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quarta-feira, 10 de junho de 2026

LIVRO: ELES TE PEGARAM TAMBÉM

 

ELES TE PEGARAM TAMBÉM

FUTHI NTSHINGILA

DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026

224 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL

Hans é um ex-policial que vive em uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.

Zoé cresceu enfrentado a violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de sua família para Hans.

Com a pandemia, que podemos supor ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento, ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse finalmente tomará coragem para contar a sua.

É através desses relatos e memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.

As lembranças de ambos abordam o período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa, flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.

Hans pertence a uma família bôer, enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo com ela.

É através dos relatos dos dois que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a assumir a presidência do país.

O título do livro se refere a uma frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se à crença na superioridade racial e ao racismo.

O que mais me tocou foi o contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo ficou nele que o levou a se torturar na velhice.

A ideologia nunca consegue apagar completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la, mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.

Já Zoé, vítima desse racismo, a questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.

Ao alternar as memórias de Hans e Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento, arrependimento e redenção.


Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.



quarta-feira, 27 de maio de 2026

MULHERES SENEGALESAS ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE



UMA CARTA TÃO LONGA

MARIAMA BÂ

JANDAÍRA – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – SENEGAL 


Uma Carta tão longa, da escritora senegalesa Mariama Bâ, acompanha Ramatoulaye logo após a morte de seu marido, momento em que escreve uma longa carta à sua melhor amiga de infância, Aïssatou. Ao longo desta carta, na qual rememora sua vida e a de sua amiga, a autora discorre sobre os vários problemas enfrentados pelas mulheres senegalesas, os costumes e tradições, a religião e a poligamia.  

Se por um lado vemos Ramatoulaye se construindo em meio a tudo o que lhe acontece, muitas vezes decidindo conforme tradições e aquilo que aprendeu desde a infância, Aïssatou já surge como uma mulher diferente, que enfrenta o sistema e toma decisões em prol de si mesma, sem se preocupar tanto com a honra familiar e tradições senegalesas.

Ambas passaram pelo mesmo drama: maridos com os quais conviveram durante anos, construindo uma vida em comum, tendo filhos e partilhando tudo, decidem tomar uma segunda esposa, ou a “coesposa”, como são chamadas. No caso de Aïssatou, o casamento do marido foi resultado da vingança da sogra, que nunca aceitou a união do único filho homem com uma mulher de casta inferior. Durante anos ela planejou sua vingança até conseguir obrigá-lo a se casar com sua prima.

Aïssatou não aceitou a situação: pediu o divórcio, partiu com os filhos, estudou e foi morar nos Estados Unidos, conquistando estabilidade financeira. Já o marido de Ramatoylaye encantou-se por uma amiga de sua filha e fez de tudo para conquistá-la. A jovem o chamava de velho, mas acabou aceitando o casamento por imposição da mãe. Após isso, ele abandonou a primeira família.

Os filhos de Ramatoylaye revoltaram-se  e queriam que a mãe seguisse o exemplo de Aïssatou, porém ela escolheu permanecer onde estava, mantendo-se como primeira-esposa. Com a morte do marido surgem novos pretendentes. O primeiro é o irmão mais velho dele, que deseja casar-se com ela como segunda esposa, o que ela não aceitou. O segundo é o homem que se apaixonara por ela na juventude e que era o predileto de sua mãe; novamente ela não aceitou.

 Desde que Madou se casou com uma adolescente, Ramatoulaye passou a viver em solidão, tendo que lutar para manter os filhos. Ao mesmo tempo, relembra casos de outras mulheres que entraram em depressão, algo que ela própria tenta evitar. A amiga é sempre um suporte emocional para ela e exemplo, ainda que Ramatoulaye não siga exatamente o mesmo caminho.  

 O livro discute a situação feminina no Senegal. Quantas mulheres que são postas de lado após o segundo casamento do marido. Mas não apenas, é uma sociedade absolutamente patriarcal e muçulmana na qual a mulher tem pouco valor e é sempre colocada em segundo plano. O debate sobre política que Ramatoylaye tem com seu antigo apaixonado, um médico e político, evidencia isso de maneira muito clara.

A definição que a autora faz da depressão é feita de forma sensível e precisa. Mariama Bâ também desenvolve uma bela reflexão sobre o amor e a amizade. Através de relatos íntimos a autora constrói uma crítica social, principalmente sobre a condição das mulheres senegalesas. 

 

Mariama Bâ nasceu em Dacar, Senegal, em 1929 e faleceu na mesma localidade em 1981. Foi uma pioneira escritora e feminista senegalesa


quinta-feira, 21 de maio de 2026

UM MUSEU DE LEMBRANÇAS PERDIDAS

 


O MUSEU DA RENDIÇÃO INCONDICIONAL

DUBRAVKA UGRESIC

CARAMBAIA – 1ª ED. – 2025

304 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – CROÁCIA

Sem sombra de dúvidas, o melhor livro que li nos últimos tempos. Não é um livro que agradará a todos, principalmente aos que gostam de histórias com começo, meio e fim. A escrita de Ugresic é fragmentada, uma colagem de pedaços, uma junção de pequenos panos - não tecidos como uma colcha de retalhos, mas unidos de alguma forma.

A autora é uma exilada da antiga Iugoslávia, mais especificamente do território que atualmente corresponde à Croácia. Viveu em Berlim, passou um tempo nos Estados Unidos, e acabou fixando residência na Holanda. Precisou deixar a Croácia em 1993 devido às suas declarações contra o nacionalismo croata e sérvio.

Vivendo no exílio, Ugresic tenta recuperar memórias, recusa-se ao apagamento da história, aquilo que os nacionalismos desejam e produzem. Houve uma destruição não apenas material, mas também mental. Ela se recusa a se adaptar ou se acomodar, como muitos fazem diante de regimes autoritários para sobreviver.

Da mesma forma que sua vida, vivida em países diferentes, sem uma casa para chamar de sua, apenas uma mala com o que lhe restou, ela reúne fragmentos, como em um museu, ou como no estômago da Morsa que encontramos logo no início do livro. Objetos, fotografias, lembranças, amigos, relatos, família. É o não-lugar por excelência, sobretudo um não-lugar interior.

Longe dos livros atuais sobre traumas – aquilo que às vezes chamo de “literatura da sofrência” -, a autora é realista, muitas vezes crua, mas há também um senso de humor e linguagem poética.

A solidão, a velhice, a tentativa de se recuperar interiormente de ter sido obrigada ao exílio, o ostracismo e o esforço para compreender o mundo em que agora se vive atravessam o livro. No meio disso, surgem as lembranças da família. O capítulo sobre os álbuns de fotografia é sensacional; os textos sobre arte e museus, assim como a lembrança da Condessa que costurava, um texto belíssimo. Há também um certo anjo que une as amigas que se encontravam e explica um pouco o destino de cada uma delas durante a guerra.

O título do livro refere-se a um museu que existiu de fato em Berlim até 1994: o Museu da rendição incondicional da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Mas Ugresic não se rende incondicionalmente. Ela parte, deixa seu país em guerra, mas isso também seria uma forma de rendição? Abandonar tudo?

Berlim, onde vivem muitos refugiados, é um lugar em que se ouve frequentemente a pergunta: “você é uma das nossas?”. Uma cidade que também foi dividida e depois reunificada, mas que colocou os alemães da antiga RDA na condição de “outros” dentro do próprio país, como aparece no livro que li anteriormente – “Eu vou, tu vais, ele vai”, de Jenny Erpenbeck.

O livro é como um sítio arqueológico: escavar, encontrar pequenos objetos e lembranças, trazê-los à tona no mundo em que se vive atualmente, talvez construir um museu particular de tudo isso. É como no estômago da Morsa: tudo ali, parece sem sentido, mas aos poucos cada objeto se une ao outro.

O que mais me tocou foi uma questão que também carrego comigo: boas lembranças são realmente algo bom? Ou doem? A irreversibilidade, o retorno impossível, a perda – tudo isso é irrecuperável, mas continua existindo. E dói.  

Olhar fotografias pode ser profundamente ambíguo. Elas preservam, mas também tornam irreversível a consciência da perda e do tempo. Talvez por isso Ugresic trate os objetos e as imagens quase como ruínas arqueológicas emocionais. 

