EU VOU, TU VAIS, ELE VAI
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2024
368 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ALEMANHA (ANTIGA ALEMANHA
ORIENTAL)
Richard é um viúvo, professor
emérito de filologia, que viveu a maior parte de sua vida na Alemanha Oriental.
Com a queda do Muro de Berlim, precisou se reintegrar, na medida do possível,
como um cidadão da Alemanha Ocidental.
Paralelamente, acompanhamos um
grupo de homens negros refugiados, provenientes de diferentes lugares, cada um carregando
sua própria história de luta, perdas e dores.
Ao longo do livro, a autora entrelaça
os dilemas desses deslocados e refugiados. Não se abstém de mostrar a realidade
dos refugiados nos países europeus: as dificuldades cotidianas, o desprezo das
autoridades e os inúmeros obstáculos criados para impedir que essas pessoas construam
uma vida minimamente digna. Querem apenas trabalhar e dar sentido às próprias
vidas, mas são continuamente boqueados pela burocracia e pela falta de vontade
política. Nenhum deles deseja depender do Estado, mas ainda assim são tratados
como um peso social. Isso sem falar no racismo, nos preconceitos e no medo que muitos
europeus projetam sobre os imigrantes.
Por outro lado, Richard também experimenta
formas de exclusão. Sendo oriundo da Alemanha Oriental, não tem direito ao
mesmo salário dos professores do Oeste e só é convidado a participar de
congressos ou palestras quando alguém desiste.
No início do livro, ele sequer
percebe os homens negros na praça que cruza, homens que reivindicam, antes de
tudo, visibilidade. Após assistir a uma reportagem na televisão, interessa-se
por eles inicialmente como pesquisador e decide entrevista-los. Aos poucos,
porém, começa a confrontar seus próprios preconceitos.
Richard passa então a “cuidar”,
na medida do possível, desses homens: escuta suas histórias, oferece pequenas
ajudas e se aproxima de suas realidades. Ainda assim, a impressão que fica é a
de que esse movimento também constitui uma tentativa de preencher o próprio
vazio após a morte da esposa e diante da ausência de filhos ou de uma família
próxima. Apesar de manter uma rotina e um círculo de amizades, há nele uma
falta persistente.
Os refugiados tinham casas,
famílias, rotinas e pertencimentos; de repente, em poucas horas, às vezes
perdem tudo e só lhes resta fugir para não morrer. Embora as histórias do romance sejam ficcionais,
correspondem à realidade concreta de inúmeros migrantes.
Richard, um “outro” dentro de seu
próprio país, falando alemão fluentemente e tendo sido separado da Alemanha Ocidental
por questões políticas e bélicas, vê-se agora diante de outro “outro”: homens
igualmente deslocados, porém lançados em condições muito mais precárias, também
por razões política e guerras. Não se trata de escolhas individuais, mas de condições
impostas por estruturas históricas e políticas que lhes roubam não apenas bens
materiais, mas também o sentido de continuidade da própria vida e da vida
familiar.
O livro é, sobretudo, uma reflexão
ética sobre o encontro com o diferente, a possibilidade de convivência, o
respeito humano e os dilemas da solidão, do vazio e dos limites individuais
diante de situações extremamente complexas.
Ainda assim, senti falta de uma
questão fundamental: o que produziu tantas guerras civis, conflitos e
bombardeios nos países africanos? A Alemanha também foi um país colonizador e
participou da partilha da África na Conferência de Berlim, desconsiderando
territórios, reinos e grupos étnicos. Talvez situar essa história em Berlim não
seja casual: há um diálogo implícito entre dois marcos históricos de divisão –
o muro e a conferência.
Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim
Leste, Alemanha, em 1967. É uma escritora e diretora de ópera alemã.





