ELES TE PEGARAM TAMBÉM
DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026
224 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL
Hans é um ex-policial que vive em
uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a
serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.
Zoé cresceu enfrentado a
violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de
sua família para Hans.
Com a pandemia, que podemos supor
ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento,
ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse
finalmente tomará coragem para contar a sua.
É através desses relatos e
memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.
As lembranças de ambos abordam o
período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa,
flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o
território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.
Hans pertence a uma família bôer,
enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e
depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo
com ela.
É através dos relatos dos dois
que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando
no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a
assumir a presidência do país.
O título do livro se refere a uma
frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia
mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se
à crença na superioridade racial e ao racismo.
O que mais me tocou foi o
contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado
por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de
superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo
ficou nele que o levou a se torturar na velhice.
A ideologia nunca consegue apagar
completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la,
mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse
resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse
existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.
Já Zoé, vítima desse racismo, a
questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência
defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.
Ao alternar as memórias de Hans e
Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e
pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento,
arrependimento e redenção.
Futhi Ntshingila nasceu em
Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana.