Dubravka Ugresic nasceu em Kutina, Croácia, em 1949 e faleceu em Amsterdã, Países Baixos, em 2023. É uma escritora nascida na ex-Iugoslávia. 



sábado, 16 de maio de 2026

LIBERDADE, CENSURA E VÍNCULOS MATERNOS

 


O LEITE DA MÃE

NORA ISKTENA

EDITORA RUA DO SABÃO – 2026

164 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LETÔNIA


O livro inicia com o nascimento de duas meninas: a mais nova nasceu em 1969, enquanto sua mãe nasceu em 1944, ambas na Letônia. O que as diferencia é o contexto histórico. Em 1944, a Letônia vivia o período da Segunda Guerra Mundial, tendo sido invadira pelos nazistas após um breve período de independência do Império Russo. Já em 1969, o país estava integrado à União Soviética.

A autora intercala as vozes de mãe e filha relatando suas vidas e, ao mesmo tempo, apresenta a avó da jovem. São, portanto, três mulheres interligadas pelo sangue e pela maternidade. O ponto central é o leite materno que a mãe recusou à filha, por acreditar que, através dele, transmitiria a amargura e o veneno que carregava em si.

Isso me lembrou o filme “A Teta Assustada”, da cineasta peruana Claudia Llosa, no qual uma filha luta contra o medo herdado por meio do leite de sua mãe, violentada durante um período de extrema violência no Peru.

Por meio dessas três mulheres, Isktena constrói um romance em que se tornam perceptíveis os efeitos do autoritarismo e do controle estatal impostos pelo stalinismo aos povos sob ocupação soviética. A mãe sofre com a exigência da submissão ao comunismo, às suas ideologias e regras. Mulher brilhante, cientista e médica ginecologista, é tolhida e inclusive punida pelo regime.

A filha, nascida já sob a vigência desse sistema, não percebe a diferença entre liberdade e opressão. Vive sua vida tendo de cuidar da mãe, que considera mentalmente doente.

“A escravidão é liberdade” e “A liberdade é escravidão”, repete a mãe. O que isso significa?

Essa formulação me remeteu ao livro “Livre”, de Lea Ypi, que já postei aqui no blog. Nele, a autora albanesa, questiona o que de fato significa liberdade e se ela realmente existe. Ikstena também mobiliza referências a “1984”, de George Orwell, e a trechos de “Assim falava Zaratustra” de Friedrich Nietzsche, obras que circulavam clandestinamente no país por serem proibidas.

 Aos poucos, a filha começa a compreender o que ocorreu em seu país. O padrasto de sua mãe lhe conta parte dessa história a portas fechadas, sempre alertando que aquela conversa não poderia sair dali. O pai da mãe foi preso durante a guerra e, posteriormente, considerado traidor pelos soviéticos. Ele sobreviveu, no entanto, a avó se afastou completamente dele se casando novamente.

A mãe não consegue viver duas vidas, e expressa seu esgotamento diante dessa duplicidade:

 “o ódio por aquela existência dupla e hipócrita na qual as pessoas eram forçadas a interpretar dois papéis. Portar bandeiras nas paradas de maio e outubro, aclamando o Exército Vermelho, o exército mais poderoso do mundo, a revolução e o comunismo e, na cozinha de casa, enxaguar tudo com um bom trago, fazer o sinal da cruz e ficar esperando que os britânicos chegassem através do rio Daugava para libertar a Letônia das botas russas.”

Nascer em determinado tempo e lugar molda profundamente nossas vidas. A avó, de coragem extrema ao salvar a filha, acabou se acomodando; a mãe jamais aceitou não poder ser livre e viver sob censura soviética; e a filha, nascida já dentro do regime, sequer percebia plenamente a realidade ao seu redor, até conhecer, na adolescência, um professor diferente, mas que será obrigada a delatar.

A grande metáfora do livro é Bambi, um hamster que a avó comprou para a neta. Inicialmente, ela o soltava para correr livremente pela casa. Porém, quando a avó compra uma fêmea para lhe fazer companhia, ela tem filhotes, o macho perde toda a vitalidade e acaba devorando-os.

 A filha o castiga. Depois disso, sempre ela se aproxima, ele agitado, como se ainda esperasse poder sair da gaiola novamente. Mas ela nunca mais o liberta, e ele vai murchando até morrer.  

Sem compreender por que ele comeu os filhotes, a menina ouve da mãe uma explicação devastadora: talvez ele apenas quisesse impedir que eles também acabassem vivendo em uma gaiola. 

Nora Isktena nasceu em Riga, Letônia, em 1969 e faleceu na mesma localidade em 2026. Foi uma escritora e gestora cultural letã. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

ENTRE MUROS VISÍVEIS E INVISÍVEIS.

 


EU VOU, TU VAIS, ELE VAI

JENNY ERPENBECK

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2024

368 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ALEMANHA (ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL)

 

Richard é um viúvo, professor emérito de filologia, que viveu a maior parte de sua vida na Alemanha Oriental. Com a queda do Muro de Berlim, precisou se reintegrar, na medida do possível, como um cidadão da Alemanha Ocidental.

Paralelamente, acompanhamos um grupo de homens negros refugiados, provenientes de diferentes lugares, cada um carregando sua própria história de luta, perdas e dores.

Ao longo do livro, a autora entrelaça os dilemas desses deslocados e refugiados. Não se abstém de mostrar a realidade dos refugiados nos países europeus: as dificuldades cotidianas, o desprezo das autoridades e os inúmeros obstáculos criados para impedir que essas pessoas construam uma vida minimamente digna. Querem apenas trabalhar e dar sentido às próprias vidas, mas são continuamente boqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. Nenhum deles deseja depender do Estado, mas ainda assim são tratados como um peso social. Isso sem falar no racismo, nos preconceitos e no medo que muitos europeus projetam sobre os imigrantes.

Por outro lado, Richard também experimenta formas de exclusão. Sendo oriundo da Alemanha Oriental, não tem direito ao mesmo salário dos professores do Oeste e só é convidado a participar de congressos ou palestras quando alguém desiste.

No início do livro, ele sequer percebe os homens negros na praça que cruza, homens que reivindicam, antes de tudo, visibilidade. Após assistir a uma reportagem na televisão, interessa-se por eles inicialmente como pesquisador e decide entrevista-los. Aos poucos, porém, começa a confrontar seus próprios preconceitos.

Richard passa então a “cuidar”, na medida do possível, desses homens: escuta suas histórias, oferece pequenas ajudas e se aproxima de suas realidades. Ainda assim, a impressão que fica é a de que esse movimento também constitui uma tentativa de preencher o próprio vazio após a morte da esposa e diante da ausência de filhos ou de uma família próxima. Apesar de manter uma rotina e um círculo de amizades, há nele uma falta persistente.

 Quando comparamos as dificuldades de Richard, como alguém deslocado dentro de sua própria história nacional, com a dos refugiados, a diferença é gritante. Isso não significa minimizar sua experiência, mas reconhecer que a situação dos refugiados é incomparavelmente mais grave. Ainda assim, o racismo e a exclusão atravessam ambos os casos, seja em relação aos oriundos do Leste, seja em relação aos refugiados africanos.  

Os refugiados tinham casas, famílias, rotinas e pertencimentos; de repente, em poucas horas, às vezes perdem tudo e só lhes resta fugir para não morrer.  Embora as histórias do romance sejam ficcionais, correspondem à realidade concreta de inúmeros migrantes.

Richard, um “outro” dentro de seu próprio país, falando alemão fluentemente e tendo sido separado da Alemanha Ocidental por questões políticas e bélicas, vê-se agora diante de outro “outro”: homens igualmente deslocados, porém lançados em condições muito mais precárias, também por razões política e guerras. Não se trata de escolhas individuais, mas de condições impostas por estruturas históricas e políticas que lhes roubam não apenas bens materiais, mas também o sentido de continuidade da própria vida e da vida familiar.  

O livro é, sobretudo, uma reflexão ética sobre o encontro com o diferente, a possibilidade de convivência, o respeito humano e os dilemas da solidão, do vazio e dos limites individuais diante de situações extremamente complexas.  

Ainda assim, senti falta de uma questão fundamental: o que produziu tantas guerras civis, conflitos e bombardeios nos países africanos? A Alemanha também foi um país colonizador e participou da partilha da África na Conferência de Berlim, desconsiderando territórios, reinos e grupos étnicos. Talvez situar essa história em Berlim não seja casual: há um diálogo implícito entre dois marcos históricos de divisão – o muro e a conferência.


Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim Leste, Alemanha, em 1967. É uma escritora e diretora de ópera alemã. 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE DITADURA, MISÉRIA E RESISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

BANHO DE LUA

YANICK LAHENS

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

239 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍSHAITI


Uma mulher morta, estendida em uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.

Intercalados aos pensamentos da morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto, ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem; e mesmo a contragosto, aceitam a relação.  

Aos poucos, nesse microuniverso familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema, o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis e

Posteriormente, é o filho de “Papa Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria. O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição histórica e o período deixam claro de quem se trata.  

O livro também apresenta elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças. 

                Yanick Lahens nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana. 



sábado, 11 de abril de 2026

UMA VIDA CONTADA COM A MESMA IRREVERÊNCIA DE SUAS MÚSICAS


 

RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA

RITA LEE

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2016

296 páginas


Adorei ler esta autobiografia. Rita Lee fez parte da minha adolescência e cheguei a assistir um show dela - O Fruto Proibido.

No livro, ela conta sua vida sem rodeios ou subterfúgios. Fala abertamente de sua dependência alcóolica, de sua rebeldia, de sua forte ligação com a família, de seu período durante a ditadura e da censura que atingiu suas músicas.

Também aparece com força seu amor pelos animais e sua personalidade irreverente, que marcou sua trajetória artística e pessoal.


Rita Lee nasceu em São Paulo, em 1947 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi uma cantora, compositora, escritora e ativista brasileira. 


MAAT NÃO JULGA: ELA EQUILIBRA O MUNDO

 


MAAT, LA PHILOSOPHIE DE LA JUSTICE DE L’ANCIENNE EGYPTE

ANNA MANCINI

BUENOS BOOKS INTERNATIONAL – 2007

152 páginas

Pesquisei muito sobre Maat e não encontrei muita coisa em português que atendesse ao que eu procurava. A pergunta inicial era: porque as mulheres egípcias tinham uma posição melhor, em relação a direitos, liberdade e autonomia, do que outras mulheres das regiões ao redor?

Maat é uma das principais divindades egípcias, ao lado de Ísis e Osíris, e rege toda a vida egípcia. Trata-se de uma divindade feminina. Em minhas pesquisas ela sempre aparecia sendo traduzida simplesmente como “justiça”. Até que encontrei este livro – mas ele está em francês.

Anna Mancini pesquisou longamente sobre Maat. Ela apresenta os principais egiptólogos que escreveram sobre o tema, mas também aponta as falhas de muitos deles ao interpretar o conceito. Neste livro, Mancini realiza uma análise profunda da famosa cena conhecida como o Julgamento de Osíris, muito difundida através do Livro dos Mortos.

Segundo a interpretação tradicional, tratar-se-ia do julgamento da alma do morto para determinar se ele poderia ou não entrar no paraíso egípcio. Nessa cena, Maat aparece simbolizada como uma pluma colocada na balança ao lado do coração do morto.

Mancini demonstra, porém, que essa leitura está equivocada. Em primeiro lugar, não se trata de um julgamento no sentido ocidental da palavra. Ninguém ali emite uma sentença. A decisão se dá pela própria balança. Nem Osíris julga, nem Maat.

Ao longo do livro, Mancini analisa ponto por ponto essa cena – aliás, o próprio nome “julgamento” foi dado pelos ocidentais.  

Maat representa o equilíbrio cósmico, a justiça no sentido de igualdade, harmonia e complementaridade. Todos devem viver segundo esse princípio, principalmente o faraó. Esse fundamento ajuda a compreender, em parte, a posição relativamente elevada que a mulher ocupava na sociedade egípcia. Evidentemente, não é apenas isso: há também outros fatores ligados à religião egípcia – que nós chamamos de mitologia -, onde Ísis desempenha um papel fundamental, assim como uma concepção de maternidade bastante diferente da nossa.

