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quinta-feira, 4 de junho de 2026

FILME: A VOZ DE HIND RAJAB


 

A VOZ DE HIND RAJAB

Direção: Kaouther Ben Hania - 2025 

Duração: 1h 30 min

País: Tunísia


É muito difícil falar deste filme por várias razões. Em primeiro lugar, por se tratar de uma obra que, mesmo sendo uma dramatização, utiliza as gravações originais da criança pedindo ajuda e repetindo sem parar: “Vem me buscar! Estou com medo!”

Em segundo lugar, devido ao contexto atual, no qual se trava um embate entre o que é considerado antissemitismo e o que é entendido como antissionismo. O Ocidente, de modo geral, se posiciona ao lado de Israel, sendo que as vozes dissidentes, em muitos lugares, enfrentam detenções, expulsões de Universidades e outras formas de retaliação.

O impacto do filme é avassalador. Não tenho conhecimento de nenhum outro que traz literalmente ao vivo, o desespero de uma criança em uma guerra. Temos muitos filmes realizados posteriormente com sobreviventes, mas aqui acompanhamos o drama praticamente em tempo real.

Uma menina palestina de 5 anos chamada Hind Rajab ficou sozinha e presa dentro de um carro em Gaza após todos seus familiares terem sido mortos pelo exército de Israel quando tentavam sair de uma região sob ataque, em janeiro de 2024.

Durante horas, ela manteve contato por telefone com o Crescente Vermelho na Cisjordânia, distante 83 km de onde ela se encontrava. Ela implorava ajuda. Ao fundo, ouvem-se tiros. Ela está escondida sob os corpos de seus familiares.

O desespero das pessoas que estão do outro lado da linha. Em vários momentos, a impotência as leva ao descontrole. A ambulância estava a apenas oito minutos do local onde a criança se encontrava.  Havia, porém, toda uma burocracia exigida por Israel para eles poderem chegar até ela.

Era necessária uma coordenação junto a Cruz Vermelha, o Ministério da Saúde e o Exército de Israel. Após uma espera de 3 horas, chega o sinal verde para a ambulância seguir até o local. Quando os socorristas finalmente chegaram, perderam o contato tanto com a menina quanto com a equipe de resgate.  

O filme encerra-se nesse momento. O que sabemos depois vem das notícias que podemos ler em jornais e dos letreiros finais do filme.

 Somente em fevereiro, após o fim do cerco naquela região, as equipes de resgate conseguiram chegar ao local. Encontraram a ambulância destruída e os corpos dos dois socorristas e um pouco mais à frente, o carro da família e o corpo da criança. O carro foi atingido por mais de 350 tiros, segundo noticiado em jornais.

A sensação que permanece é a de uma imensa crueldade. Exigir durante horas que se estabeleça uma coordenação com rota segura para o resgate e depois simplesmente alvejar a ambulância e assassinar uma criança.

As normas internacionais de guerra determinam que ambulâncias sejam protegidas, equipes médicas não podem ser alvos em conflitos e civis não devem ser atacados diretamente. Hospitais devem, na medida do possível, serem preservados. Israel ignora essas normas sob a alegação de que o Hamas se esconde nesses locais e se utiliza de ambulâncias para se deslocar.

O que torna o filme quase insuportável não é apenas a morte da criança, mas a longa espera. Durante horas, ouvimos Hind pedir ajuda. Sabemos que ela está viva, sabemos que está com medo, sabemos que há pessoas tentando alcançá-la. Ainda assim, o socorro não chega. O espectador termina o filme com uma sensação profunda de impotência diante de uma violência que parece ter perdido qualquer limite moral.

 

                               Kaouther Bem Hania nasceu em Sidi Bouzid, Tunísia, em 1977.