A LITERATURA “FEMININA”
PESQUISA REALIZADA EM 2025
Dediquei um
tempo a pesquisar sobre a literatura das mulheres. Os parâmetros que utilizei
foram os seguintes:
- Encontrar uma
escritora por país – considerando os 206 países/nações do Comitê Olímpico
Internacional (COI).
- Verificar se
havia traduções para o português de pelo menos uma escritora por país.
- Verificar
quais escritoras (de qual país) eram mais traduzidas no Brasil.
- Quais temas
são mais abordados pelas mulheres que escrevem e quais não.
- Procurar uma
resposta para compreender porque os homens leem pouco as mulheres
- Analisar quais
são traduzidas e tentar compreender as preferências.
- Considerar o
que as mulheres brasileiras procuram para ler
- A literatura
feminina é empobrecida ou é o mundo que as leem que é empobrecido?
- Existe
literatura feminina ou isso é uma criação do mercado literário exotizando a
produção feminina?
Os primeiros
resultados foram os seguintes:
Dos 206 países
constatei que temos 101 países que não possuem traduções para o português, no
entanto, temos em inglês, francês e espanhol. São raros os locais onde não haja
uma mulher escrevendo.
- O MERCADO
EDITORIAL BRASILEIRO E AS TRADUÇÕES
A maior parte
das traduções para o português são de autoras europeias (Norte da Europa) e
estadunidenses. É pouco o que temos da África, da Ásia, da Rússia, da Oceania e
mesmo da América Latina. Diante disso vemos que há um viés colonialistas,
eurocentrado e comercial. Agora, a pergunta é outra: isso é imposto pelas
editoras ou elas estão atendendo ao que as mulheres buscam para ler?
Qual a fonte da
influência sobre o que as mulheres escolhem ler? São as editoras e seu
marketing? São os influencers? É o Tik Tok? É notório que praticamente não
temos mais críticos literários sérios que dizem realmente o que pensam de um
livro ou autor/a. As livrarias colocam bancadas logo na entrada onde
encontramos: autoajuda, livros religiosos e os que estão em alta no mercado, os
chamados best-sellers.
Os três filtros
das traduções que definem quem chega, quem não chega e por que podem ser os
seguintes:
-
Colonial/racial
-
Eurocêntrico/Geopolítico
-
Mercadológico/Editorial
Um outro ponto a
ser considerado são os tradutores disponíveis, no entanto, como temos as
traduções em inglês, francês e espanhol, há possibilidade de tradução, mesmo
que não seja direto do original, o que aliás sempre ocorreu.
Ou seja: não basta que
existam autoras, elas precisam passar pelo funil
produzir → circular → ser traduzida → ser publicada
→ ser distribuída → ser lida
E cada etapa tem um porteiro
(gatekeeper). O sistema editorial é um sistema de seleção geopolítica do que é
considerado “universal”. Mulheres chegam menos porque:
- produzem menos em
termos quantitativos? (histórico)
- publicam menos?
(estrutura)
- são traduzidas menos?
(mercado)
- são distribuídas menos?
(economia)
- são legitimadas menos?
(crítica)
- são ensinadas menos?
(academia)
- OS TEMAS DOS LIVROS
ESCRITOS POR MULHERES
Quais os
principais temas que encontramos na literatura escrita por mulheres?
- A
experiência de si mesma
- Sobre a
maternidade
- Sofrimentos,
racismo e traumas de guerra
- Relações
amorosas – dificuldades, desencontros, violência
- Família
- Temas
feministas
- Temas
subjetivos
OBS: não
incluo nessa análise livros escritos por mulheres que considero patriarcais, ou
seja, romances com homens salvadores, ou o que comumente se chama de príncipe
encantado.
É notório que há
pouco foco em temas humanos universais. Isso é o que encontramos no catálogo
traduzido.
Mas é preciso
perguntar: isso ocorre porque o mercado seleciona as mulheres que escrevem o
que o mercado quer que elas escrevam? Ou seja, o que os homens querem que as
mulheres escrevam?
Mulheres que
tratam de temas universais são traduzidas? Ou apenas as que atendem ao que o
mercado quer? Se uma escritora africana escreve sobre política, economia,
matemática ou psicologia, ela é traduzida? Se ela escreve sobre maternidade,
estupros, guerra, casamentos, ela é traduzida.
Por outro lado,
há na escrita das mulheres uma necessidade de resgate histórico e de tratar de
problemas, sofrimentos e enfrentamentos. Um homem não vai escrever sobre a dor
de uma mulher estuprada. Um homem não vai escrever sobre questões de uma
lésbica. Um homem não escreve sobre maternidade.
- OS HOMENS LEEM
MULHERES?
Por que os
homens leem pouco as mulheres?
- homens leem homens para
ler “o humano”
- mulheres leem homens
para ler “o humano”
- mulheres leem mulheres
para ler “a mulher”
- homens quase nunca leem
mulheres porque seria “ler o feminino”
A literatura feminina ainda
é percebida como gênero, a masculina como literatura.
Homens não gostam de ler
sobre vulnerabilidade, intimidade, maternidade, corpo e trauma e não toleram
quando as mulheres falam da violência praticada pelos homens. Isso cria um
desinteresse defensivo.
Homens leem aquilo que dá
status cultural entre outros homens. A leitura é performativa. Ler mulheres
ainda não é símbolo de status, com exceções (Virginia Woolf, Lispector, etc.)
Quando mulheres escrevem
sobre o “universal humano”, o mercado e a crítica tendem a rebaixar a categoria
universal para particular. Mulheres leem romances de formação masculinos,
homens não leem romances de formação femininos. O masculino é o universal.
Homens quando escrevem são existenciais, as mulheres serão classificadas em
algum termo como maternidade, família ou outro.
- QUAL O PERFIL DA LEITORA
BRASILEIRA
O que as mulheres
brasileiras querem ler?
Aqui o mercado editorial
aponta os segmentos:
Romance comercial (sobretudo
amor romântico patriarcal)
Autoajuda (desenvolvimento pessoal / espiritualidade)
Feminismo pop (Didático, empoderamento)
Memórias / experiências femininas
Literatura de trauma / violência
Romance histórico + mulheres (crescente)
Thriller / true crime (alta demanda)
LGBTQIA+ (nichos urbanos)
Religiosos e/ou espirituais
As mulheres brasileiras não
são incentivadas a ler os grandes clássicos, ficção científica, literatura de
ciência, leem os religiosos, mas não os teológicos.
Ou seja: a mulher brasileira
é incentivada a ler o que a forma feminina contemporânea supostamente deve ser:
autocentrada, terapêutica, romântica, resiliente.
“Querem romances de amor
patriarcais?”
Sim, massivamente. É o maior
segmento.
É um narcótico patriarcal barato: a fantasia que concilia opressão com desejo.
“Querem livros feministas?”
Sim, mas feminismo
digestível. Bell Hooks vende. Silvia Federici vende. Judith Butler não vende.
“Querem reflexão universal
humana?”
Muito menos. E quando
querem, compram homens.
- QUANDO OS HOMENS LEEM AS
MULHERES
A pesquisa internacional
mostra que homens leem mulheres quando:
- há legitimação prévia do cânone
(Woolf, Lispector, Sontag, Bishop) - há interesse sexual/cultural pelo corpo
feminino
(Anaïs Nin, Erica Jong) - há tema neutro/universal
(Ursula Le Guin → ciência, política, cosmologia) - há mediação acadêmica
(curso de literatura, universidades) - há mediação afetiva
(mulher indica, mãe indica, namorada indica)
Ou seja: o homem raramente
“descobre” uma mulher sozinho.
E se a literatura feminina
contemporânea não for “feminina”, mas estiver apenas sendo lida e publicada
como tal?
Ou seja, o problema não está
nas mulheres autoras, mas no sistema de leitura, que produz a mulher como
subgênero literário.
Agora vamos levantar algumas
hipóteses
H1 — A literatura feminina
contemporânea não é um gênero, mas uma categoria editorial construída.
As mulheres não escrevem
apenas sobre mulheres; é o mercado que classifica o que elas escrevem como
“feminino”.
Consequência.: o sistema
des-universaliza a mulher.
H2 — O cânone masculino é
universal; o cânone feminino é particular.
O universal pertence aos
homens por privilégio histórico, não por mérito intrínseco.
Consequência.: ler homens é
ler “o humano”; ler mulheres é ler “o íntimo”.
H3 — O mercado editorial
opera como um dispositivo de gênero, filtrando o que pode ser considerado
universal.
Mesmo quando mulheres
escrevem sobre política, metafísica, cosmologia, ciência, economia ou história,
raramente são traduzidas.
Consequência.: cria-se a
impressão falsa de que “mulheres não escrevem sobre o universal”.
H4 — A circulação
internacional de mulheres é governada por três vetores: colonialidade,
eurocentrismo e mercadoria.
A literatura feminina global
só chega ao Brasil se vier pelo eixo de consagração Norte → Sul.
Logo: a mulher
latino-americana não lê a mulher latina — lê a mulher europeia e anglo-saxã.
H5 — A experiência feminina
é exotizada como mercadoria literária.
Trauma, corpo, maternidade e
violência se tornam os grandes temas vendáveis das mulheres.
Consequência.: o sofrimento
vira capital cultural.
H6 — O feminino ainda é
consumido como testemunho, e não como pensamento.
Quando uma mulher escreve, o
mercado lê como relato; quando um homem escreve, lê como teoria.
Esse é um dos paradoxos mais
profundos.
H7 — A mulher brasileira lê
para se reconhecer, não para se projetar.
Sua leitura ainda é
intimista, terapêutica, relacional.
Isso é um traço
histórico-cultural, não biológico.
H8 — O romantismo patriarcal
é o principal opióide literário feminino.
A mulher brasileira lê
romances para experimentar, em fantasia, a conciliação impossível entre amor e
opressão.
H9 — O feminismo pop compete
com o romance patriarcal: são narcóticos opostos.
Um oferece conforto
emocional, o outro oferece consciência política.
Ambos vendem muito; ambos
falam com a mulher urbana contemporânea.
H10 — O Brasil é um país
literariamente atlântico, não continental.
Olha para a Europa e EUA;
não olha para a América Latina.
Isso vale para homens e
mulheres, mas no caso das mulheres é mais grave porque apaga a experiência
comum colonial.
H11 — A literatura indígena
feminina rompe o sistema universal-particular.
As escritoras indígenas
falam de cosmo, ética, política, ecologia, mundo — não do íntimo.
Consequência.: são mais
universais que o universal europeu.
H12 — A tradução é a
verdadeira fronteira do pensamento.
O que não é traduzido, não
existe.
O que é traduzido, é moldado.
O que é traduzido por homens, é reinterpretado.
A luta do século XXI não é
pela voz da mulher, mas pela universalidade da mulher.
Esta pesquisa ainda é uma
análise inicial, mas optei por publicar meus primeiros apontamentos. Convido a
todos que desejem colaborar que teçam comentários ou me forneçam dicas para a
pesquisa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário