faziam parte da pequena burguesia e eram indignos.

Diju Lan ignora os vizinhos, reconstrói sua casa e passa a ter uma vida melhor. Uma noite, durante um temporal, alguém bate à porta da casa. É a mãe de Huong que retorna da guerra, que já está em seus momentos finais. Ela está destroçada por tudo o que viu e precisou fazer para sobreviver.

Chamou-me a atenção um antigo costume das mulheres de tingirem os dentes de preto, considerado um símbolo de beleza, elegância e status social. Normalmente, o processo era realizado na puberdade e, segundo Huong, era doloroso devido à mistura utilizada. Ela não passou por isso.

A autora alterna o tempo presente - o fim da guerra com os EUA e a reunificação do Vietnã sob um governo comunista com todas as consequências que isso acarretou - e a história da família contada pela avó, ambientada no período após a invasão japonesa e da Grande Fome, quando os Viet Minh conseguiram libertar as aldeias dos japoneses. Os Viet Minh eram um grupo guerrilheiro comunista e nacionalista que lutou contra os japoneses e franceses que ocupavam seu território.

Vamos, aos poucos, conhecendo a história do Vietnã, marcada por lutas, guerras, sofrimento e fome, mas também somos apresentados à sua cultura, culinária, tradições e religiosidade, especialmente ao culto aos ancestrais. O romance aborda ainda as dissidências internas entre aqueles que defendiam uma democracia e os comunistas, bem como as imposições dos comunistas e a vigilância exercida sobre a população, que impunha um pensamento de inspiração stalinista. Era preciso eliminar a burguesia e tudo que remetesse ao seu modo de vida, inclusive o comércio era condenado, todos deveriam comprar apenas nos armazéns do governo.

Diju Lan conta para sua neta o episódio da Reforma Agrária imposta pelos comunistas e o que sua família sofreu com isso. Sempre foram generosos com todos na aldeia em que viviam, trabalharam muito junto aos empregados e socorreram vários deles durante a Grande Fome. No entanto, instigados pelos Viet Minh, aqueles que não possuíam terras ou trabalho revoltaram-se contra os proprietários, inclusive muitos que haviam sido ajudados pela família. Novamente, Diju Lan perde tudo e precisa fugir com seus filhos, abandonando sua casa e sua história.  

O relato sobre a guerra contra os americanos, feito pelo tio de Huong, é dilacerante. O exército do Norte, para chegar ao Sul, caminhou milhares de quilômetros em meio à selva vietnamita, sofrendo bombardeios e perdendo inúmeras vidas. Ao mesmo tempo, temos a revelação da extraordinária beleza do interior do país, como o complexo de cavernas de Phong Nha-Ke Bang, atualmente um Parque Nacional e sítio de Patrimônio Mundial Natural da Unesco.

Outro tio de Huong que fugiu para não ser morto e se separou da família durante a Reforma Agrária, ao ser finalmente encontrado relata um outro lado da história do Vietnã: o daqueles que que fugiram para o Sul e tiveram que lutar contra seus próprios irmãos do Norte durante a guerra com os EUA.

O livro traz uma história do Vietnã que raramente é contada e pouco documentada, narrada a partir de dentro do país e relatada pelos que viviam no Norte. Dispomos de inúmeros relatos sobre a Guerra do Vietnã sob o ponto de vista estadunidense, mas ler este livro é conhecer o outro lado da história  e ouvir a voz daqueles que habitavam o Vietnã e sofreram desde a colonização francesa, passando pela invasão japonesa,  até a guerra e a reunificação do país, com todas as consequências que isto acarretou para o povo vietnamita.

 Nguyen Phan Qué Mai baseou-se em suas próprias memórias, nas lembranças de sua família e nos relatos de de outros vietnamitas, além das pesquisas que realizou sobre a história de seu país.

Algumas observações:

Um aspecto que também me chamou a atenção foi a descrição da Reforma Agrária. No romance, não são apenas os grandes proprietários que se tornam alvo da violência, mas também aqueles que possuíam pequenas propriedades ou haviam conseguido alguma estabilidade econômica. Os primeiros a aderirem ao processo de perseguição são justamente muitos dos que não possuíam terras ou estavam desempregados, inclusive várias pessoas que sido ajudadas pela família de Diju Lan, e ainda assim, participam ativamente das humilhações, da violência e das execuções públicas.

Essa passagem remete a um fenômeno recorrente da história. Como observou Gustave Le Bon ao analisar o comportamento das multidões, o indivíduo, quando inserido em uma turba, pode agir de forma muito diferente daquela que teria isoladamente. Ao mesmo tempo, o romance sugere algo igualmente humano e infelizmente recorrente: momentos de ruptura política e social frequentemente liberam ressentimentos antigos, invejas, rivalidades e desejos de vingança pessoal que encontram justificativa em uma causa coletiva. Situações semelhantes aparecem em diversos contextos históricos, como nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial, quando antigos vizinhos denunciavam judeus à Gestapo não apenas por convicção ideológica, mas também movidos por interesses pessoais, inveja ou acertos de contas. O romance mostra com sensibilidade como as grandes transformações históricas também revelam as zonas mais sombrias das relações humanas.

O livro aborda diferentes períodos históricos do Vietnã:

- A colonização francesa

- A ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial

- A Grande Fome de 1944 a 1945

- A guerra contra a França

- A Reforma Agrária no Norte, com julgamentos públicos, execuções, confiscos de terras e campanhas de denúncias

- A divisão do país

- A Guerra do Vietnã

- A reunificação em 1975

- Os campos de reeducação, a coletivização da economia, o controle ideológico e a vigilância sobre a população.


Nguyen Phan Qué Mai nasceu no Vietname do Norte em 1973. É uma poetisa e romancista vietnamita. 


 


quarta-feira, 24 de junho de 2026

LIVRO: A INSUBMISSA


 

A INSUBMISSA

CRISTINA PERI ROSSI

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

208 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – URUGUAI


Rossi inicia relatando sua infância, seu amor incondicional pela mãe e o ódio nutrido pelo pai, mais fruto do que dizia sua mãe – “você é igual ao seu pai”, do que pela violência e poder que ele exercia sobre a família. Essa frase dita pela mãe afetava a menininha que queria “se casar com a mãe”, uma vez que conhecia o desprezo da mãe pelo marido.

Ela contraiu tuberculose quando pequena e foi para o campo, para a casa dos tios-avôs. A liberdade, o espaço vasto, os animais e os avós que a protegiam e compreendiam marcaram Rossi. De minha parte, chamou-me a atenção a presença britânica no Uruguai, o que me levou a pesquisar e descobrir que, após a Guerra da Cisplatina, os britânicos transformaram o país em uma espécie de “colônia informal”.

A história familiar é cercada de mistérios e silêncios. Rossi levará anos para saber o que aconteceu com seus bisavôs e avós. A história de sua bisavó, extremamente apaixonada pelo marido a ponto de ignorar completamente o lugar onde vivia, e com isso não se preocupar em aprender o idioma ou fazer amizades. Que diante da inevitável morte do amado ainda jovem, a levou ao suicídio, é a razão do silêncio dos filhos que não a perdoaram pelo abandono deles ainda crianças. Anos depois, Rossi irá se ver em uma situação semelhante em Barcelona, na Espanha, quando estava no exílio, o que a levará a compreender melhor os sentimentos de sua bisavó.

Há um relato sobre um quadro que está na sala de visitas da casa da família que me chamou a atenção. Primeiro, Rossi descreve a cena que está no quadro para, em seguida, refletir sobre ela. São homens elegantemente vestidos em um bosque e, entre eles, sentada de lado no chão, uma mulher completamente nua. Suponho tratar-se do quadro “Le déjeuner sur l’herbe” (Almoço sobre a relva), de Édouard Manet. Rossi percebe que os homens, brancos e ricos, estão vestidos com requinte (de fraque), enquanto a mulher provavelmente pobre, pode ser despida. Ou seja, é uma objetificação da mulher e uma percepção das diferenças sociais e econômicas.

Rossi constrói uma autobiografia de formação, relatando não apenas eventos de sua infância e adolescência, mas também os efeitos que eles terão posteriormente em sua vida adulta. Em outros momentos, revela descobertas feitas muitos anos depois, quando compreendeu a própria ignorância infantil diante de determinados acontecimentos. É explicito sua rebeldia a determinados costumes e tradições, sobretudo aqueles impostos às meninas.  

Fico sempre com uma impressão um tanto ambígua diante de relatos autobiográficos de infância. Senti isso ao ler Simone de Beauvoir em “Memórias de uma Moça Bem Comportada”. Muitas vezes encontramos crianças formulando pensamentos e análises que parecem sofisticados demais para a idade. A sensação que tenho é que é a adulta que está falando pela criança. Que uma criança se revolte contra proibições impostas às meninas, é perfeitamente plausível; o que me parece mais difícil é que ela seja capaz de analisa-las da forma como aparecem no relato. Acredito que, em muitos casos, é a mulher adulta interpretando retrospectivamente a criança que foi. Rossi, porém, evita isso na medida do possível. Frequentemente deixa claro que, à época, não compreendia o que estava acontecendo, preservando as dúvidas e perplexidades próprias da infância diante do comportamento dos adultos.  

Uma das partes do livro, que considerei uma das mais belas é a aquela quando ela descobre a paixão e o amor. Ela não entende o que lhe acontece; apenas sente. Ansiedade, expectativa, medo, necessidade da pessoa amada, ausência, desejo. Tudo surge antes da compreensão.  

O desejo move grande parte da escrita de Rossi. Em outro momento, ela descobre sua sexualidade e também a existência da homossexualidade, que na época, e ainda hoje, para muitas pessoas, era condenado, considerado algo “anormal”. “Somos monstros”, lhe diz uma amiga que compartilha da mesma orientação sexual.  É um pecado e mortal, e precisam mudar, se corrigir. Rossi, porém, recusará essa lógica.  

Ela tentou ler Freud na coleção de obras completas que seu tio possuía e confessa não ter entendido nada. Ainda assim, a presença da psicanálise é perceptível em seu relato.  Logo no início do livro, Rossi descreve seu amor pela mãe, seu objeto de desejo infantil, e a hostilidade dirigida ao pai. Uma leitura freudiana poderia identificar aí elementos do complexo de Édipo. Ela mudará de objeto, mas não redirecionará seu desejo ao outro sexo.

Seus relatos deixam claro que Rossi foi, desde pequena, um espírito livre, insubordinado às regras sociais e aos costumes que, segundo ela, funcionavam como mecanismos de coerção, restringindo a liberdade de escolha, de amar, de experimentar e de viver de acordo com os próprios desejos.  

O que admirei em Rossi é sua capacidade de preservar na escrita o universo infantil, sem permitir que sua consciência adulta dominasse a narrativa. É uma criança e não um “adulto em miniatura” que vemos vivenciar suas experiências dentro de sua perspectiva infantil.

Um bom exemplo é quando na festa de casamento de sua amiga Mabel ela dá uma rasteira no noivo. Ela sentiu ciúme e medo de perder alguém amado e agiu impulsivamente e até com crueldade, o que é típico na infância. Mas ela não analisa a situação, ela não possui ainda um vocabulário psicológico para explicar o que sentiu. Ela simplesmente estica a perna e derruba o homem. Rossi preserva isso, e somente depois, já adulta pode refletir sobre isso.

Percebemos o patriarcado e a situação das mulheres em toda a narrativa, inclusive de um episódio de abuso sexual que Rossi sofreu e que ao relatar à sua mãe recebe como resposta – “Esquece isso e nunca comente com ninguém!”, no entanto, a questão da menina não é essa, ela não elabora uma crítica do patriarcado, ela contesta as regras por lhe parecerem absurdas e injustas.

Ela é insubmissa desde a infância, resiste, luta pelo que deseja, mas dentro do universo infantil. Somente anos depois, já adulta, ela pode fazer a crítica ao patriarcado e analisar suas consequências. Mais do que uma simples autobiografia, A Insubmissa mostra como essa recusa em aceitar os papéis impostos às mulheres não foi uma conquista tardia, mas uma disposição que atravessa toda a vida de Cristina Peri Rossi.


Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1941. É uma romancista, poetisa, tradutora e autora uruguaia. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar seu país por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, Espanha, onde vive até hoje.  


quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: AQUELA QUE RESTOU

 

AQUELA QUE RESTOU

RENE KARABASH

EDITORA ERCOLANO – 1ª ED. – 2026

128 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – BULGÁRIA


A história se passa no norte da Albânia, em uma pequena aldeia que ainda mantém a tradição de seguir o Kanun (Kanun de Leka Dukaguini – leis antigas da Albânia). Essas leis incluíam a morte por vingança, e é interessante pensar que, no Nordeste brasileiro, isso também existe. Ismail Kadaré escreveu “Abril despedaçado”, e nós temos o filme homônimo, que se passa no Nordeste.

Eu, pessoalmente, vivi uma situação que me fez lembrar uma frase presente no livro.  Estando no Nordeste com um grupo, ocorreu um assassinato motivado por vingança entre famílias, e uma das pessoas ficou apavorada. Eu lhe disse que não precisava se preocupar, pois não seria um alvo, já que não pertencia à família envolvida.  

Karabash nos relata a história de Bekia, uma jovem que nasceu contrariando o desejo de seu pai de ter um filho homem. Mas não fosse apenas isso: sua mãe estava grávida de gêmeos e, durante a gestação, ocorreu um problema, levando à perda de um dos fetos, o menino. Portanto, aquela que restou foi Bekia, o “filhinho de papai”, como ela mesma se denominava.

Seguindo o Kanun, chega o dia em que Bekia será casada com um noivo que não conhece, mas de quem dizem ser feio. Ela não deseja esse destino e faz uma escolha: a única que lhe permite escapar da condição reservada às mulheres em um sistema extremamente patriarcal.

Bekia recusa o casamento e se torna uma virgem jurada, ou ostáinitsa, fazendo um juramento de castidade e passando a viver como um homem e mudando o nome para Matia, adquirindo os mesmos direitos. Trata-se de uma transição de gênero aceita que vigora em algumas regiões do norte da Albânia, do Kosovo, da Macedônia do Norte, da Sérvia, de Montenegro, da Croácia e da Bósnia.

É preciso fazer uma ressalva para que não haja confusões: isso não é a mesma coisa que ser um homem trans. Não se trata de uma decisão baseada na sexualidade nem na identidade de gênero, mas de uma mudança de status social, de papel e de posição dentro da família.

Bekia relata sua história a uma repórter que a entrevista por ser uma das poucas virgens juradas que ainda existem.

Ao recusar o casamento, ela também desencadeia a possibilidade de uma morte por vingança, pois a honra do noivo rejeitado deveria ser restaurada. Para isso, alguém de sua família precisaria ser assassinado. Cabia a ela escolher quem carregaria esse destino, e Bekia coloca a fita preta no braço do irmão mais moço, considerado frouxo como homem naquela sociedade. Ele foge para não morrer e, então, a honra de morrer segundo o Kanun recai sobre o pai de Bekia, o que ele aceita com muito orgulho. Morrer de velhice ou de doença é considerado vergonhoso para um homem.

Mas o livro reserva uma surpresa ao leitor quando descobrimos que o que levou BeKia a fazer o juramento foi muito mais do que o casamento forçado e a suposta perda da virgindade na noite anterior, e o quanto essa decisão trouxe consequências para todos os membros de sua família e também para outra jovem: Dana.

Preciso acrescentar um comentário. Tenho visto sinopses do livro que se referem à instituição da virgem jurada como sendo uma estratégia de sobrevivência dentro de sistemas que as oprimem. Nesse sentido, falar em “estratégia de sobrevivência” pode ser uma formulação enganosa se não for tensionada. O Kanun não abre uma fissura ao patriarcado; ele administra suas exceções sem nunca romper seu princípio estruturante. A virgem jurada não representa uma conquista de igualdade, mas uma reorganização excepcional da hierarquia sexual: ela só é reconhecida enquanto suspende sua condição feminina. O acesso aos direitos não decorre de uma transformação do estatuto da mulher, mas de sua reinscrição simbólica fora dele.

Bekia diz: “Uma mulher na Albânia vale vinte bois, não olhe os homens nos olhos, não vá ao bar, cuide das crianças, lave, cozinhe, no máximo leve o leite à leiteria, matar Bekia foi a coisa mais sensata que eu podia fazer.”.

Sua liberdade não emerge como afirmação de um sujeito feminino, mas como apagamento dessa própria categoria. 

Rene Karabash nasceu em Lovech, Bulgária, em 1989. É uma escritora búlgara. 



terça-feira, 16 de junho de 2026

LIVRO: DETALHE MENOR


 

DETALHE MENOR

ADANIA SHIBLI

TODAVIA – 1ª ED. – 2021

112 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PALESTINA 


1949, um ano após a Nakba, um batalhão do exército de Israel monta acampamento no deserto de Neguev, próximo à fronteira com o Egito. Sua missão: encontrar árabes que ainda permaneciam na região.

Logo na primeira noite, o comandante é mordido por uma aranha, mas ele apenas trata a picada e continua suas rondas em busca dos árabes até que encontra um acampamento de beduínos. Os soldados matam todos, inclusive os camelos, mas uma menina e um cachorro sobrevivem e são levados para o acampamento, onde a menina é trancafiada em uma cabana. O comandante ordena que ninguém toque nela.

No entanto, o que se sucede é o contrário. A menina é estuprada e depois morta com sete tiros, sendo enterrada no deserto. O cachorro sobrevive e, depois de quase ser morto pelo comandante, foge uivando.

Esta é a primeira parte do livro, que é curto, mas extremamente impactante, doloroso e dilacerante. A escrita da autora é seca e repetitiva. Um bando de homens, soldados de Israel, que agem de modo automático. O comandante é retratado repetindo os mesmos movimentos dia após dia.

Fico com uma impressão de que o cachorro tem um papel fundamental na escrita da autora. O cão é simbólico; ele demonstra mais “humanidade” do que os soldados na narrativa. Além disso, por não ter sido morto, parece possuir um valor maior que a menina, uma vez que nenhum dos dois representava perigo imediato aos soldados ou ao comandante.

 O cachorro é um detalhe nesta parte da história, mas que a meu ver, representa muito mais do que o restante. Tanto é que a segunda parte, que se passa 25 anos depois, inicia com um cachorro uivando ao longe.

Uma palestina que vive na Palestina Ocupada, em Ramallah, lê um artigo em um jornal sobre o que aconteceu, e um “detalhe menor” chama sua atenção: a menina foi morta no dia de seu nascimento, 13 de agosto.

A notícia tece em volta dela, como uma aranha, uma teia que a prende e a faz desejar saber mais sobre o que aconteceu. Essa jovem traz em si mesma os efeitos traumáticos da ocupação: o medo, o estresse e a desorientação. Ao  mesmo tempo, porém, ela procura não se entregar e enfrentar todas as barreiras, sejam as psicológicas, sejam as reais, que precisa atravessar para passar de uma zona a outra controlada pelos israelenses e chegar ao local onde ocorreu o assassinato da menina beduína.

Ela persiste em sua busca. Deseja descobrir o outro lado da história, não apenas a narrada pelos soldados. No caminho, enquanto aguardava na fila para passar pela primeira barreira, uma menina que vende chicletes insiste muito para que ela compre. Ela não quer, mas acaba lhe dando dinheiro. A menina então joga duas caixas de chiclete no banco do carro e vai embora. Um pequeno detalhe. Um detalhe menor que irá definir o destino da jovem palestina em sua busca.

Adania Shibli constrói a narrativa de Detalhe Menor com uma escrita econômica, quase austera, mas de uma potência impressionante. Não há excesso, não há sentimentalismo, mas há uma violência que atravessa todas as páginas. Ao final, nos perguntamos quem tem o direito de ser lembrado e quem pode ser transformado em um simples detalhe menor.

O que me impressionou no romance não é apenas o que ele conta, mas como ele conta. A repetição obsessiva dos gestos do comandante, a ausência quase total de psicologização das personagens na primeira parte, a maneira como o espaço do deserto parece absorver tudo: a água, o sangue. A estrutura em espelho das duas partes, a recorrência da aranha, do cachorro, dos sons.

A autora não explica o horror; ela o faz operar na própria forma do texto. Quanto menos ela comenta, mais sentimos. O horror está na normalidade dos procedimentos. São os detalhes, elementos aparentemente insignificantes que estruturam toda a narrativa.

Um exemplo é o camelo morto com capim na boca. O animal estava simplesmente comendo. A vida cotidiana é interrompida de forma abrupta e absurda. Através dessa imagem a autora comunica mais do que muitas páginas de descrição sangrenta.

O mesmo ocorre com o estupro da menina. Sabemos o que aconteceu, mas Shibli não transforma a menina em espetáculo, não vamos consumir a cena. Isso é muito diferente de outras literaturas sobre violência, onde se transforma o sofrimento em objeto de observação.

Da mesma forma a reação automática dos soldados. O comandante que vivia repetindo gestos mecânicos, os soldados que obedeciam mecanicamente, a violência incorporada na rotina. No final, décadas depois, a resposta continua automática. Não há reflexão, não há reconhecimento da pessoa diante deles. Há apenas o reflexo condicionado de uma máquina que continua funcionando.


Adania Shibli nasceu na Palestina em 1974. É uma escritora palestina que deveria ter recebido o prêmio alemão Litprom na feira de Frankfurt, no entanto a premiação foi cancelada quando o diretor da premiação associou o evento ao “terror bárbaro do Hamas contra Israel”, conforme reportagem que consta no Le Diplomatique, o que gerou forte reação de escritores, editoras e organizações literárias que viram na decisão uma forma de silenciamento de uma voz palestina.