Infelizmente, não encontrei tradução deste livro para o português.


Anna Mancini é francesa de origem italiana. 


sexta-feira, 10 de abril de 2026

CORAGEM PARA CONTAR

 


UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO

GISÈLE PELICOT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026

208 páginas

A primeira coisa a dizer sobre esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique Pelicot, o pai de seus três filhos.

O choque da descoberta e a tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação – um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária francesa, vindos do meio rural.

 Ela conta como a família Pelicot era desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o típico papel de madrasta dos contos de fada:  protegia a própria filha e tratava mal a enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.  

A reação da filha, Caroline, chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva, se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas conseguem oferecer mais apoio à mãe.

No primeiro momento, os filhos assumem o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se desfaça de seu cachorro, que não suporta.  Gisèle acaba se mudando para a casa do filho caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.

Percebemos então o peso imenso que Gisèle precisa enfrentar.  Ela é a vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.

Sua força vem das lembranças felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é uma maneira de lidar com o trauma.

Isso não significa negação. Ela o denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que é necessário para o processo contra ele.

O que mais impressiona é a tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.  

O livro também mostra que uma violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que jamais voltarão a ser as mesmas.


Gisèle Pelicot nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do caso de estupro coletivo de Mazan. 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

O ASSASSINATO DE MARIELLE E ANDERSON


 

MATARAM MARIELLE: COMO O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON GOMES ESCANCAROU O SUBMUNDO DO CRIME CARIOCA

CHICO OTAVIO – VERA ARAÚJO

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2020

208 páginas

O livro relata a investigação sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nesse ponto, não acrescenta muito ao que já sabemos, pois a narrativa vai apenas até o estágio em que a investigação se encontrava no momento da publicação, ainda sem revelar quem mandou matar. No entanto, mostra as dificuldades enfrentadas e os erros cometidos ao longo do processo investigativo. Por outro lado, o livro traz um panorama importante do que é o Rio de Janeiro no contexto das milícias e do domínio que essas organizações exercem sobre determinadas áreas da cidade.  

Sobre a vida de Marielle, o livro apresenta poucas informações, mas o suficiente para revelar a mulher de coragem e determinação que ela foi.

Em 2026 o STF condenou os irmãos Domingos (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (Deputado Federal) a 76 anos de prisão por serem os mandantes e planejarem o crime.


Chico Otavio nasceu em 1962. É jornalista e professor.

Vera Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1965. É jornalista. 


 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

O DIA EM QUE TUDO FOI ARRASTADO

 

ARRASTADOS: OS BASTIDORES DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO

O maior desastre humanitário do Brasil

DANIELA ARBEX

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2022

328 páginas

“QUANDO A VIDA HUMANA ENTRA NO CÁLCULO DO LUCRO.”

O livro de Daniela Arbex traz depoimentos e detalhes da investigação efetuada após a tragédia. Os sobreviventes são conhecidos, assim como seu salvamento para quem acompanhou os acontecimentos pela televisão na época, mas no livro ouvimos deles próprios o que sentiram e pensaram no exato momento. Também acompanhamos o drama das famílias e parentes em busca de informações e, finalmente, o enfrentamento da realidade da morte de seus entes queridos.

O novo neste livro é acompanhar também os bombeiros: o que sentiram, como agiram, e conhecer toda a estratégia montada para o resgate, inclusive o trabalho do IML (Instituto Médico Legal) e as ações da própria população.  Seguimos, assim, o pós-tragédia, que além de toda a dor do luto revelou outras fraturas.

 As ações indenizatórias da Vale provocaram situações conflituosas entre os moradores. Surgiram abusos de pessoas que nada tinham a ver com a tragédia, ao mesmo tempo em que apareceram movimentos de resistência e reivindicação. Os laços sociais foram rompidos. Houve a perda do lugar, do pertencimento, de ser parte de algo ou de algum lugar. Permanece a pergunta daqueles que perderam tudo - casa, familiares, história – como seguir vivendo?

