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terça-feira, 30 de junho de 2026

LIVRO: QUANDO AS MONTANHAS CANTAM

 


QUANDO AS MONTANHAS CANTAM

NGUYEN PHAN QUÉ MAI

ALMA DOS LIVROS – 2024

360 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VIETNÃ


A narrativa inicia-se em Hanoi, em 1972, durante a Guerra do Vietnã. Huong é uma menina que vive com sua avó, pois sua mãe e seu pai estão lutando. As ofensivas estadunidenses aumentam e elas fogem para as montanhas, de onde assistem Hanoi arder em chamas.

Quando finalmente podem retornar à cidade, encontram sua casa totalmente destruída e decidem reerguê-la. É durante essa reconstrução que a avó, Diju Lan, começa a lhe contar sua vida.

Voltamos ao período pós-Primeira Guerra Mundial, quando o Vietnã estava sob domínio francês, em uma área colonizada denominada Indochina. Os bisavós de Huong vivem em uma aldeia e são prósperos e respeitados. Diju Lan é uma criança feliz ao lado de seu irmão. Com a Segunda Guerra Mundial, surgem os japoneses, que invadem o Vietnã, trazendo o horror e a Grande Fome. A avó assiste os pais serem assassinados: o pai, pelos japoneses, e a mãe, por um homem cruel da aldeia durante a grande fome.

Diju Lan decide mudar de trabalho para conseguir reerguer a casa e ter melhores condições de vida. Elas vivem no norte do Vietnã e, portanto, sob um governo comunista. Quando deixa seu emprego de professora, muito mal remunerado, e passa a viver do mercado negro, comercializando produtos, é excluída da comunidade por seus vizinhos que não lhe dirigem mais a palavra e proíbem os filhos de brincar com Huong. Para os comunistas, os comerciantes faziam parte da pequena burguesia e eram indignos.

Diju Lan ignora os vizinhos, reconstrói sua casa e passa a ter uma vida melhor. Uma noite, durante um temporal, alguém bate à porta da casa. É a mãe de Huong que retorna da guerra, que já está em seus momentos finais. Ela está destroçada por tudo o que viu e precisou fazer para sobreviver.

Chamou-me a atenção um antigo costume das mulheres de tingirem os dentes de preto, considerado um símbolo de beleza, elegância e status social. Normalmente, o processo era realizado na puberdade e, segundo Huong, era doloroso devido à mistura utilizada. Ela não passou por isso.

A autora alterna o tempo presente - o fim da guerra com os EUA e a reunificação do Vietnã sob um governo comunista com todas as consequências que isso acarretou - e a história da família contada pela avó, ambientada no período após a invasão japonesa e da Grande Fome, quando os Viet Minh conseguiram libertar as aldeias dos japoneses. Os Viet Minh eram um grupo guerrilheiro comunista e nacionalista que lutou contra os japoneses e franceses que ocupavam seu território.

Vamos, aos poucos, conhecendo a história do Vietnã, marcada por lutas, guerras, sofrimento e fome, mas também somos apresentados à sua cultura, culinária, tradições e religiosidade, especialmente ao culto aos ancestrais. O romance aborda ainda as dissidências internas entre aqueles que defendiam uma democracia e os comunistas, bem como as imposições dos comunistas e a vigilância exercida sobre a população, que impunha um pensamento de inspiração stalinista. Era preciso eliminar a burguesia e tudo que remetesse ao seu modo de vida, inclusive o comércio era condenado, todos deveriam comprar apenas nos armazéns do governo.

Diju Lan conta para sua neta o episódio da Reforma Agrária imposta pelos comunistas e o que sua família sofreu com isso. Sempre foram generosos com todos na aldeia em que viviam, trabalharam muito junto aos empregados e socorreram vários deles durante a Grande Fome. No entanto, instigados pelos Viet Minh, aqueles que não possuíam terras ou trabalho revoltaram-se contra os proprietários, inclusive muitos que haviam sido ajudados pela família. Novamente, Diju Lan perde tudo e precisa fugir com seus filhos, abandonando sua casa e sua história.  

O relato sobre a guerra contra os americanos, feito pelo tio de Huong, é dilacerante. O exército do Norte, para chegar ao Sul, caminhou milhares de quilômetros em meio à selva vietnamita, sofrendo bombardeios e perdendo inúmeras vidas. Ao mesmo tempo, temos a revelação da extraordinária beleza do interior do país, como o complexo de cavernas de Phong Nha-Ke Bang, atualmente um Parque Nacional e sítio de Patrimônio Mundial Natural da Unesco.

Outro tio de Huong que fugiu para não ser morto e se separou da família durante a Reforma Agrária, ao ser finalmente encontrado relata um outro lado da história do Vietnã: o daqueles que que fugiram para o Sul e tiveram que lutar contra seus próprios irmãos do Norte durante a guerra com os EUA.

O livro traz uma história do Vietnã que raramente é contada e pouco documentada, narrada a partir de dentro do país e relatada pelos que viviam no Norte. Dispomos de inúmeros relatos sobre a Guerra do Vietnã sob o ponto de vista estadunidense, mas ler este livro é conhecer o outro lado da história  e ouvir a voz daqueles que habitavam o Vietnã e sofreram desde a colonização francesa, passando pela invasão japonesa,  até a guerra e a reunificação do país, com todas as consequências que isto acarretou para o povo vietnamita.

 Nguyen Phan Qué Mai baseou-se em suas próprias memórias, nas lembranças de sua família e nos relatos de de outros vietnamitas, além das pesquisas que realizou sobre a história de seu país.

Algumas observações:

Um aspecto que também me chamou a atenção foi a descrição da Reforma Agrária. No romance, não são apenas os grandes proprietários que se tornam alvo da violência, mas também aqueles que possuíam pequenas propriedades ou haviam conseguido alguma estabilidade econômica. Os primeiros a aderirem ao processo de perseguição são justamente muitos dos que não possuíam terras ou estavam desempregados, inclusive várias pessoas que sido ajudadas pela família de Diju Lan, e ainda assim, participam ativamente das humilhações, da violência e das execuções públicas.

Essa passagem remete a um fenômeno recorrente da história. Como observou Gustave Le Bon ao analisar o comportamento das multidões, o indivíduo, quando inserido em uma turba, pode agir de forma muito diferente daquela que teria isoladamente. Ao mesmo tempo, o romance sugere algo igualmente humano e infelizmente recorrente: momentos de ruptura política e social frequentemente liberam ressentimentos antigos, invejas, rivalidades e desejos de vingança pessoal que encontram justificativa em uma causa coletiva. Situações semelhantes aparecem em diversos contextos históricos, como nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial, quando antigos vizinhos denunciavam judeus à Gestapo não apenas por convicção ideológica, mas também movidos por interesses pessoais, inveja ou acertos de contas. O romance mostra com sensibilidade como as grandes transformações históricas também revelam as zonas mais sombrias das relações humanas.

O livro aborda diferentes períodos históricos do Vietnã:

- A colonização francesa

- A ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial

- A Grande Fome de 1944 a 1945

- A guerra contra a França

- A Reforma Agrária no Norte, com julgamentos públicos, execuções, confiscos de terras e campanhas de denúncias

- A divisão do país

- A Guerra do Vietnã

- A reunificação em 1975

- Os campos de reeducação, a coletivização da economia, o controle ideológico e a vigilância sobre a população.


Nguyen Phan Qué Mai nasceu no Vietname do Norte em 1973. É uma poetisa e romancista vietnamita. 


 


terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.