sexta-feira, 17 de abril de 2026

TEXACO COMO TERRITÓRIO INSURGENTE: A INVERSÃO DO “NÃO-LUGAR”

 


TEXACO

PATRICK CHAMOISEAU

PINARD – 1ª ED. – 2026

504 páginas

O romance “Texaco” constrói um retrato da Martinica a partir da voz de Marie-Sophie Laborieux, que narra sua história e a de sua família a um urbanista, oferecendo, por meio dessa interlocução, uma outra versão da história da ilha – não a oficial, mas aquela vivida pelos pobres, pelos colonizados e pelos descendentes de escravizados.

 A narrativa se inscreve, portanto, em uma perspectiva contra-hegemônica; é pelo olhar dos marginalizados que se reconstitui cerca de um século e meio de história. A escrita de Patrick Chamoiseau é ao mesmo tempo poética e visceral, recusando qualquer idealização. A miséria aparece em sua materialidade: a sujeira, a fome, as doenças, a violência; mas também em sua dimensão relacional, marcada por formas de solidariedade, especialmente entre as mulheres, que sustentam a vida cotidiana.

A história se desenvolve na contramão da narrativa colonial, evidenciando as dores, as estratégias de sobrevivência e as resistências daqueles que foram historicamente silenciados. Marie-Sophie emerge como uma figura central dessa resistência: uma mulher cuja força reside na palavra – na capacidade de narrar, de nomear e, assim, de existir. Seu “nome secreto”, que antecede a fundação de Texaco, aponta para essa dimensão simbólica da linguagem como constitutiva da identidade.

A obra também dialoga com o pensamento anticolonial. Diferentemente do que ocorre em “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, onde se evidencia o desejo de assimilação e os efeitos psíquicos da colonização (o negro que deseja tornar-se branco e francês), Texaco enfatiza a persistência de uma identidade crioula. Marie-Sophie, ainda que em certos momentos se deixe seduzir pelo imaginário francês, não se deixa capturar por ele: não há, nela, vergonha de ser negra, mas afirmação.

Nesse ponto, é importante precisar que Aimé Césaire teve um papel ambíguo e decisivo: foi um dos responsáveis pela departamentalização da Martinica, integrando-a à França, mas também o principal formulador da negritude, movimento que reivindica o valor das culturas negras frente à lógica colonial. A tensão entre assimilação e afirmação identitária atravessa o romance.

A memória, em “Texaco”, constrói-se sobretudo pela tradição oral. Lendas, mitos, cantos e ditados compõem um universo simbólico que não deriva da cultura do colonizador, mas emerge como expressão própria do povo. O uso do crioulo, em coexistência com o francês, não é apenas um recurso estilístico, mas um gesto político: a língua torna-se campo de disputa entre duas visões de mundo.

Nesse sentido, o romance afirma o sujeito negro como autor de sua própria cultura, recusando a centralidade da língua e da tradição francesa. Se, em “Pele negra, máscaras brancas”, a colonização aparece como força de apagamento, capaz de produzir sujeitos desenraizados, aqui se evidencia a resistência: a identidade crioula se reinscreve pela memória, pela oralidade e pela ocupação do espaço.

Texaco, a comunidade que dá nome ao livro, não é apenas um lugar. É um território insurgente. Aquilo que poderia ser visto como um “não-lugar”, na chave de Marc Augé, revela-se o oposto: um espaço saturado de memória, vínculos e história, constantemente destruído e reconstruído por aqueles que se recusam a desaparecer.

Marie-Sophie, por fim, encarna a possibilidade de imaginar outro mundo. Sua trajetória aponta para a construção de um espaço que escapa, ainda que precariamente- à lógica colonial, racista e patriarcal: Texaco, enquanto comunidade, não é apenas um lugar físico, mas a materialização de um projeto de existência crioula.  

A Martinica permanece, até hoje, como departamento ultramarino francês – dado que reforça a atualidade das tensões apresentadas no romance.  


Patrick Chamoiseau nasceu em Fort-de-France, Martinica, em 1953. É um escritor martiniquês-francês. 


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