A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra,
foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil
RODRIGO ALVAREZ
RECORD – 1ª ED. – 2023
256 páginas
Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói
uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história
de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e
cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem
atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de
nação.
O ponto de partida do livro é conhecido, mas
ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por
pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo
tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se
transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que
a cercam.
Um dos aspectos mais instigantes da obra é a
atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta,
escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro
mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a
santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada
disso é neutro.
Alvarez articula a devoção popular com o
contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e
democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de
acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e
eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da
santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.
O livro também evidencia a tensão constante
entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce
fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto.
Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma
santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura
hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.
Outro mérito do livro está em tratar o roubo
da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas
como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se
tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor
um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se
deseja preservar.
Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um
olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas
tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como
experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por
desigualdades profundas e exclusões históricas.
Aparecida é, assim, menos uma
biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa
mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e
negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da
política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas
conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.
Rodrigo
Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor
brasileiro


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