BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025
239 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – HAITI
Uma mulher morta, estendida em
uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é
ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida
pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando
outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia
com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.
Intercalados aos pensamentos da
morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os
primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os
Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é
marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto,
ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao
contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem;
e mesmo a contragosto, aceitam a relação.
Aos poucos, nesse microuniverso
familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa
Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia
paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema,
o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis e
Posteriormente, é o filho de “Papa
Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até
ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do
ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria.
O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A
autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição
histórica e o período deixam claro de quem se trata.
O livro também apresenta
elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante
perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no
Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais
e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um
papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do
padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua
incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo
religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante
a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças.
Yanick Lahens nasceu em Porto
Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana.


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