UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO
GISÈLE PELICOT
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026
208 páginas
A primeira coisa a dizer sobre
esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot
sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava
totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique
Pelicot, o pai de seus três filhos.
O choque da descoberta e a
tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto
devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação
– um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de
enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que
viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as
de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária
francesa, vindos do meio rural.
Ela conta como a família Pelicot era
desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o
filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente
com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o
típico papel de madrasta dos contos de fada: protegia a própria filha e tratava mal a
enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca
esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.
A reação da filha, Caroline,
chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva,
se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que
se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas
conseguem oferecer mais apoio à mãe.
No primeiro momento, os filhos assumem
o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si
mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a
própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e
objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a
filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se
desfaça de seu cachorro, que não suporta. Gisèle acaba se mudando para a casa do filho
caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.
Percebemos então o peso imenso
que Gisèle precisa enfrentar. Ela é a
vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e
ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um
câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o
marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe
de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.
Sua força vem das lembranças
felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao
contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na
vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é
uma maneira de lidar com o trauma.
Isso não significa negação. Ela o
denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que
é necessário para o processo contra ele.
O que mais impressiona é a
tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava
conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade
de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos
de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a
justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.
O livro também mostra que uma
violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha
como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que
jamais voltarão a ser as mesmas.
Gisèle Pelicot
nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do
caso de estupro coletivo de Mazan.


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