domingo, 17 de maio de 2026

A LITERATURA “FEMININA”

 


A LITERATURA “FEMININA”

PESQUISA REALIZADA EM 2025

 

Dediquei um tempo a pesquisar sobre a literatura das mulheres. Os parâmetros que utilizei foram os seguintes:

- Encontrar uma escritora por país – considerando os 206 países/nações do Comitê Olímpico Internacional (COI).

- Verificar se havia traduções para o português de pelo menos uma escritora por país.

- Verificar quais escritoras (de qual país) eram mais traduzidas no Brasil.

- Quais temas são mais abordados pelas mulheres que escrevem e quais não.

- Procurar uma resposta para compreender porque os homens leem pouco as mulheres

- Analisar quais são traduzidas e tentar compreender as preferências.

- Considerar o que as mulheres brasileiras procuram para ler

- A literatura feminina é empobrecida ou é o mundo que as leem que é empobrecido?

- Existe literatura feminina ou isso é uma criação do mercado literário exotizando a produção feminina?

 

Os primeiros resultados foram os seguintes:

Dos 206 países constatei que temos 101 países que não possuem traduções para o português, no entanto, temos em inglês, francês e espanhol. São raros os locais onde não haja uma mulher escrevendo.

- O MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO E AS TRADUÇÕES

A maior parte das traduções para o português são de autoras europeias (Norte da Europa) e estadunidenses. É pouco o que temos da África, da Ásia, da Rússia, da Oceania e mesmo da América Latina. Diante disso vemos que há um viés colonialistas, eurocentrado e comercial. Agora, a pergunta é outra: isso é imposto pelas editoras ou elas estão atendendo ao que as mulheres buscam para ler?

Qual a fonte da influência sobre o que as mulheres escolhem ler? São as editoras e seu marketing? São os influencers? É o Tik Tok? É notório que praticamente não temos mais críticos literários sérios que dizem realmente o que pensam de um livro ou autor/a. As livrarias colocam bancadas logo na entrada onde encontramos: autoajuda, livros religiosos e os que estão em alta no mercado, os chamados best-sellers.

Os três filtros das traduções que definem quem chega, quem não chega e por que podem ser os seguintes:

- Colonial/racial

- Eurocêntrico/Geopolítico

- Mercadológico/Editorial

Um outro ponto a ser considerado são os tradutores disponíveis, no entanto, como temos as traduções em inglês, francês e espanhol, há possibilidade de tradução, mesmo que não seja direto do original, o que aliás sempre ocorreu.

Ou seja: não basta que existam autoras, elas precisam passar pelo funil

produzir → circular → ser traduzida → ser publicada → ser distribuída → ser lida

 

E cada etapa tem um porteiro (gatekeeper). O sistema editorial é um sistema de seleção geopolítica do que é considerado “universal”. Mulheres chegam menos porque:

  • produzem menos em termos quantitativos? (histórico)
  • publicam menos? (estrutura)
  • são traduzidas menos? (mercado)
  • são distribuídas menos? (economia)
  • são legitimadas menos? (crítica)
  • são ensinadas menos? (academia)

- OS TEMAS DOS LIVROS ESCRITOS POR MULHERES

Quais os principais temas que encontramos na literatura escrita por mulheres?

- A experiência de si mesma

- Sobre a maternidade

- Sofrimentos, racismo e traumas de guerra

- Relações amorosas – dificuldades, desencontros, violência

- Família

- Temas feministas

- Temas subjetivos

OBS: não incluo nessa análise livros escritos por mulheres que considero patriarcais, ou seja, romances com homens salvadores, ou o que comumente se chama de príncipe encantado.

É notório que há pouco foco em temas humanos universais. Isso é o que encontramos no catálogo traduzido.

Mas é preciso perguntar: isso ocorre porque o mercado seleciona as mulheres que escrevem o que o mercado quer que elas escrevam? Ou seja, o que os homens querem que as mulheres escrevam?

Mulheres que tratam de temas universais são traduzidas? Ou apenas as que atendem ao que o mercado quer? Se uma escritora africana escreve sobre política, economia, matemática ou psicologia, ela é traduzida? Se ela escreve sobre maternidade, estupros, guerra, casamentos, ela é traduzida.

Por outro lado, há na escrita das mulheres uma necessidade de resgate histórico e de tratar de problemas, sofrimentos e enfrentamentos. Um homem não vai escrever sobre a dor de uma mulher estuprada. Um homem não vai escrever sobre questões de uma lésbica. Um homem não escreve sobre maternidade.

- OS HOMENS LEEM MULHERES?

Por que os homens leem pouco as mulheres?

  • homens leem homens para ler “o humano”
  • mulheres leem homens para ler “o humano”
  • mulheres leem mulheres para ler “a mulher”
  • homens quase nunca leem mulheres porque seria “ler o feminino”

A literatura feminina ainda é percebida como gênero, a masculina como literatura.

Homens não gostam de ler sobre vulnerabilidade, intimidade, maternidade, corpo e trauma e não toleram quando as mulheres falam da violência praticada pelos homens. Isso cria um desinteresse defensivo.

Homens leem aquilo que dá status cultural entre outros homens. A leitura é performativa. Ler mulheres ainda não é símbolo de status, com exceções (Virginia Woolf, Lispector, etc.)

Quando mulheres escrevem sobre o “universal humano”, o mercado e a crítica tendem a rebaixar a categoria universal para particular. Mulheres leem romances de formação masculinos, homens não leem romances de formação femininos. O masculino é o universal. Homens quando escrevem são existenciais, as mulheres serão classificadas em algum termo como maternidade, família ou outro.