O livro também expõe as depressões, a angústia, mas igualmente a força de enfrentar tudo isso.

A narrativa termina com o resultado da investigação:  o levantamento de provas de que a Vale sabia que a barragem poderia romper a qualquer momento. A empresa chegou inclusive a calcular quanto teria de gastar em indenizações. Ainda assim, seu lucro continuaria maior – eis o ponto.

E, de fato, se no primeiro momento houve uma queda nas ações na bolsa de valores, ao final do ano a empresa fechou em alta e com lucro.

Duas tragédias - as duas maiores do Brasil: esta, humanitária; a outra, ecológica. em Mariana. E o que foi feito?

Mariana Nunca Mais.... Brumadinho Nunca mais....????


Daniela Arbex nasceu em Juiz de Fora – MG, em 1973. É uma jornalista e documentarista brasileira, dedica-se à defesa dos direitos humanos


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UMA HISTÓRIA PLURAL DO FEMINISMO


 

FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL

LUCY DELAP

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022

336 páginas

Em Feminismos: uma história global, Lucy Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.

A obra percorre um amplo arco temporal, do século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas — direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe, colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem, reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser compreendido como uma constelação de lutas.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia, revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a práticas feministas enraizadas em realidades locais.

O livro também não silencia os conflitos internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros, entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.

Outro aspecto relevante é a articulação entre feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas também vulnerável às dinâmicas do poder.

Sem idealizações, Delap reconhece os limites e contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo, conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.

Feminismos: uma história global é um livro fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa, mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre inacabada.


Lucy Delap é uma historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de gênero e feminismo. 


A VOZ COMO TERRITÓRIO POLÍTICO

 


ERGUER A VOZ: PENSAR COMO FEMINISTA, PENSAR COMO NEGRA

BELL HOOKS

EDITORA ELEFANTE – 1ª ED. – 2019

380 páginas

Em Erguer a Voz, bell hooks parte da própria experiência para mostrar que falar e, sobretudo, ser ouvida, nunca foi um gesto neutro. A voz, para mulheres negras, é um território de disputa política, atravessado pelo racismo institucional, pelo sexismo e pela lógica da supremacia branca que estrutura a sociedade e, de modo particular, os espaços de produção do saber.

A leitura do livro é transformadora porque desloca o olhar: não se trata apenas de identificar opressões externas, mas de reconhecer como elas se reproduzem cotidianamente, inclusive entre nós. hooks nos convida a um exercício radical de autorreflexão, revelando o quanto mulheres, mesmo aquelas comprometidas com projetos emancipatórios, podem estar implicadas na manutenção do patriarcado e do machismo, seja pelo silêncio, pela adaptação ou pela reprodução de hierarquias aprendidas.

Ao discutir o ambiente universitário, a autora expõe como a academia, longe de ser um espaço neutro, frequentemente reforça relações de dominação. O conhecimento legitimado, os corpos autorizados a falar e os modos “aceitáveis” de expressão obedecem a uma lógica excludente que marginaliza vozes dissidentes. Erguer a voz, nesse contexto, não é apenas falar mais alto, mas desafiar as estruturas que determinam quem pode falar e quem deve permanecer em silêncio.

O livro ensina que a educação pode ser um espaço de libertação, desde que atravesse o desconforto, a escuta crítica e a disposição para rever privilégios. hooks insiste que transformar a universidade, e a sociedade, passa necessariamente pela disposição de confrontar o racismo estrutural, a supremacia branca e o patriarcado, não como abstrações, mas como práticas cotidianas que atravessam nossas relações, afetos e modos de pensar.

Erguer a Voz é, assim, um chamado ético e político. Um convite para falar, mas também para escutar. Para ensinar, mas sobretudo para aprender. E, talvez o mais difícil, para reconhecer que a transformação coletiva começa por um trabalho profundo e contínuo sobre nós mesmas.


bell hooks nasceu em Hopkinsville, Kentucky, EUA, em 1952 e faleceu em Berea, Kentucky, EUA, em 2021. Foi uma teórica feminista, professora, artista e ativista antirracista