ROCCO – 1ª ED. - 1984
212 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÍNDIA
Deven é um professor
universitário que dá aulas em uma universidade particular, onde ensina
literatura hindi. Certo dia, Murad, um velho amigo, aparece inesperadamente com
uma proposta para entrevistar o grande poeta urdu Nur, que mora em Nova Delhi,
para sua revista.
Deven é apaixonado pela poesia
urdu e, mesmo alegando mil desculpas, como seu trabalho, sua família e seu
filho, acaba aceitando a proposta e vai até a casa do poeta para solicitar a
entrevista.
Sua expectativa é imensa; mal
pode esperar a hora de poder conhecer e conversar com o velho poeta. Porém, ao
chegar à casa deste, sofre uma grande decepção. O lugar é precário, e o poeta é
um bêbado que todas as noites reúne à sua volta bajuladores que, aos olhos de Deven,
são desprezíveis. É impossível falar com Nur, que está sempre rodeado dessas
pessoas. Deven retorna para sua cidade e desiste da entrevista.
No entanto, Murad acaba por
convencê-lo a tentar novamente e sugere que utilize um gravador para registrar
as conversas; depois, poderia escrever com calma em sua casa. O problema é onde
conseguir um gravador. Deven então conversa com o professor do departamento de
urdu de sua universidade, que fica encantado com a possibilidade de ter a voz
do poeta gravada e consegue que a instituição libere verba para a compra do gravador e das fitas.
É impactante perceber como Deven
se deixa manipular e não consegue reagir. Sua admiração pela poesia urdu e pelo
poeta é maior do que sua capacidade de confrontar a realidade e perceber o
quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e de seu desejo de salvar a poesia
urdu. Ele quer colocar o poeta e sua obra sob custódia; quer ser o guardião
dessa língua que está morrendo em uma Índia que se moderniza. O urdu era a
língua culta dos muçulmanos que habitavam grande parte do território indiano.
Com a independência da Índia do Império Britânico, também ocorreu a partilha do
território e a criação do Estado
do Paquistão, para onde se mudaram a maioria dos muçulmanos.
Deven apesar de ensinar hindi na
universidade, ainda escreve em urdu. Sua vida medíocre e seu casamento com uma
mulher que também alimentava ilusões, lembraram-me Madame Bovary; a diferença é
que ela se nutriu de filmes, e não de romances. As brigas do casal são
constantes. O contraste entre o Deven que é continuamente explorado pelos
outros e o Deven que encontramos em sua casa com a esposa, é grande. É nesse
espaço que ele se torna mesquinho, fala alto e chega até mesmo a agredi-la. Ela é seu espelho e confirma a ideia de que
“uma vítima não procura ajuda em outra vítima, procura alguém que a liberte”.
Ao confrontar a realidade da vida
do poeta, seu declínio e suas mazelas, Deven não consegue abandonar o sonho nem
a idealização que construiu, mesmo que isso o conduza à ruína. O urdu e sua
poesia funcionavam como uma tábua de salvação diante da vida ordinária que levava;
perceber que até isso se perdeu, é algo que ele não consegue enfrentar.
Deven é um personagem difícil de
aceitar, até porque sabemos que existem muitas pessoas assim. Em vários
momentos sentimos vontade de sacudi-lo para que reaja, para que não se deixe
manipular e explorar. Mesmo quando a sorte parece favorece-lo e sempre surge
alguém para ajuda-lo, ele encontra alguma maneira de estragar tudo logo em
seguida.
Nas últimas páginas do livro, a
autora, através de uma carta que é enviada a Deven, deixa evidente a sociedade
machista e patriarcal em que os personagens vivem e, principalmente, o quanto o
próprio Deven despreza intelectualmente as mulheres. E se ele nos passa a
impressão de ser medíocre e facilmente manipulável, também revela certa prepotência
ao acreditar que é ele quem tem sob custódia a poesia urdu, sem perceber que
essa mesma custódia também o mantém prisioneiro.
Anita Desai nasceu em Mussoori,
Índia, em 1937. É uma romancista indiana e professora emérita de Humanidades
John E. Burchard.

