quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE DITADURA, MISÉRIA E RESISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

BANHO DE LUA

YANICK LAHENS

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

239 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍSHAITI


Uma mulher morta, estendida em uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.

Intercalados aos pensamentos da morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto, ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem; e mesmo a contragosto, aceitam a relação.  

Aos poucos, nesse microuniverso familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema, o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis e

Posteriormente, é o filho de “Papa Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria. O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição histórica e o período deixam claro de quem se trata.  

O livro também apresenta elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças. 

                Yanick Lahens nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana. 



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