quarta-feira, 13 de maio de 2026

ENTRE MUROS VISÍVEIS E INVISÍVEIS.

 


EU VOU, TU VAIS, ELE VAI

JENNY ERPENBECK

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2024

368 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ALEMANHA (ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL)

 

Richard é um viúvo, professor emérito de filologia, que viveu a maior parte de sua vida na Alemanha Oriental. Com a queda do Muro de Berlim, precisou se reintegrar, na medida do possível, como um cidadão da Alemanha Ocidental.

Paralelamente, acompanhamos um grupo de homens negros refugiados, provenientes de diferentes lugares, cada um carregando sua própria história de luta, perdas e dores.

Ao longo do livro, a autora entrelaça os dilemas desses deslocados e refugiados. Não se abstém de mostrar a realidade dos refugiados nos países europeus: as dificuldades cotidianas, o desprezo das autoridades e os inúmeros obstáculos criados para impedir que essas pessoas construam uma vida minimamente digna. Querem apenas trabalhar e dar sentido às próprias vidas, mas são continuamente boqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. Nenhum deles deseja depender do Estado, mas ainda assim são tratados como um peso social. Isso sem falar no racismo, nos preconceitos e no medo que muitos europeus projetam sobre os imigrantes.

Por outro lado, Richard também experimenta formas de exclusão. Sendo oriundo da Alemanha Oriental, não tem direito ao mesmo salário dos professores do Oeste e só é convidado a participar de congressos ou palestras quando alguém desiste.

No início do livro, ele sequer percebe os homens negros na praça que cruza, homens que reivindicam, antes de tudo, visibilidade. Após assistir a uma reportagem na televisão, interessa-se por eles inicialmente como pesquisador e decide entrevista-los. Aos poucos, porém, começa a confrontar seus próprios preconceitos.

Richard passa então a “cuidar”, na medida do possível, desses homens: escuta suas histórias, oferece pequenas ajudas e se aproxima de suas realidades. Ainda assim, a impressão que fica é a de que esse movimento também constitui uma tentativa de preencher o próprio vazio após a morte da esposa e diante da ausência de filhos ou de uma família próxima. Apesar de manter uma rotina e um círculo de amizades, há nele uma falta persistente.

 Quando comparamos as dificuldades de Richard, como alguém deslocado dentro de sua própria história nacional, com a dos refugiados, a diferença é gritante. Isso não significa minimizar sua experiência, mas reconhecer que a situação dos refugiados é incomparavelmente mais grave. Ainda assim, o racismo e a exclusão atravessam ambos os casos, seja em relação aos oriundos do Leste, seja em relação aos refugiados africanos.  

Os refugiados tinham casas, famílias, rotinas e pertencimentos; de repente, em poucas horas, às vezes perdem tudo e só lhes resta fugir para não morrer.  Embora as histórias do romance sejam ficcionais, correspondem à realidade concreta de inúmeros migrantes.

Richard, um “outro” dentro de seu próprio país, falando alemão fluentemente e tendo sido separado da Alemanha Ocidental por questões políticas e bélicas, vê-se agora diante de outro “outro”: homens igualmente deslocados, porém lançados em condições muito mais precárias, também por razões política e guerras. Não se trata de escolhas individuais, mas de condições impostas por estruturas históricas e políticas que lhes roubam não apenas bens materiais, mas também o sentido de continuidade da própria vida e da vida familiar.  

O livro é, sobretudo, uma reflexão ética sobre o encontro com o diferente, a possibilidade de convivência, o respeito humano e os dilemas da solidão, do vazio e dos limites individuais diante de situações extremamente complexas.  

Ainda assim, senti falta de uma questão fundamental: o que produziu tantas guerras civis, conflitos e bombardeios nos países africanos? A Alemanha também foi um país colonizador e participou da partilha da África na Conferência de Berlim, desconsiderando territórios, reinos e grupos étnicos. Talvez situar essa história em Berlim não seja casual: há um diálogo implícito entre dois marcos históricos de divisão – o muro e a conferência.


Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim Leste, Alemanha, em 1967. É uma escritora e diretora de ópera alemã. 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE DITADURA, MISÉRIA E RESISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

BANHO DE LUA

YANICK LAHENS

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

239 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍSHAITI


Uma mulher morta, estendida em uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.

Intercalados aos pensamentos da morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto, ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem; e mesmo a contragosto, aceitam a relação.  

Aos poucos, nesse microuniverso familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema, o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis e

Posteriormente, é o filho de “Papa Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria. O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição histórica e o período deixam claro de quem se trata.  

O livro também apresenta elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças. 

                Yanick Lahens nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana. 



ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha.