A VOZ DE HIND RAJAB
Direção: Kaouther Ben Hania - 2025
Duração: 1h 30 min
País: Tunísia
É muito difícil falar deste filme
por várias razões. Em primeiro lugar, por se tratar de uma obra que, mesmo
sendo uma dramatização, utiliza as gravações originais da criança pedindo ajuda
e repetindo sem parar: “Vem me buscar! Estou com medo!”
Em segundo lugar, devido ao
contexto atual, no qual se trava um embate entre o que é considerado antissemitismo
e o que é entendido como antissionismo. O Ocidente, de modo geral, se posiciona
ao lado de Israel, sendo que as vozes dissidentes, em muitos lugares, enfrentam
detenções, expulsões de Universidades e outras formas de retaliação.
O impacto do filme é avassalador.
Não tenho conhecimento de nenhum outro que traz literalmente ao vivo, o
desespero de uma criança em uma guerra. Temos muitos filmes realizados
posteriormente com sobreviventes, mas aqui acompanhamos o drama praticamente em
tempo real.
Uma menina palestina de 5 anos
chamada Hind Rajab ficou sozinha e presa dentro de um carro em Gaza após todos
seus familiares terem sido mortos pelo exército de Israel quando tentavam sair
de uma região sob ataque, em janeiro de 2024.
Durante horas, ela manteve
contato por telefone com o Crescente Vermelho na Cisjordânia, distante 83 km de
onde ela se encontrava. Ela implorava ajuda. Ao fundo, ouvem-se tiros. Ela está
escondida sob os corpos de seus familiares.
O desespero das pessoas que estão
do outro lado da linha. Em vários momentos, a impotência as leva ao
descontrole. A ambulância estava a apenas oito minutos do local onde a criança
se encontrava. Havia, porém, toda uma burocracia
exigida por Israel para eles poderem chegar até ela.
Era necessária uma coordenação
junto a Cruz Vermelha, o Ministério da Saúde e o Exército de Israel. Após uma
espera de 3 horas, chega o sinal verde para a ambulância seguir até o local. Quando
os socorristas finalmente chegaram, perderam o contato tanto com a menina
quanto com a equipe de resgate.
O filme encerra-se nesse momento.
O que sabemos depois vem das notícias que podemos ler em jornais e dos
letreiros finais do filme.
Somente em fevereiro, após o fim do cerco naquela
região, as equipes de resgate conseguiram chegar ao local. Encontraram a
ambulância destruída e os corpos dos dois socorristas e um pouco mais à frente,
o carro da família e o corpo da criança. O carro foi atingido por mais de 350
tiros, segundo noticiado em jornais.
A sensação que permanece é a de
uma imensa crueldade. Exigir durante horas que se estabeleça uma coordenação
com rota segura para o resgate e depois simplesmente alvejar a ambulância e
assassinar uma criança.
As normas internacionais de
guerra determinam que ambulâncias sejam protegidas, equipes médicas não podem
ser alvos em conflitos e civis não devem ser atacados diretamente. Hospitais
devem, na medida do possível, serem preservados. Israel ignora essas normas sob
a alegação de que o Hamas se esconde nesses locais e se utiliza de ambulâncias
para se deslocar.
O que torna o filme quase
insuportável não é apenas a morte da criança, mas a longa espera. Durante
horas, ouvimos Hind pedir ajuda. Sabemos que ela está viva, sabemos que está
com medo, sabemos que há pessoas tentando alcançá-la. Ainda assim, o socorro não
chega. O espectador termina o filme com uma sensação profunda de impotência
diante de uma violência que parece ter perdido qualquer limite moral.
Kaouther Bem Hania nasceu em Sidi Bouzid, Tunísia, em 1977.


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