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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

LIVRO: A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS

 


A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS

BOTHAYNA EL-ESSA

INSTANTE – 1ª ED. – 2025

224 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – KUWAIT


Este é um livro que trata da censura de livros. O ponto que mais chama a atenção é que censurar livros não significa apenas uma censura política ou ideológica, como ocorreu com livros marxistas ou considerados comunistas no Ocidente, nem somente por uma questão moralista ou sexual.

Bothayana El-Essa nos mostra uma censura que inclui esses aspectos, mas vai além, inclui livros que possam levar pessoas a imaginar ou interpretar. A linguagem tem que ser superficial. E aí entramos em outro campo que vem me preocupando atualmente: uma certa “censura” que opera de uma forma totalmente imperceptível para a grande maioria das pessoas: o mercado.

É interessante ver que a autora lista uma série de livros que são os autorizados: autoajuda, religiosos aprovados pelo conselho religioso, romances simples, os de pensamento positivo, os que promovem a meritocracia, os que focam em uma literatura do eu, incluindo aí o individualismo e a vitimização, e os de superação individual. Então é só pensar nas vitrines ou sites de livrarias atuais.

O mercado controla o que vai ser traduzido e divulgado. O algoritmo controla o que aparece nas pesquisas do Google ou da IA, e então temos os youtubers e influencers divulgadores de livros, que se atém justamente a esses livros. Isso reduz enormemente o leque de livros ou autores aos quais chegamos para ler.

Sim, há muitas editoras menores fazendo um trabalho sensacional e trazendo outros autores de lugares diferentes, fora do eixo eurocêntrico ou estadunidense, mas que não possuem a mesma abrangência de divulgação e, o pior, não despertam o interesse da grande maioria.

Atualmente, os leitores são conduzidos por rankings - os mais vendidos, a lista dos melhores, os que você tem que ler antes de morrer etc.-, algoritmos e influenciadores. Não é uma censura explicita, mas não deixa de ser um cerceamento. Também estamos vendo algo que não é novo em absoluto, mas muito pelo contrário, que é a retirada e censura de livros em escolas e bibliotecas públicas. E a questão atual não é mais apenas o que um governo determina, mas algo aleatório: um prefeito de uma cidade decide censurar, um vereador ou um deputado, e em função de sua própria ideologia religião. Ou seja, em cidades vizinhas há livros que foram proibidos em uma delas e, na outra, não.

 “A biblioteca do censor de Livros” traz tabelas das normas de censura e o manual da leitura correta para o censor de livros, que são extremamente interessantes, além dos motivos da censura e várias ilustrações no decorrer do livro.

Há um momento em que o Novo Censor vai ao escritório do chefe do departamento e se depara com uma biblioteca imensa, repleta dos livros proibidos. Isso não é nada que impacte, em todos os governos que censuravam livros, os que estavam no alto escalão possuíam os livros e os liam. Mas aqui o que chama a atenção é que o chefe chama esta biblioteca de cemitério de livros. E o que isso significa? Que são livros mortos, não é uma biblioteca viva que circula, de livros que são lidos.

O primeiro livro que o Novo Censor lê e que mexe com ele é “Zorba, o Grego”. A partir da leitura desse livro, tudo muda para o censor, que começa a interpretar e imaginar, o que é totalmente proibido na Nova República que se instaurou com a vitória do Movimento Popular do Realismo Positivista e a queda da democracia. 

O sistema se preocupava principalmente com a imaginação das crianças. Havia cartazes espalhados por todos os locais e uma campanha para conscientizar: “Seu filho sofre de imaginação? Não hesite em pedir ajuda. Não permita que sofra. Você não está sozinho. Conte Conosco.” O Censor tinha uma filha com os sintomas da imaginação, e seu maior medo era que ela fosse enviada para um centro de reabilitação, de onde raramente uma criança retornava para sua família.

Havia um núcleo de resistência que tentava salvar os livros da fogueira, que ocorria uma vez por ano, no dia do Eid da Purificação, uma data em que se permitia lembrar o Velho Mundo com festas, danças, fantasias, o que nos lembra muito nosso Carnaval, mas em que também se queimavam os livros que foram proibidos. Os membros da resistência eram chamados de “câncer” porque corroíam o sistema por dentro.

E havia milhares de coelhos em todos os lugares. É interessante pensar nos coelhos. O primeiro pensamento nos leva para o coelho de “Alice no país das maravilhas”, mas aqui são milhares. Coelhos se reproduzem sem parar, e isso revela que aquilo que o sistema tenta eliminar volta incessantemente.

O final do livro surpreende: “a imaginação é real, a realidade é imaginária” é a conclusão do Censor. E é então que ele percebe algo, e que não vou revelar aqui, para deixar o prazer da descoberta a quem ler o livro.


                         Bothayna El-Essa nasceu no Kuwait em 1982. É uma romancista.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Amizade, finitude e o que resta viver

 


O QUE VOCÊ ESTÁ ENFRENTANDO

SIGRID NUNEZ 

Editora Instante - 1ªed. 2021

176 páginas 

Que boa surpresa este livro! Comprei porque ele foi adaptado por Pedro Almodóvar no filme Um Quarto ao Lado. Não conhecia a autora e agora já estou com mais dois livros dela na fila.

A escrita é muito gostosa. Sigrid vai relatando suas escutas, as histórias de outras pessoas, mescladas com a sua própria história. Um dos relatos de que mais gostei foi o do gato do abrigo — há algo de realismo mágico nessa parte.

Mas o eixo central do livro é a amiga da narradora, que tem um câncer terminal, e, a partir disso, o tema é a morte. Só que aqui não há chororô, nem discursos de autoajuda, nada de superação, salvação ou listas de últimos desejos. O que encontramos é a realidade de uma morte que se aproxima. Aliás, como o próprio livro lembra: o sentido da vida é a morte. Nascemos para morrer; o que nos resta é viver da melhor forma possível, colorir a vida dentro do que é possível.

E é exatamente isso que as duas personagens fazem. Elas riem muito, veem filmes, recordam muitas coisas e falam da morte. Sim, porque o comum é a negação — mas elas não negam, mesmo com o incômodo que isso causa na amiga doente. A vida não é fácil nem justa, mas é preciso viver. Por isso, mesmo falando da morte, o relato é profundamente sobre a vida.

Em determinado momento, a personagem com câncer reconhece que sempre odiou gente burra. Em uma entrevista feita com pessoas terminais, perguntam do que ela mais sentirá falta quando morrer. A resposta é direta: de nada, estarei morta. Sim, há pessoas que fazem esse tipo de pergunta.

Outra questão que permeia o livro é a do suicídio assistido. Diante de uma situação terminal, que tende a provocar cada vez mais dor, degradação física e até mental, não teríamos o direito de interromper isso antes? De poder morrer com dignidade? Por que essas pessoas precisam agir quase como criminosas?

Alguns dirão que só Deus tem esse poder. Mas então eu pergunto: qual é o direito da medicina de manter uma vida por meio de aparelhos que, ao serem desligados, levarão à morte — muitas vezes porque a família assim deseja, ao não aceitar a decisão divina? Isso também não seria interferir na decisão de Deus?

Esse questionamento atravessa o livro o tempo todo — sem religiosidade, mas a partir de um ponto de vista profundamente humano.

 



Sigrid Nunez nasceu em Nova Iorque em 1951. É escritora.