- QUAL O PERFIL DA LEITORA BRASILEIRA

O que as mulheres brasileiras querem ler?

Aqui o mercado editorial aponta os segmentos:

Romance comercial (sobretudo amor romântico patriarcal)
Autoajuda (desenvolvimento pessoal / espiritualidade)
Feminismo pop (Didático, empoderamento)
Memórias / experiências femininas
Literatura de trauma / violência
Romance histórico + mulheres (crescente)
Thriller / true crime (alta demanda)
LGBTQIA+ (nichos urbanos)

Religiosos e/ou espirituais

As mulheres brasileiras não são incentivadas a ler os grandes clássicos, ficção científica, literatura de ciência, leem os religiosos, mas não os teológicos.

Ou seja: a mulher brasileira é incentivada a ler o que a forma feminina contemporânea supostamente deve ser: autocentrada, terapêutica, romântica, resiliente.

“Querem romances de amor patriarcais?”

Sim, massivamente. É o maior segmento.
É um narcótico patriarcal barato: a fantasia que concilia opressão com desejo.

“Querem livros feministas?”

Sim, mas feminismo digestível. Bell Hooks vende. Silvia Federici vende. Judith Butler não vende.

“Querem reflexão universal humana?”

Muito menos. E quando querem, compram homens.

- QUANDO OS HOMENS LEEM AS MULHERES

A pesquisa internacional mostra que homens leem mulheres quando:

  1. há legitimação prévia do cânone
    (Woolf, Lispector, Sontag, Bishop)
  2. há interesse sexual/cultural pelo corpo feminino
    (Anaïs Nin, Erica Jong)
  3. há tema neutro/universal
    (Ursula Le Guin → ciência, política, cosmologia)
  4. há mediação acadêmica
    (curso de literatura, universidades)
  5. há mediação afetiva
    (mulher indica, mãe indica, namorada indica)

Ou seja: o homem raramente “descobre” uma mulher sozinho.

E se a literatura feminina contemporânea não for “feminina”, mas estiver apenas sendo lida e publicada como tal?

Ou seja, o problema não está nas mulheres autoras, mas no sistema de leitura, que produz a mulher como subgênero literário.

Agora vamos levantar algumas hipóteses

H1 — A literatura feminina contemporânea não é um gênero, mas uma categoria editorial construída.

As mulheres não escrevem apenas sobre mulheres; é o mercado que classifica o que elas escrevem como “feminino”.

Consequência.: o sistema des-universaliza a mulher.

H2 — O cânone masculino é universal; o cânone feminino é particular.

O universal pertence aos homens por privilégio histórico, não por mérito intrínseco.

Consequência.: ler homens é ler “o humano”; ler mulheres é ler “o íntimo”.

H3 — O mercado editorial opera como um dispositivo de gênero, filtrando o que pode ser considerado universal.

Mesmo quando mulheres escrevem sobre política, metafísica, cosmologia, ciência, economia ou história, raramente são traduzidas.

Consequência.: cria-se a impressão falsa de que “mulheres não escrevem sobre o universal”.

H4 — A circulação internacional de mulheres é governada por três vetores: colonialidade, eurocentrismo e mercadoria.

A literatura feminina global só chega ao Brasil se vier pelo eixo de consagração Norte → Sul.

Logo: a mulher latino-americana não lê a mulher latina — lê a mulher europeia e anglo-saxã.

H5 — A experiência feminina é exotizada como mercadoria literária.

Trauma, corpo, maternidade e violência se tornam os grandes temas vendáveis das mulheres.

Consequência.: o sofrimento vira capital cultural.

H6 — O feminino ainda é consumido como testemunho, e não como pensamento.

Quando uma mulher escreve, o mercado lê como relato; quando um homem escreve, lê como teoria.

Esse é um dos paradoxos mais profundos.

H7 — A mulher brasileira lê para se reconhecer, não para se projetar.

Sua leitura ainda é intimista, terapêutica, relacional.

Isso é um traço histórico-cultural, não biológico.

H8 — O romantismo patriarcal é o principal opióide literário feminino.

A mulher brasileira lê romances para experimentar, em fantasia, a conciliação impossível entre amor e opressão.

H9 — O feminismo pop compete com o romance patriarcal: são narcóticos opostos.

Um oferece conforto emocional, o outro oferece consciência política.

Ambos vendem muito; ambos falam com a mulher urbana contemporânea.

H10 — O Brasil é um país literariamente atlântico, não continental.

Olha para a Europa e EUA; não olha para a América Latina.

Isso vale para homens e mulheres, mas no caso das mulheres é mais grave porque apaga a experiência comum colonial.

H11 — A literatura indígena feminina rompe o sistema universal-particular.

As escritoras indígenas falam de cosmo, ética, política, ecologia, mundo — não do íntimo.

Consequência.: são mais universais que o universal europeu.

H12 — A tradução é a verdadeira fronteira do pensamento.

O que não é traduzido, não existe.
O que é traduzido, é moldado.
O que é traduzido por homens, é reinterpretado.

A luta do século XXI não é pela voz da mulher, mas pela universalidade da mulher.

Esta pesquisa ainda é uma análise inicial, mas optei por publicar meus primeiros apontamentos. Convido a todos que desejem colaborar que teçam comentários ou me forneçam dicas para a pesquisa.

 

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