Mostrando postagens com marcador Caribe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caribe. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de julho de 2026

LIVRO: FÉ DISFARÇADA


 

FÉ DISFARÇADA

MAYRA SANTOS-FEBRES

PALLAS – 1ª ED. – 2026

152 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PORTO RICO – Território não incorporado dos Estados Unidos

Fé disfarçada” é um livro curto, no entanto, denso e que pode, em um primeiro momento, parecer extremamente sexual, afinal, o narrador, Martín Tirado, está sempre ocupado com o que chama de obelisco, ou seja, seu órgão sexual. Mas essa seria uma leitura muito simplista do que a autora nos apresenta.

Outro ponto que pode nos enganar é o título do livro, pois não se trata de nada ligado à religião, mas Fé é o nome da protagonista. E, já me adiantando, preciso fazer uma distinção importante para a compreensão do enredo – disfarce é diferente de fantasia.

O livro, como já adiantei, é narrado por Martín, um jovem que trabalha em um Centro de Pesquisas Históricas em Chicago, nos Estados Unidos, e tem Fé como sua chefe. Entrelaçando os relatos de Martin, temos documentos históricos sobre casos de violências extremas contra mulheres negras no Brasil, na Venezuela e no Caribe. Esses documentos são fictícios, inclusive ao abordar uma personagem histórica brasileira – Chica da Silva.

A autora trabalha com o passado da escravização de mulheres negras e ao que elas foram submetidas, e com o tempo atual, mostrando as reminiscências dessa escravização que ainda permanecem na vida das mulheres negras. Para isso, ela utiliza a carne, o corpo, tão ferido, machucado, abusado e estuprado durante a escravização. Aqui começamos a compreender o uso do sexo na narrativa.

Durante suas pesquisas, Fé recebeu de uma freira um vestido belíssimo que foi usado por uma mulher negra para se apresentar à sociedade. No entanto, o vestido não disfarça a negritude nem apaga o que aquele corpo sofreu. Dentro dele há uma armação de ferro, já está enferrujado pelo tempo, e, ao vesti-lo, Fé machuca a própria carne, que sangra.

Mas a pergunta que não quer calar: por que a autora escolheu um homem para relatar a história? Eu penso que ela faz essa escolha porque quer mostrar a volúpia masculina, o desejo do homem como algo incontrolável e insaciável, em contraste com o estereótipo historicamente atribuído às mulheres negras, como se fossem elas as naturalmente lascivas. Essas mulheres foram estupradas e obrigadas ao sexo por homens brancos movidos por esse desejo.

Fé instaura um ritual. Todos os Dias dos Mortos, ela convida Martín para seu apartamento, onde há um quarto vazio, todo branco, tendo apenas um sofá de madeira. Ela veste o vestido com a armação de ferro que machuca sua carne e transa com Martín, e faz um pedido – “me tire daqui”.

Em uma viagem à Espanha, Fé presenteou Martín com uma navalha de Toledo, e ao final da narrativa, é com essa navalha que ele pretende libertá-la, cortando o vestido. No entanto, a autora deixa em suspenso o que acontecerá, o livro termina nesse ponto.

Esse final levanta outra questão: mais uma vez será um homem para salvar uma mulher? não sabemos o que vai acontecer, nem a reação de Fé ao que ele pretende fazer.

“(...) Eu queria ser como aquelas freiras, brancas, puras, como aquelas princesas; vestir trajes que vão até o chão, feitos de veludo bordado com fios de ouro e pedrarias. Mas no fundo, sabia que aquilo não era para mim. Era lembrada disso pelas outras alunas e pela cor de minha pele. Minha pele era o mapa dos meus ancestrais. Todos nus, sem brasões ou bandeiras que os identificassem; marcados pelo esquecimento ou apenas, pro cicatrizes tribais, correntes e marcas de chancela no lombo. Nenhum tecido que me cobrisse, sagrado ou profano, poderia ocultar minha verdadeira natureza.” (pág. 112)

Não há disfarce para isso!!!


Mayra Santos-Febres nasceu em Carolina, Porto Rico, em 1966. É uma autora, poeta, romancista, professora de literatura, ensaísta e crítica literária porto-riquenha. 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE DITADURA, MISÉRIA E RESISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

BANHO DE LUA

YANICK LAHENS

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

239 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍSHAITI


Uma mulher morta, estendida em uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.

Intercalados aos pensamentos da morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto, ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem; e mesmo a contragosto, aceitam a relação.  

Aos poucos, nesse microuniverso familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema, o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis.

Posteriormente, é o filho de “Papa Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria. O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição histórica e o período deixam claro de quem se trata.  

O livro também apresenta elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças. 

                Yanick Lahens nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana.