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quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: AQUELA QUE RESTOU

 

AQUELA QUE RESTOU

RENE KARABASH

EDITORA ERCOLANO – 1ª ED. – 2026

128 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – BULGÁRIA


A história se passa no norte da Albânia, em uma pequena aldeia que ainda mantém a tradição de seguir o Kanun (Kanun de Leka Dukaguini – leis antigas da Albânia). Essas leis incluíam a morte por vingança, e é interessante pensar que, no Nordeste brasileiro, isso também existe. Ismail Kadaré escreveu “Abril despedaçado”, e nós temos o filme homônimo, que se passa no Nordeste.

Eu, pessoalmente, vivi uma situação que me fez lembrar uma frase presente no livro.  Estando no Nordeste com um grupo, ocorreu um assassinato motivado por vingança entre famílias, e uma das pessoas ficou apavorada. Eu lhe disse que não precisava se preocupar, pois não seria um alvo, já que não pertencia à família envolvida.  

Karabash nos relata a história de Bekia, uma jovem que nasceu contrariando o desejo de seu pai de ter um filho homem. Mas não fosse apenas isso: sua mãe estava grávida de gêmeos e, durante a gestação, ocorreu um problema, levando à perda de um dos fetos, o menino. Portanto, aquela que restou foi Bekia, o “filhinho de papai”, como ela mesma se denominava.

Seguindo o Kanun, chega o dia em que Bekia será casada com um noivo que não conhece, mas de quem dizem ser feio. Ela não deseja esse destino e faz uma escolha: a única que lhe permite escapar da condição reservada às mulheres em um sistema extremamente patriarcal.

Bekia recusa o casamento e se torna uma virgem jurada, ou ostáinitsa, fazendo um juramento de castidade e passando a viver como um homem e mudando o nome para Matia, adquirindo os mesmos direitos. Trata-se de uma transição de gênero aceita que vigora em algumas regiões do norte da Albânia, do Kosovo, da Macedônia do Norte, da Sérvia, de Montenegro, da Croácia e da Bósnia.

É preciso fazer uma ressalva para que não haja confusões: isso não é a mesma coisa que ser um homem trans. Não se trata de uma decisão baseada na sexualidade nem na identidade de gênero, mas de uma mudança de status social, de papel e de posição dentro da família.

Bekia relata sua história a uma repórter que a entrevista por ser uma das poucas virgens juradas que ainda existem.

Ao recusar o casamento, ela também desencadeia a possibilidade de uma morte por vingança, pois a honra do noivo rejeitado deveria ser restaurada. Para isso, alguém de sua família precisaria ser assassinado. Cabia a ela escolher quem carregaria esse destino, e Bekia coloca a fita preta no braço do irmão mais moço, considerado frouxo como homem naquela sociedade. Ele foge para não morrer e, então, a honra de morrer segundo o Kanun recai sobre o pai de Bekia, o que ele aceita com muito orgulho. Morrer de velhice ou de doença é considerado vergonhoso para um homem.

Mas o livro reserva uma surpresa ao leitor quando descobrimos que o que levou BeKia a fazer o juramento foi muito mais do que o casamento forçado e a suposta perda da virgindade na noite anterior, e o quanto essa decisão trouxe consequências para todos os membros de sua família e também para outra jovem: Dana.

Preciso acrescentar um comentário. Tenho visto sinopses do livro que se referem à instituição da virgem jurada como sendo uma estratégia de sobrevivência dentro de sistemas que as oprimem. Nesse sentido, falar em “estratégia de sobrevivência” pode ser uma formulação enganosa se não for tensionada. O Kanun não abre uma fissura ao patriarcado; ele administra suas exceções sem nunca romper seu princípio estruturante. A virgem jurada não representa uma conquista de igualdade, mas uma reorganização excepcional da hierarquia sexual: ela só é reconhecida enquanto suspende sua condição feminina. O acesso aos direitos não decorre de uma transformação do estatuto da mulher, mas de sua reinscrição simbólica fora dele.

Bekia diz: “Uma mulher na Albânia vale vinte bois, não olhe os homens nos olhos, não vá ao bar, cuide das crianças, lave, cozinhe, no máximo leve o leite à leiteria, matar Bekia foi a coisa mais sensata que eu podia fazer.”.

Sua liberdade não emerge como afirmação de um sujeito feminino, mas como apagamento dessa própria categoria. 

Rene Karabash nasceu em Lovech, Bulgária, em 1989. É uma escritora búlgara. 



quarta-feira, 10 de junho de 2026

LIVRO: ELES TE PEGARAM TAMBÉM

 

ELES TE PEGARAM TAMBÉM

FUTHI NTSHINGILA

DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026

224 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL

Hans é um ex-policial que vive em uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.

Zoé cresceu enfrentado a violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de sua família para Hans.

Com a pandemia, que podemos supor ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento, ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse finalmente tomará coragem para contar a sua.

É através desses relatos e memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.

As lembranças de ambos abordam o período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa, flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.

Hans pertence a uma família bôer, enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo com ela.

