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domingo, 31 de maio de 2026

FILME: A NEGRA DE ....


 

A NEGRA DE ....

Direção de Ousmane Sembène – 1972

Duração: 65 minutos

País – SenegalFrança


Baseado em um conto da coleção Voltaique de Sembène, de 1962, que por sua vez foi inspirado em um incidente da vida real. Embora, tenha sido mal recebido pelos críticos de cinema ocidentais em seu lançamento inicial, na década de 2010 passou a ser visto como um clássico do cinema mundial. 


Diouana (Mbissine Thérèse Diop) é uma jovem senegalesa que vive em Dakar, no Senegal, e está a procura de emprego como babá. Passa dos dias batendo de porta em porta até o dia em que conhece um rapaz, que se tornará seu namorado, e que a leva a um local - A Praça das Babás - onde estão várias mulheres aguardando para que sejam escolhidas por alguém para trabalhar. 

Surge então Madame (Anne-Marie Jeninek), uma francesa em busca de alguém para cuidar de seus filhos. As outras mulheres imediatamente cercam Madame, enquanto Diouana permanece sentada e, juntamente por isso, foi escolhida, por não ter sido agressiva nem exigente. 

Diouana fica muito feliz por conseguir um emprego e oferece aos patrões uma máscara tradicional de presente, que comprou de um menino por 50 francos. A máscara agrada aos patrões, que passam a exibi-la em uma parede de sua casa. A vida segue, Diouana cuida das crianças e, quando está de folga, encontra o namorado. 

Madame e Monsieu (Robert Fontaine) vão retornar para a França e convidam Diouana a ir com eles para continuar cuidando das crianças. Ela fica absolutamente encantada, vai conhecer a França. Conta para sua mãe, que autoriza que ela vá. Ela sonha com o dia em que pisará nesse país que colonizou o Senegal. 

Assim que chega, Madame a encarrega de trabalhos domésticos que ela não fazia em Dakar. As crianças estão de férias, e ela terá que limpar, cozinhar, lavar e passar, o que a deixa indignada, pois não foi para isso que foi contratada. A patroa passa a tratá-la com rispidez, ao contrário do que fazia no Senegal. Ela, que tanto sonhou em conhecer a França, não sai do apartamento, é praticamente uma prisioneira. Não conhece ninguém, não fala a língua, e Madame não a leva sequer para conhecer a cidade e as lindas lojas sobre as quais dizia à Diouana que havia na França e que a encantariam. 

Madame agora a trata praticamente como uma escravizada. Manda-a tirar seus sapatos de salto alto, dizendo: "Não esqueça de que você é uma empregada doméstica". Todo o racismo vem à tona, tanto o dela quanto o dos convidados que vão almoçar na casa dos patrões. Um deles a beija no bochecha e diz: "Nunca beijei uma negra antes". Durante o almoço, ouvimos as conversas dos franceses, marcadas por visões colonialistas e racistas. 

Chega uma carta da mãe de Diouana, que o Monsieur lê para ela. Na carta, a mãe pergunta por que não tem notícias dela e por que não enviou dinheiro, conforme combinado? Diouana a cada dia que passa fica mais deprimida. Levanta tarde, não faz mais nada, e Madame diz que, se ela não trabalhar não vai comer. 

Monsieur tenta animá-la e lhe paga seu salário, que ela não aceita. Em seguida ela recupera a máscara, arruma sua mala, e se mata na banheira da casa. 

A notícia do suicídio sai no jornal - A negra que se matou no apartamento de franceses. 

Monsieur então vai para Dakar, leva a mala e a máscara para entrega à mãe de Diouana. Também quer dar o dinheiro do salário, mas a mãe recusa. Ele vai embora e é seguido pelo menino que havia vendido a máscara, agora recuperada, que corre atrás dele usando-a sobre o rosto. 

O roteiro de A Negra de... foi rejeitado pelo então chefe do Departamento de Cinema do Ministério da Cooperação, que financiava filmes francófonos, provavelmente devido ao tema do filme. Sembène reduziu o filme para uma hora de duração para cumprir as exigências do Centre National du Cinéma e a produção foi feita com um orçamento muito baixo. Em 1981, Angela Davis observa (sobre as trabalhadoras domésticas): "O seu dilema trágico é brilhantemente captado no filme de Ousmane Sembène intitulado A Negra de...."

As críticas dos países colonizadores na época do lançamento do filme foram a favor de Monsieur que segundo eles era atencioso. A observação sobre a recepção de Monsieur mostra como muitos espectadores europeus da época enxergavam a violência colonial apenas quando ela era explícita. Como Monsieur não agride Diouana fisicamente e demonstra alguns gestos de aparente gentileza, parte da crítica ignorou que ele participa da mesma estrutura de exploração e confinamento que a destrói. A dominação nem sempre se apresenta como brutalidade aberta; muitas vezes ela se manifesta como paternalismo, tutela e "boa intenção".

A obra aborda questões raciais, a persistência das relações coloniais e os efeitos psicológicos da dominação colonial. Nesse contexto, a máscara presente ao longo da narrativa assume um forte valor simbólico, representando identidade, apropriação cultural e resistência.


Ousmane Sembène nasceu em Ziguinchor, Senegal, em 1923 e faleceu em Dakar, Senegal, em 2007. Foi um diretor senegalês e escritor. 

O filme está disponível na plataforma do Telecine. Acesso em maio de 2026.