FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022
336 páginas
Em Feminismos: uma história global, Lucy
Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do
feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e
norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por
contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como
um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.
A obra percorre um amplo arco temporal, do
século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como
eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas
— direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe,
colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem,
reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o
feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser
compreendido como uma constelação de lutas.
Um dos grandes méritos do livro está
justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências
pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia,
revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em
diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com
ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a
práticas feministas enraizadas em realidades locais.
O livro também não silencia os conflitos
internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros,
entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos
radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o
feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e
simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.
Outro aspecto relevante é a articulação entre
feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas
dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora
conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou
instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas
também vulnerável às dinâmicas do poder.
Sem idealizações, Delap reconhece os limites e
contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua
capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob
novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo,
conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.
Feminismos: uma história global é um livro
fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou
narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua
historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa,
mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre
inacabada.
Lucy Delap é uma
historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de
gênero e feminismo.


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