PINARD – 1ª ED. – 2026
504 páginas
O romance “Texaco” constrói um
retrato da Martinica a partir da voz de Marie-Sophie Laborieux, que narra sua
história e a de sua família a um urbanista, oferecendo, por meio dessa interlocução,
uma outra versão da história da ilha – não a oficial, mas aquela vivida pelos
pobres, pelos colonizados e pelos descendentes de escravizados.
A narrativa se inscreve, portanto, em uma
perspectiva contra-hegemônica; é pelo olhar dos marginalizados que se
reconstitui cerca de um século e meio de história. A escrita de Patrick
Chamoiseau é ao mesmo tempo poética e visceral, recusando qualquer idealização.
A miséria aparece em sua materialidade: a sujeira, a fome, as doenças, a
violência; mas também em sua dimensão relacional, marcada por formas de
solidariedade, especialmente entre as mulheres, que sustentam a vida cotidiana.
A história se desenvolve na
contramão da narrativa colonial, evidenciando as dores, as estratégias de
sobrevivência e as resistências daqueles que foram historicamente silenciados.
Marie-Sophie emerge como uma figura central dessa resistência: uma mulher cuja
força reside na palavra – na capacidade de narrar, de nomear e, assim, de
existir. Seu “nome secreto”, que antecede a fundação de Texaco, aponta para
essa dimensão simbólica da linguagem como constitutiva da identidade.
A obra também dialoga com o
pensamento anticolonial. Diferentemente do que ocorre em “Pele negra, máscaras
brancas”, de Frantz Fanon, onde se evidencia o desejo de assimilação e os
efeitos psíquicos da colonização (o negro que deseja tornar-se branco e
francês), Texaco enfatiza a persistência de uma identidade crioula.
Marie-Sophie, ainda que em certos momentos se deixe seduzir pelo imaginário francês,
não se deixa capturar por ele: não há, nela, vergonha de ser negra, mas
afirmação.
Nesse ponto, é importante
precisar que Aimé Césaire teve um papel ambíguo e decisivo: foi um dos
responsáveis pela departamentalização da Martinica, integrando-a à França, mas
também o principal formulador da negritude, movimento que reivindica o valor
das culturas negras frente à lógica colonial. A tensão entre assimilação e
afirmação identitária atravessa o romance.
A memória, em “Texaco”,
constrói-se sobretudo pela tradição oral. Lendas, mitos, cantos e ditados
compõem um universo simbólico que não deriva da cultura do colonizador, mas
emerge como expressão própria do povo. O uso do crioulo, em coexistência com o
francês, não é apenas um recurso estilístico, mas um gesto político: a língua
torna-se campo de disputa entre duas visões de mundo.
Nesse sentido, o romance afirma o sujeito negro como autor de sua própria cultura, recusando a centralidade da língua e da tradição francesa. Se, em “Pele negra, máscaras brancas”, a colonização aparece como força de apagamento, capaz de produzir sujeitos desenraizados, aqui se evidencia a resistência: a identidade crioula se reinscreve pela memória, pela oralidade e pela ocupação do espaço.
Texaco, a comunidade que dá nome ao livro, não é apenas um lugar.
É um território insurgente. Aquilo que poderia ser visto como um “não-lugar”,
na chave de Marc Augé, revela-se o oposto:
um espaço saturado de memória, vínculos e história, constantemente destruído e
reconstruído por aqueles que se recusam a desaparecer.
Marie-Sophie,
por fim, encarna a possibilidade de imaginar outro mundo. Sua trajetória aponta
para a construção de um espaço que escapa, ainda que precariamente- à lógica
colonial, racista e patriarcal: Texaco, enquanto comunidade, não é apenas um
lugar físico, mas a materialização de um projeto de existência crioula.
A Martinica permanece, até hoje,
como departamento ultramarino francês – dado que reforça a atualidade das
tensões apresentadas no romance.
Patrick
Chamoiseau nasceu em Fort-de-France, Martinica, em 1953. É um escritor
martiniquês-francês.


Nenhum comentário:
Postar um comentário