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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A REPRESSÃO DA IGREJA E A EMERGÊNCIA DO PATRIARCADO

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos.