Mostrando postagens com marcador Sudoeste Asiático. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sudoeste Asiático. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de fevereiro de 2026

DUAS VITÓRIAS, UM CORPO EM MOVIMENTO E A TRAVESSIA DO EXÍLIO

 


NUJEEN: A incrível jornada de uma garota que fugiu da guerra na Síria em uma

Cadeira de rodas.

NUJEEN MUSTAFA CHRISTINA LAMB

UNIVERSO DOS LIVROS – 1ª ED. 2017

240 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - SÍRIA 

Nujeen é uma jovem síria que percorreu quilômetros para escapar da guerra. Detalhe: em uma cadeira de rodas. Ela conta no livro todo esse percurso feito ao lado da irmã — em alguns momentos, também com outros parentes. Enquanto narra a travessia, tece comentários sobre a guerra na Síria, relembra o período em que ainda havia paz e vivia com sua família, e relata o momento em que o Estado Islâmico entra no país, com as atrocidades cometidas.

Seu olhar é o de uma adolescente: gosta de ver televisão e de ler, atividades que se tornaram algumas de suas poucas opções devido à deficiência — Nujeen não consegue andar. Foi assim, sobretudo por meio de filmes e, principalmente, de uma série americana, que aprendeu inglês.

Após chegar à Alemanha, ela precisa finalmente enfrentar sua deficiência, incentivada pelos professores, por sua guardiã e também por sua irmã, que foi um exemplo de amor durante todo o percurso, empurrando a cadeira. Precisa sair do comodismo no qual estava instalada e começar a frequentar a escola, fazer exercícios e ser acompanhada por um médico. Na Síria, Nujeen era uma pessoa isolada do convívio social fora do círculo familiar; isso muda em sua nova vida, onde precisou aceitar que não podia permanecer confinada em casa, apenas vendo TV ou navegando na internet.

Penso que, para Nujeen, houve duas vitórias: a primeira, conseguir chegar à Alemanha; a segunda, confrontar sua própria condição e aprender a aceitá-la — não como uma vítima, mas como alguém que aprende a viver com ela. Antes, acredito que estivesse bastante acomodada, pois não se movia nem para pegar algo ou até mesmo para pentear os cabelos, tarefas que passou a realizar a partir de então, o que foi, inclusive, um alívio para sua irmã.

Por outro lado, como acabei de ler a história de Doaa no livro Uma esperança mais forte que o mar, confesso que gostei mais do relato de Doaa. Mas é preciso considerar que aqui temos uma adolescente de 16 anos, enquanto Doaa, embora jovem, passou por uma situação extremamente dramática: o naufrágio e a sobrevivência por quatro dias e quatro noites no mar.

Ainda assim, os dois livros devem ser lidos. Em ambos, compreendemos por que tantos sírios são obrigados a deixar suas casas, seus lares e seus pais para buscar uma nova chance de vida — a possibilidade de viver com liberdade e com “normalidade”, como diz Nujeen.


                      Nujeen Mustafa nasceu em Kobani, Síria. É uma refugiada síria curdo e ativista 



                  Christina Lamb nasceu em Londres em 1965. É uma jornalista e escritora britânica. 



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

PALAVRA PERDIDA

 

PALAVRA PERDIDA

AUTOR – OYA BAYDAR

ORIGEM – TURCA

EDITORA – SÁ EDITORA -  2011

464 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: TURQUIA 

Palavra Perdida, de Oya Baydar, é menos um romance sobre um escritor em crise do que uma investigação sobre as condições históricas, políticas e afetivas que tornam a palavra impossível. A perda da palavra não aparece como um bloqueio individual ou psicológico, mas como efeito de um mundo em que a linguagem foi capturada: pelo mercado editorial, pelo nacionalismo, pela violência de Estado e pelas expectativas normativas que atravessam a família.

O escritor protagonista perde sua palavra quando passa a escrever aquilo que se espera dele. A literatura deixa de ser espaço de escuta da própria voz e se transforma em produto. A pergunta que atravessa o romance — se a palavra morre quando a voz interior se cala ou quando o sentido desaparece — desloca a crise da escrita para uma dimensão ética e política: escrever torna-se impossível quando já não se pode dizer a verdade do mundo que se habita.

Essa crise atravessa também a família. A esposa, cientista reconhecida, carrega o ressentimento de uma modernidade sempre suspeita aos olhos do Ocidente: mesmo premiada, precisa reiteradamente provar que a Turquia pode produzir ciência “avançada”. O filho, por sua vez, é esmagado pelo imperativo do sucesso. Incapaz de corresponder às expectativas parentais, ele se lança à guerra como fotógrafo, expondo o corpo e o olhar à violência extrema. Aqui, o romance sugere que a falha na transmissão da palavra entre gerações abre espaço para outras formas de inscrição no mundo — frequentemente autodestrutivas.

Ao deslocar a narrativa para o leste da Turquia, Baydar torna explícito aquilo que já estava latente: a palavra perdida é inseparável da violência política. A questão curda não aparece como pano de fundo, mas como núcleo ético do romance. Onde a palavra é proibida, silenciada ou criminalizada, resta o grito — “Mataram a criança!” — que atravessa a narrativa como um chamado irrecusável. A criança morta funciona como figura limite: quando o futuro é destruído, a linguagem entra em colapso.

O exílio final, na Noruega, não oferece uma solução redentora. A tentativa de escapar da violência revela seus limites: não há refúgio absoluto enquanto o mundo continuar organizado pela guerra, pela exclusão e pela negação da alteridade. O romance recusa tanto a reconciliação fácil quanto a nostalgia. O que resta é uma pergunta insistente sobre a possibilidade de recuperar a palavra sem negar o real que a destruiu.

Nesse sentido, Palavra Perdida é um romance profundamente contemporâneo. Fala da Turquia, mas também do mundo globalizado, onde modernidade e tradição coexistem em tensão permanente, e onde a palavra — literária, política, afetiva — está sempre ameaçada de esvaziamento. Baydar escreve contra o silêncio, não para oferecer respostas, mas para expor o custo humano de um mundo que prefere calar a escutar.



Oya Baydar é uma socióloga e escritora turca. Nasceu em Istambul em 1940.