É através dos relatos dos dois que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a assumir a presidência do país.

O título do livro se refere a uma frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se à crença na superioridade racial e ao racismo.

O que mais me tocou foi o contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo ficou nele que o levou a se torturar na velhice.

A ideologia nunca consegue apagar completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la, mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.

Já Zoé, vítima desse racismo, a questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.

Ao alternar as memórias de Hans e Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento, arrependimento e redenção.


Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana. 


sábado, 16 de maio de 2026

LIBERDADE, CENSURA E VÍNCULOS MATERNOS

 


O LEITE DA MÃE

NORA ISKTENA

EDITORA RUA DO SABÃO – 2026

164 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LETÔNIA


O livro inicia com o nascimento de duas meninas: a mais nova nasceu em 1969, enquanto sua mãe nasceu em 1944, ambas na Letônia. O que as diferencia é o contexto histórico. Em 1944, a Letônia vivia o período da Segunda Guerra Mundial, tendo sido invadira pelos nazistas após um breve período de independência do Império Russo. Já em 1969, o país estava integrado à União Soviética.

A autora intercala as vozes de mãe e filha relatando suas vidas e, ao mesmo tempo, apresenta a avó da jovem. São, portanto, três mulheres interligadas pelo sangue e pela maternidade. O ponto central é o leite materno que a mãe recusou à filha, por acreditar que, através dele, transmitiria a amargura e o veneno que carregava em si.

Isso me lembrou o filme “A Teta Assustada”, da cineasta peruana Claudia Llosa, no qual uma filha luta contra o medo herdado por meio do leite de sua mãe, violentada durante um período de extrema violência no Peru.

Por meio dessas três mulheres, Isktena constrói um romance em que se tornam perceptíveis os efeitos do autoritarismo e do controle estatal impostos pelo stalinismo aos povos sob ocupação soviética. A mãe sofre com a exigência da submissão ao comunismo, às suas ideologias e regras. Mulher brilhante, cientista e médica ginecologista, é tolhida e inclusive punida pelo regime.

A filha, nascida já sob a vigência desse sistema, não percebe a diferença entre liberdade e opressão. Vive sua vida tendo de cuidar da mãe, que considera mentalmente doente.

“A escravidão é liberdade” e “A liberdade é escravidão”, repete a mãe. O que isso significa?

Essa formulação me remeteu ao livro “Livre”, de Lea Ypi, que já postei aqui no blog. Nele, a autora albanesa, questiona o que de fato significa liberdade e se ela realmente existe. Ikstena também mobiliza referências a “1984”, de George Orwell, e a trechos de “Assim falava Zaratustra” de Friedrich Nietzsche, obras que circulavam clandestinamente no país por serem proibidas.

 Aos poucos, a filha começa a compreender o que ocorreu em seu país. O padrasto de sua mãe lhe conta parte dessa história a portas fechadas, sempre alertando que aquela conversa não poderia sair dali. O pai da mãe foi preso durante a guerra e, posteriormente, considerado traidor pelos soviéticos. Ele sobreviveu, no entanto, a avó se afastou completamente dele se casando novamente.

A mãe não consegue viver duas vidas, e expressa seu esgotamento diante dessa duplicidade:

 “o ódio por aquela existência dupla e hipócrita na qual as pessoas eram forçadas a interpretar dois papéis. Portar bandeiras nas paradas de maio e outubro, aclamando o Exército Vermelho, o exército mais poderoso do mundo, a revolução e o comunismo e, na cozinha de casa, enxaguar tudo com um bom trago, fazer o sinal da cruz e ficar esperando que os britânicos chegassem através do rio Daugava para libertar a Letônia das botas russas.”

Nascer em determinado tempo e lugar molda profundamente nossas vidas. A avó, de coragem extrema ao salvar a filha, acabou se acomodando; a mãe jamais aceitou não poder ser livre e viver sob censura soviética; e a filha, nascida já dentro do regime, sequer percebia plenamente a realidade ao seu redor, até conhecer, na adolescência, um professor diferente, mas que será obrigada a delatar.

A grande metáfora do livro é Bambi, um hamster que a avó comprou para a neta. Inicialmente, ela o soltava para correr livremente pela casa. Porém, quando a avó compra uma fêmea para lhe fazer companhia, ela tem filhotes, o macho perde toda a vitalidade e acaba devorando-os.

 A filha o castiga. Depois disso, sempre ela se aproxima, ele agitado, como se ainda esperasse poder sair da gaiola novamente. Mas ela nunca mais o liberta, e ele vai murchando até morrer.  

Sem compreender por que ele comeu os filhotes, a menina ouve da mãe uma explicação devastadora: talvez ele apenas quisesse impedir que eles também acabassem vivendo em uma gaiola. 

