sábado, 16 de maio de 2026

LIBERDADE, CENSURA E VÍNCULOS MATERNOS

 


O LEITE DA MÃE

NORA ISKTENA

EDITORA RUA DO SABÃO – 2026

164 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LETÔNIA


O livro inicia com o nascimento de duas meninas: a mais nova nasceu em 1969, enquanto sua mãe nasceu em 1944, ambas na Letônia. O que as diferencia é o contexto histórico. Em 1944, a Letônia vivia o período da Segunda Guerra Mundial, tendo sido invadira pelos nazistas após um breve período de independência do Império Russo. Já em 1969, o país estava integrado à União Soviética.

A autora intercala as vozes de mãe e filha relatando suas vidas e, ao mesmo tempo, apresenta a avó da jovem. São, portanto, três mulheres interligadas pelo sangue e pela maternidade. O ponto central é o leite materno que a mãe recusou à filha, por acreditar que, através dele, transmitiria a amargura e o veneno que carregava em si.

Isso me lembrou o filme “A Teta Assustada”, da cineasta peruana Claudia Llosa, no qual uma filha luta contra o medo herdado por meio do leite de sua mãe, violentada durante um período de extrema violência no Peru.

Por meio dessas três mulheres, Isktena constrói um romance em que se tornam perceptíveis os efeitos do autoritarismo e do controle estatal impostos pelo stalinismo aos povos sob ocupação soviética. A mãe sofre com a exigência da submissão ao comunismo, às suas ideologias e regras. Mulher brilhante, cientista e médica ginecologista, é tolhida e inclusive punida pelo regime.

A filha, nascida já sob a vigência desse sistema, não percebe a diferença entre liberdade e opressão. Vive sua vida tendo de cuidar da mãe, que considera mentalmente doente.

“A escravidão é liberdade” e “A liberdade é escravidão”, repete a mãe. O que isso significa?

Essa formulação me remeteu ao livro “Livre”, de Lea Ypi, que já postei aqui no blog. Nele, a autora albanesa, questiona o que de fato significa liberdade e se ela realmente existe. Ikstena também mobiliza referências a “1984”, de George Orwell, e a trechos de “Assim falava Zaratustra” de Friedrich Nietzsche, obras que circulavam clandestinamente no país por serem proibidas.

 Aos poucos, a filha começa a compreender o que ocorreu em seu país. O padrasto de sua mãe lhe conta parte dessa história a portas fechadas, sempre alertando que aquela conversa não poderia sair dali. O pai da mãe foi preso durante a guerra e, posteriormente, considerado traidor pelos soviéticos. Ele sobreviveu, no entanto, a avó se afastou completamente dele se casando novamente.

A mãe não consegue viver duas vidas, e expressa seu esgotamento diante dessa duplicidade:

 “o ódio por aquela existência dupla e hipócrita na qual as pessoas eram forçadas a interpretar dois papéis. Portar bandeiras nas paradas de maio e outubro, aclamando o Exército Vermelho, o exército mais poderoso do mundo, a revolução e o comunismo e, na cozinha de casa, enxaguar tudo com um bom trago, fazer o sinal da cruz e ficar esperando que os britânicos chegassem através do rio Daugava para libertar a Letônia das botas russas.”

Nascer em determinado tempo e lugar molda profundamente nossas vidas. A avó, de coragem extrema ao salvar a filha, acabou se acomodando; a mãe jamais aceitou não poder ser livre e viver sob censura soviética; e a filha, nascida já dentro do regime, sequer percebia plenamente a realidade ao seu redor, até conhecer, na adolescência, um professor diferente, mas que será obrigada a delatar.

A grande metáfora do livro é Bambi, um hamster que a avó comprou para a neta. Inicialmente, ela o soltava para correr livremente pela casa. Porém, quando a avó compra uma fêmea para lhe fazer companhia, ela tem filhotes, o macho perde toda a vitalidade e acaba devorando-os.

 A filha o castiga. Depois disso, sempre ela se aproxima, ele agitado, como se ainda esperasse poder sair da gaiola novamente. Mas ela nunca mais o liberta, e ele vai murchando até morrer.  

Sem compreender por que ele comeu os filhotes, a menina ouve da mãe uma explicação devastadora: talvez ele apenas quisesse impedir que eles também acabassem vivendo em uma gaiola. 

Nora Isktena nasceu em Riga, Letônia, em 1969 e faleceu na mesma localidade em 2026. Foi uma escritora e gestora cultural letã. 



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