O livro Detalhe Menor, escrito originalmente em árabe, foi traduzido para mais de onze idiomas. Shibli domina vários idiomas, mas escrever em árabe, sua língua materna, também é uma forma de resistência. 




domingo, 14 de junho de 2026

LIVRO: SOB CUSTÓDIA

 


SOB CUSTÓDIA 

ANITA DESAI

ROCCO – 1ª ED. - 1984

212 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÍNDIA

Deven é um professor universitário que dá aulas em uma universidade particular, onde ensina literatura hindi. Certo dia, Murad, um velho amigo, aparece inesperadamente com uma proposta para entrevistar o grande poeta urdu Nur, que mora em Nova Delhi, para sua revista.

Deven é apaixonado pela poesia urdu e, mesmo alegando mil desculpas, como seu trabalho, sua família e seu filho, acaba aceitando a proposta e vai até a casa do poeta para solicitar a entrevista.

Sua expectativa é imensa; mal pode esperar a hora de poder conhecer e conversar com o velho poeta. Porém, ao chegar à casa deste, sofre uma grande decepção. O lugar é precário, e o poeta é um bêbado que todas as noites reúne à sua volta bajuladores que, aos olhos de Deven, são desprezíveis. É impossível falar com Nur, que está sempre rodeado dessas pessoas. Deven retorna para sua cidade e desiste da entrevista.

No entanto, Murad acaba por convencê-lo a tentar novamente e sugere que utilize um gravador para registrar as conversas; depois, poderia escrever com calma em sua casa. O problema é onde conseguir um gravador. Deven então conversa com o professor do departamento de urdu de sua universidade, que fica encantado com a possibilidade de ter a voz do poeta gravada e consegue que a instituição  libere  verba para a compra do gravador e das fitas.

É impactante perceber como Deven se deixa manipular e não consegue reagir. Sua admiração pela poesia urdu e pelo poeta é maior do que sua capacidade de confrontar a realidade e perceber o quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e de seu desejo de salvar a poesia urdu. Ele quer colocar o poeta e sua obra sob custódia; quer ser o guardião dessa língua que está morrendo em uma Índia que se moderniza. O urdu era a língua culta dos muçulmanos que habitavam grande parte do território indiano. Com a independência da Índia do Império Britânico, também ocorreu a partilha do território e a criação do Estado do Paquistão, para onde se mudaram a maioria dos muçulmanos.

Deven apesar de ensinar hindi na universidade, ainda escreve em urdu. Sua vida medíocre e seu casamento com uma mulher que também alimentava ilusões, lembraram-me Madame Bovary; a diferença é que ela se nutriu de filmes, e não de romances. As brigas do casal são constantes. O contraste entre o Deven que é continuamente explorado pelos outros e o Deven que encontramos em sua casa com a esposa, é grande. É nesse espaço que ele se torna mesquinho, fala alto e chega até mesmo a agredi-la.  Ela é seu espelho e confirma a ideia de que “uma vítima não procura ajuda em outra vítima, procura alguém que a liberte”.

Ao confrontar a realidade da vida do poeta, seu declínio e suas mazelas, Deven não consegue abandonar o sonho nem a idealização que construiu, mesmo que isso o conduza à ruína. O urdu e sua poesia funcionavam como uma tábua de salvação diante da vida ordinária que levava; perceber que até isso se perdeu, é algo que ele não consegue enfrentar.

Deven é um personagem difícil de aceitar, até porque sabemos que existem muitas pessoas assim. Em vários momentos sentimos vontade de sacudi-lo para que reaja, para que não se deixe manipular e explorar. Mesmo quando a sorte parece favorece-lo e sempre surge alguém para ajuda-lo, ele encontra alguma maneira de estragar tudo logo em seguida.

Nas últimas páginas do livro, a autora, através de uma carta que é enviada a Deven, deixa evidente a sociedade machista e patriarcal em que os personagens vivem e, principalmente, o quanto o próprio Deven despreza intelectualmente as mulheres. E se ele nos passa a impressão de ser medíocre e facilmente manipulável, também revela certa prepotência ao acreditar que é ele quem tem sob custódia a poesia urdu, sem perceber que essa mesma custódia também o mantém prisioneiro.  

Anita Desai nasceu em Mussoori, Índia, em 1937. É uma romancista indiana e professora emérita de Humanidades John E. Burchard.