Nora Isktena nasceu em Riga, Letônia, em 1969 e faleceu na mesma localidade em 2026. Foi uma escritora e gestora cultural letã. 



sexta-feira, 17 de abril de 2026

TEXACO COMO TERRITÓRIO INSURGENTE: A INVERSÃO DO “NÃO-LUGAR”

 


TEXACO

PATRICK CHAMOISEAU

PINARD – 1ª ED. – 2026

504 páginas

O romance “Texaco” constrói um retrato da Martinica a partir da voz de Marie-Sophie Laborieux, que narra sua história e a de sua família a um urbanista, oferecendo, por meio dessa interlocução, uma outra versão da história da ilha – não a oficial, mas aquela vivida pelos pobres, pelos colonizados e pelos descendentes de escravizados.

 A narrativa se inscreve, portanto, em uma perspectiva contra-hegemônica; é pelo olhar dos marginalizados que se reconstitui cerca de um século e meio de história. A escrita de Patrick Chamoiseau é ao mesmo tempo poética e visceral, recusando qualquer idealização. A miséria aparece em sua materialidade: a sujeira, a fome, as doenças, a violência; mas também em sua dimensão relacional, marcada por formas de solidariedade, especialmente entre as mulheres, que sustentam a vida cotidiana.

A história se desenvolve na contramão da narrativa colonial, evidenciando as dores, as estratégias de sobrevivência e as resistências daqueles que foram historicamente silenciados. Marie-Sophie emerge como uma figura central dessa resistência: uma mulher cuja força reside na palavra – na capacidade de narrar, de nomear e, assim, de existir. Seu “nome secreto”, que antecede a fundação de Texaco, aponta para essa dimensão simbólica da linguagem como constitutiva da identidade.

A obra também dialoga com o pensamento anticolonial. Diferentemente do que ocorre em “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, onde se evidencia o desejo de assimilação e os efeitos psíquicos da colonização (o negro que deseja tornar-se branco e francês), Texaco enfatiza a persistência de uma identidade crioula. Marie-Sophie, ainda que em certos momentos se deixe seduzir pelo imaginário francês, não se deixa capturar por ele: não há, nela, vergonha de ser negra, mas afirmação.

Nesse ponto, é importante precisar que Aimé Césaire teve um papel ambíguo e decisivo: foi um dos responsáveis pela departamentalização da Martinica, integrando-a à França, mas também o principal formulador da negritude, movimento que reivindica o valor das culturas negras frente à lógica colonial. A tensão entre assimilação e afirmação identitária atravessa o romance.

A memória, em “Texaco”, constrói-se sobretudo pela tradição oral. Lendas, mitos, cantos e ditados compõem um universo simbólico que não deriva da cultura do colonizador, mas emerge como expressão própria do povo. O uso do crioulo, em coexistência com o francês, não é apenas um recurso estilístico, mas um gesto político: a língua torna-se campo de disputa entre duas visões de mundo.

Nesse sentido, o romance afirma o sujeito negro como autor de sua própria cultura, recusando a centralidade da língua e da tradição francesa. Se, em “Pele negra, máscaras brancas”, a colonização aparece como força de apagamento, capaz de produzir sujeitos desenraizados, aqui se evidencia a resistência: a identidade crioula se reinscreve pela memória, pela oralidade e pela ocupação do espaço.

Texaco, a comunidade que dá nome ao livro, não é apenas um lugar. É um território insurgente. Aquilo que poderia ser visto como um “não-lugar”, na chave de Marc Augé, revela-se o oposto: um espaço saturado de memória, vínculos e história, constantemente destruído e reconstruído por aqueles que se recusam a desaparecer.

Marie-Sophie, por fim, encarna a possibilidade de imaginar outro mundo. Sua trajetória aponta para a construção de um espaço que escapa, ainda que precariamente- à lógica colonial, racista e patriarcal: Texaco, enquanto comunidade, não é apenas um lugar físico, mas a materialização de um projeto de existência crioula.  

A Martinica permanece, até hoje, como departamento ultramarino francês – dado que reforça a atualidade das tensões apresentadas no romance.  


Patrick Chamoiseau nasceu em Fort-de-France, Martinica, em 1953. É um escritor martiniquês-francês. 


sexta-feira, 10 de abril de 2026

CORAGEM PARA CONTAR

 


UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO

GISÈLE PELICOT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026

208 páginas

A primeira coisa a dizer sobre esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique Pelicot, o pai de seus três filhos.

O choque da descoberta e a tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação – um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária francesa, vindos do meio rural.

 Ela conta como a família Pelicot era desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o típico papel de madrasta dos contos de fada:  protegia a própria filha e tratava mal a enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.  

A reação da filha, Caroline, chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva, se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas conseguem oferecer mais apoio à mãe.

No primeiro momento, os filhos assumem o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se desfaça de seu cachorro, que não suporta.  Gisèle acaba se mudando para a casa do filho caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.

Percebemos então o peso imenso que Gisèle precisa enfrentar.  Ela é a vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.

Sua força vem das lembranças felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é uma maneira de lidar com o trauma.

Isso não significa negação. Ela o denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que é necessário para o processo contra ele.

O que mais impressiona é a tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.  

O livro também mostra que uma violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que jamais voltarão a ser as mesmas.


Gisèle Pelicot nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do caso de estupro coletivo de Mazan.