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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

JUSTIÇA CLIMÁTICA COMO QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS

 

JUSTIÇA CLIMÁTICA

MARY ROBINSON

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2021

192 páginas

Este é um livro que todos deveriam ler. Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex–alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, dirige atualmente a Mary Robinson Foundation – Climate Justice, dedicada à defesa de pessoas em situação de risco e diretamente prejudicadas pelas mudanças climáticas, além de atuar junto à ONU nesse campo. Sua trajetória política e humanitária confere ao livro não apenas autoridade, mas um compromisso ético claro com aqueles que menos contribuíram para a crise climática e mais sofrem suas consequências.

A obra reúne diversos relatos, sobretudo de mulheres, que evidenciam como a crise climática atinge de forma desproporcional povos e comunidades que não são responsáveis por sua origem. São populações que pagam o preço do desenvolvimento capitalista dos países ricos e industrializados, enfrentando perdas materiais, culturais e territoriais em nome de um progresso do qual nunca participaram plenamente.

É ao mesmo tempo interessante e profundamente lamentável conhecer as situações vividas no Alasca, na Lapônia, em diferentes regiões da África, em Kiribati — uma nação ameaçada de desaparecer, cujo presidente chegou a comprar terras em outro país para realocar sua população — e em tantos outros lugares. O livro dá voz à luta dessas pessoas para preservar seus modos de vida diante de transformações climáticas abruptas e irreversíveis.

Antes, o clima era conhecido: sabia-se o tempo das chuvas e das secas, quando semear, quando colher; as estações do ano eram estáveis. Hoje, essa previsibilidade desapareceu. O derretimento das geleiras no Alasca e no Ártico, as enchentes recorrentes, as secas prolongadas, tudo aquilo que se costuma chamar de “desastre natural”, revela-se, na verdade, consequência direta de ações humanas. A natureza responde, mas não é a causa.

Mary Robinson também introduz de forma clara o conceito de transição justa, lembrando que a mudança para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis precisa considerar as comunidades e os trabalhadores que dependem dessas atividades. O fechamento de minas de carvão, por exemplo, exige políticas que garantam alternativas reais de trabalho e subsistência, evitando que a solução de um problema produza novas injustiças sociais.

Apesar de relativamente curto e de focar em alguns exemplos específicos, quando sabemos que há muitos outros, o livro cumpre plenamente seu propósito. Justiça Climática é um alerta contundente e, ao mesmo tempo, um chamado à ação. As questões que ele apresenta não pertencem ao futuro: são urgentes, presentes e exigem respostas imediatas.


Mary Robinson nasceu em Ballina, Irlanda, em 1944. Foi a primeira mulher presidente da Irlanda e Alta Comissária das Nações Unidas para os direitos humanos. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

AUTISMO, CLIMA E A RECUSA DO SILÊNCIO

 

NOSSA CASA ESTÁ EM CHAMAS: Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença

MALENA ERNMANSVANTE THUNBERGGRETA THUNBERGBEATA ERNMAN

BESTSELLER – 1ª ED. - 2019

336 páginas 


O livro é escrito por Malena Ernman, mãe de Greta Thunberg, com a colaboração de toda a família. Nele, acompanhamos não apenas o surgimento de Greta como ativista climática, mas também aspectos íntimos de sua vida: as dificuldades na escola, o sofrimento silencioso e o processo até o diagnóstico de “síndrome de Asperger”.

A narrativa se amplia quando descobrimos que a irmã de Greta também enfrenta desafios semelhantes. E aqui surge um ponto fundamental do livro: embora eu mesma utilize o termo “problemas”, Malena questiona frontalmente essa noção ao afirmar que “isso não exclui a possibilidade de ela estar certa, e todos nós, os outros, estarmos simplesmente errados”. Para ela, o autismo não é uma deficiência, mas uma forma de existir que não corresponde ao comportamento considerado “normal” pela sociedade.

Um aspecto extremamente relevante levantado por Malena é o fato de que, durante décadas, os estudos sobre o autismo foram realizados quase exclusivamente com meninos. Ela se pergunta como suas filhas poderiam se encaixar em diagnósticos construídos a partir de parâmetros masculinos. Segundo relata, quando meninas passaram a ser diagnosticadas com mais frequência, a reação social foi afirmar que havia um “excesso” de diagnósticos — revelando, mais uma vez, como a norma masculina estrutura até mesmo o campo médico.

O livro não suaviza as dificuldades vividas pela família. Greta deixou de se alimentar, e foi uma luta diária para que ela conseguisse comer. Sua irmã, por sua vez, não suportava diversos tipos de sons. Quando Greta começou a se interessar pela crise climática, seus pais viram nisso não apenas uma preocupação legítima, mas também uma possibilidade de ela encontrar sentido, foco e força.

A partir daí, inicia-se um percurso que hoje é amplamente conhecido: a greve escolar às sextas-feiras em defesa do meio ambiente e contra tudo aquilo que alimenta a crise climática. No entanto, Nossa casa está em chamas vai muito além do relato desse ativismo. O livro é também uma crítica contundente ao sistema econômico em que vivemos e ao sistema patriarcal que sustenta tanto a exploração da natureza quanto a negação da diferença.

Trata-se de um livro que articula cuidado, política, crítica social e urgência — e que nos obriga a escutar vozes que o mundo insiste em silenciar.


Greta Thunberg nasceu em Estocolmo, Suécia, em 2003. É uma ativista ambiental. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

QUANDO A ESCOLHA CORRETA DESAFIA A LEI INJUSTA


 

É HORA DE AGIR: um apelo à última geração

CAROLA RACKETE

ARQUIPÉLAGO EDITORIAL – 1ª ED. 2020

192 páginas 


Li este livro em uma tarde — e que tarde bem aproveitada. Carola Rackete é a capitã que comandava o navio que aportou, sem autorização, em Lampedusa, com refugiados resgatados no mar. Um gesto de coragem, determinação e escolha ética: fazer o que era correto, mesmo quando tudo e todos pareciam estar contra ela — políticos, autoridades e parte da população local.

Carola foi presa e posteriormente solta após a decisão de uma juíza, que reconheceu o óbvio e o essencial: ela salvou vidas em perigo. As leis náuticas são claras — quem está em risco no mar deve ser resgatado, independentemente de nacionalidade, status ou origem. Carola apenas cumpriu um dever humano e legal, ainda que isso lhe custasse a liberdade por um período.

Mas o livro vai muito além desse episódio. Em É hora de agir, Carola articula sua experiência concreta com uma reflexão mais ampla sobre a crise climática. Ela demonstra como as catástrofes ambientais tendem a aumentar exponencialmente o número de refugiados no mundo, trazendo exemplos de diferentes regiões do planeta. O colapso climático não é uma abstração futura: ele já está em curso e atinge, antes de tudo, os mais vulneráveis.

A autora apresenta um panorama claro da situação atual do clima no planeta e das causas que nos conduziram até aqui. E, sobretudo, não se limita ao diagnóstico. O livro é também um chamado à ação. Carola propõe caminhos possíveis — individuais e coletivos — para impedir a destruição daquilo que ela chama, com razão, de nossa casa comum.

Uma casa que não depende de dinheiro, posição social ou poder. Todos nós moramos nela. Não há para onde fugir.

É hora de agir é um livro breve, acessível e urgente. Uma leitura que convoca à responsabilidade e nos lembra que salvar vidas — humanas e não humanas — nunca deveria ser crime.



                             Carola Rackete nasceu em Preetz, Alemanha. É uma capitã alemã.