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domingo, 14 de junho de 2026

LIVRO: SOB CUSTÓDIA

 


SOB CUSTÓDIA

ANITA DESAI

ROCCO – 1ª ED. - 1984

212 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÍNDIA

Deven é um professor universitário que dá aulas em uma universidade particular, onde ensina literatura hindi. Certo dia, Murad, um velho amigo, aparece inesperadamente com uma proposta para entrevistar o grande poeta urdu Nur, que mora em Nova Delhi, para sua revista.

Deven é apaixonado pela poesia urdu e, mesmo alegando mil desculpas, como seu trabalho, sua família e seu filho, acaba aceitando a proposta e vai até a casa do poeta para solicitar a entrevista.

Sua expectativa é imensa; mal pode esperar a hora de poder conhecer e conversar com o velho poeta. Porém, ao chegar à casa deste, sofre uma grande decepção. O lugar é precário, e o poeta é um bêbado que todas as noites reúne à sua volta bajuladores que, aos olhos de Deven, são desprezíveis. É impossível falar com Nur, que está sempre rodeado dessas pessoas. Deven retorna para sua cidade e desiste da entrevista.

No entanto, Murad acaba por convencê-lo a tentar novamente e sugere que utilize um gravador para registrar as conversas; depois, poderia escrever com calma em sua casa. O problema é onde conseguir um gravador. Deven então conversa com o professor do departamento de urdu de sua universidade, que fica encantado com a possibilidade de ter a voz do poeta gravada e consegue que a instituição  libere  verba para a compra do gravador e das fitas.

É impactante perceber como Deven se deixa manipular e não consegue reagir. Sua admiração pela poesia urdu e pelo poeta é maior do que sua capacidade de confrontar a realidade e perceber o quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e de seu desejo de salvar a poesia urdu. Ele quer colocar o poeta e sua obra sob custódia; quer ser o guardião dessa língua que está morrendo em uma Índia que se moderniza. O urdu era a língua culta dos muçulmanos que habitavam grande parte do território indiano. Com a independência da Índia do Império Britânico, também ocorreu a partilha do território e a criação do Estado do Paquistão, para onde se mudaram a maioria dos muçulmanos.

Deven apesar de ensinar hindi na universidade, ainda escreve em urdu. Sua vida medíocre e seu casamento com uma mulher que também alimentava ilusões, lembraram-me Madame Bovary; a diferença é que ela se nutriu de filmes, e não de romances. As brigas do casal são constantes. O contraste entre o Deven que é continuamente explorado pelos outros e o Deven que encontramos em sua casa com a esposa, é grande. É nesse espaço que ele se torna mesquinho, fala alto e chega até mesmo a agredi-la.  Ela é seu espelho e confirma a ideia de que “uma vítima não procura ajuda em outra vítima, procura alguém que a liberte”.

Ao confrontar a realidade da vida do poeta, seu declínio e suas mazelas, Deven não consegue abandonar o sonho nem a idealização que construiu, mesmo que isso o conduza à ruína. O urdu e sua poesia funcionavam como uma tábua de salvação diante da vida ordinária que levava; perceber que até isso se perdeu, é algo que ele não consegue enfrentar.

Deven é um personagem difícil de aceitar, até porque sabemos que existem muitas pessoas assim. Em vários momentos sentimos vontade de sacudi-lo para que reaja, para que não se deixe manipular e explorar. Mesmo quando a sorte parece favorece-lo e sempre surge alguém para ajuda-lo, ele encontra alguma maneira de estragar tudo logo em seguida.

Nas últimas páginas do livro, a autora, através de uma carta que é enviada a Deven, deixa evidente a sociedade machista e patriarcal em que os personagens vivem e, principalmente, o quanto o próprio Deven despreza intelectualmente as mulheres. E se ele nos passa a impressão de ser medíocre e facilmente manipulável, também revela certa prepotência ao acreditar que é ele quem tem sob custódia a poesia urdu, sem perceber que essa mesma custódia também o mantém prisioneiro.  

Anita Desai nasceu em Mussoori, Índia, em 1937. É uma romancista indiana e professora emérita de Humanidades John E. Burchard.